PIERRE BOURDIEU, SOCIOLOGIE GÉNÉRALE. VOLUME 1. COURS AU COLLÈGE DE FRANCE 1981-1983, POR MATTHIAS FRINGANT

travessa_esquerre

Por Matthias Fringant
Tradução: Diogo Corrêa

Clique aqui para pdf

Esse primeiro volume do “cours de sociologie générale” completa a publicação das transcrições dos cursos que Pierre Bourdieu ministrou quando ocupou a cátedra de sociologia no Collège de France, de 1981 a 2011[i]. Quando ele foi eleito para esta instituição, na primavera de 1981, as principais realizações do sociólogo de Béarn foram trabalhos que podem ser agrupados em duas categorias: a Argélia e a democratização cultural e educacional. Nos anos que antecederam sua chegada ao Collège de France, ele publicou dois dos seus principais trabalhos – La Distinction em 1979 e Le Sens Pratique em 1980 –, nos quais resumiu sua abordagem científica e a aplicou ao objeto por excelência da sociologia: as classes sociais.

É nesse estágio de sua carreira profissional que esse curso foi realizado. Ao contrário de todos os outros, dedicados a um objeto particular – o Estado, Manet e a ciência da ciência, para mencionar aqueles que já foram publicados – esse primeiro ciclo de ensino, que se estende de 1982 a 1986, foi dedicado à transmissão de um modo de pensar geral por meio da explicitação o mais completa possível dos principais conceitos que o sociólogo havia forjado durante suas pesquisas empíricas pretéritas. Esse primeiro volume apresenta, assim, as lições dos dois primeiros anos. Ele contém também um breve capítulo, escrito por Julien Duval e Patrick Champagne, sobre a situação do curso de sociologia geral na obra de Pierre Bourdieu, assim como os resumos dos cursos, um índice de nomenclaturas, de noções, e um sumário. Ele será completado por um segundo volume que conterá os cursos ministrados durante os últimos três anos do ciclo, oferecendo, assim, um desenvolvimento sistemático dos princípios de pesquisa do sociólogo.

As lições dadas durante o primeiro ano e o início do segundo colocam uma ênfase considerável em “um pré-requisito para qualquer tentativa de teorização nas ciências sociais, notadamente a relação entre o cientista e seu objeto científico, e mais precisamente a relação entre o sujeito científico como sujeito conhecedor e seu objeto como um conjunto de sujeitos atuantes” (p. 12). Pierre Bourdieu distingue o conhecimento erudito do mundo social do conhecimento prático que os sujeitos sociais utilizam em suas vidas diárias. Essa distinção é fundamental para que não se fique prisioneiro ao que o sociólogo nomeou sucessivamente como viés objetivista, intelectualista e escolástico: sem submeter a atividade teorizante a uma interrogação sobre suas próprias condições sociais de possibilidade, os eruditos tendem a cometer o erro de pensar que os sujeitos sociais agem de acordo com modelos científicos construídos para estudar o mundo social. É sobre essa reflexão principal que articula a exposição da sua abordagem de pesquisa, bem como um esboço das relações complexas entre os seus principais conceitos, notadamente os de habitus e campo, tendo o capital sido, em grande medida, deixado de lado por falta de tempo.

No que se refere à abordagem geral, Pierre Bourdieu indica que esta consiste, em um primeiro momento, em construir um espaço de posições por meio do estabelecimento de critérios objetivos construídos contra o senso prático comum. Trata-se então de reintroduzir nesse modelo erudito as práticas e representações dos sujeitos sociais, contribuindo para a realidade objetiva do mundo social. Finalmente, um passo final visa estudar as relações entre essas práticas e representações, por um lado, e os sistemas de posições objetivas construídos na primeira fase do trabalho científico, por outro.

Para fazer a transição com a exposição dos conceitos de habitus e campo, o método recomendado por Pierre Bourdieu também pode ser descrito por um primeiro momento, que é o estudo do processo pelo qual o social se inscreve na materialidade das coisas: a noção de campo irá intervir aqui. A segunda etapa consiste na análise do processo de incorporação, “ou seja, o mecanismo, a lógica segundo a qual as estruturas objetivas, as condições objetivas se transformam em disposições permanentes” (p. 235): a noção de habitus será, assim, mobilizada. Enfim, a etapa final é dedicada ao estudo das relações entre essas duas formas de existência, o social existindo apenas na relação entre essas duas formas, coisas e corpos. A teoria da ação que Pierre Bourdieu propõe se encontra, portanto, na correspondência entre esses espaços de posições (campos) e de disposições (habitus).

