Fonte: https://www.nytimes.com/2016/11/07/opinion/our-reactionary-age.html

Por Jeffrey Alexander
Tradução: Ábia Marpin
Revisão: Raquel Weiss

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Essa é uma época de medo e ódio à esquerda, especialmente a sociólogos e sociólogas alinhados a ela. O ódio é o que vem do presidente Trump, herói das forças da extrema direita que, marginalizadas por décadas, estão trazendo o fanatismo, o patriarcado, a xenofobia e o nacionalismo de volta a um lugar visível na esfera cívica estadunidense. O medo é de que essas forças ameaçadoras possam ter sucesso, que a democracia seja destruída e que as conquistas igualitárias das últimas cinco décadas sejam perdidas. Feminismo, antirracismo, multiculturalismo, cidadania sexual, ecologia e internacionalismo – todas essas conquistas, ainda precárias, estão sob ataques perversos e constantes.

O medo e o ódio podem ser produtivos quando desencadeados a partir de dentro das estruturas culturais e sociais de uma esfera cívica que permanece vigorosa e central (Schlesinger, 1949; Alexander, 2016; Kivisto, 2019), que, embora frágil, continua estável. Em tais condições, desenvolve-se formas de resistência com intuito de barrar a vitória do trumpismo, com suas implicações obscuras e aterrorizantes. O trumpismo não desafia apenas os compromissos morais e políticos da esquerda, mas as estruturas culturais e sociais da esfera cívica; e é isto que embasa sociologicamente a democracia política (Alexander, 2006; 2018).

Não importa o quão execráveis sejam em termos normativos, precisamos entender as forças polarizadoras e excludentes do trumpismo como sociologicamente “normais” – nas contínuas dinâmicas da esfera cívica. Somente quando uma força tão anti-esquerda desafia as premissas culturais e os fundamentos estruturais da solidariedade cívica, ela constitui verdadeiramente um perigo fundamental para a democracia. Trata-se de algo que o trumpismo ainda é capaz de fazer, embora a esta altura pareça improvável. Para entender por quê, precisamos ver o quadro inteiro: quais são as estruturas culturais e sociais de uma esfera cívica e que tipos de dinâmicas sociais isso envolve?

A primeira coisa a reconhecer é que o trumpismo e a extrema direita não são novidades, nem aqui, nem em qualquer lugar onde as esferas civis tenham sido simultaneamente instituídas e restringidas. As depredações do trumpismo não são eventos raros, acontecendo pela primeira vez na história dos Estados Unidos. O que elas constituem, ao contrário, são movimentos reacionários (Alexander, 2013).

Sociólogos e sociólogas têm o péssimo hábito de pensar na mudança social como algo linear; trata-se de uma tendência laica amplamente progressista, enraizada nos hábitos esclarecidos da modernidade, educação, expansão econômica e interesses sociais compartilhados da humanidade (Marshall, 1965; Parsons, 1967; Habermas, [1984, 1987] 1981; Giddens, 1990). Dessa perspectiva, movimentos conservadores aparecem como desvios, refletindo anomia e isolamento (Putnam, 2000), insensatez (Lipset e Raab 1970), atraso social e “muros à empatia” (Hochschild, 2016).

Mas a sociedade moderna nunca funcionou dessa maneira. O progresso não é um desdobramento da laicidade; ele é desencadeado por mobilizações progressistas, por vanguardas cuja visão está à frente de seu tempo, cujas ações podem ser comparadas a provocativos e desestabilizadores experimentos de ruptura (Garfinkel, 1967; Tognato, 2019), e cujas vitórias, mesmo quando pequenas e silenciosas, mas especialmente quando são grandes e barulhentas, são vistas como profundamente ameaçadoras para interesses instituídos, ideológicos e materiais, não só na base, mas nas classes médias e mesmo no topo da sociedade. Os movimentos progressistas sempre produzem aqueles reacionários: movimentos de desmantelamento cultural, social e político que buscam desestruturar a amplificação do cosmopolitismo e da inclusão social. Movimentos reacionários não acontecem porque seus quadros e seguidores conservadores são anti-modernos, irracionais ou mesmo especialmente intolerantes. A reação é desencadeada, antes, porque estruturas ideológicas e materiais do status quo foram abruptamente abaladas, e aqueles que ocupavam essas estruturas desejam voltar ao tempo anterior ao abalo, quando estavam estabelecidos no que era obviamente, e não apenas em retrospecto, uma posição melhor.

