Julie Mehretu - Empirical construction (2003)

Empirical Construction, by Julie Mehretu (2003)

Por Bruno Latour
Tradução: Lucas Faial Soneghet

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Esse post é a continuação da série Irreduções, cuja quarta parte pode ser encontrada nesse link.

Capítulo 3 – Antropológicas

3.1.1 Qual é o estado de coisas? O que são esses actantes dos quais falamos? Essas enteléquias, o que elas querem? Responder tais perguntas é o desafio delas. Escolher uma resposta é fortalecer uns e enfraquecer outros.

  • Cada actante faz o mundo todo para si mesmo (1.2.8). Quem somos nós? O que nós sabemos? O que podemos esperar? As respostas a essas perguntas pomposas definem e modificam suas formas e limites (1.1.6).

3.1.2 Eu não sei o estado de forças. Não sei quem sou nem o que quero, mas outros dizem que sabem por mim, outros que me definem, me ligam, me fazem falar, interpretam o que dizem e me alistam. Se sou uma tempestade, um rato, uma pedra, um lago, um leão, uma criança, um trabalhador, um gene, um escravo, o inconsciente, ou um vírus, eles sussurram para mim, sugerem, impõe uma interpretação do que sou e do que poderia ser.

Interlúdio IV: Explicando porque as coisas-em-si-mesmas se viram muito bem sem nenhuma ajuda nossa

Coisas-em-si-mesmas? Elas estão bem, obrigado. E como você está? Está reclamando de coisas que não foram honradas pela sua visão? Sente que essas coisas estão sentindo falta da iluminação de sua consciência? Mas se você perder a liberdade galopante das zebras na savana hoje de manhã, então pior para você; as zebras não lamentarão sua ausência, e de todo modo, você teria domesticado, matado, fotografado ou estudado elas. Não falta nada para as coisas em si mesmas, assim como não faltavam brancos na África antes deles chegarem lá. Entretanto, é possível forçar aqueles que estavam perfeitamente bem sem você a se arrependerem da sua ausência. Uma vez que as coisas são reduzidas a nada, elas imploram a você que esteja consciente delas e pedem que você as colonize. A vida delas está por um fio, o fio da sua atenção. O espetáculo do mundo começa a girar em torno de sua consciência. Mas quem cria esse espetáculo? Crusoé em sua ilha, Adão em seu jardim. Ainda bem que vocês estão aqui enquanto salvadores e nomeadores. Sem você “o mundo”, como vocês dizem, seria reduzido a nada. Vocês, os Zorros, os Tarzans, os Kants, os guardiões das viúvas e protetores das coisas órfãs.

Certamente é trabalho duro extrair o mundo do nada toda manhã, ajudado somente pelo bíceps e pelo ego transcendental.  Crusoé fica entediado e solitário em sua ilha por causa desse trabalho penoso. E a noite, quando você dorme, o que acontece com as coisas que você abandonou? Você logo se perde na floresta do inconsciente. Assim seus heróis se encontram duplamente infelizes. As coisas-em-si-mesmas silenciadas e vazias, esperam deles seu pão diário, enquanto, a noite, os heróis são super-homens sem poderes, que devoram seu próprio fígado e deixam suas tarefas incompletas.

O que aconteceria se nós considerássemos, por outro lado, que as coisas deixadas por si mesmas não têm falta de nada? Por exemplo, e essa árvore que outros chamam Wellingtonia? Sua força e suas opiniões se estendem somente até onde ela se estende. Ela enche esse mundo com deuses de casca e demônios de seiva. Se falta algo a ela, provavelmente não é você. Você que derrubaria florestas não é o deus das árvores. A árvore mostra o que faz, e enquanto o faz, descobre o que todas as forças que recebeu podem fazer. Você ri porque eu atribuo muita perspicácia a ela? Porque você pode derrubá-la em cinco minutos com sua motosserra? Mas não ria tão cedo. Ela é mais velha que você. Seus pais a fizeram falar muito antes de você silencia-la. Logo você não terá mais combustível para sua motosserra. Então a árvore com seus aliados carboníferos pode drenar sua força. Até então ela não perdeu nem ganhou, pois cada uma define o jogo e o período de tempo no qual seu ganho e perda devem ser medidos.

Nós não podemos negar que ela é uma força porque estamos misturados com as árvores faz tempo. Nós nos aliamos com elas de infinitas maneiras. Nós não podemos desentrelaçar nossos corpos, nossas casas, nossas memórias, nossas ferramentas e nossos mitos de seus nós, de sua casca e de seus anéis de crescimento. Você hesita porque eu permito que essa árvore fale? Mas nossa linguagem é folhosa e todos nós nos movemos da ópera para o túmulo em tábuas e em caixas. Se você não quiser levar isso em consideração, não deveria se envolver com árvores em primeiro lugar. Você diz definir a aliança? Mas essa ilusão é comum a todos aquelas que dominam e colonizam. Ela é compartilhada por idealistas de todas as cores e formas. Você balança seu contrato de arrendamento de um lado pro outro e diz que a árvore está ligada a você numa “relação pura de exploração”, e que ela é “mero estoque” (Heidegger, 1958). Puro objeto, puro escravo, pura criatura, a árvore, você diz, não entrou no contrato. Mas se você está misturado com as árvores, como você sabe que elas não estão usando você para alcançar seus objetivos obscuros?

