Sociofellows indicam para 2019, por Laura Chartain

etnographie du samusocial

CEFAÏ, Daniel & GARDELLA, Edouard. L’urgence sociale en action. Ethnographie du Samusocial de Paris, Paris, La Découverte, coll. « Bibliothèque du Mauss », 2011

Eu recomendo esse livro de Daniel Cefaï e de Edouard Gardella que me tocou por várias razões. Esse livro oferece, antes de tudo, uma submersão incrível que nos leva ao coração da atividade dos « maraudeurs »[1] do Samu Social de Paris. O Samu Social é uma organização não governamental que presta assistência de emergência a pessoas que vivem nas ruas, encaminhando-as para que recebam os devidos cuidados, acomodação e arranjos administrativos que as propiciem oportunidades de reintegração. Os dois autores fornecem descrições etnográficas e análises densas, nuançadas, atentas aos elementos afetivos, morais e materiais que compõem o cotidiano dos trabalhadores sociais do Samu em suas interações com as pessoas que vivem nas ruas. De modo distinto das análises correntes sobre este tipo de objeto, as quais tendem a compreendê-lo apenas em termos de governamentalidade ou dominação, mas sem cair em uma hagiografia, os autores prestam homenagem à atividade dos maraudeurs do Samu Social, restituindo a sua espessura, a sua complexidade, os seus dilemas e as suas ambivalências. A análise da ação pública permite igualmente interrogar a respeito da comunidade cívica onde ela se desenrola e também revisitar as noções políticas de direito, responsabilidade e obrigação.

Levado para dentro das diferentes cenas e situações descritas, o leitor dispõe de diversas chaves para representar para si mesmo essa atividade, e também questionar, assim como os autores, esse objeto sob uma forma dialética. A pesquisa nos permite, deste modo, revisitar questões muito atuais, como a autonomia, o reconhecimento, o cuidado (care) e a dádiva, frequentemente considerados pelas ciências sociais a partir de um ponto de vista projetivo, exterior e abstrato. Além disso, o diálogo com uma vasta literatura atual e mais antiga sobre diferentes formas de assistência, é realizado segundo um procedimento original que consiste em fazê-lo aparecer ao longo de observações e análises extraídas da etnografia. Este método tem a vantagem de não encerrar a atividade, as interações e as práticas em um objeto pré-construído a priori.

Este livro apresenta, além disso, um grande interesse, na minha opinião, ao propor, na linha da tradição etnográfica da Escola de Chicago de abordagem pragmatista, uma metodologia rigorosa que, enfatizando a diversidade de situações e elementos capturados pela observação etnográfica, não deixa contudo de enfatizar as formas de regularidade e de tipificação da atividade daqueles que ela pesquisa. É um verdadeiro exercício da análise fenomenológica em ação, ancorada em situações reais, que o leitor descobre e da qual pode inspirar-se para pensar uma pluralidade de questões, tanto conceituais, metodológicas quanto pessoais e existenciais.

*Um trecho do livro está disponível em português no site de Daniel Cefaï da Academia:

https://www.academia.edu/3343115/Provações_corporais_uma_etnografia_fenomenológica_do_atendimento_de_urgência_aos_moradores_de_rua

*Dois artigos independentes do livro, mas ligados à mesma questão também estão disponíveis, um em português e um em inglês.

http://www.academia.edu/6915131/Grande_exclusao_e_urgencia_social_o_Samusocial_de_Paris

https://www.academia.edu/8036166/Outreach_work_in_Paris_A_moral_ethnography_of_social_work_and_nursing_with_homeless_people

Notas:

[1] Mantenho a palavra no original e, seguindo a tradutora Cristina Prado, acrescento que“maraude  poderia ser traduzido por ‘ronda’, mas aqui se trata de uma ronda especial, sem destino fixo, uma perambulação, por exemplo dos taxistas à procura de clientes”.