Experiências marcadas pelo racismo (2) – A matéria-prima da negritude, por Ábia Marpin

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Mural, por Criola

Por Ábia Marpin (Uerj)

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It is the white man who creates the Negro.
But it is the Negro who creates negritude.

Frantz Fanon

Em um território continental, como o brasileiro, é de se esperar que fenômenos universais ganhem configurações singulares – o que dizer então de cada território do globo onde o racismo se manifesta? Mas, para que manifestações distintas sejam tratadas como expressões de um mesmo tipo de evento, é necessário que haja elementos comuns entre elas. Porém, a compreensão de que versões não deixam de ser uma mesma música serve de modelo lógico para entender a relação entre racismo e negritude que se propõe. Aqui vale lembrar que se pode executar a mesma obra musical em diversos tons diferentes; combinar um sem-número de instrumentos (acústicos, eletrônicos, digitais, etc.), em incontáveis arranjos possíveis; podem ser alterados ainda o ritmo, o andamento e a dinâmica em que uma música é tocada; entre tantas outras variações eventuais, sejam elas ordinárias ou excepcionais; mas, ainda assim, a melodia e a letra (no caso de canções) são exemplos de elementos que distinguem uma versão de uma música original e diferente, de modo que tanto intuitivamente, quanto a partir de critérios objetivos e relacionais, é possível identificar o que varia e o que é reiterado em uma repetição de algo que, ainda assim, não deixa de ser típico – de novo, a mudança ontológica não é medida pelo grau de diferença entre dois entes, mas pelo tipo da diferença, como no caso de duas músicas distintas terem mais elementos em comum do que duas versões de uma mesma música.

E o que há em comum e característico entre pessoas negras? Tendo elas trajetórias tão particulares e sendo elas tão diversas entre si?

O que é possível identificar como matéria-prima, como fundamento uníssono entre os infindáveis remixes da negritude, ainda que afetem e sejam percebidos em graus distintos, são as injunções do racismo e a criatividade das respostas dadas a ele – atributos que têm confundido e constrangido analistas mais convencionais.

A pluralização das versões da negritude e a complexificação de seus referenciais é um argumento que está arraigado no que proponho aqui. Por isso, por ora vou deixar de lado a criatividade e começar pelo debate sobre o racismo como matéria-prima da experiência de pessoas negras. Para tanto, vou considerá-lo a partir das reflexões do realismo crítico[1], com especial atenção para a categoria de mecanismo gerativo (Bhaskar, 2008).

O realismo crítico está baseado em um parecer vigoroso e revigorante contra o modo como conhecemos e, com isso, concebemos o mundo. Além de uma crítica, ele é um modelo teórico que traça rotas de fuga ao mesmo tempo em que abre uma trilha até uma nova epistemologia do real. Para isso, esse movimento parte de uma perspectiva filosófica que dá precedência analítica aos aspectos ontológicos, tanto da realidade quanto das categorias que elaboramos e empregamos para compreendê-la – o que, com relativo sucesso, supera o nominalismo, se esquiva do conceitualismo e implode a lógica dualista que sustenta boa parte do trabalho das ciências.

Impulsionado pelos primeiros trabalhos de Roy Bhaskar (2008[1975-1978]), em que primeiro as ciências naturais, depois as ciências sociais e, por fim, as ideologias escamoteadas na prática científica são flagradas confundindo e fazendo confundir a dimensão transitiva (epistemológica) com a dimensão intransitiva (ontológica) do real, o realismo crítico consegue integrar e dar uma nova interpretação para as contribuições positivistas, pós-estruturalistas e hipercríticas, sem com isso, reproduzir suas inconsistências internas.

Graças a essa distinção crucialmente importante entre a independência que o mundo tem da teoria (dimensão intransitiva) e a variabilidade sócio-histórica do conhecimento científico (dimensão transitiva), o realismo crítico é capaz de evitar a “falácia epistêmica” que reduz a ontologia à epistemologia e define o ser em termos do conhecimento. Graças a este duplo foco, o realismo crítico consegue combinar e reconciliar o realismo ontológico, o relativismo epistemológico e a racionalidade de julgamento (Vandenberghe, 2010, pp. 19-20).