Nos Estados Unidos, o movimento progressista foi esvaziado na década de 1930 e limitado também durante os anos da Segunda Guerra Mundial. Reações contra os direitos trabalhistas, objeções ao antissemitismo e intolerância étnica e racial e a afronta de Randian aos controles econômicos keynesianos explodiram com força extraordinária nos últimos anos da década de 1940 e dominaram a década seguinte: a lei antissindicalista e antigrevista, a perseguição a comunistas, as “mães que ficam em casa”, as raças “separadas mas iguais”, a conformidade aos termos da guerra fria e a repressão sexual. O progressismo explodiu de novo nos anos 1960 (Isserman; Kazin, 2000; Kazin, 1995: 165-268), aterrorizando os interesses personalistas, mobilizando-se contra as elites e os grupos da sociedade civil estabelecidos desde longa data. Em 1968, Richard Nixon capitaneou uma cruzada reacionária na Casa Branca, votando não só para estreitar os portões da esfera cívica, mas para reverter direitos civis, desde o feminismo, a ecologia e até a paz. Diante da falha iminente, Nixon tentou concretizar o movimento reacionário com esforços extra-constitucionais, espionando e chantageando oponentes políticos e eleitorais – esforços que a Crise de Watergate acabou expondo e punindo. Após um breve período pós-Watergate, o movimento reacionário contra a inclusão social retomou o processo, tomando o poder político nacional por doze anos, usando as alavancas do governo central e o palanque da presidência, tentando minar de todas as formas as realizações progressistas. Se o reaganismo também falhou em bloquear o progresso cívico, a paranoia conservadora se tornou cada vez mais cancerígena durante os oito anos do centrismo de Clinton, e os movimentos reacionários voltaram a rugir para o poder nacional durante a administração de Bush Segundo: ações afirmativas foram abertamente ameaçadas, políticas feministas debilitadas, o ambientalismo silenciado e o patriotismo nacionalista reavivado; e respostas militares para relações internacionais floresceram.

O drama dos movimentos progressistas versus reacionários continua. Sociólogos e sociólogas críticas têm tendido a registrar os anos de Obama como centristas, neoliberais, mesmo neoconservadores. Não do ponto de vista do status quo, das massas e da elite branca e ressentida! Obama acenou para uma política externa pós-imperial, uma etnicidade estadunidense pós-branca e multicultural, e criou novos direitos sociais massificados, financiados com tributações (Alexander; Jaworsky, 2014). E ele é negro! Os anos de Obama foram experienciados como assustadoramente progressistas pelo status quo. Isto que foi experienciado como dilaceração desencadeou outro frenesi reacionário, desta vez de modo trumpiano. Esse modo não é novo, mas, ainda assim, perigoso, e está propagando medo e ódio à esquerda.

O que ameaça a democracia não são os movimentos reacionários em si. Eles são tanto mais inevitáveis quanto mais os movimentos progressistas desestabilizam interesses consolidados, impulsionando reformas, até então inconcebíveis, em nome da justiça. A questão não é se movimentos conservadores tentarão nos empurrar para o retrocesso – muitas vezes com sucesso –, mas se, quando o fizerem, a esfera cívica é capaz de sobreviver.

A democracia depende de sentimentos de respeito mútuo, de experiências de solidariedade compartilhadas apesar das profundas antipatias ideológicas e de interesses. Deve haver alguma visão historicamente específica de um universalismo compartilhado que transcenda os particularismos de classe, raça, gênero, sexo, região, religião e nacionalidade. Movimentos progressistas e reacionários estão altamente polarizados; seu efeito fenomenológico é a introdução de uma ansiedade tão intensa que a solidariedade cívica está se despedaçando. O que outrora parecia expressão de civilidade – ações afirmativas, por exemplo – agora figura como particularista. Grupos e ideias que antes pareciam expressões de honra – heróis confederados, por exemplo – são agora difamados. É possível que um sentimento de vitalidade cívica seja capaz sobreviver (Luengo; Ihlebæk 2019)? A resposta será afirmativa somente se a solidariedade cívica puder regular o conflito ideológico e material de modo que inimigos tornem-se adversários, se esse agudo antagonismo for moderado e o agonismo prospere (Mouffe, 2000). Os movimentos progressistas devem ser de tal modo civilizados a ponto de evitar uma revolução da Social Democracia (Marshall, 1965). Os movimentos reacionários sempre são desencadeados a partir de uma ideologia anti-esquerda e conservadora, mas esse conservadorismo pode assumir forma cívica ou anti-cívica.

