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Indicações de Matheus Mazzilli Pereira (UVV)

41fhOfqTSXL._SX332_BO1,204,203,200_SNOW, David A; SOULE, Sarah A. A Primer on Social Movements (Contemporary Societies Series). Nova Iorque: W. W. Norton & Company, 2010.

 Opções não faltam para quem busca um livro introdutório ao estudo de movimentos sociais em língua portuguesa. Dentre as alternativas mais conhecidas, é possível mencionar obras como “Teorias dos Movimentos Sociais: paradigmas clássicos e contemporâneos” de Maria da Glória Gohn, “O Poder em Movimento: movimentos sociais e confrontos políticos” de Sidney Tarrow e o mais recentemente publicado “Protesto: uma introdução aos movimentos sociais”, de James Jasper. Uma alternativa, infelizmente, ainda não traduzida para a língua portuguesa pode ser encontrada no livro “A Primer on Social Movements” de David Snow e Sarah Soule, da série “Contemporary Societies” editada por Jeffrey Alexander.

Seguindo a linha de Tarrow e Jasper, Snow e Soule oferecem um livro introdutório menos estruturado em abordagens teóricas e mais em grandes temáticas de discussão. Seu mérito é dar atenção a temas que não figuram tão fortemente em outras obras.

Seu segundo capítulo (“Mobilizing Grievances”), por exemplo, oferece revisão dos debates sobre a relação entre problemas sociais e a emergência de movimentos e suas demandas, tópico largamente negligenciado pela literatura desde que teóricos da mobilização de recursos descartaram uma relação direta entre problemas e movimentos, já que há “sempre descontentamento suficiente em qualquer sociedade para garantir o suporte das bases para os movimentos sociais” (McCarthy & Zald, 1977, p. 1215, tradução livre).

O capítulo quarto do livro também se destaca ao organizar de forma didática o debate sobre participação e engajamento em movimentos sociais. Snow e Soule oferecem uma classificação distinguindo tipos de participação de acordo com seus custos e riscos e revisam as principais hipóteses levantadas pela literatura para explicar esse fenômeno. Uma ótima introdução ao debate que, no entanto, secundariza em grande medida as contribuições da sociologia do engajamento militante (Sawicki e Siméant, 2011).

Por fim, é possível destacar o sexto capítulo deste “manual”, dedicado a um dos mais interessantes tópicos do campo de estudos dos movimentos sociais: seus efeitos. Os autores revisam de forma didática temas como os efeitos intencionais e não intencionais dos movimentos sociais, os fatores que afetam esses efeitos e os obstáculos metodológicos que se impõem a estudos nessa área.

Referências:

Gohn, Maria da Glória (1997). Teorias dos Movimentos Sociais: paradigmas clássicos e contemporâneos. São Paulo, Loyola.

Jasper, James (2016). Protesto: uma introdução aos movimentos sociais. Rio de Janeiro: Zahar.

McCarthy, J. D., & Zald, M. N. (1977). Resource Mobilization and Social Movements: A Partial Theory. American Journal of Sociology 82(6), p. 1212.

Sawicki, Frédéric, & Siméant, Johanna. (2011). Inventário da sociologia do engajamento militante: Nota crítica sobre algumas tendências recentes dos trabalhos franceses. Sociologias, 13(28), 200-255.

Tarrow, Sidney (2009). O Poder em Movimento: movimentos sociais e o confronto político. Petrópolis: Vozes.

20568373McADAM, Doug. Political Process and the Development of Black Insurgency, 1930-1970. 2ª Ed. Chicago: University of Chicago Press, 1982.

            Poucos livros merecem o rótulo de “livros que transformaram um campo de estudos”. Esse é certamente o caso do – inacreditavelmente ainda não traduzido – “Political Process and the Development of Black Insurgency, 1930-1970” de Doug McAdam. A obra tem um mérito amplamente reconhecido: desenvolver a “teoria do processo político” (TPP) com base nas contribuições de trabalhos anteriores como o clássico “From Mobilization to Revolution” de Charles Tilly.

