De Polanyi a Pollyanna: O Falso Otimismo dos estudos sobre Trabalho Global (Parte 1), por Michael Burawoy

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Por Michael Burawoy
    Tradução: Alberto L.C. de Farias

Nos últimos anos, tem havido grande interesse em “The Great Transformation” de Karl Polanyi entre os cientistas sociais em geral e entre os estudiosos do trabalho em particular.[1] E isso não é surpreendente, já que Polanyi nos advertiu sobre os perigos do que chamou de “credo liberal” – a crença no mercado auto-regulado cuja busca trouxe miséria econômica e devastação cultural à civilização moderna. Escrito em 1944, The Great Transformation traça a ascensão do mercado auto-regulado – a relação entre a ideia e a prática – desde o final do século 18, passando pelo século 19 até o século XX, gerando contra-movimentos protecionistas que trouxeram a social-democracia e o New Deal, mas também o Fascismo e o Estalinismo. A reação ao fundamentalismo de mercado poderia ser tão ruim quanto o próprio, levando Polanyi a acreditar que nunca mais a humanidade se entregaria a uma experiência tão perigosa. No entanto, é isso o que enfrentamos agora.

Como Marx, Polanyi podia ver a desvantagem, bem como as potencialidades do mercado. Na verdade, existem poderosas ressonâncias entre Marx e Polanyi – Polanyi baseia-se nos primeiros escritos de Marx sobre o dinheiro e a alienação como base de sua própria condenação moral da mercantilização não regulamentada. Mas há também divergências fundamentais entre os seus comentários. De vez em quando, Polanyi ataca as teorias marxistas da história que se baseiam na dinâmica da lei dos modos de produção e sua sucessão através da história. Sua crítica está baseada na afirmação de que a mercantilização e não a exploração é a experiência central do capitalismo.[2] O Capítulo 13 de The Great Transformation empreende uma polêmica sustentada contra a noção marxista de exploração, que, segundo ele, na verdade diminuiu durante a Revolução Industrial e, portanto, não pode explicar o que impulsionou a mudança. De acordo com Polanyi, o que estava por trás das lutas na Europa do século XIX não era exploração, mas a devastação cultural causada pelo mercado. Na formulação de Polanyi, a mercantilização da terra, do dinheiro e do trabalho – chamados commodities fictícias – ameaçou destruir a “sociedade”, o fundamento indescritível da humanidade, e gerou contra-movimentos espontâneos para defender a sociedade. Nesta análise, as classes se tornam atores efetivos, não na busca de seus próprios interesses, mas quando defendem o interesse universal em sustentar a sociedade. O foco, portanto, passa da exploração para a mercantilização, da produção para os mercados e das classes para a sociedade.

Polanyi sofre de um falso otimismo em quatro pontos. Primeiro, ele tanto acreditava no poder das ideias que achava que a ideologia desacreditada do fundamentalismo de mercado não poderia tomar posse do nosso planeta novamente. Em segundo lugar, ele postulou uma noção nebulosa e sub-teorizada de sociedade, que, em última análise, assim afirmou, convocaria sua própria defesa diante de uma investida do mercado. Em terceiro lugar, em sua hostilidade ao marxismo ortodoxo – especialmente às suas teorias da história e à centralidade da exploração – perdeu de vista os imperativos da acumulação capitalista que estão por trás do ressurgimento dos mercados. Finalmente, ao se concentrar no mercado e em seu contra-movimento, ele facilmente reduziu o Estado à sociedade, perdendo sua interação complexa. Esses quatro elementos de falso otimismo encontram seu eco em estudos recente sobre trabalho que, ao se inspirarem nas ideias críticas de Polanyi sobre o mercado, encontraram esperança em sua postulação de contra-movimento.

Consequentemente, este ensaio é dividido em duas partes – duas leituras de Polanyi. A primeira parte é uma crítica das representações otimistas de Polanyi, especialmente interpretações que apelam para e buscam por contra-movimentos trabalhistas em relação ao fundamentalismo de mercado. Como pano de fundo, comecei com alguns clássicos recentes que tem uma inclinação mais otimista antes de recorrer a um tratamento mais longo da Grounding Globalization, um livro premiado da África do Sul. A segunda parte do ensaio pretende ser uma alternativa, mais pessimista, à leitura de Polanyi. Localizando sua análise das commodities fictícias em perspectiva histórica, busco compreender a natureza peculiar da mercantilização contemporânea e assim problematizar a possibilidade de um contra-movimento global, especialmente um centrado no trabalho. O ensaio segue os excelentes artigos da primeira edição do Global Labor Journal que abordam os obstáculos ao protesto trabalhista na Índia e na China.