Sua crítica às ciências naturais é direcionada tanto aos pressupostos da metodologia empiricista – que se esforçaria para “captar” (ou capturar) e em seguida decretar “leis naturais”, generalizando conclusões feitas por meio de experimentos, portanto réplicas artificiais, para aquelas situações da natureza no mundo real, além dos limites e limitações do ambiente controlado dos laboratórios –, quanto daqueles do idealismo – que, até o outro polo, baseia sua análise na premissa de que as ideias que as pessoas e a consciência delas fazem são determinantes e mesmo precedentes às coisas fora de nossas mentes.

Seguindo a partir de qualquer um desses postulados, determinada sequência de eventos obedeceria a leis arbitrárias, sem explicação a não ser uma que se confunda com a descrição das etapas de seu desenvolvimento. Essa lacuna permitiu ao realismo crítico desvelar e argumentar pela necessidade de priorizar a investigação dos mecanismos gerativos, suas tendências e seus poderes causais, que estão atuando (ainda que só em potência) em vários fatos (não só os que se está observando) e que existem à revelia de serem ou não percebidos e controlados, tendo o poder de afetar a realidade (mesmo que não o exerçam sempre) – ainda assim, são esses mecanismos gerativos e a interação entre eles que explicam os experimentos e as leis científicas e preenchem a elipse lógica das ciências naturais. Pois, a “[c]iência é explicativa, não simplesmente descritiva. Explicações são alcançadas pela referência a mecanismos duradouros. Estes mecanismos existem como a força das coisas e agem independentemente das condições que nos habilitam a identificá-las” (Bhaskar, 2008, p. 177).

Tudo o que é descoberto na natureza deve ser expresso em pensamento, mas as estruturas e constituições e as leis causais descobertas na natureza não dependem do pensamento. (…) Nem o empirismo clássico nem o idealismo transcendental podem sustentar a ideia da existência e da ação independentes das estruturas causais e das coisas investigadas e descobertas pela ciência. É na sua ontologia compartilhada que reside a fonte dessa incapacidade comum (Bhaskar, 2008, p. 17).

Depois de entranhar a transcendência no realismo das ciências da natureza, seu próximo passo foi impregnar de crítica o naturalismo reiteradamente cobiçado nas ciências sociais[2]. Isto posto, sociologias planas são confrontadas com essa estratificação. Ao se tomar a realidade como multidimensional, ou seja, com níveis distintos de amplitude e profundidade que um evento/agente/processo pode apresentar, o debate ganha em complexidade quando se admite que, enquanto propósito de investigação, a sociedade é um sistema inevitavelmente aberto. À despeita do esforço teimoso e estéril de algumas pessoas, é impossível traduzir as técnicas de controle e isolamento dos laboratórios das ciências naturais em métodos válidos para a análise dos fenômenos da ordem social do mundo real. Pela simples razão de que “as teorias e discursos que são parte da dimensão transitiva da ciência estão implicados na (e são constitutivos da) dimensão intransitiva do mundo social” (Vandenberghe, 2010, p. 27).

Para Bhaskar, a única alternativa possível para uma emulação proveitosa do naturalismo nas ciências sociais é aquela que cabe na fenda aberta pela crítica simultânea ao individualismo e ao holismo metodológicos – trilhando o realista e relacional caminho do meio. Enquanto seu espantalho do individualismo metodológico tem um semblante weberiano, o do holismo tem uma feição durkheimiana. Aberto o combate, para aumentar as chances de vencer a rinha, Roy Bhaskar se alia ao pensamento marxista, de um lado em diálogo com sua leitura althusseriana, defendendo que a sociedade é o resultado não de práticas e sim de aspectos da interação humana, que se dá a partir de sistemas de relações entre posições em uma estrutura dada, e de outro na combinação entre Marx e Aristóteles, frisando a constante inevitável da transformação do mundo social.

