Curso Ontologia do presente: Neoliberalismo, antropoceno, populismo (2019.2), por Frédéric Vandenberghe

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Abstract Clock, by Britt Hallowell

Disciplina IFCS/UFRJ 2019.2

Ontologia do presente: Neoliberalismo, antropoceno, populismo

Professor: Frédéric Vandenberghe

 Horário: 14h às 17h (segunda-feira)

Tempos sombrios … Precisamos desesperadamente de pistas para nos orientarmos intelectualmente, ideologicamente e politicamente. 1989 (queda do muro de Berlim) 2001 (o ataque terrorista em NY), 2008 (a crise econômica dos ‘subprimes’) e 2016 (a eleição do Trump, o Brexit e, para nós, a eleição do “inominável” em 2018) são marcadores de uma nova época. Para estimular a imaginação, a chamaremos de “segunda pós-modernidade”. Ela constrói-se sobre as ruínas da primeira e, trocando de sinal, radicaliza a crítica e desfaz  o “sistema” em tempo real.

Neste curso, exploraremos livremente os contornos da ontologia do presente. Abriremos sua interpretação com três palavras chave: neoliberalismo, antropoceno e populismo. Ainda que nenhuma dessas noções sejam conceitos analíticos, elas nos servirão como guias para nos orientarmos em vastas literaturas que apresentam um diagnóstico crítico do tempo presente. Nossa hipótese de trabalho é que as vicissitudes do (pós)capitalismo, do (pós)industrialismo e da (pós)democracia liberal são sistêmicamente interconectadas. Teremos que descobrir, entretanto como eles o são. Mais uma vez, o desafio é, como já dizia Hegel, de “capturar o nosso tempo em conceitos” e, se é que é possível, de unificar as perspectivas numa teoria sociológica do tempo presente.

Como o curso é exploratório e as bibliografias são vastas, as aulas serão necessariamente mais colaborativas e dialógicas. A bibliografia que segue é indicativa da amplitude do curso. Cada semana as leituras serão indicadas e distribuídas entres os participantes. Como trabalho final do curso sugerimos uma “análise da disjuntura” com ênfase especial no caso brasileiro. 

I. Tempos sombrios

Semana 1: Introdução: A Ontologia do Presente

Vandenberghe, F. (2018): “The Tunnel at the End of the Light”, Theory. Newsletter of RC 16 (winter), pp. 11-14.

De Souza, H. J. (Betinho): Como se faz análise de conjuntura?, pp. 9-17. Petrópolis: Vozes.

Semana 2: Tempos sombrios

Arendt, H. (1968): “A humanidade em tempos sombrios” in Homens in tempos sombrios. São Paulo: Companhia das letras.

Fukuyama, F. (1992): O fim da História e o último homem. Rio de Janeiro: Rocco, 1992.

Huntington, S. (1997): choque das civilizações e a recomposição da nova ordem mundial. Rio de Janeiro: Objetiva.

Kaplan, R. (1994): “The Coming Anarchy. How scarcity, crime, overpopulation, tribalism, and disease are rapidly destroying the social fabric of our planet”, The Atlantic, February.

Semana 3: Novos tempos sombrios

Fraser, N. (2019): The Old is Dying and the New Cannot be Born. London: Verso.

II. Neoliberalismo

Semana 4: Revisitando a Grande Transformação (Polanyi)

Polanyi, M. (2000): A Grande Transformação. As origens da nossa época. Rio de Janeiro: Ed. Campus.

Burawoy, M. (2003): “For a Sociological Marxism: The Complementary Convergence of Antonio Gramsci and Karl Polanyi”, Politics & Society, 3, 2, pp. 193-261.

Block, F. e Somers, M. (2016): The Power of Market Fundamentalism. Karl Polanyi’s Critique. Cambridge: Harvard University Press.

Semana 5: Revisitando a Crise de legitimação (Habermas)

Habermas, J. (2002): crise de legitimação do capitalismo tardio. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro.

Dörre, K., Lessenich, S. e Rosa, H. (2015): Sociology-Capitalism-Critique. London: Verso.

Fraser, N. e Jaeggi, R. (2018): Capitalism: A Conversation in Critical Theory. Cambridge: Polity.

Semana 6: Genealogia do governo liberal (Foucault)

Foucault, M. (2008): Nascimento da biopolítica. São Paulo: Martins Fontes. 

Brown, W. (2019): In the Ruins of Neoliberalism. The Rise of Anti-Democratic Politics in the West. New York: Columbia University Press.

Hardt, M. e Negri, T. (2017): Assembly. Oxford: Oxford University Press.

Laval, C. e Dardot, P. (2016): A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo.

Semana 7: O Fim do capitalismo?

