JKR_DAY010_092518_0266476.dng
Foto por Niko Tavernise

Por Diogo Silva Corrêa e Marília Bueno

Nesta semana, o Blog do Sociofilo dará início à publicação do dossiê de debates em torno de questões contemporâneas. O modelo, inspirado no famoso livro organizado pelo antropólogo Tim Ingold, Key Debates in Anthropology (1986), e replicado em algumas edições de diversos periódicos mundo afora (cf. Ontologia é apenas outra palavra para cultura, publicada no Blog do Sociofilo), terá como norte um tema controverso a ser debatido por colegas (acadêmicos e intelectuais) convidados. A série que propomos tem como ponto de partida duas inquietações basilares. Uma primeira diz respeito ao intuito de incentivar, no Brasil, mais debates entre pares em torno de temáticas fundamentais para a sociedade contemporânea. A forma-debate, mais do que a forma-artigo, já tão propalada e exigida pelas incumbências de praxe do mundo lattes, tem algo de singular que merece ser estimulado. Ela permite uma escrita mais livre, um modo ensaístico que costuma dar vazão a textos mais autorais e menos dependentes de argumentos de autoridade e autores canônicos. O nosso escopo é, assim, instigar os colegas a opinarem menos segundo a teoria de um ou outro autor e mais a partir do tribunal de suas próprias ideias e estilos. A segunda inquietação motivadora concerne mais especificamente ao atual estatuto da teoria social. Esta, que aqui deve ser entendida no sentido mais amplo possível, ou seja, como a produção de conhecimento que visa à produção de inteligibilidade sobre o (mundo) social, é por vezes compreendida como abstrata demais para servir como ferramenta eficaz de abordagem da realidade concreta.

Por isso, ainda a respeito desta última inquietação, nossa presente série de debates procura dar uma resposta ao seguinte desafio: em que a teoria social – ou mesmo as ciências humanas – pode nos ajudar a compreender de modo mais acurado o mundo em que vivemos? Em outros termos, como incitar a teoria social – ou as teorias do ou sobre o social – na direção de uma teoria sociológica, que abre mão de ser pura exegese de autores clássicos, ou de ser uma abordagem demasiadamente reclusa a uma torre de marfim, para enfrentar diretamente a questão de como é possível compreender a nossa sociedade. Como constranger a teoria social a confrontar-se diretamente com problemas que emergem em estreita aderência com a experiência mais singular dos nossos contemporâneos?

Sendo assim, a série de debates que hoje se inicia será, também, um posicionamento nesse sentido. Motivados pela convicção de que teoria social é, pode e deve ser uma ferramenta fundamental para se observar questões de nossa e de qualquer época outra, pretendemos mostrar o quanto ela pode elaborar diagnósticos consistentes, a ponto de arriscar-se na proposição de uma ontologia do presente. Para isso, vamos indicar aos colegas convidados algumas questões que podem ser abordadas à luz das diversas vertentes da teoria (ou das teorias do e sobre o) social. O objetivo é que, a partir dos debates publicados e com o tempo, possamos, quem sabe, esboçar um quadro geral coletivo capaz de identificar e contribuir para a definição de algumas das questões que nos afetam diariamente.

Em razão da proximidade com a cerimônia do Oscar, premiação que o filme Coringa (Joker), de Todd Phillips, liderou em indicações (ainda que não em premiações), decidimos abrir a série de debates com uma provocação que, pensamos, levaria a uma reflexão não apenas em relação a questões candentes da sociedade hodierna, mas também sobre o papel da arte na representação ou diálogo com essas questões. Não por acaso, são abundantes os exemplos, na sociologia e na filosofia, de reflexões sobre a relação entre arte e sociedade. Também quando pensamos no fenômeno da difusão cultural que vem sendo o filme Coringa (Joker), podemos ter ao menos uma certeza: ele tem sido capaz de suscitar uma quase infindável série de questões que transcendem, e muito, o escopo de um filme de quadrinhos ou da história de um simples vilão – que, diriam algumas autoridades no assunto, não chegam realmente a ser cinema. Poucas vezes, se considerarmos o passado recente das produções artísticas, um produto cultural – seja ele a mais sublime obra-prima ou o mais vulgar produto da indústria cultural de massas – provocou tanto debate, tanta reflexão. Poucas são as obras de arte que levam de forma tão abrangente a sociedade a olhar para si mesma, buscando encontrar similaridades com a ficção representada, mesmo que esperando, talvez, não encontrá-las.