Nesse caminho argumentativo, a sociedade é tanto uma pré-condição que as pessoas encontram ao embarcar no mundo real, quanto uma consequência não intencional de suas ações (intencionais ou não); do mesmo modo que as ações, a agência humana, são tanto uma produção consciente, como uma reprodução inconsciente da sociedade. Ainda assim, essas não são duas faces complementares, ou dois enquadramentos, de um mesmo elemento; a sociedade e as pessoas, a estrutura e a agência, são coisas relacionadas, imbrincadas até, mas distintas entre si ontologicamente.

Imaginemos um grupo de batuque formado majoritariamente por pessoas que não são musicistas e, percebendo o fato de que a maioria absoluta de suas integrantes possui um aparelho de telefonia móvel e faz uso de redes sociais digitais – em geral gratuitas para esse perfil de usuário –, as pessoas com maiores conhecimentos e habilidades musicais achem por bem gravar vídeos com instruções para serem compartilhados com os demais integrantes e façam uso de uma plataforma de armazenamento e compartilhamento on-line. Provavelmente, essas pessoas não só não pretendem legitimar e/ou fortalecer instituições que controlam um volume desumano de recursos materiais e simbólicos, como também devem ser contrárias à existência e atuação delas. No entanto, a revisão de temas como autoria, pirataria, publicidade, além da reconfiguração do que antes era o mercado fonográfico para o arranjo que poderia ser descrito como um mercado multimídia e multissensorial de bens culturais é exatamente um dos resultados não intencionais desse engajamento tão circunstancial.

Em suma, o realismo crítico e essa sua visão panorâmica (de cima do muro, diria alguém) mantém no quadro analítico questões materiais e de emancipação, pois, desse ponto de vista, é possível ter acesso à amplitude (e à variação dela) para perceber a cadeia de forças (ou poderes causais), as estruturas, os fatos sociais, as pessoas, suas ações e interações – tudo vinculado e regido pelas tendências dos vetores que ele chama de mecanismos gerativos.

O sistema de relações sociais pode ser analisado, em termos realistas, como uma série de mecanismos gerativos frouxamente inter-relacionados e dotados de propriedades emergentes e poderes causais. (…) Compreendida relacionalmente, a sociedade é a totalidade de sistemas de relações humanas entre posições sociais, cada um dos quais tem seus próprios poderes causais, propriedades, tendências e capacidades (Vandenberghe, 2010, p. 29).

Sumarizando sua alternativa, Bhaskar sugere que, para conseguir explicar os eventos nesses sistemas complexos e abertos do mundo social, a análise científica siga um processo em quatro etapas: “(i) análise causal (ou resolução) do evento; (ii) redescrição teórica das causas componentes; (iii) retrodição[3] através de sentenças nórmicas[4] para possíveis causas dos componentes; (iv) eliminação de causas alternativas” (Bhaskar, 2008, p. 115).

Encerando o ciclo da primeira de suas três ondas, o realismo crítico de Bhaskar dá o seu golpe de misericórdia no positivismo quando acusa o caráter ideológico imanente da atividade científica baseada ou influenciada por suas premissas.

Fazendo abstração dos experimentos em que conjunções constantes de eventos podem ser observadas, ele [o positivismo] reifica os fatos científicos, transformando-os em coisas. O positivismo não apenas humaniza a natureza. Com sua sociologia de indivíduos atomizados, ele também naturaliza a sociedade. (…) Juntas, a reificação dos fatos científicos e a naturalização da ação humana transformam o positivismo em uma ideologia, no sentido marxista do termo, que reproduz e reflete, racionaliza e mistifica a ciência normal e o senso comum, assim como a relação entre ambos (Vandenberghe, 2010, pp. 31-32).

Com isto, ele denuncia a influência dos julgamentos valorativos e morais nos argumentos falsos ou falsamente isentos das ciências, o que inclui uma dimensão metacrítica, ou seja, uma crítica da crítica no esquema fundacional do realismo crítico.