O Falso Otimismo

Não há lugar melhor para começar do que com Peter Evans, cujo trabalho de vida tem dialogado com Karl Polanyi. Durante grande parte da sua carreira, estudou as condições políticas da acumulação de capital nas economias em desenvolvimento, apontando em particular o papel do Estado – primeiro a aliança tripartite de Estado, capital nacional e capital internacional que produziu desenvolvimento dependente no Brasil e, em seguida, em um estudo comparativo da Índia, da Coreia do Sul e do Brasil que mostrou como o estado mais eficaz de “desenvolvimento”, ou seja, mostrou como o estado “desenvolvimentista” mais eficaz, em outras palavras, um que produz crescimento econômico, está enraizado e é autônomo em relação à economia. Isso corresponde bem à noção de Polanyi do “mercado” como um projeto político que exige regulação e direção estatal. Perturbado pelos benefícios desiguais da acumulação capitalista que ele havia defendido anteriormente, Evans voltou sua atenção para as forças que poderiam desafiar as desigualdades capitalistas. Ele explora a segunda dimensão de Polanyi – o chamado duplo movimento, o movimento contrário à expansão do mercado.[3] Aqui ele insiste que um contra-movimento deve ir além dos níveis local e nacional para alcançar uma escala global – uma escala de resistência impensada por Polanyi – para produzir o que ele chama de “globalização contra-hegemônica”. Ele, portanto, busca por movimentos sociais “progressistas” com o potencial de transcender fronteiras nacionais – movimentos ambientais, movimentos de mulheres e acima de tudo movimentos trabalhistas –, mas não está claro de que maneira esses movimentos são contra-hegemônicos, isto é, de que forma representam uma “hegemonia” alternativa, nem o que é que eles realmente “contrapõe”, nem como eles efetivamente desenvolvem a solidariedade transnacional. Evans traz de volta o Estado para promover o desenvolvimento econômico, mas deixa-o voar pela janela quando se trata de organizar lutas – lutas que o Estado confina na arena nacional. O resultado é uma globalização “contra-hegemônica” que se agarra às palhas. Simplesmente não existe lá. Longe de contra-hegemônicos, seus movimentos parecem estar organizados no terreno e dentro dos limites da hegemonia capitalista. Não há nenhum sinal de que as “suas pequenas transformações”, ou melhor suas pequenas perturbações, sejam mais do que um ajuste ao capitalismo. Importantes que sejam, por direito próprio, não são temporalmente cumulativas nem politicamente (e geograficamente) conectadas, exceto talvez momentaneamente quando se juntam no Fórum Social Mundial. Suas atividades podem ganhar as concessões, mas são concessões que impedem, em vez de prefigurar, qualquer “grande transformação”.

Em contraste, Beverly Silver liga as lutas trabalhistas estreitamente à acumulação de capital à medida em que esta avança no espaço e no tempo.[4] As concessões ganhas não levam a nenhuma “grande transformação”, mas a novas estratégias do capital. Seu relato magistral da história do trabalho desde 1870 mostra como os capitalistas competem uns com os outros para diminuir os custos do trabalho, engendrando lutas que desafiam a legitimidade do capital. Concessões se sucedem, desse modo ameaçando os lucros. O capitalismo balança entre crises de legitimação e crises de rentabilidade, estabilizando-se temporariamente com vários “reparos”: reparo espacial (mudança para novas fontes de mão de obra barata); reparo de processos (inovação tecnológica); reparo do produto (voltando-se para um novo produto ou indústria onde os lucros são inicialmente elevados); e, finalmente, correção financeira (em que o excesso de capital se transforma em saídas financeiras). Silver traça o movimento e as lutas nos têxteis, o protótipo do capitalismo do século XIX e, depois, a indústria automotiva como o protótipo do capitalismo do século XX, perguntando o que será a indústria do século XXI. Ela assume que o trabalho está sempre interessado em resistir à exploração e seu sucesso depende da sua capacidade, isto é, a mobilização de dois tipos de recursos – poder estrutural e associativo. Ela também revela um otimismo não declarado de que a exploração engloba sempre o que ela chama de lutas do tipo-Marx, ou, se não, essas lutas do tipo-Polanyi em torno da mercantilização do trabalho. Em sua análise, estes últimos são sempre uma categoria residual, deixando sem elaborar a visão fundamentalmente diferente do capitalismo de Polanyi, sua singular teoria da experiência e, portanto, as diferentes políticas de contestação a que dá origem.

