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A investigação das experiências de vida de pessoas com deficiência tem levado a repensar o lugar que damos aos corpos, às naturezas e aos sentidos nas relações de produção de conhecimento. A tese do excepcionalismo, ou da singularidade humana – a convicção de que há uma diferença fundamental, qualitativa, entre a humanidade e as outras formas de vida – e as consequentes separações entre natureza e cultura, corpo e mente, implicadas por ela, há muito vem sendo utilizada para fundamentar diferentes formas de dominação. A domesticação tem sido a metáfora privilegiada para o controle e sujeição de distintas naturezas. Na dimensão dos corpos, em que seres humanos precisam disciplinar e regular a “natureza em si” a fim de tomar parte no mundo civilizado. Na dimensão da relação entre humanos, em que a natureza e a animalidade têm sido insistentemente acionadas para justificar a opressão de certos grupos sobre outros (mulheres, negros, homossexuais, pessoas com deficiência). Na relação entre os humanos e outros seres vivos, em que a relação com o mundo natural, ao se fundamentar no pressuposto da superioridade, autorizaria a gestão e o uso da natureza à serviço da vida humana.

O Conatus – Laboratório de pesquisa sobre Corpos, Naturezas e Sentidos abre seus horizontes de investigação para a compreensão de formas de vida que ultrapassam as divisões entre corpo e mente, natureza e cultura, pelas quais o pensamento moderno tradicionalmente se organiza. Atenta-se para o papel desempenhado por naturezas humanas e não-humanas – corpos, emoções, fluidos, materiais, animais, ambientes, objetos, máquinas e coisas – como agentes na produção de sentido e participantes ativos na composição dos mundos sociais. Busca-se investigar os modos singulares de existência gerados nas relações entre corpos, percepções e ambientes capazes de produzir vidas que, muitas vezes submetidas a todo tipo de constrangimento, e sem desconsiderar a dimensão do sofrimento, ainda assim encontram maneiras potentes e criativas de dar continuidade à existência. Seja investigando o papel das práticas, dos objetos e dos ambientes na formação de corporalidades dissidentes, seja observando técnicas, movimentos e relações afetivas envolvidas nos agenciamentos antropozootécnicos, a reflexão sobre os entrelaçamentos entre natureza e cultura na produção de mundos significativos está no cerne da produção deste laboratório.

O laboratório investiga as práticas e as experiências vitais dos organismos, desvendando mundos significativos que se constituem na relação entre corpos distintivamente constituídos, meios culturais e ambientes específicos. Busca-se explorar uma pesquisa e uma escrita antropológica sensível aos ritmos corporais, aos movimentos, aos processos relacionais de troca de substâncias e afetos, à experiência visceral de campo – e de vida – na produção de conhecimento. Tal posicionamento demanda práticas de desfamilizarização e desidentificação com certos hábitos enraizados nos modos “normais” e normativos de se fazer as coisas na vida cotidiana e na prática de pesquisa, abrindo, com isso, espaço para o estranhamento de visões estabelecidas no pensamento ocidental sobre as corporalidades e as naturezas.

Linhas de pesquisa

Corpos, naturezas e sentidos

Reunir pesquisas que incluam nos horizontes de investigação as inter-relações natureza-cultura, social-biológico, na compreensão de formas de vida. Atentar para o papel desempenhado por naturezas humanas e não-humanas como agentes na produção de sentido e participantes ativos na composição dos mundos sociais. Investigar as práticas e experiências vitais dos organismos, desvendando mundos significativos que se constituem na relação entre corpos distintivos, meios culturais e ambientes específicos.

Construindo conexões, tecendo vínculos: deficiências, acessibilidade e inclusão

Investigar a situação social de pessoas com deficiência e as ações de inclusão problematizando os pressupostos de normalidade presentes em instituições, políticas ou propostas educacionais. Compreender a acessibilidade não apenas pela via das acomodações técnicas, mas como ação que aproxima quem participa dela, que constrói e fortalece conexões. Incentivar novos ordenamentos sobre (a)normalidades capazes de criar conhecimentos, tecer vínculos e novas realidades sobre o que significa ser humano.

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O evento de lançamento terá como proposta reunir reflexões em torno das duas linhas de pesquisa que tecem o CONATUS, a fim de apresentar aos alunos e ao público interessado o novo laboratório que está sendo inaugurado no Departamento de Antropologia (GAP) da Universidade Federal Fluminense (UFF), sob a coordenação de Olivia von der Weid. Contará com a participação de colaboradores parceiros, composições que, ao potencializarem os encontros, fazem o laboratório ganhar mais existência.