Por meio dessa estratificação da produção científica do conhecimento em suas três dimensões, tal movimento teórico abre caminhos para uma dialética a um só tempo da ontologia, da epistemologia e da axiologia – um avanço considerável e extremamente útil quando se deseja lidar com a ainda ínfima e insuficiente, mas significante democratização da ciência com relação a temas, abordagens, interesses e, principalmente, pessoas que a produzem e são reconhecidas por isso.

As disputas pelos direitos em torno do que se convencionou chamar de minorias identitárias é um exemplo emblemático. Elas vêm acontecendo em escala global há, pelo menos, meio século e se dão predominantemente na arena dos discursos, onde a produção científica tem um peso paradoxalmente dogmático e equivalente ao de verdade. O seu truque da aparente assepsia ideológica, apostando alto na impessoalidade, já não garante que ela se mantenha de pé na rixa. Tanto a normalidade quanto a normatividade vêm sendo atacadas sucessiva e sistematicamente, até um ponto em que a redoma a partir da qual a ciência fazia fronteira com a política foi estilhaçada. Ainda mais a partir do momento em que o perfil das pessoas que ingressam nas universidades no Brasil mudou, e com isso, novos esquemas e modelos de interpretação do mundo ajudam a denunciar as falácias epistêmicas – algumas delas alicerces fundantes da produção de conhecimento científico.

Os caminhos abertos por Roy Bhaskar permitem seguir essas trilhas (sonoras mas não só) do antirracismo imanente à música negra produzida na periferia de Maceió. Como veremos mais adiante, ainda que com parcos recursos financeiros, há um sistema complexo e capilarizado capaz de criar condições para vocalizar angústias e materializar demandas por justiça social nas grotas alagoanas. Mas esse mecanismo de participação política, ainda que não atenda aos rituais de formalização da política das sociedades modernas, sendo reiteradamente posto à margem, não pode mais ser ignorado ou folclorizado, pois na presença de seus líderes e teóricos orgânicos a academia não sustenta impunemente seu elitismo. Não só pesquisadores e pesquisadoras estão na batalha de hip-hop tirando suas conclusões sobre a periferia urbana da semiperiferia mundial, da contraparte MC’s também estão se tonando bacharéis da cultura.

Desde então, a ontologia, a epistemologia e a axiologia inegáveis e características dos saberes “nativos”, na presença de seus portadores, são menos domesticáveis e distorcidas, e em vez de serem capturadas e traduzidas para o vocabulário hermético dos ciclos da elite intelectual, criam novos lugares de fala, que, por seu turno, demandam novos lugares de escuta. A nova dialética nos impele a novos diálogos. As diferenças dos modos de ser, conhecer e valorar o mundo não precisam ser achatadas numa análise unidimensional e binária (nós versus eles): partindo do realismo crítico ganha-se em profundidade, amplitude e complexidade.

Como em um ciclo virtuoso em espiral, o avanço que tivemos em relação ao etnocentrismo científico a partir do relativismo cultural pode ser colocado em paralelo às rupturas e renovações do pensamento antropológico, a partir do perspectivismo ameríndio que inaugurou uma chave para compreender a relação entre natureza e cultura. Arriscando seguir nessa direção, o realismo crítico pode ser um novo paralelo ao nos oferecer uma possibilidade de ruptura e renovação similar no sentido do cosmopolitismo.

Especialmente no que diz respeito à dimensão axiológica, as diretrizes do realismo crítico nos permitem ter uma ciência sobre a negritude que seja útil para combater as desigualdades raciais, sem se deixar cair em um utilitarismo cego e instrumental, e que seja fértil e produtiva sem aderir ao produtivismo. Desmascarada a imbricação entre saber e poder, que ela seja democratizada para que mais e diferentes pessoas tenham o poder de/por saber.

