Recomendação de livro: “Luzes para uma face no escuro: emergência de uma rede afroalagoana” de Ábia Marpin, por Lília Schwarcz

LUZES-PARA-UMA-FACE-NO-ESCURO

De rede em rede

Por Lilia Moritz Schwarcz[1]

Conheci Ábia Marpin num curso que ministrei na Sociologia da UFRJ. Curiosa, crítica, muito presente e participante, durante as aulas, ela tinha por costume não deixar conceito em pé e desestabilizar qualquer certeza. Foi nessa ocasião, também, que fui informada sobre seu “objeto de pesquisa”, do mestrado, que ela realizara na Universidade Federal de Alagoas, no Instituto de Ciências Sociais, e mais especificamente no Programa de Pós-Graduação em Sociologia.

Fiquei logo desafiada pela pesquisa, não só por conta da riqueza da investigação, como pelo fato de Ábia sair do eixo Rio-São Paulo, a despeito de agora estudar na capital dos cariocas. A essas alturas, ela já era aluna do IESP, o Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, onde realiza os créditos para seu doutorado. Logo fiquei imaginando como, naquele ambiente, entrar no doutorado com uma dissertação que descrevia e evidenciava uma “rede afro-alagoana” significava, em função da temática selecionada, um ato de rebeldia. Ou seja, implicava deixar a zona de conforto das investigações mais canônicas, para explorar um estado pouco tratado, ao menos nos centros de pós-graduação do Sudeste. O estado do Alagoas invadia, sempre, as palavras de Ábia em sala de aula; aluna que devotava a ele não só a sua alma, como o coração de sua pesquisa. O que hoje conhecemos sobre a violência do sistema escravocrata vigente no Brasil, e acerca da perversidade do período do pós-emancipação – que começou em maio de 1888 e não tem data para terminar – não poderia ser diferente para o caso deste estado. Marcado pela plantation da cana-de-açúcar, cultivada pelo braço de escravizados e escravizadas, nesse local também se construíram verdadeiras “experiências negras”, advindas do fluxo e refluxo dos tumbeiros, mas também da recriação das várias nações e comunidades africanas nesse exílio que viraria terra conquistada.

Atenta aos movimentos civis, que entraram na nossa agenda republicana a partir do início dos anos 1980, Ábia acompanhou, então, o surgimento de uma “rede de valorização da expressividade afro-alagoana”, que procurou inverter valores naturalizados, naquela sociedade particular e na sociedade brasileira em geral, que sempre buscou tornar essas populações invisíveis e distantes das esferas de decisão e de poder. Inquirir e desautorizar tal tipo de atitude fez parte, por sua vez, da agenda dos vários ativismos negros brasileiros, na sua construção de novos modelos identitários e de afirmação cultural e, assim, política. Para dar conta desse novo cenário, que se configurou de forma mais clara a partir dos anos 1980, em diante, Ábia acompanhou ações governamentais, políticas institucionais, intelectuais locais, coletivos de cultura e centros religiosos. Sua intenção era, entre outras, surpreender e entender como, a partir desse contexto, e por conta da ação desses vários agentes, foram se invertendo valores estruturais, que relegavam negros e negras a posições inferiores na sociedade.

E Alagoas não era, mesmo, um lugar qualquer, ou perdido na história. Foi lá que se deu o massacre do Quilombo de Palmares; na verdade, uma confederação de quilombos, geridos por um modelo mais igualitário de governo que desafiava as autoridades coloniais. Por lá também ocorreu, no ano de 1912, um evento conhecido como “Quebra de Xangô”, quando se extinguiram vários terreiros e foram assassinados muitos chefes religiosos de matriz afro-brasileira. A autora mostra, porém, como, de maneira inesperada, foi justamente a partir dessas “feridas históricas” que se desenvolveu, nessas últimas quatro décadas, um movimento vigoroso, a despeito de disperso em várias instituições e grupos.

Ábia percorreu grupos artísticos, religiosos e coletivos; conversou com líderes políticos, personalidades dos cultos afro-brasileiros locais e protagonistas culturais, sempre com sensibilidade e “particular interesse”. Isso porque a pesquisadora reconhece ser, ela mesmo, personagem externa e interna a esse campo. Tal posição, por certo ambígua, trouxe dificuldades evidentes – daquele que se identifica com o objeto que estuda –, mas também vantagens, uma vez que foi mais fácil chegar aos locais e pessoas que ela pretendia estudar, e estudou. Outra dificuldade também estava presente no fato desta não ser uma “rede” formalmente constituída. Nesse caso, foi preciso que a investigadora atasse, ela própria, o laço, caprichasse nos nós, e transformasse um panorama disperso num desenho consistente.

Foi apenas com grande esforço analítico que a pesquisadora logrou “construir” seu objeto e dar a ele sensibilidade e consistência. Deslindou, portanto, novos “eixos”: eixos políticos, eixos culturais, eixos religiosos, eixos artísticos, os quais, todos juntos, constituíram essa “rede afro-alagoana”, que se inventava bem diante dos olhos de Ábia. O resultado é um livro que traz um panorama impressivo; sem abrir mão do estilo preciso da narradora, da pesquisa de campo bem azeitada, do uso da teoria na “quantidade” e nos momentos corretos. Aí está essa “rede” que se parece muito com o trabalho de tear dos artesãos de Alagoas, que com engenho produzem sua arte e seu fazer.

O conceito de “rede” é aqui tomado como “net”, no sentido de um conjunto de ações que, a despeito de independentes, fazem sentido quando correlacionados. Podemos arriscar, porém, um outro sentido, menos “ortodoxo”, digamos assim.  Refiro-me àquelas redes tecidas com cuidado e zelo, que nos fazem descansar, mas também nos despertam para o novo dia. Vivemos um momento de claro recesso na nossa cartela de direitos, e o país, que tinha como projeto a busca da equidade e da diversidade, vai caindo de “rede em rede”. Continuamos campeões em desigualdade social, cultural e racial, e, enquanto tolerarmos esse estado de coisas não conheceremos qualquer projeto consistente de democracia.

Já o livro de Ábia nos abre uma porta e permite que ela fique aberta, ou, por vezes, entreaberta. Um novo Brasil nasceu a partir dos anos 1980 e cabe a nós fazer com que ele não fique no passado, mas faça parte integral das nossas narrativas do presente.

Notas:

[1] Professora do Departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo (USP), Global Professor em Princeton, curadora adjunta para histórias e narrativas do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (Masp).