Sempre uma estrangeira, sempre em casa (Parte 2), por Saskia Sassen

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Por Saskia Sassen
Tradução: Alberto L. C. de Farias
Revisão: Raul Nunes

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Veja a parte 1 de “Sempre uma estrangeira, sempre em casa” aqui.

Um verão no deserto texano

Uma das experiências memoráveis que me conectaram a alguns aspectos políticos específicos dos Estados Unidos aconteceu depois do meu primeiro ano em Notre Dame. Fui convidada para fazer parte de uma grande equipe de pesquisa dirigida por Bill D’Antonio, que estava indo para Fabens, no Texas. Esta era uma pequena cidade na fronteira não muito longe de El Paso. Fomos financiados pela Fundação Robert J. Kennedy e pretendíamos mapear a cidade para abordar várias questões relativas às relações entre os Anglos e a população de origem mexicana. Uma delas envolveu terras tomadas pelos fazendeiros Anglos de legítimos proprietários de origem mexicana. Outras questões diziam respeito à mão de obra migrante, aos imigrantes sem documentos e ao tratamento policial dado aos residentes de origem mexicana – em suma, questões que não eram desprovidas de controvérsia. Nós devíamos passar dois meses lá. Fizemos um trabalho tão bom de desenterrar a história invisível dessa comunidade e a grilagem de terras pelos fazendeiros Anglo que eles nos levaram ao tribunal e obtiveram uma liminar contra o estudo já publicado

Aquele foi um verão como nunca tive antes ou mesmo depois. Nós dirigimos até o Texas numa mistura heterogênea de carros, desde um Impala vermelho imponente, impraticável, até um pequeno Volkswagen. Nós dirigimos por três dias, e eu tive meu primeiro gosto desse tipo de experiência americana. Nos distribuímos por várias casas da cidade. Aquela em que nós três ficamos – logo referida como a casa das mulheres – tinha o deserto como seu quintal. Quando você abria a porta dos fundos, tudo o que via era uma faixa interminável de areia e arbustos.

A equipe tinha alunos de várias disciplinas. Entre eles estava Tim McCarthy, uma pessoa excepcional, extremamente ativa no movimento contra a guerra e fundador de uma comuna em South Bend que praticava o budismo. Os membros da comuna eram todos pacifistas, vegetarianos e, aparentemente, muitos outros “ismos” dignos. Tim era uma mistura de paixão, espiritualismo e inteligência. Eu imediatamente me apaixonei, mas nunca disse a ele ou revelei isso – ele era tão espiritualizado, tão consumido com seu pacifismo e sua luta pela justiça que teria parecido uma invasão. Durante aqueles dois meses no deserto, eu o amava, desejava-o, mas sentia que qualquer expressão violaria a serenidade que ele parecia construir em torno de si. Poucos meses depois de voltarmos, ele se matou a tiros em frente à loja onde comprou a arma, sentado na rua, no meio do dia, em Berkeley. Ele tinha se desesperado com o mundo. O horror e a desolação que senti com sua morte e a absoluta falta de esperança que ele deve ter sentido eram quase insuportáveis. Tiveram o efeito de focar minha mente com uma intensidade que era uma forma de violência. Senti a solidão, o silêncio ensurdecedor que Tim deve ter sentido ao seu redor quando decidiu se matar. Para muitos de nós, a luta contra a guerra e a injustiça foi – é – política. Para Tim, tornou-se existencial.

Mas naquele verão no deserto, a morte de Tim ainda não tinha acontecido, nem a ação judicial contra nosso estudo. Eu experimentei aquele verão – meus sentidos totalmente alertas e minha mente correndo para qualquer ambiente ou momento em que eu me encontrasse. Eu me sentia como uma jornalista investigativa rastreando a história suja da cidade. E me senti suspensa no tempo e lugar, minha vida universitária era uma vaga lembrança. Eu me lembro de uma caminhada com Tim, nós dois sozinhos subindo as montanhas para encontrar um curandeiro que nos apresentaria ao peiote. Sim, lemos todos os Teachings of Don Juan de Carlos Castaneda. Caminhamos e caminhamos pela paisagem mais deslumbrante, arrojada, solitária, o sol se pondo sobre nós. Não vimos nenhum outro humano. Não encontramos o curandeiro, mas encontramos o que pensávamos ser o peiote. Sentamo-nos até tarde da noite, no alto de um parapeito de pedra. Voltar não foi fácil.

