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Por Immanuel Wallerstein
Tradução: Raul Nunes

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Minha biografia intelectual é uma longa busca por uma explicação adequada da realidade contemporânea, para que eu e outros possamos agir sobre ela. A busca era ao mesmo tempo intelectual e política, e sempre achei que não poderia ser uma coisa sem ser ao mesmo tempo a outra – para mim ou para qualquer pessoa.

Suponho que comecei essa missão quando estava no ensino médio, na cidade de Nova York durante a Segunda Guerra Mundial. Minha família era muito consciente politicamente e os assuntos mundiais estavam sempre sendo discutidos em nossa casa. A luta contra o nazismo e o fascismo era a nossa principal preocupação, e muito antes de Pearl Harbor. Também estávamos muito conscientes da grande divisão na esquerda mundial, aquela entre a Segunda e a Terceira Internacional. Mesmo na atmosfera silenciosa da unidade provocada pelo tempo de guerra, as questões que dividiam as duas Internacionais eram sobressalentes e refletidas para mim no nível local pelas diferenças políticas no Estado de Nova York entre o Partido Liberal e o Partido Trabalhista Americano. Quando entrei no Columbia College, em 1947, a organização política mais vibrante no campus durante meu primeiro ano foi o Comitê de Veteranos Americanos (AVC). E, embora eu fosse jovem demais para ser um veterano, participei das reuniões públicas da AVC e vi que ela foi dividida (e destruída) por essa mesma divisão.

Minha própria reação aos debates (e às discussões), e toda a leitura que fiz por consequência, foi compartilhada por apenas um grupo muito pequeno em todo o mundo. Os social-democratas me convenceram de que quase tudo o que eles diziam sobre os comunistas era correto – os males do stalinismo e do terror, os desvios sem princípios da linha partidária mundial, do discurso demagógico [langue de bois]. Mas, ao mesmo tempo, os comunistas me convenceram de que quase tudo o que eles diziam sobre os social-democratas estava correto – as concessões crônicas aos nacionalismos ocidentais, a incrível fraqueza de sua oposição à polarização capitalista, a falta de militância séria em relação à injustiça racial.

Politicamente, isso criou muitos dilemas para mim, com os quais tive que lutar desde então. Intelectualmente, isso me levou a uma questão que desenvolvi em meus escritos ao longo dos anos, a natureza do que chamei de movimentos anti-sistêmicos e como suas atividades foram estruturadas por restrições sistêmicas das quais eles nunca foram capazes de se libertar completamente. Em resumo, comecei a historicizar os movimentos, não apenas para entender melhor como eles fizeram as coisas que fizeram, mas também para melhor formular as opções políticas que estavam realmente disponíveis no presente.

Os primeiros anos do pós-guerra, de 1945 a 1950, foram dias inebriantes, quando tudo parecia possível. Eles terminaram para mim (e para muitos outros) com a guerra na Coreia. De repente, a presença do anticomunismo foi esmagadora e o macartismo começou a florescer nos Estados Unidos. Eu servi ao Exército dos EUA de 1951 a 1953, e quando voltei para Columbia decidi escrever minha dissertação de mestrado sobre o macartismo como um fenômeno da cultura política dos EUA. Recorri à distinção de Wright Mills em New Men of Labour[i] entre conservadores sofisticados e a direita pragmática, a fim de defender o argumento de que o macartismo era um projeto da direita pragmática, um projeto que se preocupava apenas ligeiramente com os comunistas, mas que era dirigido principalmente contra os conservadores sofisticados. Foi um ensaio bem recebido, amplamente citado na época. Confirmou meu senso de que eu deveria me considerar, na linguagem dos anos 50, um “sociólogo político”.

Decidi, no entanto, não fazer da política dos EUA minha principal arena de preocupação intelectual. Eu tinha, desde meus anos de ensino médio, um grande interesse no mundo não europeu. Acompanhei os eventos da Índia moderna em particular e li muito de Gandhi e Nehru. Em 1951, participei de um congresso internacional de jovens, onde conheci muitos delegados da África, em sua maioria mais velhos do que eu e já ocupando posições importantes nas arenas políticas de seus países. Em 1952, outro congresso de jovens foi realizado em Dakar, Senegal. De repente, nesse momento inicial, vi-me em meio à turbulência do que logo se tornaria os movimentos de independência (neste caso da África Ocidental Francesa).