O texto canônico de Ching Kwan Lee sobre a nova e a antiga classe trabalhadora da China, Against the Law, avança o relato de Silver.[5] Ela dá igual peso às lutas do tipo-Marx contra a exploração pelas jovens mulheres que trabalham na indústria eletrônica no Sunbelt chinês, e para a luta de subsistência do tipo-Polanyi, luta contra a mercantilização pelos trabalhadores industriais, desempregados ou subempregados, do Rustbelt. Lee resolve a tensão entre as lutas marxianas e polanyianas de forma empírica, contornando as divergências teóricas subjacentes baseadas em concepções muito diferentes do capitalismo e do seu futuro. Apesar de Lee, curiosamente, vincular a exploração do trabalho no Sunbelt à mercantilização parcial da terra através da redistribuição dos direitos de propriedade nas áreas rurais e, assim, mover-se em uma direção polaniana de alianças contra o mercado, ela não faz nenhuma tentativa de mover seus sitiados trabalhadores do Estado para a solidariedade internacional. De fato, o “autoritarismo legal descentralizado” chinês tranca lutas em contêineres políticos locais, para que estes não possam nem alcançar a solidariedade nacional, e muito menos construir alianças internacionais. Gay Seidman tematiza essa questão. Em seu estudo sobre boicotes transnacionais de consumidores, ela questiona a viabilidade de um internacionalismo operário que não dá voz ao trabalho.[6] Em vez disso, ela enfatiza a importância contínua das lutas para democratizar os estados-nação e para melhorar seus regimes trabalhistas. Aqui ela apela a Polanyi para justificar seu foco no Estado como uma força potencialmente positiva, promovendo os interesses do trabalho. Como Polanyi, no entanto, ela não examina a relação entre Estado e sociedade para entender quando o Estado pode proteger os interesses do trabalho ou quando pode fazer um assalto ao trabalho.[7] Ela segue o Princípio do Nirvana, segundo o qual rejeitar uma solução, Ipso facto torna sua alternativa preferível.[8] Só porque a solidariedade internacional é inviável e problemática não implica, por si só, que a focalização no Estado ofereça uma solução melhor. Na era contemporânea, os Estados têm sido notoriamente hostis ao trabalho.

No entanto, muitos estudos recentes dão suporte à insistência de Seidman sobre a centralidade das lutas nacionais, bem-sucedidas ou não. Assim, em sua comparação das lutas trabalhistas na Coréia do Sul e nos Estados Unidos, Jennifer Chun concentra-se em lutas de classificação bem-sucedidas que priorizam o vínculo entre o movimento estatal e o movimento trabalhista, tornando a solidariedade internacional difícil de alcançar ou mesmo até de imaginar.[9] Uma variante interessante sobre esse tema é o estudo de Robyn Rodríguez sobre imigrantes transnacionais organizados por um Estado filipino que media os acordos com outros estados.[10] Aqui, o Migrante Internacional, um movimento popular de trabalhadores migrantes, organiza-se de forma transnacional – não pela construção de relações com trabalhadores de outros países, mas concentrando suas demandas no Estado filipino. É a exceção que prova a regra. Mais uma vez, o Estado enquadra e limita o contexto da luta. Todos esses estudos, e muitos outros, chamam a atenção para uma dimensão não-estruturada em Polanyi – sua tendência para reduzir o Estado à sociedade – e como o trabalho está bloqueado em uma relação interdependente e antagônica com o Estado que estabelece limites à própria possibilidade da solidariedade transnacional.

