american-school-(19)-nannies-and-childrenFonte: http://www.artnet.com/artists/american-school-19/nannies-and-children-Lomjt1rIWIloqUQyXqoJUQ2

Por Arlie Russell Hochschild
Tradução: Lucas Faial Soneghet

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Vicky Diaz, 34 anos, mãe de cinco, era professora com nível superior e agente de viagens nas Filipinas antes de migrar para os Estados Unidos para trabalhar como doméstica para um casal rico de Beverly Hills e como babá para o filho de dois anos. Vicky explica numa entrevista para Rhacel Parreñas,

Meus filhos… ficaram tristes com minha partida. Até hoje eles tentam me convencer a voltar pra casa. Eles não ficaram com raiva quando fui embora porque ainda eram muito jovens quando os deixeis. Meu marido não podia ficar com raiva também porque ele sabia que esse era o único jeito que eu poderia realmente ajuda-lo a criar nossas crianças, para que elas pudessem ser mandadas para a escola. (citado em Parreñas, 2001, p. 87)

No seu livro Servants of Globalization, Parreñas (2001) conta uma história inquietante sobre o que ela chama de “globalização da maternidade”. A família de Beverly Hills paga 400 dólares por semana para “Vicky” (pseudônimo dado por Parreñas), e Vicky, por sua vez, paga 40 dólares por semana para a doméstica que mora com sua família nas Filipinas. Viver assim não é fácil para Vicky e sua família.

Mesmo que o pagamento seja bom, você afunda na quantidade de trabalho. Enquanto você passa as roupas, eles ainda podem te chamar para a cozinha para lavar pratos. E também… é muito deprimente. A única coisa que você pode fazer é dar todo seu amor a [criança americana de dois anos de idade]. Na minha ausência em relação a minhas crianças, o máximo que eu poderia fazer com minha situação é dar todo meu amor aquele menino. (citado em Parreñas, 2001, p. 87)

Vicky é parte de uma cadeia de cuidado global: uma série de ligações pessoais entre pessoas ao redor do globo baseadas no trabalho pago ou não pago do cuidado. Uma cadeia de cuidado global típica pode funcionar mais ou menos assim:  uma filha mais velha de uma família pobre num país de Terceiro Mundo cuida de seus irmãos (primeira ligação na cadeia) enquanto sua mãe trabalha como babá cuidando das crianças de uma babá migrando para um país de Primeiro Mundo (segunda ligação) que, por sua vez, cuida da criança de uma família num país rico (última ligação). Cada tipo de cadeia expressa uma ecologia do cuidado invisível, um trabalhador do cuidado dependendo do outro e assim por diante. Uma cadeia de cuidado global pode começar num país pobre e terminar num país rico, ou pode ligar áreas urbanas e rurais dentro do mesmo país pobre. Versões mais complexas podem começar num país pobre e estender para outro país um pouco menos pobre, e então ligar em um país rico

Essas cadeias de cuidado globais estão crescendo agora. Há algum tempo, profissionais altamente treinados e promissores tem se mudado de hospitais mal equipados, escolas empobrecidas, bancos antiquados e outros ambientes de trabalho sitiados do Terceiro mundo para melhores oportunidades e maiores salários no Primeiro Mundo. Enquanto nações ricas ficam mais ricas e nações pobres ficam mais pobres, esse fluxo de talento e treinamento com sentido único aumenta continuamente o gap entre os dois. Essa é a fuga de cérebros.[1] Mas agora em adição, uma tendência paralela, mais escondida e dolorosa, está se formando, enquanto mulheres que normalmente cuidam dos jovens, dos velhos e dos doentes em seus países pobres de origem se mudam para cuidar dos jovens, dos velhos e dos doentes em países ricos, seja como empregadas domésticas e babás ou como cuidadoras domiciliares ou em casas de repouso. Essa é uma fuga do cuidado.[2]

O movimento de trabalhadoras do cuidado do Sul para o Norte não é totalmente novo. Há muitas causas para esse aumento em escopo e velocidade. Uma delas é a divisão crescente entre os ricos e pobres no globo. Desde a década de 1940, o gap entre Norte e Sul aumentou. Em 1960, por exemplo, as nações do Norte eram vinte vezes mais ricas que as nações do Sul. Em 1980, o gap havia mais que dobrado, e o Norte era 46 vezes mais rico que o Sul. Na verdade, de acordo com um estudo do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas, 60 países estão – em termos absolutos – em situação pior em 1999 do que estavam em 1980 (New York Times, 2001). Corporações multinacionais são os “músculos e cérebros” do novo sistema global. Como William Greider (1997) aponta, 500 das maiores dessas corporações (168 na Europa, 157 nos Estados Unidos e 119 no Japão) aumentaram suas vendas em sete vezes nos últimos vinte anos. Embora multinacionais criem alguns empregos em países pobres, ao fecharem pequenas empresas e fazendas, elas se tornam um dos motores dessa desigualdade crescente.