Porém, esse não e o único motivo pelo qual “Political Process…” pode ser considerado leitura obrigatória para pesquisadoras e pesquisadores de movimentos sociais. Em primeiro lugar, para desenvolver o “modelo do processo político”, McAdam revisa em detalhes o modelo clássico do comportamento coletivo e a teoria da mobilização de recursos (TMR), apresentando didaticamente os pontos de aproximação e distanciamento entre TMR e TPP. Assim, também se apresenta como um texto didático interessante para compreender esse debate.

 Em segundo lugar, e mais importante, os modelos abstratos e rígidos que marcam boa parte de “From Mobilization…” dão lugar aqui a uma aplicação da teoria do processo político a um caso concreto profundamente desenvolvido: a mobilização em defesa dos direitos civis nos Estados Unidos. McAdam descreve como diversos processos políticos, econômicos e demográficos ocorridos desde o final do século XIX até meados do século XX impactaram a emergência, o auge e o declínio da mobilização do movimento dos direitos civis nos Estados Unidos entre as décadas de 1950 e 1970. Assim, “Political Process…” consegue ser, ao mesmo tempo, um livro essencial para pensar as teorias dos movimentos sociais, mas também um livro agradável para quem não tem interesse algum em discussões teóricas sobre o tema. 

Referências:

Tilly, Charles (1978). From Mobilization to Revolution. Nova Iorque: Random House.

14003_ggALONSO, Angela (2015). Flores, Votos e Balas: o movimento abolicionista brasileiro (1868-88). São Paulo, Companhia das Letras.

 Grandes nomes da sociologia histórica, como Norbert Elias, têm a invejável capacidade de desenvolver e aplicar teorias sociológicas sem que o leitor mais atento perceba, mobilizando modelos teóricos e conceitos de forma tácita para construir relatos históricos vibrantes, complexos e profundamente interessantes. Esse é certamente um dos maiores méritos de Angela Alonso em “Flores, Votos e Balas: o movimento abolicionista brasileiro (1968-1988)”.

Suas mais de 350 páginas passam rapidamente enquanto a leitora é guiada pela história do que a autora considerou ser o primeiro movimento social brasileiro. A ausência de um capítulo teórico dentre todas essas páginas, porém, não o torna menos relevante do ponto de vista acadêmico.

Enquanto aprendemos sobre a história do movimento abolicionista no Brasil, quase sem perceber, também aprendemos importantes lições sobre, por exemplo, como os repertórios de movimentos sociais mudam respondendo e transformações no contexto político; como ativistas desenvolvem “estilos” próprios – ou “gostos por táticas” como diria Jasper (1997) – que podem gerar conflitos e, ao mesmo tempo, ser a base de uma importante versatilidade tática no interior dos movimentos; como ativistas podem forjar redes nacionais e internacionais de difusão de repertórios e símbolos que serão adaptados à realidade local; como movimentos e contramovimentos se influenciam mutuamente de formas inesperadas; e como movimentos podem, ao mesmo tempo, conquistar e não conquistar suas demandas, para citar alguns exemplos.

“Flores, Votos e Balas…” é, assim, um livro essencial para aqueles que buscam compreender mais os complexos processos que regem a construção, adaptação e transformação de repertórios de ação coletiva, mas também uma leitura interessantíssima para aqueles que desejam conhecer mais uma face da trajetória dos conflitos e desigualdades raciais que estruturam a sociedade brasileira.

Referências:

Jasper, James (1977). The Art of Moral Protest: culture, biography, and creativity in social movements. Chicago: University of Chicago Press.

Indicações de Paulo Henrique Cassimiro (ICS – UERJ)

9788555710636-500x500DE ARAÚJO, Ricardo Benzaquen (2019). Zigue-Zague. Ensaios Reunidos (1977-2016), São Paulo, UNIFESP.

