43º_Encontro_Anual_edit

NOTA DE ESCLARECIMENTO SOBRE O ST41 – Teoria Social Hoje: desafios, tendências e perspectivas, organizado por Gabriel Peters e Diogo Silva Corrêa.

Algumas pessoas, em razão do resumo do ST, perguntaram se a proposta do ST de Teoria Social deste ano é reflexiva, voltada para pensar o próprio ST nos últimos e nos próximos anos. Deixamos claro que não. Nossa ideia é, como diz o título do ST, acolher trabalhos que pensem os desafios, as tendências e as perspectivas da Teoria Social hoje, o que deve contemplar tanto retomadas e releituras dos autores clássicos da sociologia quanto reflexões mais recentes calcadas nos autores contemporâneos da Teoria Social. Nós manteremos a tradição pluralista do ST, tentando integrar as mais diversas correntes e abordagens.

Nessa linha, convidamos a todos que enviem trabalhos para o ST de Teoria Social Lembramos que o prazo de envio é dia 29 de abril.

Segue uma parte do nosso resumo ampliado, onde a proposta fica mais clara:

No cenário da modernidade global, nos vemos confrontados com inúmeras transformações sócio-históricas (crise ecológica, econômica, política, cultural, talvez até civilizacional), transformações que acarretam, da parte de pesquisadores em teoria social, um esforço coletivo que possa acompanhar e reorientar as reflexões sistemáticas das sociedades sobre si mesmas. Ao mesmo tempo, as bases do saber, da racionalidade moderna, da concepção científica de mundo e das ciências sociais (sociologia, antropologia e ciência política) estão em contínuo questionamento, o que redefine as fronteiras disciplinares, o conteúdo dos saberes estabelecidos, as práticas de investigação e mesmo nossas formas de pensar e de nos inserirmos no mundo. A força avassaladora com que fenômenos como a “pós-verdade” e as “fake news” contribuíram para redesenhar a paisagem política de diversas sociedades contemporâneas, inclusive o Brasil, implica também um desafio urgente (e não apenas no sentido analítico) à reflexão socioteórica.

O propalado descentramento do “Ocidente” como lócus privilegiado de produção de conhecimento científico parece impor desafios inéditos às ciências sociais tais quais as concebemos até então: até que ponto suas noções, ferramentas metodológicas e técnicas de coleta de dados, sedimentadas desde o século XIX, enriquecidas e aprimoradas ao longo do século XX, mantêm-se capazes de codificar a experiência social contemporânea, amplamente considerada? Não se trata apenas de dizer que suas formulações originárias caducaram com as mudanças e transformações processadas desde que os clássicos produziram suas principais obras. Mais do que isso, fala-se que o declínio da hegemonia cultural, econômica, política e militar de sociedades comumente apontadas como as principais responsáveis pela invenção e institucionalização das ciências sociais fez-se acompanhar de certa crise epistemológica, com o questionamento de sua própria capacidade explicativa e preditiva dos fenômenos sociais contemporâneos: o mundo teria se tornado por demais complexo e diverso daquele que serviu como parâmetro para a formulação de conceitos e noções, tornadas fontes de referência inequívocas à sociologia, à antropologia e à ciência política que se difundiram a partir da Europa Ocidental e da América do Norte para os quatro cantos do globo. Fosse lamentado como atraso ou celebrado como singularidade, o caráter ambíguo que os parâmetros institucionais da modernidade adquiriram na sociedade brasileira propicia, de certo modo, um ambiente epistemológico potencialmente fecundo a questionamentos como os aventados acima. Algo similar pode ser dito quanto à posição (semi)periférica das ciências sociais brasileiras na circulação internacional de ideias, uma “limitação” que não deixa de oferecer possibilidades epistêmicas potencialmente fecundas – por exemplo, um questionamento crítico de teorias de matriz europeia calcado em uma perspectiva externa aos seus diferentes contextos nacionais (inglês francês, alemão etc.). 

Diante desse cenário, emerge a pergunta sobre quais são a 1) natureza, 2) o papel, 3) as temáticas, 4) os questionamentos e 5) os desafios postos para a teoria social, tal como ela vem sendo realizada no contexto acadêmico brasileiro. Em síntese: quais são as tendências que devemos apontar e as releituras que urge fazer da teoria social hoje, aqui e agora? Para responder a essa pergunta, necessário se faz rever o estado da arte da teoria social mesma, retomando a indagação sempre perene e decisiva sobre seu significado e sua natureza: afinal, o que é e qual é o papel da teoria social para o mundo em que vivemos? Embora posta no presente, tal pergunta não exclui – e nem deve excluir – a volta ao passado, a releitura do legado deixado pelos clássicos da sociologia, na medida em que temos de submeter o trabalho realizado à revisão crítica, questionando os avanços, mas também, e principalmente, identificando nossos limites e contradições. Abre-se, então, a pergunta decisiva pelo futuro, pelas tendências que nos tem sido abertas. Levando em consideração o conjunto dinâmico das ciências sociais (antropologia, sociologia e ciência política), ou seja, partindo sempre de uma compreensão interdisciplinar de teoria social, chegamos, propriamente, à indagação decisiva: quais tendências e perspectivas (nesse caso, no duplo sentido de “visões” e de “prospectos”)? Quais os caminhos e os passos necessários para bem entender o que nos espera daqui para frente?

No contexto substantivo das discussões do ST, tais questões gerais podem, naturalmente, desdobrar-se em questionamentos mais específicos: Qual o estatuto dos clássicos europeus e norte-americanos no cenário atual? O que os clássicos europeus e norte-americanos têm a nos dizer a respeito do cenário em que vivemos? Qual o significado das obras e empreendimentos interpretativos e explicativos produzidos desde o século XIX em configurações societárias não hegemônicas? Em que medida a institucionalização das ciências sociais na América Latina, Oceania, Ásia e África, a partir do século XX, representou a mera replicação de modelos e referências formuladas na Europa e na América do Norte? Qual escopo de aplicação que propostas teóricas contemporâneas podem reivindicar para si? Haveria ainda espaço para perspectivas teóricas macro, capazes de abarcar uma multiplicidade de configurações societárias? Ou será que o alardeado aprofundamento da complexidade social nos obriga a estreitar nosso campo de visão e encurtar nossos horizontes explicativos? Isto significaria, por seu turno, o “fim” da teoria ou outro modo de teorização? Em última instância, é ainda possível conferir às ciências sociais um status inequivocamente privilegiado no conhecimento dos fenômenos sociais?

Para responder a essas perguntas vitais, o Seminário Temático de 2019 deseja reunir contribuições de pesquisadores (nacionais e internacionais) em teoria social, bem como de demais pesquisadores que permitam, levando em consideração a diversidade e pluralidade teórico-pragmática das humanidades, 1) traçar um panorama dos principais temas (materiais) e abordagens (formais) que estão no centro das preocupações da teoria social e, fundamentalmente, 2) identificar quais são as tendências e problemáticas mais relevantes e urgentes da teoria social. Ambas as indagações deverão subsidiar a construção da agenda de trabalho da teoria social produzida no Brasil nos próximos anos.