Quem te disse que o homem era o pastor do ser? Muitas forças gostariam de ser pastores e guiar os outros enquanto eles se juntam em suas dobras para serem cortados e mergulhados. Em todo caso, não há pastor. Há muitos de nós, e nós somos muito indecisos para junta-las numa consciência única forte o suficiente para silenciar todos os outros atores. Já que você silencia as coisas das quais fala, por que não as deixa falar por si mesmas sobre o que elas estão pensando, como adultas? Por que você tem tanto medo? O que você está tentando salvar? Você gosta tanto da miséria dupla de Prometeu?

3.1.3 Aqueles que falam sempre falam de outros que não falam por si mesmos. Eles falam dele, daquilo, de nós, de você… do que isso é, do que aquilo quer, quando o outro aconteceu. Aqueles que falam se relacionam com aqueles dos quais eles falam de muitas maneiras. Eles agem como porta-vozes, tradutores, analistas, intérpretes, áuspices, observadores, jornalistas, adivinhos, sociólogos, poetas, representantes, parentes, guardiões, pastores, amantes.

  • Hobbes fala da “persona”, da “máscara”, ou do “ator” quando se refere aqueles que falam pelos silenciosos. Há muitas máscaras e nem todas elas são conhecidas pelos curadores dos museus de antropólogos.

3.1.4 Cada actante decide quem vai falar e quando. Há aqueles que deixa falar, aqueles em nome de quem fala, aqueles com quem fala. Finalmente, há aqueles que são silenciados ou aqueles aos quais só é permitido falar por gestos ou sintomas.

  • Enteléquias não podem ser particionadas em “animadas” e “inanimadas”, “humanas” e “não-humanas”, “objeto” e “sujeito”, pois essa divisão é uma das várias maneiras pelas quais uma força seduz outras. Podemos fazer deuses de pedra andar, negar almas às pessoas negras ou falar em nome das baleias. É sempre possível fazer os atores fazerem, embora permaneça um mistério o que eles fariam se deixados em paz (provavelmente eles nem seriam “pessoas negras”, “baleias” ou “deuses”).

3.1.5 Uma força é quase sempre cercada por poderes – por vozes que falam em nome de multidões que não falam (1.5.0). Esses poderes definem, seduzem, usam, armam, movem, contam, incorporam, e interrompem a força. Logo não é mais possível distinguir entre (1.5.1) o que a força diz ela mesma, o que diz de si mesma, o que os poderes dizem que ela é, e o que as multidões representadas por esses poderes teriam a dizer.

  • Quando nos aliamos a palavras, a textos, ao bronze, ao aço, a lugares, ou a emoções, acabamos distinguindo formas que podem ser classificadas, pelo menos em temos de paz. Mas essas classificações não duram muito até que sejam pilhadas por outros atores que classificam as coisas diferentemente.

3.1.6 Tudo pode ser reduzido ao silencia, e é possível fazer tudo falar. Para cada força há, portanto, uma reserva inesgotável de atores em nome de quem falar e para reivindicar.

  • Etnólogos nos mostraram que é possível fazer cinzas, leite coalhado, fumaça, ancestrais ou vento falarem. Sua timidez os impediu de verem como outros muito mais perto de casa fazem fósseis, precipitações, mata-borrão, genes e tornados falarem. Aqui, psicanalistas falam de um “inconsciente” tagarela, mas seu repertório é empobrecido e faz combinações de acordo com poucas regras. Além disso, psicanalistas tendem a dizer que o subconsciente só tem significado “subjetivo”. Ainda assim, tudo que precisamos fazer é ler o The Times para ver quantos atores além do inconsciente são feitos falar em infinitas formas: aqui, legiões de anjos são mobilizadas para suprimir o vício; e lá, milhares de páginas de computador imprimidas são geradas para parar uma planta nuclear; na próxima página, maiorias silenciosas são feitas gritar em nome de crianças ainda não nascidas; poucas páginas antes, os mortos são trazidos de volta a vida para parar a profanação de um cemitério; na página de trás, as baleias fizeram com que seus porta-vozes interrompessem a missão mortífera de um barco japonês.

3.1.7 Por definição, representantes fieis não podem existir (2.2.1), já que eles dizem o que seus representados não disseram e falam no seu lugar (3.1.3). Cada poder pode ser reduzido a sua expressão mais simples. Só é necessário que cada um dos atores em nome dos quais o poder fala, falem por sua vez. Então cada ator dirá o que ele mesmo quer, sem censura ou provocação. Não há misericórdia nas forças que reduzem umas as outras e desafiam seus blefes. “Você fala em seu nome, mas se eu falo com eles eu mesmo, o que será dito para mim?”