A publicação de “Zigue-Zague. Ensaios Reunidos (1977-2016)” de Ricardo Benzaquen de Araújo, é a tão esperada realização de uma promessa que o autor não pôde cumprir em vida. O livro – idealizado por Ricardo antes de sua morte e cuja realização coube a Carmen Filgueiras, Marcelo Jasmin e Marcos Veneu – reúne artigos publicados anteriormente em periódicos e outras coletâneas, transcrições de conferências, comentários em congressos e uma entrevista. Os temas e autores são velhos conhecidos do universo de interesses de Ricardo:  o individualismo, Gilberto Freire, o integralismo, a construção da subjetividade, Nabuco, as cidades, a correspondência e a amizade, para citarmos alguns exemplos. O primeiro artigo da coletânea já anuncia uma das lições mais persistentes de Ricardo a seus alunos e leitores: a cultura não é em seu trabalho senão o material vivo, empírico, a partir do qual o cientista social é capaz de interpretar os fenômenos do poder, das subjetividades, da construção dos laços sociais e dos valores, etc. A erudição, a multidisciplinaridade, o apelo ao texto literário, não são adornos intelectuais, mas sim um recurso imprescindível para um cientista social que queira percorrer a distância entre o símbolo, resultado criativo da reificação da dinâmica social, e a compreensão dos processos e conflitos que estão na base desta dinâmica. “Romeu e Julieta e a origem do Estado” – escrito em coautoria com Eduardo Viveiros de Castro quando ambos eram alunos de doutorado do Museu Nacional – é uma testemunha inicial e notável desde processo metodológico: é a partir da concepção de amor do texto shakespereano que os autores são capazes de superar a dificuldade das demonstrações históricas e interpretá-lo como síntese dos processos simbólicos de ruptura entre a relação lealdade familiar-dominação política em direção ao processo “hobbesiano” de construção do Estado como monopólio do poder e da sociedade como conjunto de indivíduos.

Dos vários méritos deste livro, caberia ainda ressaltar a republicação dos textos de Ricardo sobre o Integralismo, resultado de sua participação na imensa e importantíssima pesquisa realizada pelo CPDOC nos anos 80 sobre a Era Vargas. Ricardo percebeu algo que vários intérpretes do integralismo não haviam sido capazes de entender até então: a pergunta sobre se o integralismo seria ou não uma forma de fascismo era inócua, sendo realmente importante a compreensão de como autores como Plinio Salgado e Miguel Reale produziram uma vinculação entre a cultura política da “revolução conservadora” dos anos 20 e 30 – da qual o fascismo é parte -, uma interpretação da “crise” brasileira e a formulação de um modelo ideológico de ação política. Este procedimento, que resultou naquilo que melhor se escreveu no pensamento social e político brasileiro sobre os pensadores integralistas, é resultado de uma postura nem sempre comum aos interpretes da cultura brasileira no período, qual seja, atribuir dignidade intelectual ao pensamento brasileiro. Em sua sociologia não há sequer eco de uma interpretação do pensamento brasileiro como uma ideia fora do lugar, nem como um simples epifenômeno do capitalismo periférico. Aqui, o procedimento para interpretar um Gilberto Freire, por exemplo, é o mesmo que para interpretar alguém como Simmel: trata-se de entender o pensamento como capacidade de construir tanto uma interpretação do mundo exterior como uma autorepresentação da personalidade do autor no mundo.

Testemunha notável de um intelectual que prezava pela busca da sutileza e dos pequenos indícios, relações e ilações, sendo capaz de desdobrá-los numa explicação de amplitude extraordinária, os textos de Ricardo Benzaquen não podem ser classificados sem apelar para um aparente clichê congratulatório: a sua originalidade. E como a originalidade é algo que não se pode explicar, mas que precisa ser vivenciada de modo comparativo, para que ela seja capaz de revelar nuances e modulações ainda não experimentadas, resta, para concluir, recomendar vivamente a leitura deste que foi, sem dúvidas, um dos mais sofisticados e inteligentes sociólogos brasileiros. 

Indicações de Matheus Capovilla Romanetto (PPGS/USP)

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REIK, Theodor. [1948]/1949. Listening with the third ear: the inner experience of a psychoanalyst. New York: Farrar, Straus and Company.

SCHOENBERG, Arnold. [1911]/2011. Harmonia. São Paulo: Editora Unesp.

