dog laugh 4

Por Mary Douglas
Tradução: Lucas Faial Soneghet
Revisão: Samantha Sales

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O corpo, como veículo de comunicação, é entendido erroneamente se tratado como uma guarita de sinalização[1], um enquadramento estático emitindo e recebendo somente mensagens codificadas. O corpo comunica informação do e para o sistema social do qual faz parte. Portanto, deve ser visto como mediador da situação social de três maneiras diferentes, pelo menos. Ele é o próprio campo no qual uma interação de feedback ocorre. Está disponível para ser dado como a oferta apropriada em algumas das trocas que constituem a situação social. E, além disso, pode mediar a estrutura social ao tornar-se ele mesmo sua imagem. Discuti tais pontos parcialmente em uma contribuição anterior a esse periódico[2] e em Pureza e perigo.[3] Se quisermos adaptar a metáfora da guarita de sinalização para mostrar o envolvimento total do corpo na comunicação, devemos imaginar uma guarita de sinalização que se dobra e se estica, se move, dança, entra em frenesi ou se enrijece de acordo com a melodia das mensagens específicas que suas luzes e braços sinalizadores estão transmitindo. Este artigo é oferecido como pano de fundo para aqueles que tratam de sistemas sinalizadores especializados como a voz e a face. Também é sugerido como prefácio para a discussão acerca de fatores endógenos, levada adianta pelo professor Jenner. Irei sugerir um conjunto paralelo de fatores sociais exógenos ao organismo biológico, caminhos de feedback que controlam o ritmo da interação social.

Um zoologista jovem, que pediu meu conselho acerca de um estudo que estava conduzindo sobre a risada em espécies humanas e não humanas, reclamou que sociólogos o haviam ajudado muito pouco. De fato, é bem difícil para nós produzir uma teoria ou mesmo uma vaga hipótese sobre o assunto. Mesmo a minha ideia sobre o papel do corpo no simbolismo nas piadas não é facilmente adaptada para uma abordagem experimental do riso.[4] Francis Huxley percebeu o mesmo abandono corporal em convulsões de alegria no Haiti.[5] Mas até o momento não temos nada útil a dizer para o zoologista sobre tais diferenças. Para nós, é tão difícil supor que o riso em tribos diferentes significa a mesma coisa como ter certeza que animais estão rindo quando arreganham a boca ou fazem um barulho confuso.

Bergson declarou que o riso é prerrogativa única dos humanos.[6] Entretanto, soubemos por um biólogo que cães riem quando brincam. No livro Man Meets Dog[7], Lorenz descreve o seguinte caso: “… um convite para brincar sempre se segue; aqui, a mandíbula ligeiramente aberta revela a língua e o ângulo torto da boca que se estende quase de orelha a orelha dá uma impressão ainda mais forte do riso. Esse ‘riso’ é mais visto em cães brincando com um dono adorado, chegando a um ponto de excitação que os deixa ofegantes”. Ele sugere que a mesma expressão facial marca o início da excitação erótica.

Eis uma descrição de um dono amado brincando com seu cachorro. Thomas Mann descreve jeitos de agitar e estimular seu cachorro: “Ou nos divertimos, eu cutucando seu nariz e ele batendo na minha mão como se ela fosse uma mosca. Isso nos faz rir. Sim. Bashan tem que rir também; e eu rio enquanto me maravilho com essa visão, que é para mim a coisa mais estranha e tocante no mundo. É tocante ver como, sob minha provocação, suas magras bochechas de animal e os cantos de sua boca se movem, e sob sua obscura máscara de animal vem uma expressão semelhante a um sorriso humano”.[8] A brincadeira produz no cachorro “um estado de êxtase, um tipo de intoxicação com sua própria identidade a ponto de começar a correr em círculos em torno de si mesmo, latindo alto e de forma exultante”. Os dois escritores consideram o riso essencialmente uma expressão facial, mas os dois, sendo bons observadores, notam o ofego, a excitação ou o êxtase geralmente mais visíveis. Retornarei a essas duas pistas úteis a respeito da natureza do riso. Primeiro, é um processo que começa de forma pequena, observável na face, e é capaz de terminar envolvendo todo o corpo. Segundo, é normalmente uma resposta social; o riso privado é um caso especial. Nesse ponto, devo expor meus pressupostos acerca de uma abordagem sistêmica do corpo como canal de comunicação. O resultado será lançar dúvida na tentativa de isolar um complexo como o riso, ou mesmo a expressão facial, para estudos comparativos.

