Fonte: http://www.anthroencyclopedia.com/entry/ontological-turn

Por Soumhya Venkatesan
Tradução: Alberto Luis Cordeiro

Revisão: Marília Bueno

*Tradução do debate do debate da GDAT, ‘Ontology is just another word for culture. Ver: Carrithers et al. 2010. ‘Ontology Is Just Another Word for Culture’, Critique of Anthropology, 30 (2), 152-200.

Moção apresentada na Reunião do Grupo de Debates em Teoria Antropológica, Universidade de Manchester, 2008.

A favor da moção:

Michael Carrithers, Universidade de Durham
Matei Candeia, Universidade de Durham

Em oposição à moção:

Karen Sykes, Universidade de Manchester
Martin Holbraad, University College, Londres
Editado por Soumhya Venkatesan, Universidade de Manchester

Introdução

Soumhya Venkatesan

Em seu discurso após o jantar no encontro decenal da Associação de Antropólogos Sociais [Association of Social Anthropologists] sobre Antropologia e Ciência, realizado em Manchester em 2003, Eduardo Viveiros de Castro identificou o valor cardinal que, em sua opinião, orienta consistentemente a antropologia: “trabalhar para criar a autodeterminação conceitual, ou seja, ontológica, das pessoas” (2003: 4, 18). Esta foi uma grande afirmação que gerou (e na verdade deveria gerar) tanto desconforto como excitação. A “virada ontológica” na antropologia tem sido fortemente impulsionada por alguns estudiosos que foram diretamente inspirados por de Viveiros de Castro (Henare et al., 2006). Henare et al. (2006), em Thinking Through Things, argumentam que uma abordagem genuinamente ontológica (que não privilegia a epistemologia ou o estudo das representações de outras pessoas do que sabemos ser o mundo real, reconhecendo antes a existência de múltiplos mundos) não torna a ontologia sinônimo de cultura. A cultura, argumentam eles, é equivalente a “representação”: há um mundo (realidade) e muitas visões de mundo (culturas). Uma abordagem ontológica, por outro lado, reconhece múltiplas realidades e mundos. Essa distinção entre ontologia e cultura é um dos assuntos abordados pelo debate.

O fato dos editores de Thinking Through Things sentirem a necessidade de dissociar o seu projeto do conceito de cultura deriva, em parte, da forma como a ontologia por vezes aparece nas conversas antropológicas como uma alternativa moderna à cultura (Holbraad discute isso na sua apresentação, tal como Candea). As alternativas e as críticas à cultura como conceito viável são inúmeras. No entanto, o conceito de cultura (como mostra Carrithers) continua a ser útil para todo caso em que a palavra é tratada com um certo grau de suspeita, especialmente quando mobilizada como explicação. Mas, como Latour (2005) argumenta, qualquer conceito que é transformado por cientistas sociais em uma espécie de “coisa” e mobilizado como explicação deve ser tratado com suspeita. Ele próprio se concentra em outro grampo antropológico: o social. É certamente possível abusar do termo “ontologia” da mesma forma. Devemos então abandonar qualquer conceito que se torne uma coisa? 

Há outra questão. Apesar da falta de consenso entre os antropólogos sobre o que constitui a cultura, a palavra, no entanto, tornou-se comum fora da disciplina. Isso tem causado alguma preocupação aos antropólogos. Uma preocupação semelhante foi levantada sobre ‘sociedade’ na reunião de 1989 do Group for Debates in Anthropological Theory (GDAT) [Grupo de Debates em Teoria Antropológica], que debateu a moção: ‘O conceito de sociedade é teoricamente obsoleto’ (ver Ingold, 1996). Isto não é simplesmente porque sentimos que estamos num jogo de recuperação – mesmo quando os ‘nativos’ usam ‘nossos’ conceitos para ‘seus’ próprios propósitos (representação, explicação, desempenho), precisamos seguir em frente e encontrar outros conceitos que ainda não entraram na linguagem comum ‘aqui’ ou ‘ali’. Pelo contrário, como Marilyn Strathern, John Peel, Christina Toren e Jonathan Spencer mostraram na reunião de 1989, consequências importantes resultam da maneira pela qual os conceitos e análises antropológicos são incorporados em outros tipos de projetos.

Uma pergunta que podemos fazer é: de onde vêm os conceitos antropológicos e quais são os seus limites? A ‘ontologia’ encontra-se nos limites da ‘cultura’ (isso é abordado na discussão que se segue às apresentações; para uma discussão sobre os limites dos conceitos, ver também Corsín Jiménez e Willerslev, 2007)? Strathern (1987) fornece um tipo de resposta a essa questão: as construções e conceitos analíticos da antropologia vêm da tradição euroamericana da qual a disciplina é um produto (de fato, é isso que torna o conceito de “antropologia em casa” mais complexo do que é imediatamente aparente). Ela também levanta nesse mesmo artigo a questão da audiência do antropólogo e por que isso importa. Em relação a isso, e tendo em mente a identificação de Viveiros de Castro sobre o valor cardinal da antropologia (discutido anteriormente), podemos ainda perguntar: qual é o propósito da antropologia e como os tipos de questões que a antropologia coloca diferem das questões dos não antropólogos? Sykes, em sua apresentação, foca na importância das questões, ou seja, no projeto interrogativo, e não no projeto representacional ou descritivo da erudição. 