Boyer, R. (2011): Les financiers détruiront-ils le capitalisme? Paris: Economica.

Jessop, B. (2015): “The Symptomatology of Crises, Reading Crises and Learning from Them: Some Critical Realist Reflections”, Journal of Critical Realism, 14, 3, pp. 238-271.

Piketty, T. (2014): O Capital no Século XXI. Rio de Janeiro: Intrínseca.

Streeck, W. (2017): “Introduction”, pp. 1-46 in How will Capitalism End?, London: Verso.

Streeck, W., Calhoun, C., Toynbee, P., Etzioni, A. (2016): “Does capitalism have a future?”, Socio-Economic Review, 14, 1, pp. 163-183.

III. Antropoceno

Semana 8: Historia do antropoceno

Chakrabarty, D. (2009): “The Climate of History. Four Theses”, Critical Inquiry, 35, pp. 197-220.

Crutzen, P. J. e Stoermer, E. F. (2000): “The ‘Anthropocene’ ”, IGBP Newsletter, 41, pp. 17-18

Steffen, W. et al (2015): “The Trajectory of the Anthropocene: The Great Acceleration”, The Anthropocene Review 2, 1, pp. 81-98.

Veiga, J. (2019): O antropoceno e a ciência do sistema terra. São Paulo: Editora 34.

Semana 9: Antropologia do antropoceno

Danowski, D., Viveiros de Castro, E. e Latour, B. (2014): “Position Paper: The Thousand Names of Gaia. From the Anthropocene to the Age of the Earth”. In: https://thethousandnamesofgaia.files.wordpress.com/2014/07/position-paper-ingl-para-site.pdf

Haraway, Donna, Ishikawa, N, Gilbert, S., Olwig, K., Tsing, A. & Bubandt, N. (2016): “Anthropologists Are Talking – About the Anthropocene”, Ethnos, 81 (3):535–564.

Latour, B., Stengers, I., Tsing, A. & Bubandt, N. (2018): “Anthropologists Are Talking – About Capitalism, Ecology, and Apocalypse”, Ethnos, 83, 3, pp. 587-606

Semana 10: Sociologia do antropoceno

Chateauraynaud, F. & Debaz, J. (2017): Aux bords de l’irréversible. Sociologie pragmatique des transformations. Paris: Petra.

Delanty, G. e Mota, A. (2017): “Governing the Anthropocene: Agency, Governance, Knowledge”, European Journal of Social Theory, 20, 1, pp. 9-38.

Szerszynski, B. (2012) “The End of the End of Nature: The Anthropocene and the Fate of the Human”, The Oxford Literary Review, 34(2), 165-184.

IV. Populismo

Semana 11: Fim da democracia liberal

Levitsky, S. e Ziblatt, D. (2018): Como as democracias morrem. Rio de Janeiro: Zahar.

Mounk, Y. (2018): O povo contra a democracia. Por que nossa liberdade corre perigo e como salvá-la. São Paulo: Companhia das letras.

Mudde, C. e Kaltwasser, C. (2017): Populism. A Very Short Introduction. Oxford: Oxford University Press.

Stanley, J. (2018): Como funciona o fascismo. A política do” nós” e” eles”. São Paulo: L&PM Pocket.

Semana 12: Sociologia da regressão democrática

Alexander, J. C. (2019): “Frontlash and Backlash: The Crisis of Solidarity and the Threat to Civil Institutions”,  Contemporary Sociology, 48, pp. 5-11.

Dubet, F. (2019): Le temps des passions tristes. Inégalités et populisme. Paris: Seuil.

Moffit, B. (2016): The Global Rise of Populism. Performance, Political Style,, and Representation. Stanford: Stanford University Press.

Semana 13: Populismo da esquerda?

Mouffe, C. (2018): For a Left Populism. London: Verso.

Zizek, S. (2006): “Against the Populist Temptation”, Critical Inquiry, 32, pp. 551-574.

Laclau, E. (2014): “Why Constructing a ‘People’ is the Main Task of Radical Politics”, in Laclau, E.: The Rhetorical Foundations of Society. London: Verso.

Semana 14: Pós-verdade

Fuller, S. (2018): Post-truth: Knowledge as a Power Game. London: Anthem Press.

Lynch, M. (2017), “STS, Symmetry as Post-Truth”, Social Studies of Science, 47, 4, pp. 593-599.

Porpora, D. e Sekalala, S. (2019): “Truth, Communication, and Democracy”, International Journal of Communication, 13, pp. 938–955.

Salgado, S. (2018): “Online Media Impact on Politics. Views on Post-truth Politics and Postpostmodernism”, International Journal of Media & Cultural Politics, 14, 3, pp 317-331

Semana 15: Conclusão: Análise da “disjuntura” brasileira