Deste panorama rápido e arbitrário, importam essencialmente três raciocínios argumentativos do esquema conceitual do realismo crítico: o deslocamento da ontologia dos eventos (observados em experimentos) para a ontologia das estruturas, determinadas pelas interações dos mecanismos gerativos, que corrobora a hipótese de que a experiência com o racismo é a matéria-prima condicional da negritude; a relação entre essas estruturas e as práticas e a experiência vivida das pessoas negras (além, é evidente, do reflexo dessa ontologia na epistemologia e na axiologia da negritude e da racialização); e a segmentação da dimensão ontológica em três domínios, que pode nos ser útil para compreender as singularidades das práticas do racismo escamoteado, mas nem por isso menos violento, no Brasil.

Para elucidar suas conclusões sobre a importância de considerar a ontologia no processo de construção do conhecimento, essa que é sua dimensão basilar será dividida em três domínios superpostos: o do real, no qual as coisas são o que são por força da combinação e da interação entre as tendências dos mecanismos e das estruturas gerativas, ou melhor, o domínio do real é ele mesmo constituído desses mecanismos e estruturas que, em sua esmagadora maioria, nos são ininteligíveis, ou mesmo imperceptíveis; o do atual, no qual as coisas, ao serem o que são, geram eventos padronizados pela força da incidência dos mecanismos e das estruturas gerativas, ou seja, em vez de ser em potência, os mecanismos gerativos e suas tendências atualizam a experiência das pessoas; e o do empírico, essa restrita parte do mundo na qual podemos ter alguma ciência e consciência das coisas, e com as quais podemos realizar experimentos cognitivos de onde apreendemos alguns padrões dos eventos que se dão no domínio atual.

Fonte: Bhaskar (2008, p. 2).

Essa estratificação nos ajuda a pensar por que duas pessoas negras que nascem e crescem em condições muito similares, em um mesmo país, em uma mesma cidade, em um mesmo bairro e no seio de uma mesma família, elaboram e enunciam a sua negritude de forma diferente, por vezes até discrepante. Se o racismo é um mecanismo gerativo do domínio do real para ambas, suas tendências e poderes causais podem permanecer em suspenso ou serem atualizados pela incidência da discriminação de classe e de gênero, caso elas tenham ocupações e/ou rendas distintas e caso sejam um homem e uma mulher, por exemplo, sendo ou não experimentados e decodificados como tal – além do que, sendo muito complexo e  volátil, esse racismo é desafiador para o escrutínio científico, sendo difícil de ser identificado e apresentado no domínio do empírico.

Esse argumento mostra que estruturas reais existem independentemente e frequentemente não estão sincronizadas com os padrões reais de eventos. De fato, é somente por causa dos últimos que precisamos realizar experimentos e apenas por causa das primeiras que podemos entender nossas performances deles. Da mesma forma, pode ser demonstrado que é uma condição da inteligibilidade da percepção que os eventos ocorram independentemente dos experimentos. E os experimentos estão muitas vezes (epistemologicamente falando) “dessincronizadas” com os eventos – por exemplo, quando eles são identificados erroneamente. É em parte por causa dessa possibilidade que o cientista precisa de uma educação ou treinamento científico. Assim, argumentarei que o que chamarei de domínios do real, do atual e do empírico são distintos (Bhaskar, 2008, p. 2).

Em relação ao racismo como matéria-prima da negritude, assim como os mecanismos gerativos no esquema teórico do realismo crítico, ele é onipresente na experiência das pessoas negras, é real, mesmo quando é uma tendência não exercida; e pode ser exercido, ainda que sua potência não esteja atuando (total ou parcialmente); e pode estar atualizado, mesmo que não seja percebido pela pessoa e/ou apreendido por analistas como tal. Pois, em suma, os mecanismos gerativos são essas forças que, ao serem apreendidas e compreendidas, tornam-se um elo explicativo entre os processos sociais que se estabilizam e se formalizam em estruturas sociais ao longo do tempo, e seus efeitos na vida das pessoas.