Pierre Bourdieu especifica durante a maior parte do segundo ano do curso que papeis desempenham mais especificamente as noções de habitus e campo nessa abordagem, dando explicações detalhadas sobre sua gênese histórica em contato com diferentes tradições teóricas, suas principais características, seu passado e seus possíveis usos na prática de pesquisa e, finalmente, as relações mútuas que estabelecem. Ele especifica assim, em relação ao primeiro conceito, que “em essência, a principal função do habitus (…) é refletir esse simples fato de que, sendo o produto da incorporação de estruturas objetivas, (…) as estruturas incorporadas do habitus geram práticas que podem ser ajustadas às estruturas objetivas do mundo social sem serem o produto de uma intenção explícita de ajustamento” (pp. 288-289).

Passando pela análise da noção de campo, o sociólogo explica que ela “não é uma tese, nem o que se costuma chamar de teoria [mas] uma forma de pensar, uma espécie de termo mnemotécnico que, diante de um problema, fornece técnicas para a construção do objeto” (p. 532). Ele convida então a evitar a monografia, para levar a sério a primazia das relações, separando imagens do indivíduo, da soma dos indivíduos e das interações entre os indivíduos, obrigando assim a construir um espaço relacional de posições, o qual deve ser em seguida posto em relação com as disposições dos sujeitos sociais. Dessa maneira, o espaço de interações e o espaço de relações objetivas de poder podem ser pensados em conjunto.

Sendo muito abundantes as obras de Pierre Bourdieu destinadas à familiarização com o seu modo de pensamento, temos o direito de questionar o real interesse deste. Em nossa opinião, ele justifica-se por uma série de fatores. Em comparação com outros livros do autor com a mesma finalidade, essa é, antes de mais, a única transcrição de um ensino realizado ao longo de vários anos, permitindo sucessivas repetições, esclarecimentos e aprofundamentos. A esse respeito, o trabalho difere de outras transcrições de discursos orais[ii], reunindo frequentemente intervenções dispersas relacionadas com a situação em que foram proferidas, mas nunca formando um sistema global. Se é verdade que o próprio Bourdieu mostra certa inquietação com esse formato, indicando em muitas ocasiões suas reservas a respeito da possível recepção de seu discurso nessa situação particular que a aula representa, ele torna no entanto possível, mais do que em qualquer outro lugar e situação, a explicitação das relações mútuas entre os quadros conceituais do autor. Assim, apresenta as vantagens de restituir a economia geral do seu modo de pensamento em toda a sua complexidade, evitando de tal modo usos como as críticas parciais, e por vezes tendenciosas, das suas noções[iii]. Esse mergulho no núcleo de um sistema teórico original é facilitado pelo notável trabalho realizado pela equipe editorial, que consiste em suavizar do texto de acordo com os princípios previamente adotados pelo sociólogo, acrescentar notas de rodapé úteis para facilitar tanto a compreensão do contexto quanto o aprofundamento de certos pontos e dividi-lo em capítulos relevantes. Finalmente, esse livro parece fornecer uma melhor compreensão, e assim mobilizar empiricamente, bem como criticar cientificamente, o exigente empreendimento do sociólogo.

Notas

[i] Foram publicados, em ordem cronológica: Bourdieu Pierre, Science de la science et réflexivité, Paris, Raisons d’agir, « Cours et travaux », 2001 ; Bourdieu Pierre, Sur l’État, Cours au Collège de France 1989-1992, Paris, Seuil/Raisons d’agir, « Cours et travaux », 2012 [https://lectures.revues.org/7206] ; Bourdieu Pierre, Manet : une révolution symbolique, Cours au Collège de France 1998-2000, Paris, Seuil/Raisons d’agir, « Cours et travaux », 2013 [https://lectures.revues.org/13483].

[ii] Entre esses tipos de trabalhos estão, notadamente, Bourdieu Pierre, Questions de sociologie, Paris, Minuit, « Documents », 1980 ; Bourdieu Pierre, Choses dites, Paris, Minuit, « Le sens commun », 1987 ; Bourdieu Pierre, Raisons pratiques, Paris, Seuil, « Points essais », 1994 ; Bourdieu Pierre, Wacquant Loïc, Invitation à la sociologie réflexive, Paris, Seuil, « Liber », 2014 [1992].

[iii] Sobre esse ponto, ver Fabiani Jean-Louis, Pierre Bourdieu. Un structuralisme héroïque, Paris, Seuil, « La couleur des idées », 2016, p. 102.

 

Referência

Matthias Fringant, « Pierre Bourdieu, Sociologie générale. Volume 1. Cours au Collège de France (1981-1983) », Lectures [En ligne], Les comptes rendus, 2016, mis en ligne le 22 septembre 2016, consulté le 01 mai 2019. URL : http://journals.openedition.org/lectures/21407