Enquanto estava naquela cidadezinha texana no deserto, liguei-me a alguns ativistas locais, em grande parte associados à teologia da libertação e às comunidades de base, dois movimentos radicais dentro da Igreja Católica que se multiplicaram entre os pobres em toda a América Latina. Tim e eu fomos com um dos padres, um jesuíta, que ia fazer a missa em alguma comunidade remota. Significava cruzar o Rio Grande para o México e depois, claro, voltar. Não foi uma operação de rotina, embora frequente para o padre. Havia riscos, não só para si, mas também para as comunidades que ele visitava do lado mexicano – principalmente porque a teologia da libertação era inimiga do poder. O padre era uma figura muito amada, respeitada e honrada nesta comunidade. Um padre dando missa era um evento raro e precioso aqui. Pessoas de aldeias vizinhas também vieram.

Eu nunca vou esquecer de chegar ao pequeno aglomerado de cabanas do outro lado do rio. Foi uma experiência visual avassaladora: uma mistura de vastos espaços, amplas estruturas de lama e extrema escassez; não era a aglomeração habitual de pequenos barracos que associamos a esse tipo de pobreza. Tudo era da cor da terra do rio seco – bege no meu vocabulário mental. Assim foi a água que nos ofereceram. Mas o calor e a sede eram insuportáveis; enquanto bebia a água, agarrei-me ao pensamento de que meu crescimento na América Latina me proporcionara uma mistura saudável de imunidades a diversas bactérias. Não, não fiquei doente. Em uma prática comum, a água é mantida em uma grande cuba de modo que a terra argilosa do rio filtrava a água na medida em que ela afundava lentamente durante horas até o fundo. O que sobrou foi, de fato, a água da cor da terra clara, mas ela havia sido filtrada. Ao viajar pelo mundo, carrego essa experiência como um fato reconfortante. Confesso, penso em mim mesmo como tendo um estômago de ferro, o que obviamente não é verdade em nenhum sentido do termo.

A Academia Americana: em busca da Economia Política

Retornar à academia depois daquele estranho verão em uma cidade do deserto do Texas foi uma tarefa árdua. Eu decidi que a sociologia não estava me levando ao tipo de questões com as quais eu me importava – basicamente, economia política crítica. Propus ao reitor de artes e ciências um programa de economia política que exigisse uma ou duas áreas de especialização de doutorado em economia. Isso foi no meu segundo ano. Foi aceito depois de muita argumentação de minha parte, e da promessa de recrutar estudantes do departamento de sociologia para o meu novo “programa”. Eu recrutei um: Gilberto Cardenas, um dos meus companheiros de guerra do grupo de teoria. Ele desistiu depois de algumas semanas. Então, o programa tinha um aluno, moi.

Estudar economia em Notre Dame incluiu a história das ideias econômicas ensinadas por Stephen Worland, o que significava que você começou com o oikos do tratado de Aristóteles, chegou aos fisiocratas e, finalmente, mergulhou na economia neoclássica. O efeito foi, naturalmente, tornar problemática a própria categoria de economia, tornar legível o trabalho de construção conceitual de um domínio distinto e relativamente autônomo na sociedade – trabalho que se estendeu ao longo dos séculos e envolveu muitas escolas de pensamento diferentes. Desde que fiz o seminário de Weigert, não tive a agitação intelectual que o curso de Worland me causou. Naquela época eu também me envolvi com a Union of Radical Political Economics (URPE). Lembro-me de Herb Gintis, um dos fundadores, dando uma palestra em Notre Dame, que me convenceu de que isso era para mim. Eram dias inebriantes para a URPE, um esforço coletivizado para produzir uma economia política crítica sobre os Estados Unidos, a guerra, o racismo. Quando me mudei para Nova York anos depois, o coletivo local da URPE, especialmente a bancada feminina, tornou-se um dos meus principais lares intelectuais.