 

Há livros que importam pelo que têm a dizer sobre o mundo e sobre nós mesmos. Há outros que, sem nos impressionar tanto segundo o conteúdo, ensinam pela conduta com que perseguem os seus interesses, por sua relação à ciência que procuram exercitar ou a seu objeto. Quando essas duas qualidades conciliam-se numa só obra, temos talvez aqueles casos bem raros de escritos (às vezes, obras inteiras) que chegam a ter um papel formador, definidor de quem somos, de como pensamos, e até de como vivemos. Os primeiros dois livros que eu listei acima recaem, para mim, nessa posição: são textos que me ensinaram a recomeçar o pensamento e a ação por outros ângulos – e mesmo quando falaram de assuntos já conhecidos meus, mostraram que era possível dar-lhes uma nova liberdade, em virtude do espírito com que os trataram e expuseram[1].

Recomendar Theodor Reik e Arnold Schoenberg no Blog do Sociofilo tem talvez a desvantagem de que eu não posso esperar um interesse universal por psicanálise e por teoria musical entre os leitores habituais do site. Resolvi manter assim mesmo minhas dicas, entretanto, porque esses dois livros – um tratado sobre os fundamentos da clínica, e outro sobre harmonia – mudaram radicalmente minha maneira de praticar tanto a sociologia quanto a filosofia. O que há de comum entre os dois autores talvez remeta a condicionantes sociais mais profundos: conheceram ambos a Viena de Freud e Strauss; enfrentaram a ascensão do nazismo na condição de judeus emigrados, e terminaram por fazer uma porção de suas carreiras nos Estados Unidos. Muito disso não havia ainda acontecido, entretanto, quando da publicação da primeira edição da Harmonia de Schoenberg, em 1911 – período em que sua obra propriamente musical estava num estágio relativamente inicial dos desdobramentos que o conduziriam, por anos a fio, pelo atonalismo e o dodecafonismo. Por essa época, também o jovem Reik estava dando ainda seus primeiros passos como discípulo de Freud, e talvez ele não partilhasse então com Schoenberg mais do que sua admiração por Mahler e pela música em geral. Os textos de juventude de Reik não mostram ainda, com todo vigor, aquilo que já está presente na Harmonia, mas que o psicanalista só desenvolverá plenamente em obras da maturidade – e de que o Listening with the third ear, de 1948, é talvez a melhor expressão: uma sensibilidade e densidade de experiência marcantes, em cujos erros e acertos vemos um amor genuíno – nem tanto aos resultados da pesquisa, mas ao seu processo vivo; nem tanto à descoberta quanto ao seu percurso. Se trago esses dois livros como recomendações ao leitor e à leitora de ciências sociais e filosofia, é porque os considero dois modelos bem-sucedidos de uma relação entre experiência e conhecimento – mais ainda, entre experimentação e conhecimento – que às vezes nós temos dificuldade em reavivar durante nosso trabalho de pesquisa.

Aqueles interessados em aprender um pouquinho de teoria musical encontrarão em Schoenberg um professor diligente e cuidadoso. O livro parte de algumas das noções mais elementares em música – a série harmônica, os conceitos de consonância e dissonância – e vai construindo, progressivamente, com o auxílio de exercícios e digressões históricas, um conhecimento mais profundo das cadências de acordes, da relação entre as tríades simples e suas inversões, até alcançar as fronteiras da tonalidade. Naturalmente, ficam de fora outras dimensões da composição, como o contraponto, o estudo das formas e a rítmica – mas o que se perde em visão de conjunto, ganha-se pela profundidade e sensibilidade pedagógica com que a obra é escrita. Ler a Harmonia é como deparar uma súmula concentrada do conhecimento musical acumulado em certa tradição europeia até o começo do século XX: um pouco como no Capital de Marx, o movimento do livro reconstrói, na cabeça do leitor, os passos que precisaram ser dados para atingir um determinado estágio na história da música – mas já como passos logicamente ordenados, e não em sua (relativa) contingência histórica[2]. À diferença do Capital, entretanto, o interesse central não é aqui científico, mas artístico: o texto convida o leitor e a leitora a praticar a harmonia, primeiro com exercícios mais simples e repletos de restrições didáticas, e depois com um grau maior de liberdade e dificuldade. Aqueles que não desejarem realizar os exercícios, entretanto, ainda poderão aprender muito com o gênio especulativo de Schoenberg, que lança-se à história da música e ao comentário social sempre que tem oportunidade, bem como com a progressão dada do livro, que vai extraindo as consequências mais complicadas da linguagem musical, à revelia dos exercícios pertinentes a cada etapa do desenvolvimento.