Decidi fazer da África o foco de minhas preocupações intelectuais e de meus esforços de solidariedade. Por ter comando do francês e ter tido esses contatos iniciais, tornei-me um dos poucos acadêmicos que estudaram a África através das barreiras linguísticas europeias. Em 1955, obtive uma Bolsa Africana da Ford Foundation, para estudar sobre a África e escrever uma tese que compararia a Costa do Ouro (Gana) e a Costa do Marfim em termos do papel que as associações voluntárias desempenharam na ascensão dos movimentos nacionalistas nos dois países. Eu agora me tornara um estudioso da África, um papel intelectual que continuaria a desempenhar por duas décadas. Escrevi muitos livros e artigos sobre temas e questões africanas e, em 1973, me tornei presidente da Associação de Estudos Africanos (dos EUA). Durante um período de vinte anos, consegui viajar por toda a África, para talvez três quartos dos Estados separados.

Se minha jornada intelectual me afastou desde cedo dos terrenos familiares do meu país para os da África contemporânea, que ainda era um continente colonizado quando o visitei e comecei a estudá-lo, foi porque eu tive o pressentimento de que, nos anos 1950, a coisa mais importante que estava acontecendo no mundo do século XX era a luta para superar o controle do mundo ocidental sobre o resto do mundo. Hoje chamamos isso de preocupação com as relações Norte-Sul, ou com as relações centro-periferia, ou com o eurocentrismo.

É preciso dizer que, na década de 1950 e, de fato, durante muito tempo depois, minha avaliação do que era mais importante não foi compartilhada pela maioria das pessoas, para quem o que alguns chamavam de Guerra Fria entre democracia e totalitarismo e outros chamavam de luta entre a burguesia e o proletariado (sendo ambos os termos definidos de maneira bastante restrita) foi (e de fato para muitos continua sendo) a questão central definidora do nosso tempo. Minha jornada, portanto, não foi apenas uma batalha ascendente contra um amplo consenso no mundo político e acadêmico, mas contra os conceitos internalizados decorrentes dessa visão dominante em minha própria mente. Desde então, mudei-me da África como locus empírico do meu trabalho, mas credito aos meus estudos africanos ter aberto meus olhos tanto para as questões políticas fervilhantes do mundo contemporâneo, quanto para as questões acadêmicas de como analisar a história do sistema-mundo moderno. Foi a África a responsável por desfazer as partes mais bestificantes da minha herança educacional.

No decorrer de minha jornada, inicialmente pensei que o debate era apenas sobre a análise empírica da realidade contemporânea, mas logo percebi que também era uma questão das próprias ferramentas de análise. As que me ensinaram me pareceram circunscrever nossas análises empíricas e distorcer nossas interpretações. Lentamente, por cerca de vinte anos, minhas perspectivas evoluíram, até que nos anos 1970 comecei a dizer que estava tentando olhar o mundo de uma perspectiva que chamei de “análise de sistemas-mundo”. Isso envolveu duas importantes decisões intelectuais. A primeira foi que a escolha da “unidade de análise” era crucial. Tornei-me cada vez mais consciente de que toda a ciência social moderna presume que os limites do Estado constituem os limites das “sociedades”. Acabei por me convencer de que essa era uma suposição muito enganadora. Em vez disso, acabei por argumentar que a única unidade plausível de análise era o “sistema-mundo”, ou mais amplamente, um “sistema social histórico”.

A segunda decisão intelectual foi de que o chamado Methodenstreit [disputa de método] que sustentava e dividia toda a ciência social moderna – entre humanismo idiográfico e ciência nomotética – era um debate totalmente falso. Em vez de escolher lados, o que tudo e todos me encorajaram a fazer, de fato insistiram para que eu fizesse, fiquei convencido instintivamente e, mais tarde, de maneiras mais fundamentadas, de que todas as análises tinham que ser simultaneamente históricas e sistêmicas, se quisessem se engajar seriamente com a descrição e a explicação do mundo real.