Eu vejo a relação entre a palavra falada e a comunicação não-verbal como análoga àquela entre a palavra escrita e os materiais físicos e a maneira visível de sua representação. Atualmente, sociólogos californianos têm prestado atenção na parte não dita de todo discurso, bem como sua dependência de pressuposições compartilhadas e implícitas.[9] Semelhantemente, o corpo entra em jogo para dar suporte aos sentidos da comunicação falada. Postura, voz, velocidade, articulação, tonalidade, todos contribuem para o sentido. Palavras por elas mesmas significam muito pouco. Símbolos verbais dependem do falante manipulando todo o seu ambiente para transmitir o sentido de maneira bem-sucedida. Seria necessário um esforço especial se quiséssemos considerar os sentidos transmitidos pela tipografia de um texto literário isolados da mensagem verbal. Todo o movimento de nossa educação foi no sentido oposto. Agora percebemos que privilegiamos indevidamente o canal verbal, além de assumirmos que ele poderia ser efetivo em forma desincorporada. Do mesmo modo, deveríamos agora nos esforçar para pensar o corpo como um veículo transmissor de mérito próprio, distinto das palavras que saem da boca. A fala tem sido enfatizada demasiadamente como meio humano de comunicação privilegiado e o corpo tem sido negligenciado. É hora de retificar tal negligência e tornar-se consciente do corpo como canal físico de sentido.

Meu primeiro pressuposto é que normalmente o canal físico dá suporte e concorda com o falado. O caso em que os canais se contradizem é especial, transmitindo os significados especiais de gracejo, ironia, desconfiança, etc. Em Natural Symbols[10], discuti a concordância geral entre canais de comunicação. Meu segundo pressuposto é o seguinte: não é necessário distinguir entre expressões corporais conscientes e inconscientes; visto que as duas exigem a mesma tendência de reforçar a fala, o grau de consciência pode ser ignorado. Meu terceiro pressuposto é baseado em observação. O corpo nem sempre está sob perfeito controle. Um processo de triagem remove os ruídos incontrolados do sentido. Pequenos soluços, espirros, respiração pesada e pigarreadas podem e devem ser removidos na triagem como ruídos irrelevantes, não sendo destinados a serem tratados como parte da mensagem do canal corporal. Há limites de tolerância. Quando o limite é ultrapassado, o discurso deve parar. Se os ruídos não podem ser enquadrados em uma desculpa, um ataque de espirros prolongado ou outros movimentos corporais incontrolados forçarão o proprietário da máquina interruptora a se retirar. Gostaria de perguntar aos zoologistas se animais fazem triagem de interrupções corporais, ou questionar se Bergson deveria ter escolhido a capacidade de ignorar tais interrupções como realização distintivamente humana, em vez do riso.

O quarto pressuposto é que há uma linguagem intercultural e universal das interrupções corporais. Em vez de serem ignoradas, podem ser trazidas de volta deliberadamente e artificialmente no discurso para transmitir mensagens bem entendidas baseadas em uma hierarquia de orifícios corporais. Orifícios inferiores e anteriores estão abaixo dos superiores e frontais na hierarquia. Certo desenvolvimento do simbolismo freudiano aplicado à dimensão social encaixa os sentidos de maneira bem direta.[11] O quinto pressuposto, e aqui chegamos ao ponto fulcral do problema, é que o riso, mesmo que não seja mais controlado do que qualquer outra erupção frontal/superior como tosse ou arroto, não é removido e ignorado. O riso é a única erupção corporal que é sempre tomada como uma comunicação. Sugiro que isso ocorre porque o riso é a culminação de uma série de comunicações corporais que tiveram de ser interpretadas comumente como parte do discurso. O riso que finalmente irrompe não pode ser removido na triagem, porque todas as mudanças na postura corporal que o precederam foram tomadas como parte do diálogo.

Se essa abordagem puder ser desenvolvida, dará uma perspectiva sociológica para aqueles que trabalham no estudo de sinais faciais. Nesse ponto, minha resposta provisória para os jovens zoologistas buscando orientação na sociologia do riso é essa: o riso é um processo muito complexo; ao mesmo tempo é definido de maneira muito estreita para ser identificado. Seria melhor começar considerando os fatores sociais exógenos que governam os limites da tolerância do relaxamento e controle corporal. Esses limites são estabelecidos socialmente. Em algumas situações sociais, é apropriado reconhecer totalmente erupções corporais como parte da simbolização de familiaridade e relaxamento, enquanto em outras, os limites são reduzidos em resposta à necessidade de expressar a finalidade e distância social.

E se tomarmos qualquer forma de comunicação e a respeito dela perguntarmos: o que está sendo comunicado? A resposta é: informação do sistema social. As trocas que estão sendo comunicadas o constituem. Vamos pressupor um feedback sensível entre todas as partes da troca social. O corpo está expressando tanto a situação social em um dado momento como uma contribuição particular para essa situação. Logo, dado que o corpo está mediando a estrutura social relevante, inevitavelmente faz o trabalho de comunicar tornando-se (a) uma imagem da situação social total como ela é percebida, (b) a oferta aceitável nas trocas que constituem tal situação. As possibilidades de mudança e desenvolvimento emergem primeiramente de respostas corporais espontâneas justamente porque elas são tratadas como mensagens modificadoras por aqueles que as recebem. A risadinha ou o franzir do cenho incontrolados podem recanalizar efetivamente todas as trocas subsequentes em um conjunto diferente de caminhos. Em seu papel de imagem da sociedade, o escopo principal do corpo é expressar a relação do indivíduo com o grupo Ele faz isso através do gradiente entre controle forte e fraco, em concordância com a força, fraqueza, aceitabilidade ou não das demandas sociais. O corpo tem disponível uma ampla gama para expressar essa variável social, do relaxamento total ao autocontrole total.