Minha tese foi uma tentativa de uma economia política crítica dos Estados Unidos a partir da perspectiva da condição dos negros e latinos. Não era nem sociologia, nem economia e, evidentemente, foi irritante para quase todos os membros do meu comitê de tese. Em discussões individuais, tudo estava bem. A “civilidade de Harvard” governou. Mas quando eles se encontraram como um comitê de defesa, as múltiplas repulsas – entre sociologia e economia, entre economia e minha posição político-econômica – foram demais. Ela foi rejeitada. Embora chocante, de alguma forma não foi devastador. Quando penso em um estudante de doutorado hoje recebendo esse tipo de rejeição, tenho a sensação de que seria muito mais traumático. Bem, talvez a minha experiência sugere que não precisa ser.

A próxima parada foi a filosofia na França. Aqueles eram os dias: Gilles Deleuze e Felix Guattari, Michel Foucault, Louis Althusser e Etienne Balibar, Nicos Poulantzas, todos explodiram na cena intelectual, e todos na França. Naquela época, eu acabara de me casar com um filósofo político radical – um terror no campus de Notre Dame – que tinha conseguido um Fulbright para lecionar na França. Então, lá fomos nós, a vida foi uma aventura, e eu mal me lembro do meu fracasso em conseguir um PhD. (Embora o lado holandês prático em mim, um dos canais através dos quais eu experimento a vida, garantisse que todas as cópias necessárias fossem guardadas em segurança na casa de um amigo em Notre Dame, só para o caso de…)

Em busca de Hegel

Começou então uma terceira fase na minha Bildung [formação cultural] e na minha formação política. Como de costume, eu tinha alguma ideia sobre o que eu realmente queria fazer, não importado que eu pudesse não ser capaz de encontrá-la. Dado o forte domínio da leitura althusseriana de Marx – a “ruptura epistemológica” –, estava convencida de que havia tempo para mergulhar nessa leitura. A leitura hegeliana de Marx, em contraste, estava ameaçada, especialmente quando se tratava da interpretação clássica de Jean Hypolitte, o grande tradutor francês de Hegel. Descobri que Jacques D’Hondt, um dos principais intérpretes hegelianos de Marx e o último aluno vivo de Hypolitte, lecionava em Poitiers. Ele havia fundado o Centre de la Recherche et Documentation sur Hegel et Marx. O Centre tinha sido um destino para muitos dos marxistas hegelianos da Itália, como Lucio Colletti. Além disso, tendo crescido na América Latina como estudante, em um meio intelectual muito marxista, todos conhecíamos Jean Garaudy, que passou muitos anos na América Latina, especialmente no Brasil, e que também foi professor em Poitiers. Então Poitiers era para mim, não a Paris glamourosa. Eu estava em busca do que estava em risco de perda, em vez do que havia entrado em cena com enorme vigor e glamour, com a promessa de um futuro. De fato, ser um estudante em Poitiers e sentar nas aulas de Jacques D’Hondt era um lembrete constante disso.

D’Hondt ministrou uma aula obrigatória para todos os alunos em seu último ano de cursos de pós-graduação em filosofia. A sua não era uma perspectiva de moda. E os alunos da turma (cerca de cinquenta) o avisaram: eles continuamente conversavam e faziam barulho, muito abertamente, não o escutando. Ele andava de um lado para o outro, sem importar o nível de barulho, não importava a falta de atenção. Eu acabei avançando progressivamente até estar sentada na primeira fila para ouvi-lo. Na primeira aula, achei que os alunos não tinham entendido que ele havia começado a dar aulas e tentei calá-los. Bem, eles me repreenderam! Eu havia conseguido me construir em um instante como uma estudante um pouco estranha – não importava minhas credenciais latino-americanas em tudo isso, e não importava que eu estivesse muito mais perto da leitura de Althusser. Os estudantes estavam todos ansiosos para obter a leitura althusseriana, mas estavam presos a uma leitura hegeliana. Eu tinha experimentado a intensidade com que os estudantes podiam rejeitar um professor em nome de ideias ainda como uma estudante de filosofia do primeiro ano na universidade de Buenos Aires (onde eu tinha acabado aos dezesseis anos tendo terminado meu ensino médio cedo e, portanto, era jovem o suficiente para ser surpreendida com a forma como os estudantes lidavam com os seus professores). Ainda assim, Poitiers foi um choque.