As duas premissas básicas do meu trabalho são o sistema-mundo como uma unidade de análise e a insistência de que toda ciência social deve ser simultaneamente histórica e sistêmica. Nenhuma das premissas era popular ou recebida com entusiasmo, quando as discuti. Foi a primeira premissa que se tornou minha marca acadêmica e teve o maior impacto. Depois que apresentei a argumentação do sistema-mundo como uma unidade de análise, mais notavelmente no primeiro volume de The Modern World-System e, em segundo lugar, no ensaio “A ascensão e a morte futura do sistema capitalista mundial: conceitos para análise comparativa”[ii], ambos publicados em 1974, muitas pessoas responderam favoravelmente. Alguns estavam completamente convencidos e outros apenas disseram que o argumento tinha que ser levado a sério. Aqueles que contestavam a ideia de sistema-mundo com mais vigor não costumavam argumentar contra ela por motivos empíricos (que não era factualmente correto), mas mais frequentemente por razões epistemológicas (por não ser uma proposição tida como falsificável).

Descobri, assim, que não seria suficiente argumentar que a descrição do mundo real tinha que ser diferente das apresentadas anteriormente. Descobri que a batalha crucial era sobre como poderíamos saber qual descrição do mundo real era de fato verdadeira, ou mais verdadeira ou mais plausível ou mais útil que outra. Eu tive que batalhar em torno das questões epistemológicas para que eu e outros pudéssemos prosseguir com nossas análises dos processos sociais como um todo integrado e complexo. Voltei minha atenção cada vez mais para essas questões epistemológicas, nunca perdendo de vista como esses argumentos epistemológicos implicavam diferentes visões da realidade social.

Achei tudo isso intelectualmente frutífero. Descobri que, usando essas duas premissas, eu poderia reinterpretar muitos debates antigos e coletar novos e importantes tipos de dados que, de fato, na minha visão, iluminam a realidade contemporânea. Em particular, essa maneira revisada de encarar a realidade social esclareceu as escolhas históricas que foram feitas na construção de nosso sistema-mundo existente, bem como as que teremos que fazer no futuro próximo para a construção do sistema-mundo (ou dos sistemas-mundo) que o sucederá. A análise dos sistemas-mundo me permitiu variar amplamente em termos de questões concretas, mas sempre de maneira que as peças pudessem se encaixar no final do exercício. Não é que a análise dos sistemas-mundo tenha me permitido “descobrir a verdade”. Mas sim que ela me permitiu produzir o que eu considerava interpretações plausíveis da realidade social de maneiras que acredito serem mais úteis para todos nós ao tomarmos decisões políticas e morais. Também foi o que me permitiu distinguir entre o que são estruturas duradouras e as expressões momentâneas da realidade que nós regularmente reificamos em teorias da moda sobre o que é novo, como, por exemplo, a enorme produção recente relativa à chamada “globalização”.

Concentrei minha energia na descrição do funcionamento e desenvolvimento histórico do sistema-mundo moderno, que eu insistia ser uma economia mundial capitalista. Procurei descrever seus pilares institucionais, sua origem histórica e as razões pelas quais pensei que ele havia entrado em um período de crise sistêmica e, portanto, de transição caótica para uma nova ordem. Procurei produzir descrições analíticas das principais estruturas institucionais dessa economia mundial capitalista – os ciclos de Kondratieff, as cadeias de commodities, a partilha do rendimento familiar, o sistema iterestatal e seus ciclos hegemônicos e a geocultura –, além de uma crítica detalhada de por que tanto o desenvolvimento nacional quanto o desenvolvimentismo como modelo explicativo (teoria da modernização) são ilusões.

A palavra sistema frequentemente evoca imagens de suposição de equilíbrio e de teorias de consenso. Esta é a coisa mais distante da minha mente. De fato, a coisa mais interessante sobre os sistemas é como todos eles têm clivagens profundas, que eles procuram limitar institucionalizando-as. Georg Simmel, Lewis Coser e Max Gluckman discutiram isso há muito tempo. Mas é igualmente verdade que os sistemas nunca conseguem eliminar seus conflitos internos ou mesmo impedi-los de assumir formas violentas. Esse entendimento continua sendo o principal legado que temos do corpus de Karl Marx.

Mas como acabamos por compreender coletivamente de maneira bastante clara nas últimas décadas, existe mais de uma clivagem em qualquer sistema histórico. Portanto, comecei a gastar energia tentando analisar quais eram as principais clivagens no sistema-mundo moderno, como elas diferiam umas das outras, como se relacionavam entre si e como cada clivagem limitava os efeitos uma da outra. Fiz um esforço para separar o que considero as cinco principais clivagens do mundo moderno: raça, nação, classe, etnia e gênero.