Burke ([1790] 2009) e Oakeshott (1975) são filósofos reacionários que expressam tal moderação cívica: não se apresse tanto, eles suportam a existência da esquerda; não seja tão arrogante a ponto de se ver como mestre da racionalidade; preocupe-se mais em manter a confiança nas instituições e em incrementar laços. Quando o movimento reacionário toma sua forma mais radical, no entanto, a ideologia conservadora deixa de ser moderada e assume uma forma revolucionária: do agonismo ao antagonismo, da persuasão à violência, da esfera cívica à guerra civil, e da democracia ao autoritarismo. Se o movimento reacionário tivesse sido esgotado na década de 1960, Malcom X e  os Panteras Negras teriam sido as figuras e organizações políticas dominantes desse período, não Martin Luther King e NAACP. Se estivessem a todo vapor atualmente, nós teríamos Steve Bannon como o maior intelectual público nacional (Alexander, 2019), a Fox como o site mais influente e o racismo como a plataforma do Partido Republicano.

Trump flertou com Bannon, mas ganhou o poder e continua com ele não por causa de seu radicalismo retórico, mas, contra-intuitivamente, porque ele se dispõe a representar os sentimentos de poder de reação dos conservadores. Os conservadores, embora civis, apoiaram Trump porque puderam usar sua presidência para fazer retroceder as conquistas progressistas das décadas anteriores. Trump “fez mais para desregulamentar do que qualquer presidente na história”, explicou o presidente da Freedom Works (Peters, 2018: 16). O imposto regressivo, o desprezo pelas ações afirmativas, os amplos ataques à igualdade de gênero, liberdade sexual e direitos de voto – enfraquecem o que os cidadãos de esquerda e do centro passaram a entender como nossa esfera cívica contemporânea. Ainda assim, mesmo que tais retrocessos minassem a versão progressiva da esfera cívica estadunidense, eles não culminam na destruição da esfera cívica em si; eles não anulam o jogo eleitoral do conflito agonístico, nem minam os princípios racionais-legais da regulamentação civil. A retórica de Trump tem tom inflamado e estilo demagógico; mas essa retórica, tom e estilo são realmente antidemocráticos, como sugeririam as principais teorias sociais do populismo (Arditi, 2005; Mouffe, 2005; Panizza, 2005; Müller, 2017)? Trump segue atacando notícias falsas e aqueles que escondem a verdade, descrevendo seu próprio lado como racional e honesto. Ele acusa seus inimigos de mentirosos e se apresenta como último paladino da verdade. Ataca o egoísmo e se gaba de sua própria generosidade. Afirma expor trapaças secretas e retrata sua administração como aberta, para que todos possam vê-la. Ele ataca elites e privilégios, colocando-se do lado das pessoas e prometendo ampliar as regras do jogo.

Todavia, não há nada de novo nisto. O que vemos e ouvimos é o verdadeiro discurso binário, comprovadamente eficiente, que dinamizou e polarizou desde o início e possibilitou e constrangeu as esferas civis já existentes (Kivisto, 2017, 2019; Mast, 2019a, 2019b; Enroth, 2018). Todo líder democrático poderoso, tanto da direita quanto da esquerda (ver, por exemplo, Kazin, 2006), evocou os mesmos binarismos para sugerir que seus oponentes são civicamente incapazes e que somente eles e seus amigos estão dispostos e aptos a agir em nome da civilidade e a serem racionais, autônomos, abertos, cooperativos, orientados para o povo e solidários com este.

Em nossa visão, o perigo claro e eminente não surge da retórica binária e simplista entre comportamento cívico versus não-cívico, por mais desagradáveis que sejam essas performances da direita. Ele vem, antes, do modo como esse binarismo inveterado se relaciona com as instituições da esfera cívica que sustentam a vida democrática. É certamente um paradoxo frustrante que a solidariedade cívica não possa ser instanciada localmente e em tempo real sem recorrer ao que a psicanalista Melanie Klein ([1957] 1975) chamou de “divisão”, ou o que a sociologia cultural do Núcleo Duro chama de estruturas discursivas sagrado versus profano, que fazem sentido na vida social cotidiana (Alexander; Smith, 2019). Mesmo quando o binarismo inclui e se atualiza, também exclui e degrada. A estrutura binária do discurso cívico significa que a especificação da solidariedade cívica em qualquer época histórica específica, e em qualquer lugar social e físico específico, é inerentemente precária. Mas a flexibilidade da divisão e a precariedade da especificação são precisamente o que permitem que as civilidades realmente existentes sejam continuamente rompidas, e as esferas civis realmente existentes sejam continuamente refeitas pelas vanguardas, às vezes de maneiras surpreendentemente progressistas e emancipatórias. Eles também são o que permitem que as fronteiras das esferas civis recém-expandidas sejam desfeitas por retrocessos.