Dado que os estudantes enviaram D’Hondt para o exílio interno, tive grande acesso a ele e fui convidada para ser um membro do Center. Tornou-se minha biblioteca, meu escritório, minha casa intelectual. Eu era tipicamente a única aluna ali. Fiz minha tese com D’Hondt sobre a possibilidade de métodos centrados na lógica dialética. Eu pude ler os matemáticos e lógicos que Jean Piaget reuniu em torno de si para explorar questões de lógica formal e dialética ou de forma mais geral “não formal”. E consegui ler lógicos da Alemanha Oriental, como Ivan Narsski – sim, em alemão! Era mais fácil do que ler Kant em alemão aos quinze anos em Buenos Aires, embora essa tivesse sido definitivamente uma boa prática de resistência.

A defesa da tese foi com Jacques D’Hondt e Guy Planty-Bonjour – um erudito heideggeriano muito conceituado com quem eu havia feito uma de minhas áreas de especialização – e uma terceira pessoa que não posso recordar. Um dos comentários do júri, mesmo quando me deram as maiores honras, foi que, embora escrita em francês, aquela era uma tese anglo-saxônica: muito analítica e frugal, sem meandros no estilo francês nos bosques e fendas do conhecimento erudito. Eu ainda posso vê-los chegar a esta observação, a luta para articulá-la e colocar o dedo naquilo que foi considerado estranho, mesmo quando expressavam sua admiração pelo trabalho.

A defesa foi realizada às 7 horas da manhã ou por aí, em um horário não habitual para esses professores. Eles foram muito gentis nisso; eu estava decolando de volta aos EUA naquele dia, grávida de sete meses, com meu marido esperando na estação de trem para pegar o trem para o aeroporto de Paris. Quando saí do belo edifício medieval onde a Faculté des Sciences Humaines estava localizada na época, tive a sensação mais doce: eu havia concluído este projeto e isso me deu uma noção muito precisa do que pode ser melhor descrito como posse.

Escrever esta tese foi uma experiência extraordinária. De muitas maneiras eu tinha me enterrado em um mundo que, embora real, não era um mundo ao qual eu pertencia e não era do momento, o momento sendo marcado por tipos muito diferentes de perguntas e paixões. Eu era uma imigrante ilegal por assim dizer, certamente sem documentos. Foi emocionante escrever esta tese sobre lógica dialética, tão radicalmente diferente do que eu vinha fazendo. Isso teve um impacto profundo na minha maneira de pensar como acadêmica, como pesquisadora. Mas é um elo invisível, não registrado, em minha vida acadêmica/intelectual: a tese está arquivada no sistema de bibliotecas francês, mas eu nunca me refiro a ela, nunca a cito e nunca tentei publicá-la, embora tenha recebido consultas ao longo dos anos de pessoas que a conheceram.

Indo para os Estados Unidos: Segundo Round

Retornar aos Estados Unidos parecia estranho. Eu sabia que estava indo para o novo mundo, mais uma vez. E o que me esperava era um novo projeto que havia sido iniciado sem o meu conhecimento muitos meses antes. Depois de eu ter deixado Notre Dame, parece que o houve um inferno por causa do que tinha acontecido em minha defesa. Eu nunca escrevi para ninguém em Notre Dame ou reclamei. Eu havia acabado de sair. Mas a questão chegou até o decano das artes e ciências, em parte porque meus exames de doutorado em ambas as disciplinas, economia e sociologia, tinham sido considerados um dos melhores desde “sempre” (o que quer que isso possa significar) e, portanto, a rejeição da minha tese foi questionada. O reitor descobriu que pelo menos parte da falha estava na conduta do comitê. Pouco antes dessa defesa, instada pelo meu marido D. J. Koob, eu tinha posto para circular um de meus trabalhos, parte proposta, parte ensaio, sobre a crescente importância das migrações transfronteiriças na construção de relações transnacionais. Lembro-me vagamente, embora não com certeza, de enviá-lo ao Consortium for Peace and World Order – parecia ser o meu tipo de lugar. O resultado final foi que eu tinha recebido uma bolsa de pós-doutorado, não importando a minha falta de doutorado; ainda mais surpreendente, a oferta encontrou seu caminho para mim em Poitiers depois de percorrer a rede acadêmica norte-americana em busca de seu destinatário.