Henare et al. (2006) fazem duas sérias reivindicações em sua busca por uma antropologia ontológica. Primeiro, que o propósito da antropologia é a geração de conceitos. Segundo, que uma abordagem ontológica, mais do que qualquer outra dentro da antropologia, leva “a sério” as coisas encontradas no trabalho de campo sem procurar explicá-las ou contextualizá-las. Esta última é simultaneamente uma reivindicação política e metodológica. Um foco em múltiplas realidades e múltiplas ontologias pode, afirma-se, gerar novos conceitos que vão além daqueles que vêm da “nossa” ontologia. Esta reivindicação levanta alguns problemas interessantes sobre a relação entre sistemas de conhecimento, ideias sobre a natureza da realidade e do ser e formas de fazer.

Em We Have Never Been Modern, Latour (1993) traça a emergência da ontologia moderna que faz uma clara separação entre pessoas e coisas, e natureza e sociedade. Esta separação, porém, não impede a proliferação de híbridos, que cruzam categorias e atuam no mundo. A modernidade assenta então em dois pilares: purificação (ou separação categórica) e tradução ou mediação (onde essas categorias são violadas). Centrar-se puramente na purificação (o reino ontológico), então, tornaria invisíveis a tradução e a mediação que são cruciais para agir no mundo. Encontramos dilemas semelhantes em outros lugares. Goswami (2004) escreve que, na segunda metade do século XIX, a administração colonial na Índia ficou extremamente surpresa ao encontrar indianos de diferentes castas ansiosos por viajar nos comboios recentemente introduzidos. Eles tinham assumido que as proibições baseadas em castas significavam que os trens transportariam principalmente mercadorias em vez de passageiros. As discordâncias de Louis Dumont e André Béteille sobre castas na Índia giram em torno dessa distinção entre as bases ideológicas e ontológicas da casta e a prática no solo (ver, por exemplo, Khare, 2006). A.K. Ramanujam (1989) pergunta: existe um modo de pensar indiano? Pode haver, mas como isso informa as formas de agir dos “indianos” e o que conta como “uma forma indiana” ou não?

Ontologias, teorias do ser e da realidade têm histórias (e genealogias). Também não são necessariamente estáveis transcontextualmente. Quem entre nós não gritou com um carro ou uma impressora por ‘deliberadamente’ quebrar quando alguém está correndo para cumprir um prazo final (veja-se, por exemplo, Gell, 1998)?

Não obstante, existe uma clara distinção entre pessoas intencionais e coisas inanimadas na ontologia moderna euroamericana. De fato, como Candea mostra, o próprio Viveiros de Castro não está entusiasmado com o termo “ontologia”. Da mesma forma, as pessoas que usam o conceito de cultura também sentem uma certa reserva. Como Sahlins (2002) aponta, no entanto, isso não impede que seja útil.

Isso nos leva então à moção apresentada na reunião de 2008 do Group for Debates in Anthropological Theory

Ontologia é apenas mais uma palavra para cultura.

Trata-se decerto de uma declaração provocativa (especialmente dada a presença e a localização da palavra ‘apenas’), mas que convida ao engajamento crítico tanto com os termos quanto com o trabalho que eles fazem na antropologia. Embora eu não queira resumir as apresentações, já que que os palestrantes o fazem com as suas ideias e palavras com muito mais justiça, farei algumas observações. O debate é, por definição, uma forma altamente polarizada de engajamento. Apesar disso, houve algumas semelhanças nas posições opostas. Entre os temas que surgiram consistentemente nas apresentações estava a questão de como lidamos com a semelhança e a diferença – geralmente reconhecida como uma preocupação antropológica fundamental. Ambos os termos – “ontologia” e “cultura” – estavam fortemente relacionados a essa preocupação.

Referências

Corsín Jiménez, A. and R. Willerslev (2007) ‘An Anthropological Concept of the Concept: Reversibility among the Siberian Yukhagirs’, Journal of the Royal Anthropological Institute (NS) 13: 527–44.

Gell, A. (1998) Art and Agency: Towards an Anthropological Theory of Art. Oxford: Clarendon Press.

Goswami, M. (2004) Producing India: From Colonial Economy to National Space. Delhi: Permanent Black.

Henare, A., M. Holbraad and S. Wastell (eds) (2006) Thinking Through Things: Theorising Artefacts Ethnographically. London: Routledge.

Ingold, T. (ed.) (1996) ‘1989 Debate: The Concept of Society is Theoretically Obsolete’, pp. 55–98 in Key Debates in Anthropology. London: Routledge.

Khare, R.S. (ed.) (2006) Indian Critiques of Louis Dumont’s Contributions. New Delhi: Oxford University Press.

Latour, B. (1993) We Have Never Been Modern, trans. C. Porter. Cambridge, MA: Harvard University Press.

Latour, B. (2005) Reassembling the Social: An Introduction to Actor-Network Theory. Oxford: Oxford University Press.

Ramanujan, A.K. (1989) ‘Is There an Indian Way of Thinking? An Informal Essay’, Contributions to Indian Sociology 23(1): 41–58.

Sahlins, M. (2002) Waiting for Foucault, Still. Chicago: Prickly Paradigm Press.

Strathern, M. (1987) ‘The Limits of Auto-anthropology’, pp. 16–37 in A. Jackson (ed.) Anthropology at Home. London: Tavistock.

Viveiros de Castro, E. (2003) AND. Manchester papers in Social Anthropology, 7, URL (consultado em julho/2009): 

http://abaete.wikia.com/wiki/(anthropology)_ AND_(science)_(E._Viveiros_de_Castro)