Por fim, volto-me para a questão que em última instância mais nos interessa: o que fazer. Penso nisso como “resistência, esperança e engano”. Essas três palavras descrevem para mim a história do que chamo de movimentos anti-sistêmicos do sistema-mundo moderno. Eu tento relacionar a história desses movimentos ao esquema geopolítico mais amplo, bem como aos conceitos políticos que desenvolvemos para descrever as realidades e as aspirações que temos sobre essas realidades.

Antes de avançar para a elaboração da posição que chamei de análise dos sistemas-mundo, debati-me com o que poderia ser entendido por etnia. Tentei entender os escritos emocionantes e influentes de Frantz Fanon. Tentei tirar conclusões de 1968 sobre a posição política correta para “intelectuais radicais em uma sociedade liberal”. Tentei encaixar minha preocupação inicial com a África na minha virada posterior para o estudo do sistema-mundo moderno como um todo. E na introdução do The Modern World-System, fiz um primeiro esforço para confrontar as questões das estruturas do conhecimento.

Enquanto continuava lendo, observando, analisando e escrevendo, passei a reconhecer quais foram os temas recorrentes e subjacentes ao meu empreendimento intelectual, quais são para mim as perguntas mais difíceis de elucidar. Existem quatro que se destacam. O primeiro é claramente o peso que se deseja dar aos esforços universais que todos nós nos permitimos inventar, em oposição às reivindicações de avaliações particulares nas quais todos insistimos. É sempre fácil considerar as próprias visões como expressões do universal e as visões dos outros como tantas expressões de múltiplos detalhes. Mas se o universalismo autocentrado é Scylla, Charybdis é a diferença autocentrada, a afirmação de que toda expressão social, todo argumento acadêmico, toda percepção do mundo é igualmente válida/útil/virtuosa e que não existem distinções intelectuais nem morais que vale a pena fazer. Ambos os cardumes envolvem a destruição da possibilidade de analisar, apreciar e abordar coletivamente um mundo ao máximo racional e ao máximo democrático.

A segunda questão que se apresenta é a relação entre a realidade do mundo real e nossa percepção da realidade do mundo real. Dificilmente uma pergunta nova, mas que tem sido central nos debates das últimas décadas. Minha própria posição é, mais uma vez, bastante clara em minha própria mente. Existe um mundo real que é o objeto de nossas observações acadêmicas. Senão, por que alguém se preocuparia em escrever sobre isso? De qualquer forma, todos nós vivemos neste mundo real todos os dias e temos plena consciência de que precisamos levar isso em conta em tudo o que fazemos. Se não fizermos isso, seremos chamados de “psicóticos”, o que significa que somos incapazes de lidar bem com os desafios que constantemente nos são apresentados. Por outro lado, é igualmente claro para mim que só percebemos este mundo real através de um par de óculos, e que a maneira como esses óculos são forjados determina em grande parte o que pensamos enxergar. Dizer que a realidade é socialmente construída me parece evidente, desde que lembremos que a construção é verdadeiramente social – ou seja, coletiva e não individual. Mas insistir ao mesmo tempo que existe um mundo real e que só podemos vê-lo através dos espetáculos sociais que vestimos cria um dilema contínuo para o acadêmico sério. Requer reflexão constante sobre como nossos óculos distorceram nossa visão e como podemos melhorar a qualidade da refração. Mas cada reflexão sobre nós mesmos está sujeita à mesma contradição. É esse dilema que me levou a tornar as questões epistemológicas centrais para minhas análises.

O terceiro tema recorrente, novamente nada novo, tem sido o relacionamento da análise intelectual com a ação política, a antiga questão da teoria e da práxis. Eu já disse que pessoalmente não vejo qualquer conflito. Pelo contrário! Mas, mais uma vez, penso neles como cardumes a serem evitados. Por um lado, está a falsa alegação de desinteresse, que é o slogan tão amplamente divulgado como o suposto indicador de cientificidade. E, por outro lado, há submissão do acadêmico a alguma autoridade política, autoridade do Estado ou dos partidos, com base na lealdade política. Parece-me que é dever do estudioso ser politicamente e intelectualmente subversivo das verdades recebidas, mas que a única maneira de essa subversão ser socialmente útil é se ela refletir uma tentativa séria de se envolver e entender o mundo real da melhor maneira possível.