Localizando a Globalização[11]

Do ponto de vista da abordagem das limitações de Polanyi e as tensões com Marx, um dos livros mais interessantes aparecido recentemente é Grounding Globalization de Edward Webster, Rob Lambert e Andries Bezuidenhout (WLB), que compara as respostas do trabalho em três fábricas de linha branca, nomeadamente LG na Coréia do Sul (Changwon), Electrolux na Austrália (Orange) e Defy na África do Sul (Ezakheni).[12] Não há dúvidas sobre a importância do livro em se concentrar nas experiências dos trabalhadores além do local de trabalho, e colocá-los dentro de um contexto societal geral. A análise comparativa entre os países é importante. Mas seus desejos políticos dominam suas análises quando afirmam ver nos seus estudos de caso – marxistas e polanyianos – movimentos contrariando a maré do neoliberalismo. O contra-movimento torna-se uma miragem, uma fantasia que desacredita sua intenção de localizar a globalização.

O livro abre, com um engajamento promissor, com “O Problema de Polanyi e o Problema com Polanyi”, colocando cinco questões sobre a sociedade e o contra-movimento. (1) O que é essa sociedade que se defende espontaneamente contra o mercado? (2) Qual é a natureza do contra-movimento à mercantilização? O que reage e em que condições? (3) Qual o lugar, se algum tiver, do trabalho no contra-movimento? (4) Como devemos conceituar o poder no duplo movimento, a que que fontes de poder o movimento pode recorrer? (5) Em que escala devemos pensar no contra-movimento – local, nacional ou global? O problema é que a terceira parte de Grounding Globalization se afasta dessas questões, abandonando seu projeto original como uma escavadeira, cavando nas trincheiras da sociedade e explorando a experiência vivida da insegurança. Deixe-me ser claro. O livro é elegantemente organizado ao longo de linhas polanyianas. Parte I: Mercados Contra a Sociedade; Parte II: Sociedade Contra Mercados; Parte III: A Sociedade Governando o Mercado? Assim, na Parte I, vemos um estudo da globalização por suas consequências reais, mas diferentes – em termos gerais, o consentimento para o capitalismo, levando à intensificação do trabalho na Coréia do Sul; ameaças de fechamentos na Austrália; e estratégias de subsistência e de sobrevivência na África do Sul. Na Parte II, WLB identifica as seguintes respostas sociais ao capitalismo: em Changwon, a organização clandestina de um ramo da Federação Nacional do Trabalho (KCTU) e a criação de um Centro de Operadores de Contingência; em Orange, uma campanha contra o fechamento de uma fábrica, envolvendo uma aliança de trabalhadores e agricultores, apoio a um candidato político independente e uma tentativa mal sucedida de ligar as comunidades afetadas pelo fechamento dentro de uma rede global de Comités de ação da Electrolux; em Ezakheni eles reivindicam um sindicalismo de movimento social que ligasse as lutas por terra e trabalho, um experimento de orçamento aberto a nível local e organizações semi-formais baseadas na comunidade.

Tabela 1: Contrastando grandes transformações

  PRIMEIRA GRANDE TRANSFORMAÇÃO SEGUNDA GRANDE TRANSFORMAÇÃO
MERCANTILIZAÇÃO Norte: Mercantilização Rápida e Comoditização 

Sul: Conquista colonial e desapropriação de terras

Norte: liberalização rápida 

 

Sul: Ajustamento Estrutural

 

REGIME DE PRODUÇÃO Norte: Despotismo do mercado no local de trabalho 

Sul: Despotismo colonial

 

Norte: Substituição pelo despotismo hegemônico 

Sul: Despotismo do mercado

 

CONTRA-MOVIMENTO Norte: Emergência da hegemonia no local de trabalho e construção do Estado de bem-estar 

Sul: Movimento de Libertação Nacional, levando à independência política e ao corporativismo estatal

 North and South : Contra-movimento global embrionária no período pós-Seattle – FSM, novo sindicalismo global

Fonte: baseado nas Tabelas 3.1 (p. 53) e 3.2 (página 55) em Webster, Lambert e Bezuidenhout (2008) Grounding Globalization

Essa análise apresenta uma visão significativa da sociedade – seu significado, sua resistência, sua defesa, sua relação com o Estado, mas isso não é o que temos na Parte III, “A Sociedade Governando o Mercado?”. Como vemos na Tabela 1 acima, WLB evoca os elementos essenciais de uma Segunda Grande Transformação, contrastando-a com o relato de Polanyi dos contra-movimentos na Inglaterra nos séculos 19 e 20, a Primeira Grande Transformação. Aqui novamente, postulamos um “contra-movimento global embrionário”, mas qual é a evidência de sua existência? Mais uma vez, temos uma teleologia polanyiana: um passado maligno é primeiro homogeneizado e depois invertido em um futuro radiante. Essa falsa homogeneização da história, mas também da geografia (a dicotômica distinção norte-sul) torna-se uma fantasia para o internacionalismo operário e a sociedade utópica – um, um sonho marxista, o outro um sonho polanyiano. Vamos resolver cada um deles.