Quando esse tipo de fenômeno ocorre, cabe sempre um questionamento acerca das razões que fizeram com que tal artefato adquirisse tanta relevância e fosse objeto de tantas análises e críticas. Afinal, quantos filmes foram feitos e foram difundidos só no ano passado? Por que apenas alguns, como Bacurau, no caso brasileiro, e Parasita, que acabou por abocanhar o Oscar de melhor estrangeiro e de melhor filme, conseguiram sair de uma massa amorfa para ganhar notoriedade e centralidade no debate, chegando a motivar reações que conseguem ir muito além do circuito restrito dos críticos de cinema? Ainda que tenhamos consciência de que nem todos os filmes pertinentes irão necessariamente ganhar uma visibilidade proporcional à sua qualidade, é difícil conceber que um filme que tenha suscitado tantos elogios e comentários, como o Coringa, não seja, ao menos, digno da visibilidade recebida. Por essa razão, convém perguntar: por qual razão o filme Coringa teria sido pinçado da prisão da identidade dos indiscerníveis para ser alçado, por muitos, à condição de obra-mestra – não apenas por críticos de cinema, mas também por filósofos, sociólogos, psicólogos, etc.?

Uma possível forma de olhar para esse fenômeno é analisar a produção e circulação desse artefato cultural. Nosso objetivo, no entanto, não será incentivar os colegas a seguirem nessa via. De modo distinto, trata-se aqui de provocá-los em outra direção: quais seriam os aspectos sociologicamente relevantes que o filme expressa? Mais do que isso: seria o Coringa representativo do nosso tempo? Será por acaso que alguns críticos e analistas tenham chegado a comparar a distopia gothaniana de Todd Phillips com aquela imortalizada por Charles Chaplin em Tempos Modernos? Seria o Coringa capaz de sintetizar aspectos fundamentais da sociedade contemporânea assim como o filme roteirizado e dirigido por Chaplin o foi em relação à sociedade industrial? Seria, enfim, o Coringa um ou o filme representativo do mundo em que vivemos – ou de alguns dos principais problemas que nos assolam? Se sim, em que sentido? Se não, por quê?

Claro, uma obra de arte de grande impacto sempre gera reações diversas, por vezes opostas e incomensuráveis. Por exemplo, alguns têm argumentado que o Coringa pode ser considerado uma alegoria fiel das principais mazelas da nossa sociedade, advogando pela ideia segundo a qual ele, de fato, representa bem questões contemporâneas fundamentais, como o desamparo do sistema público de saúde, a invisibilidade do sofrimento psíquico, a disparidade socioeconômica, a dificuldade de uma representação da realidade que possa ser tomada como certa e verdadeira, a formação de coletivos em torno de afetos difusos simbolizados pela vaga expressão freudiana do mal-estar… Por outro lado, outros têm defendido que o filme não passa de uma peça de moda, uma mera história de super-herói (ou anti-herói) que, em poucos anos, sequer será lembrada.

Se Coringa será imortalizado pela história ou se será rapidamente enterrado por ela, aqui importa muito pouco. O ponto que nos interessava foi expresso na moção, que propusemos aos nossos colegas, “é o filme Coringa representativo da sociedade contemporânea?” Começaremos com duas posições, uma favorável, de Lidiane Soares Rodrigues, professora da Universidade Federal de São Carlos, e outra contrária, de Lucas Faial Soneghet, pesquisador de doutorado da Universidade Federal do Rio de Janeiro. A interpretação de Lidiane Soares Rodrigues se dedica a mostrar que o filme de Todd Phillips seria, sim, representativo de nossa época em função de sua capacidade de expor diversos aspectos que permeiam o nosso tecido social, tais como a (1) “fragilidade, masculina e política, da violência incitada e desorientada (pela indústria cultural, pelas redes)”; (2)  a “incorporação parcial e contraditória dos princípios morais da ordem social” tornando as pessoas – simbolizadas, no caso, por Arthur Fleck – incapazes de se ajustarem ao seu ambiente social. Soneghet, por outro lado, embora reconheça que Coringa congrega em sua narrativa aspectos que concernem à experiência concreta de vários de nós, afirma que o filme falha “na hora de nos dar um retrato honesto do mundo contemporâneo” porque a “ideia de que o sofrimento de um homem como Arthur é, por algum motivo, passível de generalização a ponto de gerar um movimento igualmente violento e com sentido igualmente ambíguo, contra as elites financeiras do capital é, no mínimo, tênue”. Continua o autor: “Como vemos hoje, a raiva do homem branco desamparado não se traduz ou se expressa dessa forma”.

Pra finalizar, gostaríamos de reiterar que este é o primeiro de uma série de outros debates que estão por vir. Começaremos com esses dois ensaios, mas o debate sobre a presente moção ainda não está encerrado: deixamos claro, desde já, que abrimos espaço para contribuições de pessoas que se sintam instigadas a fazê-lo, seja comentando as posições de Lidiane Soares Rodrigues ou de Lucas Faial Soneghet, seja enviando um posicionamento próprio sobre a moção. Os comentários serão enviados aos autores que, para fechar o debate, escolherão alguns para responder num post final dedicado aos comentários e às respostas. A propósito de pessoas que enviarem posicionamentos sobre a moção, iremos, com o nosso comitê editorial, analisar a pertinência e adequação do texto aos nossos propósitos e, se aceito, o autor será convidado a compor a mesa de debate e o ensaio será publicado no Blog do Sociofilo.