Doze regras para orientar o pensamento, por Tristan Garcia

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Fonte: https://pixabay.com/illustrations/psychology-mind-thoughts-thought-2422442/

Por Tristan Garcia
Tradução: Diogo Silva Corrêa

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I

Deixar ser

Maximizar o possível
Conceber a possibilidade das coisas materiais, das coisas

reais, tanto quanto das coisas imaginárias, de cada
parte de cada coisa, de cada ocorrência de cada
coisa através do tempo, das coisas contraditórias, das
coisas impossíveis;

Tratar igualmente cada possibilidade;

 Fazer das possibilidades livres e iguais o elemento do pensamento 

II

Cartografar a situação do pensamento 

Recontar grandes narrativas teóricas a fim de compreender nossa situação:
A emergência da modernidade, por exemplo, e a sua decomposição;

Descobrir os princípios que margeiam uma situação de pensamento:
Os conceitos clássicos de absoluto, de eterno em si, de autoridade;

Os conceitos modernos de autonomia, de presença, de intensidade, de emancipação;

Compreender como cada conceito é a aliança escondida de uma imagem e uma ideia. 

III

Localizar as promessas cardinais do pensamento

No pensamento erudito, nas culturas populares,
procurar por todos os lugares e sempre os conceitos que servem de
princípios; 

Encontrar o sentido inicial de uma promessa do pensamento,
e a imagem que primeiro vem à mente, para permitir que

uma ideia oriente a vida;

Confrontar as promessas do pensamento a partir de seus efeitos últimos
sobre a vida:
realização, resistência, esgotamento, fracasso…

IV

Levar a sério toda ideia que orienta um pensamento 

Aprender a se familiarizar com toda ideia,
mesmo que ela pareça longínqua, estrangeira, inimiga;

Provar a sua nobreza e
nunca diminuir uma ideia inimiga;

Em vez de resistir ao que irá advir, trabalhar para aumentar o que quer que advenha ao e no pensamento

V

Jamais opor um princípio a outro princípio 

Evitar a crítica moral e externa de um pensamento,
que se contenta em reprová-lo por suas consequências;

Não identificar uma ideia àqueles que a defendem,
mostrando-se capaz de fazê-la sua também

Nada do que é pensável é estrangeiro àquele que reflete:
se envolver ao máximo possível na crítica ética e interna de todo pensamento.

IV

Determinar as chances e o preço de qualquer coisa

Estabelecer as funções inversas do pensamento,
por exemplo: o que se ganha com o que se perde, o que se perde com o que se ganha;

Identificar as chances
de um ponto de partida radical: o que sozinho lhe permite ver e pensar

(por exemplo:  as chances do idealista, as chances do realista);

Estimar o preço a ser pago
por um ponto de partida radical: o ponto cego de um pensamento

lúcido
(o que, do realista, falta ao idealista; o que, do idealista, falta ao realista).

VII

Virar as costas para os pontos de partida mais radicais

 

Traçar a linha divisória entre dois pensamentos orientados para
duas ideias radicalmente opostas;

Assumir o trágico da situação.
Sobretudo, não procurar transigir, hibridar as duas posições

ou negociar entre elas uma solução intermediária;

Tomar de empréstimo os argumentos de um campo contra o outro.

Deixar o primeiro trazer à tona o que falta ao segundo, e inversamente. Não pretender que cada um tenha a sua parte de verdade, mas que um e outro tenham inteiramente razão, até que o outro lhe torne errado. Estar atento às ideias extremas. Trabalhar sempre com os pensamentos mais radicais, que esgarçam ao máximo, em direções opostas, o campo do pensamento.

VIII

Traçar uma nova linha de pensamento distinta,
mas igual; igual, mas distinta.

Encontrar uma linha de equilíbrio que permita pensar com a mesma distância campos opostos; 

Não ser covarde, mas corajoso, mantendo uma linha de pensamento que escapa a todos os campos.

Responder assim ao espírito clássico e ao espírito reacionário,
que condenam a indistinção de todas as coisas a que
a modernidade tardia conduziu: vocês tem razão, é preciso
distinguir; porém, vocês querem distinguir a fim de reintroduzir hierarquias.

Responder em seguida ao espírito moderno e pós-moderno, que
condenam a hierarquização de todas as coisas: vocês estão
certos; é preciso colocar tudo em pé de igualdade tornando
tudo indistinto, eliminando todas as categorias (espécies, gêneros, classes);

Em todos os domínios do pensamento, de tudo sair mantendo a exigência de ser distinto e de ser igual;

IX

Transformar um não-lugar atual do pensamento em sua situação futura

Ter paciência de acampar por longo tempo em um ângulo morto
do pensamento, e
recusar tomar partido de um lado ou de outro:
rasgar a imagem do mundo, entre os pensamentos inimigos,

não para reunificar o mundo, mas para transformar o
 não-lugar entre os inimigos em um novo lugar de pensamento
em que outros se deterão algum dia;

Mais do que entregar um conteúdo que serviria de lição do pensamento,
fazer de seu pensamento um gesto exemplar,
que os outros poderão imitar do seu modo;

Construir seu pensamento como um espaço em que os espíritos que virão depois poderão habitar livremente.

X

Resistir aos futuros efeitos de dominação de seu próprio pensamento

Agir de maneira a mudar o mínimo possível de ideia quando uma ideia dominada se torna uma ideia dominante

Não manter sua legitimidade somente pelo fato de se sentir minoritário e mal compreendido: sempre buscar o momento em que
o que se pensa se torna majoritário,

e admitir que nossa ideia se tornará aquela do campo de pensamento;

Neutralizar de antemão os efeitos de autoridade do que se pensa,
sobretudo os efeitos de dominação paradoxal das ideias mais liberais e emancipadoras.

XI

Evitar fazer com que o pensamento legifere sobre a vida e evitar fazer com que a vida determine o pensamento

Não pensar para defender a sua vida
(seus gostos, seus valores, seus pontos de partida);

Não viver para defender o seu pensamento;
Manter o pensamento como à parte de um organismo vivo

singular, sensível e que sofre, que não vive, que é universal,
que não sente nem sofre jamais.

Se representar o pensamento como órgão universal,
Desenvolvido pela espécie humana tanto quanto por outras espécies animais:
A parte da vida que escapa – ou tenta escapar –
da vida.
Que o pensamento é o único lugar irênico onde cada um de nós
pode tentar escapar dos interesses de sua própria vida, e procurar a
se acordar com tudo aquilo que pensa.
Que a vida escapa, do mesmo modo, do pensamento.

XII

Tornar potente

Não esquecer que o objeto do pensamento é não importa o quê;
que o objeto da vida, é o que importa à vida.

Considerar que aquele que pensa está envolvido em tudo o que é
possível, e que aquele que vive escolhe e sacrifica sem cessar
possibilidades;

No pensamento, não importa o que é livremente, igualmente e
distintamente possível;
Para aquele que vive, tudo está ligado e varia.
Distinguir o possível da potência (isto é, o que
torna possível ou impossível).

Admitir que quanto mais se é possível, menos se é potente;
que quanto mais se é potente, menos se é possível;

Pensar de maneira a tornar possível; viver de modo a tornar potente.