WLB traça duas formas de internacionalismo trabalhista, uma antiga e uma nova. Por um lado, havia o internacionalismo trabalhista, administrado por burocratas de carreira que operavam em uma organização hierárquica centralizada, com debate restrito e uma orientação diplomática, focada apenas no local de trabalho e nos sindicatos, estabelecida pelos trabalhadores brancos do sexo masculino do Norte. Por outro lado, hoje, temos a promessa de um novo internacionalismo trabalhista impulsionado por uma geração política de ativistas comprometidos, ligados por redes descentralizadas, envolvidos em debates abertos, com orientação mobilizadora e de campanha, focada na construção de coalizões com novos movimentos sociais e ONGs, dominadas por trabalhadores da África Austral, Ásia e América Latina.

Quais são os fundamentos desse novo internacionalismo operário? Nós apresentamos as manobras discursivas da SIGTUR (Iniciativa do Sul frente à Globalização pelos Direitos dos Trabalhadores), mas o que elas têm a ver com os trabalhadores de Ezakheni, Orange e Changwon? Certamente, se quisermos pensar sobre o internacionalismo trabalhista, precisamos considerar a experiência do trabalho nessas fábricas (sobre o qual, em última análise, não aprendemos muito), as conexões laterais entre os locais de trabalho, tanto as conexões de interdependência (por exemplo, o papel da terceirização) e as relações de solidariedade (construídas através de lutas comuns). Precisamos olhar para a cadeia produtiva e seus elos fracos, mas também a possibilidade de construir vínculos com outras frações da força de trabalho que não estão conectadas à indústria de bens de consumo. Se, por um lado, precisamos ter uma compreensão mais profunda da experiência vivida da insegurança, por outro lado, precisamos de um interrogatório muito mais elaborado sobre a natureza do “neoliberalismo”. Precisamos examinar as forças que estão por trás da reestruturação da indústria de bens de consumo em todo o mundo, e os obstáculos que isso cria para qualquer organização baseada na indústria. Sim, a produção ainda pode importar, mas qual é a base para pensar que o setor industrial é a unidade apropriada para se organizar? A WLB está brilhando sua tocha no lugar certo?

A WLB é boa em se mover verticalmente, localizando a experiência e a resposta ao neoliberalismo em seus contextos nacionais, mas não explicam por que esses contextos nacionais não se tornam uma estrutura de aço que encerra as possibilidades de solidariedade trabalhista dentro dos países, e muito menos entre os países. Poderia ser, como argumenta Seidman, que o internacionalismo trabalhista pudesse prejudicar os projetos nacionais que têm maior promessa de sucesso? Na África do Sul, por exemplo, como Webster et al. sabem muito bem, o movimento sindicalista está a caminho da defensiva, perdendo empregos para terras estrangeiras e para o setor informal. Os sindicatos, que representam o trabalho assalariado, uma aristocracia trabalhadora encolhida, estariam criando laços com sindicatos em outros países ou criando solidariedades mais amplas com os trabalhadores do setor informal na África do Sul? Os trabalhadores do metal estarão preocupados com os agentes de trabalho que exploram o mercado de trabalho nacional, ou deveriam estar ajudando a defender os trabalhadores contra o fechamento de plantas nos Estados Unidos? Independentemente do que os sindicatos deveriam fazer, os trabalhadores descritos em Grounding Globalization parecem estar em grande medida presos no localismo.

Se o sonho marxista do internacionalismo é frustrado nas rochas do localismo, qual será o destino do contra-movimento da sociedade polanyiana? Aqui, WLB fala de uma nova visão da natureza e do trabalho, da corporação socialmente responsável, de uma sociedade democrática ativa, de um novo sistema de comércio justo, de uma nova política global. Como um manifesto para um novo mundo que tem pouco a ver com o trabalho na era da insegurança, pelo menos, na evidência dos capítulos anteriores do livro. Finalmente, entre os mundos alternativos do internacionalismo e do contra-movimento, há uma tensão inexplorada. Por um lado, existe o projeto marxista de internacionalismo trabalhista que tenta ligar as classes trabalhadoras em fábricas, localidades, nações, regiões e no mundo, unidas pela sua exploração comum. Por outro lado, há o esquema polanyiano que une os participantes a um contra-movimento contra a mercantilização da terra, do dinheiro e do trabalho, um contra-movimento baseado na experiência do mercado, distinto da experiência de produção. Mas qual é a experiência mais saliente – a exploração, que potencialmente reúne operários como trabalhadores assalariados em escala geográfica, ou mercantilização, que reúne trabalhadores, agricultores expropriados, pessoas que lutam pelo acesso à água e à eletricidade?