Quando pessoas negras sentem na pele as dificuldades de ascender profissionalmente, por serem preteridas mesmo em situações de concorrência nas quais a avaliação dos parâmetros objetivos é idêntica entre as candidaturas, elas estão sujeitas ao efeito da estrutura racista, ainda que o mecanismo gerativo permaneça velado e que o próprio fracasso profissional não seja necessariamente elaborado como um efeito do racismo.

E mais, quando percebem, ou intuem difusamente, que outras pessoas com uma imagem como a que se vê no espelho não ocupam lugares de prestígio e valor social, por exemplo, isto afeta sua trajetória pessoal, pois apreendem por meio de uma espécie de conhecimento tácito e movediço que, se não orienta, influencia suas escolhas cotidianas e seus projetos de futuro. Essas injunções e seus efeitos são o que podemos e temos mensurado do racismo até aqui. Pois,

O poder causal da cultura e da estrutura social manifesta-se concretamente na estruturação da situação de ação sob a forma de injunções ou de facilidades. O peso das injunções ou das facilidades depende, objetivamente, da posição social que os atores ocupam na sociedade – posicionamento involuntário que determina seus interesses materiais – e, subjetivamente, dos projetos pessoais que os atores perseguem, ambos ligados até certo ponto pela “causalidade do provável” (Bourdieu, 1979) que ajusta vontades à possibilidade (Vandenberghe, 2010, p. 208).

É evidente que, além do racismo, as pessoas negras lidam com outros tantos mecanismos gerativos com poderes causais que facilitam ou embargam seus projetos e sua agência no cotidiano. Os mais investigados são de longe os da classe e do gênero. Por isso talvez seja fácil tanto pressupor quanto constatar que a pobreza acentua as injunções do racismo, e que a riqueza tende a atenuar e/ou sofisticá-las – essa superposição e interação entre pobreza e negritude, somada à influência do reducionismo economicista mais ou menos acentuado em determinadas leituras de Karl Marx que ecoou entre alguns intelectuais mais progressistas do país, fez com que mesmo pessoas que advogaram pela justiça social confundissem e/ou reduzissem os efeitos do racismo aos do capitalismo[5]; bem como podemos tomar como consenso que homens e mulheres são interpelados de maneira característica pela violência racista – especialmente depois que a estadunidense Kimberlé Crenshaw (1991) nos chamou atenção para a dupla opressão que mulheres negras sofrem quando são silenciadas, tanto nos movimentos feministas, quanto naqueles antirracistas.

Podemos juntar a esses os mecanismos gerativos e as estruturas restritivas e/ou recursivas[6] da idade, da ocupação, do capital educacional, do capital cultural, da região, entre outros que têm um sentido específico no contexto brasileiro, a exemplo da ascendência, que, entre outras coisas, é um marcador constantemente usado como recurso para pessoas miscigenadas acessarem políticas públicas afirmativas; das marcas geracionais, que mudaram significativamente a postura das pessoas negras diante da sociedade e do Estado brasileiro, após a sua virada discursiva em relação ao racismo, por exemplo; da residência que, dando indícios da segregação racial do espaço urbano, e mesmo da privação do direito à cidade e ao ambiente urbano, restringe e/ou facilita o trânsito e a trajetória das pessoas – como bem atestam os dados estratificados por essa variável para as mortes violentas no Brasil; esses mais os das marcas culturais, étnicas, da sexualidade, etc.

Esses diversos mecanismos e seus poderes causais atuam implícita, simultânea e transfactualmente. A interação entre eles e o racismo pode ativar uns e desativar outros, a depender de sua elaboração pelas pessoas negras e das circunstâncias e dos contextos em que determinada pessoa se encontra. Essa interação não deve, contudo, fazer perder de vista que a estrutura racista é real e inescapável. Ainda que haja como atenuar ou mesmo desativar seus efeitos, o racismo é incorporado a fórceps na experiência cotidiana das pessoas negras.