Quando comecei a ler a Harmonia, eu já tinha passado por um pouquinho de formação musical anterior, então pude avançar pelas primeiras páginas com um tanto a mais de comodidade. Não sei se o leitor ou a leitora absolutamente iniciantes teriam mais dificuldades do que eu; mas a obra está escrita como um manual universal, partindo dos rudimentos mais imediatos da harmonia, e caminhando lentamente aos casos mais complicados de cadências de acordes, modulação, complexos sonoros extensos etc. Suponho, com isso, que o desejo de aprender, ou mesmo o amor à música como tal, bastem para tornar a leitura proveitosa e significativa. Não posso recomendar o livro àqueles que se desinteressem por completo dessa arte; mas posso recomendá-lo a todos que gostem de música, e se interessem por dar um pouco de forma ao que os ouvidos e o corpo experimentam cotidianamente. Quem quiser usar o livro rigorosamente para os fins aos quais foi destinado encontrará, reunidos em um só tomo, um suporte sólido para a formação musical, um bom bocado de especulação histórica bem-humorada, um documento histórico do maior interesse, e uma das maiores qualidades que se pode esperar de um professor: uma conduta antidogmática e apaixonadamente experimental para com a matéria de seu estudo.

Que o estilo de Schoenberg possa encarnar essas qualidades não surpreende, quando se sabe que ele viria a tornar-se uma das figuras mais importantes entre as vanguardas musicais do século XX. O espírito de descoberta e invenção concilia-se, em Schoenberg, com um respeito à tradição e sua história, que não lhe permitem dar um passo sequer adiante sem ter antes procurado compreender como foi que se chegou até ali. De Reik, talvez não se possa dizer que teve um papel tão revolucionário quanto o mestre da Segunda Escola de Viena; mas a história de sua vida não deixa de dar alguns sinais importantes quanto ao que lhe teria dado, entre os psicanalistas de seu tempo, algo como uma liberdade especial. Quando Freud escreve A questão da análise leiga, de 1926, é em defesa de Reik, que havia sido processado por um paciente por charlatanismo. Analista de formação psicológica e literária, mas não médica, Reik passou a vida a lutar pela legitimidade do exercício de sua profissão, especialmente depois de sua migração para os Estados Unidos, onde a psicanálise havia sido assimilada pelos psiquiatras, que institucionalizaram a demanda de formação médica como condição para a formação em análise. No Third ear, Reik é mais vienense do que quando morava ainda em Viena: o texto reconstrói, com espirituosidade literária e bom humor (às vezes exagerados), os passos e a qualidade da experiência subjetiva do clínico e do paciente. Junta em um só esforço uma exposição didática das premissas básicas da psicanálise, a tentativa de articular uma série de descobertas pós-freudianas, e o ímpeto de resgatar a disciplina de sua rotinização médica e popular. Reik quer recuperar na análise a capacidade de ser mais experimentada do que pensada; quer fazer da experiência o momento dominante sobre o pensamento, e restituí-la à condição de fonte de uma boa psicologia, e não de uma boa psiquiatria. Introduz, no caminho, uma série de noções interessantes – a diferença entre compreensão e conjectura, entre memória e reminiscência; o conceito de “momento psicológico” e o de “mecanismo de antecipação” – que até hoje podem interessar para a ciência social, a psicologia, a psicanálise e a filosofia.