3.1.8 Só há uma maneira pela qual um ator pode provar seu poder. Ele deve fazer falarem aqueles em nome dos quais falou, e assim mostrar que todos eles dizem a mesma coisa. Uma vez que isso seja feito, então o ator pode dizer que não falou por si mesmo, mas “canalizou” fielmente os pontos de vista dos outros.

  • Um sindicato organiza manifestações com seus membros da mesma forma que o laboratório de Skinner organiza demonstrações com seus ratos. Em cada caso, é preciso que pareça que os manifestantes e os ratos digam eles mesmos aquilo que foram obrigados a dizer. E quanto aos anjos e demônios, há milhares de maneiras de achar sinais deles – testemunhas, estigmas, ou prodígios – que quebrantarão o coração endurecido.

3.1.9 Para fazer outras forças falarem, tudo o que você tem que fazer é colocá-las na frente da pessoa com quem você está falando para que ele pense que está decifrando o que as forças dizem, em vez de estar ouvindo o que você diz que as forças dizem. Isso não é quase sempre possível?

  • Eleições, manifestações em massa, livros, milagres, vísceras espraiadas no altar, vísceras espraiadas numa mesa de operação, figuras, diagramas e planos, choros, monstros, exibições no pelourinho – tudo foi tentado em algum lugar, alguma hora, numa tentativa de oferecer prova.

3.1.10 Já que um porta-voz sempre diz algo diferente do que aqueles que ele faz falar, e já que sempre é necessário negociar a similaridade a diferença (1.2.1), sempre há espaço para controvérsia sobre a fidelidade de qualquer interpretação. Uma força sempre pode se insinuar entre um falante e aqueles que este faz falar. Sempre é possível faze-los dizer algo a mais.

  • Os manifestantes não disseram que queriam a semana de quarenta horas – eles só apareceram aos milhares; os ratos não disseram que tinham reflexos condicionados – eles simplesmente endureceram sob choques elétricos. Outros podem, então, intervir. A presença de trabalhadores pode ser traduzida dizendo que eles foram “pagos pelo sindicato”, e a rigidez dos ratos pode ser interpretada como “um artifício experimental”.

3.1.1 Não há final natural para essas controvérsias. Elas sempre podem ser reabertas (3.1.6). O único jeito de encerra-las é impedir que outros actantes levem aqueles que forem alistados a se perderem, ou que os transformem em traidores. No final, interpretações sempre são estabilizadas por um arranjo de forças.

3.1.12 Uma força se torna potente somente se fala por outras, se pode fazer aqueles silenciados falarem quando chamados a demonstrar sua força, e se pode forçar aqueles que a desafiaram a confessar que, de fato, estava dizendo o que seus aliados diriam.

  • O sindicato não pode impedir que seus oponentes da direita interpretem a manifestação diferentemente. Skinnner não pode impedir que seus “queridos colegas” interpretem seu experimento de outras maneiras. Se pudessem, eles certamente o fariam, mas do jeito que as coisas estão, eles não podem. Outros os arruinariam se tentassem.

3.2.1 Qual é o estado das coisas? Onde as coisas estão? Qual é o balanço das forças? Usando as multidões que fazem falar, alguns actantes se tornam poderosos demais para definirem, brevemente e localmente, do que se trata. Eles dividem actantes, os separam em associações, designam entidades, dotam essas entidades com uma vontade ou uma função, direcionam essas vontades ou funções para objetivos, decidem como determinar que esses objetivos foram alcançados, e assim por diante. De pouco a pouco, eles ligam tudo junto. Tudo empresta suas forças a uma enteléquia que não tem força alguma, e o todo é feito “lógico” e “consistente” – em outras palavras, forte (2.1.8).

  • Não estou tentando evitar responder à pergunta “Qual é o balanço das forças?”. Entretanto, devemos nos livrar do matagal para que todas as respostas possam se mostrar

3.2.2 Nenhum dos actantes mobilizados para assegurar uma aliança para de agir por si mesmo (1.3.1, 1.3.4). Cada um deles continua a fomentar suas próprias tramas, formando seus próprios grupos, e servindo outros mestres, vontades e funções.

  • Forças sempre são rebeldes (1.1.1); eles se emprestam, mas não dão (1.5.1). Isso é verdadeiro par aa árvore que surge novamente, para os gafanhotos que devoram as plantações, para o câncer que ganha dos outros em seu próprio jogo, para os mulás que dissolvem o império persa, para os sionistas que afrouxam o poder dos mulás, para o concreto que racha na estação de energia, para o azul acrílico que consome outros pigmentos, para o leão que não segue as predições do oráculo – todos estes tem outros objetivos e outros destinos que não podem ser resumidos. No momento que viramos nossas costas, nossos amigos mais próximos se alistam sob outras bandeiras.

CONTINUA NA PARTE 5

Referência:

LATOUR, Bruno. The pasteurization of France. Harvard University Press, 1993.

LATOUR, Bruno. Les microbes, guerre et paix: Irreductions. AM Métailié, 1984.