O que significa quando uma tribo ri muito e outra ri raramente? Eu argumentaria que isso significa que o nível de tensão social estabeleceu limites altos ou baixos para o controle corporal. No primeiro caso, o alcance total do poder expressivo do corpo está mais ou menos pronto para responder plenamente a um estímulo muito pequeno. Se o ajustamento do controle social geral é frouxo, os limites de tolerância para a interrupção corporal serão mais altos. Comparações do riso devem levar em consideração a carga de sentido social que o corpo precisa carregar. Onde formos comparar riso, devemos também comparar a pressão da estrutura social no indivíduo. Os casos dos pigmeus e dos haitianos citados acima são instrutivos. Os primeiros, vivendo na floresta equatorial do Congo, capazes de se movimentar livremente por amplos territórios, não estão sob óbvia pressão social. Os segundos foram reconhecidamente parte de um estado marcial moderno com baixo nível de desenvolvimento econômico. As pessoas estudadas por Francis Huxley no Haiti tinham acesso ocasional a seus meios de sustento, e suas obrigações uns para com os outros eram tênues e curtas. Os dois povos pareciam usar todo o alcance da expressão corporal para o luto e a alegria. Em Natural Symbols, disse mais acerca da significância dessas variações na força e permanência das relações sociais para a expressão corporal.

Outro aspecto da organização social que pode ser expresso no simbolismo corporal é a duração e a complexidade das mensagens. Sistemas sociais que variam nesse quesito terão variações correspondentes na quantidade de pausas que podem ser toleradas entre comunicações verbais. Um experimento importante sobre o fenômeno da hesitação foi feito pelo professor Bernstein.[12] A fala de meninos da classe média e da classe operária foi cronometrado. Constatou-se que, atravessando as diferenças de inteligência medidas, os meninos de classe média eram mais tolerantes com longas pausas no discurso. Bernstein argumentou que o fenômeno da hesitação reflete uma expectativa da parte deles de que a fala estaria sujeita a um processo complexo e, portanto, longo, de programação. Gostaria de ver esse experimente repetido e desenvolvido como pista valiosa para a abordagem de comportamento simbólico não verbal. Também gostaria de ver algo semelhante desenhado para primatas de inteligência semelhante, mas de organização social distinta. Por exemplo, quando estudos completos forem feitos sobre chimpanzés da savana, uma comparação com chimpanzés da floresta, nas linhas aqui descritas, seria interessante. Visto que a organização social provavelmente seria mais rigidamente hierarquizada na savana, poderíamos prever respostas mais estritamente definidas e menos variadas, mais controle, pausas mais longas… menos “riso”.

Notas:

 [1] N.T.: O termo no original em inglês é “signal box”, referindo-se a guaritas espalhadas ao longo de linhas ferroviárias, responsáveis pelo controle do movimento dos trens por meio da operação de semáforos nos trilhos, dentre outros dispositivos. Cada signal box é um nódulo na rede de pontos de controle responsável pela manutenção do sistema descentralizado no qual o movimento dos trens na malha ferroviária se dá, enviando e recebendo sinais determinados de outros nódulos.

[2] DOUGLAS, M. The Relevance of Tribal Studies. J. Psychosom. Res. 1, 12 (1968).

[3] MARY, Douglas. Pureza e perigo. Perspectiva, São Paulo (1976).

[4] DOUGLAS, M. The Social Control of Cognition: Some Factors in Joke Perception. Man, J. Roy. Anthrop. Inst. 3, (3) 361 (1968)

[5] HUXLEY F. The Invisibles. Rupert Harty-Davies, London (1966).

[6] BERGSON H. Le Rire : Essai sur la signification du comique, Presses Universitaires de France, Paris (1950); publicado pela primeira vez em Revue de Paris, 1899.

[7] LORENZ C. Han Meets Doz. Methuen, London (1954).

[8] MANN T. A Man and His dog. In Stories of a Lifetime, Seeker & Warburg, London (1961).

[9] GARFINKEL H. Studies in Ethnomethodology, Prentice-Hall. New Jersev (1967).

[10] DOUGLAS M. Natural Symbols, Explorations in Cosmology.  Cresset, Londo (1970).

[11] HALLPIKE C. R. Social hair. Man. J. Roy. Anthrop. Inst., 4, (2) 256 (1969).

[12] BERNSTEIN B . Linguistic codes, hesitation phenomena and intelligence. Language and Speech 5, (1) 31 (1962); see also GOLDMAN-EISLERF, ., On the variability of the speed of talking and on its relation to the length of utterances in conversation. Bri. J. Psychol. 45, 94 (1954).

Referência do original:

 

Douglas, Mary. Do Doughs Laugh? A Cross-Cultural Approach to Body Symbolism. Journal of Psychosomatic Research, vol. 15, pp. 387-390, 1971.