Como resultado dessa polarização, a classe média do Terceiro Mundo agora ganha menos do que os pobres do Primeiro Mundo. Antes de migrarem das Filipinas para os Estados Unidos e para a Itália, as trabalhadoras domésticas entrevistadas por Rhacel Parreñas (1999, p. 123) ganhavam 176 dólares por mês, geralmente trabalhando como professoras, enfermeiras e funcionárias administrativas. Mas trabalhando em posições que exigem menos qualificações – mas que não são menos difíceis – como babás, empregadas domésticas e trabalhadoras em serviços de cuidado, elas podem ganhar 200 dólares por mês em Singapura, 410 dólares por mês em Hong Kong, 700 dólares por mês na Itália ou 1.400 dólares por mês em Los Angeles. Para tomar outro exemplo de um documentário extraordinário, intitulado “When Mother Comes Home For Christmas”, Josephine Perera, que completou até a quinta série do ensino fundamental em Colombo, Sri Lanka, poderia ganhar 30 dólares por mês mais teto e comida como empregada doméstica, ou poderia ganhar 30 dólares por mês como vendedora numa loja, sem comida ou teto. Mas como babá em Atenas ela poderia ganhar 500 dólares por mês, mais teto e comida. Na ausência de uma solução estrutural e pública para o gap entre o Norte rico e o Sul pobre, mulheres como Vicky Diaz e Josephine Perera fecham o gap privativamente, se mudando do Sul para o Norte – a muito custo emocional.

Enquanto o gap entre os ricos e os pobres do globo cresce, o globo em si – seu capital, suas imagens culturais, seus gostos no consumo e seus povos – se torna mais integrado. Graças ao espraiamento de filmes e programas de televisão ocidentais, especialmente estadunidenses, o povo do Sul pobre agora sabe muito mais sobre o Norte rico do que estes sabem sobre o Sul pobre. Mas o que eles aprendem é o que o Norte rico tem. De fato, na frente da TV global, o Sul é diariamente exposto a um strip-tease material.

A desigualdade crescente e o chamariz da prosperidade nortenha contribuíram para o que Stephen Castles e Mark Miller chamam de “globalização da migração” (1998, p. 8; ver também Zlotnik, 1999). Para homens e mulheres, a migração se tornou uma solução privada para um problema pública. Desde 1945, e especialmente desde a metade da década de 1980, uma proporção pequena, mas crescente, da população mundial está migrando. Eles vêm de e vão para países cada vez mais diferentes. Embora migração não seja de forma alguma um processo inexorável, Castles e Miller observam que “migrações estão crescendo em volume em todas as grandes regiões no presente” (1998, p. 5). A Organização Internacional para as Migrações (OIM) etima que 120 milhões de pessoas se mudaram de um país para outro, legalmente ou ilegalmente, em 1994 (Castles e Miller, 1998). Nesse grupo, aproximadamente 2% da população mundial, 15 a 23 milhões são refugiados ou buscam asilo. Quanto ao resto, alguns se mudam para juntar-se a membros da família que migraram previamente. Mas a maioria se muda para encontrar trabalho.

Junto a isso, metade de todos os migrantes no mundo hoje são mulheres. No Sri Lanka, um a cada dez adultos – dos quais a maioria é mulher – trabalham fora do país (esse número exclui os que retornaram). Com Castles e Miller explicam:

Mulheres desempenham um papel cada vez maior em todas as regiões e em todos os tipos de migração. No passado, a maioria das migrações e muitos movimentos de refugiados eram predominantemente masculinos, e mulheres eram subsumidas a categoria da reunião familiar. Desde a década de 1960, mulheres vêm desempenhando um papel enorme na migração do trabalho. Hoje, trabalhadoras formam a maioria em movimentos tão distintos quando aqueles dos cabo-verdenses na Itália, filipinos no Oriente Médio e tailandeses no Japão. (1998, p. 9)

Muitas dessas trabalhadoras migram para preencher vagas de trabalho doméstico. A demanda para trabalhadores domésticos cresceu tanto em países desenvolvidos, onde havia quase desaparecido, e em economias de rápido crescimento com Hong Kong e Singapura, onde, escrevem Castles e Miller, “empregadas imigrantes – das Filipinas, da Indonésia, da Tailândia, da Coréia e do Sri Lanka – possibilitam que mulheres em economias mais ricas aproveitem oportunidades de emprego.” (1998, p. XI)

Atualmente, o número de mulheres da classe média no Primeiro Mundo com trabalhos remunerados é muito maior do que no passado. Nos Estados Unidos da década de 1950, por exemplo, 15% das mães de crianças com seis anos de idade ou menos trabalhavam em empregos remunerados, enquanto hoje o número cresceu para 65%. Setenta e dois por cento de todas as mulheres americanas hoje trabalham. A maioria também trabalha mais horas, mais meses do ano e mais anos, e em consequência precisam de ajuda para cuidar da família (Hochschild, 1997). As avós e irmãs que há 30 anos atrás ficariam em casa para cuidar das crianças de parentes que trabalhavam estão agora trabalhando elas mesmas. Assim como avós do Terceiro Mundo podem estar trabalhando em empregos remunerados no exterior, também mais avós do Norte rico estão trabalhando – outra razão para famílias do Primeiro Mundo buscarem por bons cuidados fora da família.