O tema final é como trazer para uma única análise o fato de que o mundo tem estruturas permanentes e que está constantemente mudando. Esta é, obviamente, uma segunda questão epistemológica que se apresenta, e à qual tenho prestado muita atenção desde o início. É difícil convencer os outros de que existe algum tipo de solução. A maioria de nós tende a fazer afirmações na forma de verdades que duram mais ou menos para sempre ou na forma de descrições de situações únicas. Mas nenhuma situação pode ser descrita como única, uma vez que as palavras com a qual a descrevemos são categorias que pressupõem características comuns a um grupo maior, portanto, a alguma estrutura permanente que parece ser estável. E, ao mesmo tempo, nenhuma verdade se mantém para sempre, porque o mundo está mudando inevitável e eternamente. De fato, temos que trabalhar com estruturas/categorias temporariamente úteis que carregam dentro delas os processos pelos quais eles são transformadas em outras estruturas/categorias.

Acredito que tenho sido bastante consistente em minhas posições ao longo do tempo em que escrevi. Ainda assim, devo reconhecer que houve três momentos de inflexão no meu desenvolvimento político e intelectual. O primeiro, como já indiquei, foi minha luta com as questões que atormentaram a esquerda durante a maior parte de sua história organizacional – a luta entre a Segunda e a Terceira Internacional. O segundo foi o meu encontro com a África e com os movimentos de libertação nacional, o que me permitiu colocar os debates das Internacionais em seu contexto adequado, essencialmente como debates principalmente dentro do mundo pan-europeu, debates que ignoravam a polarização fundamental em curso da economia capitalista mundial. E a terceira foi a revolução mundial de 1968, que experimentei diretamente na Universidade de Columbia, e que ajudou a afastar do meu pensamento as ilusões persistentes do liberalismo e a visão rosada dos movimentos anti-sistêmicos. Isso me deixou sóbrio.

É claro que espero que, durante todo esse tempo, tenha aprendido algo útil e, portanto, inevitavelmente, meus pontos de vista tenham evoluído em alguns aspectos importantes. Eu não fiz isso sem ajuda. Reconheço uma dívida intelectual contínua com Marx, Freud, Schumpeter e Karl Polanyi. Entre as pessoas que eu pessoalmente conheci e li muito extensivamente, as três que tiveram maior impacto na modificação de minha linha de argumentação (em oposição a aprofundar uma linha paralela de argumentação) foram Frantz Fanon, Fernand Braudel e Ilya Prigogine. E é claro que a influência deles ocorreu nessa ordem cronológica. Fanon representou para mim o ponto culminante da insistência das pessoas deixadas de fora do sistema-mundo moderno de que elas têm uma voz, uma visão e uma reivindicação não apenas à justiça, mas à valorização intelectual. Braudel me fez consciente, como ninguém mais, da importância central da construção social do tempo e do espaço e de seu impacto em nossas análises. E Prigogine me forçou a enfrentar todas as implicações de um mundo em que as certezas não existiam, mas o conhecimento ainda existia.

Argumentei que a análise dos sistemas-mundo não é uma teoria, mas um protesto contra questões negligenciadas e epistemologias enganosas. É um apelo à mudança intelectual, na verdade para “despensar” as premissas da ciência social do século XIX, como digo no título de um dos meus livros. É uma tarefa intelectual que é e deve ser também uma tarefa política, porque – insisto – a busca pelo verdadeiro e o bem é apenas uma busca. Se quisermos avançar para um mundo que seja substancialmente racional, no uso desse termo por Max Weber, não podemos negligenciar o desafio intelectual ou político. E não podemos segmentá-los em dois recipientes hermeticamente fechados. Só podemos batalhar desconfortavelmente ao avançar simultaneamente para nos aproximarmos de cada um deles.

[Este texto é uma versão ligeiramente adaptada do ensaio introdutório para The Essential Wallerstein, New Press, 2000.]

Traduzido de

WALLERSTEIN, Immanuel. The Development of an Intellectual Position.
Acesso em 4 de setembro de 2019. Disponível em: https://www.iwallerstein.com/intellectual-itinerary/

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Wallerstein por Brennan Cavanaugh. Endereço original: https://euroalter.com/2019/immanuel-wallerstein-better-world

Notas do tradutor

[i] Provavelmente “The New Men of Power: America’s Labor Leaders”, livro de Wright Mills de 1948

[ii] No original “The Rise and Future Demise of the World Capitalist System: Concepts for Comparative Analysis”.