O pós-doutorado foi para o Harvard’s Center for International Affairs. Vários estudiosos de Harvard – Ray Vernon, Joseph Nye, Robert Keohane e Samuel Huntington – estiveram trabalhando na identificação e medição da existência de relações transfronteiriças que não envolvem os estados nacionais como atores-chave: corporações multinacionais, turismo, organizações religiosas e assim por diante. A minha proposta sobre as migrações internacionais como instância de relações transnacionais acrescentou o que era, na altura, uma nova instância para esta lista.

Que eu tenha acabado lá dentre todas as instituições possíveis é, dependendo do seu gosto, engraçado ou ridículo. Esta foi uma oferta generosa ao nível salarial de um professor assistente, difícil de rejeitar naquele momento da nossa vida. Mas eu não tinha PhD. Escrevi a Notre Dame, e dada a repercussão após a rejeição do comitê, eles estavam prontos para mais ou menos me enviar meu PhD. Julian Samora desempenhou um papel crucial para garantir isso. Eu nunca mais voltei; recebi meu PhD pelo correio.

Acabar no Center for International Affairs foi, para o meu olhar europeu, irônico. Até então referido como CFIA, para evitar todas as confusões, virou alvo por causa do ativismo antiguerra. Um de seus membros proeminentes, Henry Kissinger, serviu como secretário de Estado durante um dos períodos mais tempestuosos da história dos EUA. Os bolsistas eram em sua maioria homens extremamente distintos de várias esferas da vida: ex-governadores, ex-editores de importantes jornais, bem como acadêmicos. Entre nós, os tipos juniores, estava Dan Yergin, que escreveu o best-seller The Prize e Enid Bok – a única outra mulher.

O primeiro almoço foi oferecido por Henry Rosovsky, o reitor muito admirado de artes e ciências. Fui com meu marido – um descuido da minha parte, já que tínhamos sido instruídos a não levar cônjuges. Eu estava grávida, e devo ter olhado invulgarmente em volta naquele cenário e naquele círculo muito mais jovem do que eu. Fui cumprimentada pelos anfitriões do Center, e ficou claro, embora não dito, que eles assumiram que meu acompanhante era o colega. Posso lamentar ou projetar minha própria surpresa com o motivo de estar ali, mas quando clarifiquei timidamente quem era o colega, juro que houve, por alguns segundos, um silêncio tão grávido quanto eu. Então esse foi o começo da minha nova vida no novo mundo, segundo round.

D.J. Koob e eu decidimos que o único lugar para morar na América era Nova York. Recebi uma oferta de Nova York – no Queens College da City University of New York (CUNY), onde mais! – e eu a aceitei. Harvard teve sobre Koob, o filósofo radical, o efeito de convencê-lo de que bancos internacionais eram sua única opção para ganhar a vida. Sua brilhante tese sobre Heidegger, linguagem e política não foi bem recebida pelos acadêmicos em posição de lhe oferecer um emprego. Seus temas eram assuntos que tinham uma base ainda precária na academia americana. Além disso, seu tratamento desses assuntos implicou uma crítica de Hannah Arendt por não ser radical o suficiente – no sentido de não conseguir chegar aos aspectos fundamentais da política, nas raízes das categorias para análise – no momento em que ela reinava suprema, ao menos em alguns círculos. E Heidegger ainda era visto principalmente como um teórico nazista/apologista. Muitas rejeições levaram Koob a uma partida radical para um mundo radicalmente diferente, um mundo transparente nas suas premissas fundamentais. Quando os bancos podem se tornar um alívio para um intelectual, estamos olhando diretamente para os horrores do academicismo estreito e autoindulgente. Isso causou arrepios no meu corpo enquanto eu me preparava para começar uma vida como professora.

Traduzido de
SASSEN, Saskia. (2005), Always a Foreigner, Always at Home. In: SICA, Alan; TURNER, Stephen (Eds.). The Disobedient Generation: Social Theorists in the Sixties. Chicago e Londres: The University of Chicago Press.

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