Mulheres que querem ser bem-sucedidas em carreiras profissionais ou empregos de gerência no Primeiro Mundo também enfrentam pressões muito grandes no trabalho. Muitas carreiras ainda são baseadas num padrão masculino bem conhecido: fazer trabalho profissional, competindo com os pares, ganhando crédito pelo trabalho, construindo uma reputação, fazendo tudo enquanto ainda é jovem, acumulando tempo escasso e minimizando trabalho familiar ao achar alguém para faze-lo no seu lugar. No passado, o profissional era um homem; o “alguém” era sua esposa. A esposa supervisionava a família, ela mesma uma instituição flexível, pré-industrial que trata das experiências humanas que a força de trabalha excluiu: nascimento, criação, doença, morte. Hoje, uma “indústria do cuidado” crescente se colocou no papel tradicional da esposa, criando uma demanda bem real para mulheres migrantes.

Enquanto mulheres de classe média no Primeiro Mundo estão construindo carreiras que são moldadas pelo velho modelo masculino, gastando muitas horas em empregos exigentes, suas babás e outras empregadas domésticas sofrem uma versão muito mais exagerada da mesma coisa. Duas mulheres trabalhando com remuneração não é uma má ideia. Mas duas mães trabalhadoras dando tudo para seu trabalho é uma boa ideia em curto-circuito. No fim, tanto as mulheres do Primeiro quanto do Terceiro Mundo são pequenas jogadoras num jogo econômico maior cujas regras elas não escreveram.

O impacto dessas regras globais se estende para muitos que não tem voz. Muitas, senão a maioria, das mulheres migrantes tem filhos. A idade média de mulheres migrantes indo para os Estados Unidos é 29 e muitas vieram de países, como o México, onde a identidade feminina é centrada na maternidade e onde a taxa de nascimento é alta. Muitas vezes migrantes, especialmente as sem documentação, não podem levar suas crianças com elas. Então a maioria das mães tenta deixar suas crianças sob cuidado de avós, tias e pais, geralmente nessa ordem. Um orfanato é o último recurso. Muitas babás trabalhando em países ricos contratam babás para cuidar de seus próprios filhos em casa, seja como cuidadoras integrais ou como ajudantes para as parentes encarregadas da tarefa. Carmen Ronquillo, por exemplo, migrou das Filipinas para Roma para trabalhar como empregada doméstica para uma arquiteta e mãe solteira de dois. Ela deixou seu marido, dois adolescentes – e uma empregada doméstica (Parreñas, 1999).

Quaisquer que sejam os arranjos que essas mães fazem para suas crianças, muitas sentem a separação agudamente, expressando culpa e remorso para pesquisadores que as entrevistam. Uma migrante que deixou seu bebê de dois meses sob cuidados de uma parente diz: “Nos primeiros dois anos eu senti que estava enlouquecendo. Você tem que acreditar em mim quando digo que era como se eu estivesse tendo problemas psicológicos intensos. Eu me pegava olhando para o nada, pensando sobre meu filho.” (Parreñas, 1999, p. 123). Outra migrante contou entre lágrimas: “Quando vi minhas crianças de novo, eu pensei, ‘Ah, crianças crescem mesmo sem sua mãe’. Eu deixei minha mais nova quando ela tinha só cinco anos. Ela já tinha nove quando a vi novamente, mas ela ainda queria que eu a carregasse.” (Parreñas, 1999, p. 154).

Surpreendentemente, mais trabalhadoras migrantes do que trabalhadores homens migrantes ficam no Norte. Ao ficar, essas mães continuam separadas de sua prole, uma escolha carregada, para muitas, de muita tristeza. Mas por mais que essas mães sofram, suas crianças sofrem mais. E há muitas delas. Aproximadamente 30% das crianças Filipinas – mais ou menos oito milhões – moram em casas onde pelo menos um parente foi para o exterior. Essas crianças tem semelhantes na África, Índia, Sri Lanka, América Latina e na antiga União Soviética.

Como vivem essas crianças?

CONTINUA NA PARTE 2

Referências bibliográficas:

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Notas:

[1] Nota do tradutor: No original, “brain drain”. Brain drain é o termo usado para se referir ao fluxo de trabalhadores de alto nível educacional, cientistas por exemplo, para fora de seu país de origem em direção a países mais ricos. Geralmente adota-se a tradução “fuga de cérebros”.

[2] N. do T.: No original, “care drain”. Literalmente traduzido para “dreno do cuidado”. Mantendo o paralelo com a tradução de “brain drain” como “fuga de cérebros”, opto pela tradução fuga do cuidado.

Fonte da tradução:

HOCHSCHILD, Arlie Russell. Love and gold. Family, Ties and Care: Family Transformation in a Plural Modernity, p. 177, 2011.