Reik é o mais musical dos analistas da primeira geração, e também o mais confessional. Embora distante do ceticismo epistemológico, configura um caso peculiar em que continua sendo possível praticar a psicologia profunda sem abrir mão de Montaigne[3]. Sua luta contra o mainstream norte-americano, e uns tantos outros rivais, dá-lhe às vezes também um ar de iconoclasta[4]. No fim dos anos 1940, seu pensamento já deixou para trás algumas das premissas do freudismo de sua juventude – em particular a teoria da libido em sua formulação clássica. No todo, entretanto, o texto permanece no espírito – se não na letra – do lado mais radical e aventureiro da psicanálise primeva (muito embora Reik só tenha conhecido Freud depois, penso que sua obra madura tem uma proximidade grande com o teor dos textos publicados pelo mestre entre 1900 e 1905, da Interpretação dos sonhos até O chiste e sua relação com o inconsciente). Não tenho notícia direta do impacto que a obra teve à época de sua publicação, mas parece que a reflexividade apaixonada com que foi escrita não deixou intocados os corações científicos de seu tempo – pois cheguei a encontrar referências favoráveis ao livro em autores tão diferentes (e tão distantes do freudismo ortodoxo) quanto Gregory Bateson, Erich Fromm e Philip K. Dick. Para o leitor moderno, ainda que o texto não valha sempre como um portador da novidade em teoria psicanalítica, vale com toda certeza como representante de uma conduta teórica livre e sensível.

Schoenberg inicia a Harmonia dizendo que a aprendeu de seus alunos, e Reik termina o Third ear com um capítulo sobre “a coragem de não entender”. O que têm em comum, portanto, diz respeito à capacidade de manter-se próximos ao processo da experiência – eu diria até: próximos do erro! –, sem com isso perder em nada em consistência e imaginação teórica. São bons professores, porque são bons estudantes – ou amam estar na condição de estudantes. Atingem, com isso, uma boa proporção entre teoria e prática, que pode escapulir à sociologia e à filosofia acadêmicas com muita facilidade. Encorajam-nos a pensar não só com o cérebro, mas com o corpo todo, com a capacidade concentrada que temos de nos relacionar ao mundo quando nos dirigimos a ele não apenas como produtores de artigos, dissertações ou teses, mas como gente que quer conhecer as coisas em ato. Dei uma pincelada especulativa em quais teriam sido talvez as condições sociais que tornaram possíveis obras com esse teor de autonomia inventiva; mas há também um condicionante “imanente” dessa liberdade de pensamento: em ambos os casos, trata-se afinal de fazer teoria, não como fim puramente científico, mas como um capítulo na prática de uma arte. O ouvido de Schoenberg quer aprender a compor, e o ouvido de Reik, a tratar seus pacientes e a si mesmo. Como um contrapeso à formação científica pura, uma relação artística às ciências e à filosofia não deixa de ter bastante interesse: abre espaço para pensar, e também para viver de outras formas. Na sociologia, conhecemos a ideia de um trato artesanal com a disciplina via C. Wright Mills; mas falta-nos às vezes um modelo concreto do que é fazer arte propriamente. Espero ter indicado, em Reik e Schoenberg, dois bons espécimes de artesãos-cientistas, que podem nos ajudar a encontrar o equilíbrio de uma boa ciência social e filosofia – e, quem sabe, também de uma boa psicanálise e uma boa música!

[1]          A Harmonia tem uma edição recente pela Unesp, que encontra-se com alguma facilidade em livrarias e bibliotecas, mas não tenho notícia de tradução integral do Listening with the third ear. A última edição que eu conheço em inglês também não é tão recente. Com isso, talvez seja um pouco difícil encontrar cópias físicas do livro. Mas é possível encontrar cópias digitais para empréstimo no site: www.archive.org.

[2]          Aos interessados em Weber, o texto faz um belíssimo complemento aos Fundamentos racionais e sociológicos da música.

[3]          Compare-se à contribuição igualmente espirituosa do colega Gabriel Peters, também aqui no Blog do Sociofilo: https://blogdosociofilo.com/2017/11/29/panico-da-pagina-em-branco-um-paragrafo-merda-por-dia-e-outras-dicas-para-desbloquear-sua-tese-por-gabriel-peters/?fbclid=IwAR1Z6s9eiv6eoHytXX0s7z1Fw8oa4xZGne7rE0pCA5n7zkcoWIo9f5K11dI

[4]          O leitor e a leitora que não gostam de psicanálise poderão ainda assim divertir-se com o capítulo sobre “Psychoanalese” – “Psicanalistês”, em tradução livre –, em que Reik tira um bom sarro do uso rotinizado do jargão da disciplina.