O processo de formação e desfazimento da solidariedade cívica, seu avanço e retrocesso dependem da determinação específica de seu discurso idealista em relação a eventos e lutas em andamento, em determinados momentos e lugares. Esse é o trabalho das instituições civis. As instituições que regulamentam a esfera cívica e a expressam fazem a mediação entre discursos binários amplos e abstratos, no aqui e agora. Pesquisas de opinião pública, associações civis e, mais importante, o jornalismo, são meios para essa comunicação. Eles especificam valores e discursos democráticos em nome da solidariedade cívica, emitindo julgamentos altamente públicos sobre o caráter cívico e anti-cívico de interesses, grupos, movimentos e eventos, julgamentos que são independentes de líderes e partidos populares, sejam eles progressistas ou reacionários, que alegam falar pelas pessoas diretamente, de forma não mediada, em e para si mesmas. Os outros mecanismos que filtram as esferas civis são de caráter regulatório: as instituições do voto e da eleição, a estrutura impessoal da máquina pública e, acima de tudo, o estado de direito baseado na lei e na presunção de inocência.

As elites que organizam e representam essas instituições de comunicação e regulamentação são agentes da esfera cívica (Alexander, 2018). Seus interesses materiais e ideológicos estão em harmonia com a defesa da autonomia da esfera cívica. Os agentes da esfera cívica mediam as reivindicações carismáticas dos demagogos, entrelaçando a interpretação e a coerção, produzindo evidências universais e quase factuais que lhes permitem enfraquecer, imobilizar e às vezes até criminalizar os inimigos da esfera cívica. Jornalistas investigativos e procuradores públicos ambicionam a glória. Suas esperanças de se tornar heróis civis podem ser frustradas por demagogos populistas, à direita e à esquerda, que acreditam que somente eles mesmos podem falar pelo povo – de modo imediato, mais do que com mediação, como receptáculos mais do que como instrumentos do poder cívico, como a única verdade representativa da vontade do povo.

O que é perigoso no trumpismo não é o que ele fala por meio da linguagem polarizadora e binária de reacionarismos civis, mas o fato de que muitas vezes ele parece determinado a destruir a autonomia das instituições da esfera cívica ao longo do caminho. A ideologia de Bannon sussurra no ouvido do homem empreendedor de direita: você é o único árbitro de onde e a quem o discurso da sociedade civil é aplicado; você é o cabeça por aqui; você é o braço direito do rei; você não é um conservador covarde, mas um revolucionário anti-cívico.

O sussurro de Trump pode mover um movimento reacionário de um conservadorismo cívico até o populismo. Quando a representação política passa a ser centrada em um único homem e não em instituições de comunicação relativamente independentes, tem-se uma forma de cesarismo (Weber, 1978). O poder simbólico repentinamente parece meramente plebiscitário, e é o príncipe moderno (Gramsci, 1959) que cristaliza a voz do povo, a partir de seus meios de comunicação, suas associações, suas próprias pesquisas de opinião, seus juízes e tribunais, seu partido. Impulsionado por tal presunção de poder popular, o demagogo populista não apenas monopoliza o poder da representação simbólica (Moffitt, 2016), como também destrói a autonomia organizacional das instituições de regulamentação. Os populistas não podem tolerar tribunais independentes interpretando e aplicando o discurso cívico. Eles não podem permitir que outras poderosas elites da mídia decidam quem e o que é mais racional, mais honesto, mais verdadeiro, mais secreto, mais oculto, ou mais perigoso e ameaçador. À medida que o valor da impessoalidade é destruído, o poder torna-se pessoal e familiar, e a corrupção reina. O patrimonialismo, a deferência e mistificação do corpo político são as alternativas ao poder da esfera cívica, ao exercício da representação política constitucionalmente regulado e à mediação crítica e independente. Com as instituições públicas e o jornalismo destruídos, as eleições tornam-se palcos vazios para a encenação da demagogia dramatúrgica, em vez de ocasiões para o engajamento nos desdobramentos, contingentes, agonísticos, estético/morais, daquele discurso binário.