O lugar onde se situa em relação a esta questão – exploração vs. mercantilização – ditará a estratégia que se desdobra em avançar: construir alianças de trabalhadores em fronteiras nacionais ou alianças locais entre pessoas que sofrem com a mercantilização. Seja qual for o projeto que seguirmos – e ambos são profundamente problemáticos – nossos quadros teóricos precisam se concentrar nos obstáculos à contestação e não no contra-movimento mundial embrionário ou globalização contra-hegemônica. Primeiro, precisamos de uma análise mais realista da produção e da mercantilização em escala mundial para discernir fendas na armadura capitalista, antes de celebrar o internacionalismo ou o contra-movimento.

CONTINUA NA PARTE 2

Notas

[1] Karl Polanyi (1944) The Great Transformation: The Political and Economic Origins of Our Time. New York: Farrar&Rinehart; and (2001) Boston: Beacon Press.

[2] Marx e Polanyi podem não ser tão diferentes assim em suas descrições da experiência do capitalismo. Marx sempre insistiu na mistificação da exploração, deixando aberta a possibilidade de lutas em torno da mercantilização. No entanto, Marx pensou que a exploração definia os limites e a direção da dinâmica do capitalismo – algo que Polanyi não considera.

[3] Peter Evans (2005) ‘Counter-Hegemonic Globalization: Transnational Social Movements in the Contemporary Global Political Economy’, in T. Janoski, A. Hicks and M. Schwartz, Handbook of Political Sociology (pp. 655-670). New York: Cambridge University Press; and Peter Evans (2008) ‘Is an Alternative Globalization Possible?’, Politics and Society 36(2): 271-305.

[4] Beverly Silver (2003) Forces of Labor: Workers’ Movements and Globalization Since 1870. Cambridge: Cambridge University Press.

[5] Ching Kwan Lee (2007) Against the Law: Labor Protests in China’s Rustbelt and Sunbelt. Berkeley and Los Angeles: University of California Press.

[6] Gay Seidman (2007) Beyond the Boycott: Labor Rights, Human Rights, and Transnational Activism. New York: Russell Sage Foundation.

[7] Essa relação entre o Estado e a sociedade é tão complexa quanto a entre o mercado e a sociedade. Polanyi apenas se concentra no último; para a primeira, precisamos recorrer a outras tradições. Ver Michael Burawoy (2003) ‘For a Sociological Marxism: The Complementary Convergence of Antonio Gramsci and Karl Polanyi’, Politics and Society 31(2): 193-261.

[8] Isso estava tradicionalmente no trabalho e no espírito dos russos, lutando contra o socialismo de Estado, que assumiu que, em razão do planejamento ser disfuncional, os mercados deveriam ser eficientes. Desmantele o planejamento estatal e o Nirvana aparecerá. O Nirvana acabou se tornando purgatório, mas sem saída assegurada.

[9] Jennifer Chun (2009) Organizing at the Margins: The Symbolic Politics of Labor in South Korea and the United States. Ithaca and London: Cornell University Press.

[10] Robyn Rodriguez (2010) Migrants for Export: How the Philippine State Brokers Labor to the World. Minneapolis: University of Minnesota.

[11] Nota de tradução: o termo original é “Grounding Globalization”, referindo-se ao livro de Edward Webster citado logo a seguir. O esforço de Webster é falar de “globalização” em termos de lutas locais, para então localiza-las em contextos sociais mais amplos. Assim, traduzimos “grounding” por “localizando” para evocar o movimento de mudança de escala analítica com fins de “dar chão” a um conceito demasiado abstrato.

[12] Edward Webster, Rob Lambert, Andries Bezuidenhout (2008) Grounding Globalization: Labour in the Age of Insecurity. Oxford: Blackwell.

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