Isso pode ajudar a compreender as nuances e artimanhas da violência racista, no exemplo hipotético de duas pessoas negras com traços físicos similares, como cor (e tom) da pele, textura de cabelo e até do mesmo gênero, que, por marcas de classe, podem ser tratadas de forma distinta em um mesmo ambiente e em uma mesma ocasião.

A partir dessa matéria-prima, o que cada pessoa negra consegue fazer é substancialmente diferente; para algumas delas, a negritude (e o racismo que vem a reboque) é mais uma entre tantas experiências que lhes atravessam e constituem, mas que não lhes definem, no entanto para outras, essa experiência se torna o principal elemento constituinte da identidade.

Referências

ANDERSON, Benedict. Comunidades imaginadas: Reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

BHASKAR, Roy. A Realist Theory of Science. New York: Routledge, 2008[1975-1978].

CRENSHAW, Kimberlé. Mapping the Margins: Intersectionality, Identity Politics, and Violence against Women of Color. Stanford Law Review, v. 43, n. 6, pp. 1241‐1299, 1991.

GILROY, Paul. O Atlântico negro: Modernidade e dupla consciência. 2.ed. São Paulo: Editora 34, 2012.

HAMLIN, Cynthia Lins. Realismo crítico: Um programa de pesquisa para as Ciências Sociais. Dados, Rio de Janeiro, v. 43, n. 2, 2000.

SANSONE, Lívio. Negritude sem etnicidade: O local e o global nas relações raciais e na produção cultural negra do Brasil. Salvador e Rio de Janeiro: Edufba e Pallas, 2007[2003].

TAGUIEFF, Pierre-André. Le racisme : Un exposé pour comprendre. Un essai pour réfléchir. Paris, Flammarion, 1997.

VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. Metafísicas canibais: Elementos para uma antropologia pós-estrutural. São Paulo: Cosac Naify, 2015.


Notas

[1] A apresentação sumária dessa corrente teórica está amparada por sua compilação crítica apresentada por Frédéric Vandenberghe, que a define enquanto “um movimento internacional, de base britânica, na filosofia e nas ciências humanas, movimento inspirado pelos (primeiros) trabalhos de Roy Bhaskar. (…) Como uma crítica radical das filosofias positivista e pós-modernista da ciência, o realismo crítico oferece uma filosofia alternativa para as ciências naturais e sociais que confere destaque às questões ontológicas” (2010, p. 16).

[2] Usando as formulações de Bhaskar como inspiração, aqui a intenção é tensionar as ciências da cultura com as demandas metodológicas das ciências sociais, ou temperar as ciências sociais com as demandas existenciais das ciências da cultura.

[3] Pelo hábito do autor de fazer uso de neologismos, vale lembrar que o prefixo “retro” exprime a noção de atrás, de movimento ou ação para trás, e o sufixo “dição”, a de ato ou ação de dizer.

[4] Mais um neologismo de Bhaskar, que no original aparece como “normic statements” e aqui reproduzo como no artigo de Cynthia Hamlin, “Realismo crítico: Um programa de pesquisa para as ciências sociais” (2000). Parafraseando a crítica brasileira, sentenças nórmicas não são leis que geram regularidades empíricas, mas leis que descrevem tendências ou poderes causais – ativos ou inativos.

[5] O exemplo mais notável é o de Florestan Fernandes, especialmente nos dois volumes de A integração do negro na sociedade de classes, tese defendida em 1964, que lhe possibilitou assumir a cátedra de sociologia na Universidade de São Paulo (USP), e onde ele forja uma espécie de antirracismo liberal, argumentando que com o ingresso integral na sociedade de classes e a assimilação e reprodução de sua estratificação entre proletários, burgueses e capitalistas, tenderiam a elidir a desigualdade balizada pelo racismo.

[6] Isso que no léxico analítico que estamos tramando são padrões e vetores de poderes causais, muitas vezes é tomado como variáveis para a análise estatística – o que em geral acontece sob pena de uma perda considerável da integração e interação sutil e, por vezes, ardilosa entre elas.