Sob tais condições de coação discursiva e confusão institucional, os pressupostos de uma solidariedade universalizante são severamente restritos. As esferas cívicas encolhem, refletindo qualidades primordiais do líder e do partido que conquistaram o poder de representação, a etnia, o gênero, a raça, a sexualidade e a identidade nacional do novo rei presidencial. Movimentos reacionários e progressistas deixam de estar em processos dinâmicos. Em vez de momentos no pêndulo da história social e cultural, eles se tornam pontos: os pontos que interrompem o movimento e ameaçam quebrar a “máquina” incrivelmente sutil; robusta, mas flexível; afinada, mas precária; e democrática.

No entanto, se as esferas cívicas podem ser colonizadas a anti-democracias, essa destruição não costuma acontecer num piscar de olhos. À medida que as forças conservadoras retrocedem até a sua forma demagógica, as bases culturais e institucionais das esferas civis reagem acentuadamente. Protegendo seus interesses materiais e ideológicos, as elites defendem a autonomia do discurso crítico, o direito do jornalismo independente de fazer interpretações de forma autônoma em relação ao poder personalista, a reivindicação de tais julgamentos serem praticamente aplicados apenas por juízes independentes e por tribunais amparados em direitos legais.

Substancialmente, a resistência contemporânea é uma luta para manter o que as mobilizações progressistas ganharam, permitindo que representações mais humanas e solidárias de gênero, sexo, etnia e raça se tornem mais amplamente distribuídas e institucionalizadas. Formalmente, porém, a resistência procede defendendo a estrutura e a cultura da esfera cívica, a independência das associações civis, a medição objetiva da opinião pública, o profissionalismo do jornalismo, a autoridade dos juízes, as regras justas de voto e os padrões impessoais de justiça. Não são (contra Laclau, 2005) os representantes retóricos do “povo” que lideram a resistência, muito menos as próprias pessoas, mas as elites da esfera cívica e seus apoiadores, grupos cujos interesses materiais e ideológicos estão ligados à construção mediada e civilizada da solidariedade nacional.

Não é só lamentável, mas potencialmente perigoso, que sociólogos e sociólogas raramente tenham se interessado em teorizar a democracia e, quando o fizeram, não conseguiram compreender as complexidades culturais e institucionais que a sustentam (por exemplo, Bourdieu, 1996). Do mesmo modo que os populistas que são inimigos da esfera cívica, cientistas sociais muitas vezes reduziram a democracia aos interesses materiais (Lipset, [1960] 1981), às massas versus elites do poder (Michels, [1911] 1962; Schumpeter. 1942; Mills, 1956; Moore, 1966), ao triunfo de classes privilegiadas sobre classes mais privilegiadas (Wright, 2015), aos movimentos sociais de base versus instituições e Estados (Putnam, 2000; Skocpol, 2003), à mobilização coletiva versus a ganância privada (Habermas, [1963] 1989). Tais mal-entendidos têm o efeito não intencional de confundir democracia e populismo (por exemplo, Laclau, 2005), cedendo assim o fundamento intelectual, se não moral, aos inimigos da democracia. A sociologia torna-se parte da polarização entre os movimentos progressistas e os reacionários, em vez de se afastar de ambos com uma compreensão crítica. O coração da democracia não está a serviço deste ou daquele interesse particular, mas animado por um senso de interesse mais amplo. Isto é, por acalentar uma fé que acredita que a solidariedade pode ser definida mais social do que essencialmente, e que ela é definida e delimitada em todo e qualquer tempo e espaço históricos e específicos.

Tentar tornar as coisas mais civilizadas sempre envolve definir algumas outras como menos, evocando assim um tipo de discurso binário do qual Trump é um mestre presunçoso. O desafio é o seguinte: a retórica imaginativa e inspiradora que expõe a suposta falta de civilidade dos que estão à direita e à esquerda não pode se concentrar nas capacidades de representação de um líder ou partido específico. A representação da capacidade cívica deve ser bancada pelas instituições regulamentadoras e de comunicação que filtram, pluralizam e especificam agonisticamente os princípios que permitem a incorporação e a exclusão. Como John Dewey argumentou há um século, “mais do que uma forma de governo”, a democracia é “principalmente um modo de vida associativa, de experiência comunicada conjuntamente” (Dewey, 1966: 87).

Referências

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