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Indicações por Maria Luiza Assad

van doreen flight waysVAN DOOREN, T. Flight Ways: Life and Loss at the Edge of Extinction. New York: Columbia University Press, 2014.

Quando penso no interesse que um livro como Flight Ways: Life and Loss at the Edge of Extinction poderia suscitar num blog dedicado à teoria social, essa sugestão me gera certa estranheza. Apesar de tudo, o trabalho de Thom van Dooren foi uma das melhores descobertas de 2018. Uma descoberta tardia: Flight Ways foi publicado em 2014. Mas é possível, e talvez até mesmo desejável, que se torne cada vez mais atual (enquanto leitura). Em seu sobrevoo que perscruta os modos e linhas de vida de cinco espécies diferentes de aves, o propósito de van Dooren é dar continuidade a certa tradição de narrativas sobre extinção. E, particularmente, sobre processos de extinção provocados ou acelerados pelas atividades humanas.

Seguindo seu propósito, van Dooren ajuda a solapar nossa usual distinção entre história “natural” e história política, social ou cultural. Trata-se de histórias do que poderia ser visto como a processos de emergência, continuidade e colapso de diversas formas de vida. E nesses processos vitais todas as formas de vida e suas respectivas maneiras de viver se encontram emaranhadas, seja de modo mais estreito, seja de de modo mais frouxo e distante. O processo de extinção pode ser lendo, mas o sumiço de uma forma de vida nunca é sem consequências. E é ao dar corpo a esses emaranhamentos que a narrativa pretende ser diferente da tradição que o próprio autor busca perpetuar.

Van Dooren é um desses filósofos da ciência – ou de “algo-por-aí-mas-sempre-difícil-de-enquadrar” – que, inspirados por Donna Haraway, Deborah Bird Rose, Vinciane Despret e cia, enveredaram pelo caminho da etnografia. No caso, daquela que poderíamos designar por “etnografias multiespécies”. Assim, seu legado teórico já dá indícios de algumas das opções que comparecem na obra: a tentativa de rechaçar o que considera o “excepcionalismo humano”, essa tendência a nos considerarmos tão distintos em meio a outras formas de vida que, além de marcar todo o cânone do “pensamento ocidental”, nos impede de ver o que é continuidade, o que é “emaranhamento” e nos faz relegar a uma “história natural” tudo o que supostamente pertence ao universo da “biologia”, dos corpos, da “vida nua”. Mas uma das apostas de filósofos, antropólogos e outros que se juntam às narrativas multiespécies[1] é: o que entendíamos por “vida nua” (zoe) possui ela mesma uma biografia. E mesmo uma vida política que deve ser contada.

Alguns dos muitos meandros da cisão entre história natural e história humana, natureza e sociedade, biologia e cultura etc é familiar àqueles envolvidos com teoria social, com história das ideias, com a própria constituição das ciências humanas e ciências sociais. E parece pertinente reconhecer que uma recusa radical do “excepcionalismo humano” pode conduzir a pontos cegos – afinal, se não considerarmos qualquer distintividade, como atentar ao próprio peso que assumem as atividades humanas quando pensamos nos fenômenos de mudança climática e na degradação ambiental? Como distribuir os quinhões de responsabilidade pelo Antropoceno, por suas múltiplas vias e desdobramentos?

Mas a aposta de van Dooren pode ser entendida de modo diferente: em vez de considerar aquilo que seria distintivo dos humanos e que sempre nos força a compreender outras formas de vida pelo que lhes “falta”, vale a pena pensar em termos de diferentes regimes de sensibilidade, para apreender o que é e o que pode ser a vida para as muitas espécies. E como ela importa para cada uma dessas existências, além da nossa. O caráter de multiplicidade das espécies é importante; na ênfase à narrativa sobre o emaranhamento de múltiplas formas de vida, um aspecto que se destaca é reconhecer que suas existências não se extinguem apenas quando desaparece “o último representante” de cada uma delas. Quando isso ocorre – ou mesmo os esforços por preservação de dadas espécies em cativeiro – é porque a extinção praticamente já se deu. O que desapareceu foi todo um modo de vida. Por isso, van Dooren fala um processo de extinção: longo, gradual, contínuo, que pode se acelerar em certas circunstâncias. E se tudo isso soa abstrato e distante de nossa existência, Flight Ways promete surpresas.

Um dos aspectos mais marcantes da obra é como Thom van Dooren consegue dar corpo ao emaranhados de existências de forma mais vívida do que muitas apresentações por documentários sobre outras espécies. As diversas vidas que ganham corpo em sua narrativa se estendem desde albatrozes em atóis no meio do oceano pacífico a pinguins no porto mais tumultuado da Austrália; do emaranhado de vida e morte entre abutres, pessoas, gado, cães de rua e outras espécies na Índia aos entrelaçamentos de vida e morte nos esforços pela preservação do grou-americano; além do caso de certos corvos no Havaí.

Aquelas formas de vida são afetadas por tantas outras. E no que nos toca: da disseminação de plásticos no oceano aos sons de portos e aos efeitos de medicamentos – frutos de nossas atividades que também ultrapassam fronteiras. E não são apenas outras espécies que padecem com os desdobramentos de nossas ações. O caso dos abutres na Índia, em particular, demonstra que  nesses ciclos de vida e morte (que se tornam cada vez mais processos de dupla morte), as vidas humanas também perecem. E principalmente as mais vulneráveis: os mais pobres, aqueles que não podem fugir da precariedade de suas existências e não podem amortecer os desdobramentos do desaparecimento de outras formas de vida – mas que, ironicamente, continuaria a nos parecer irrelevante.

Por isso, mesmo ao se deter em pássaros, Flight Ways não é um livro sobre diferentes  pousos e voos. É da interdependência de todas as nossas formas de vida que ele trata. Interpendência cujo peso tantas vezes se faz mais difícil sentir e vislumbrar. Daí a relevância de destacar trabalhos que não nos deixem continuar olhando sempre para o outro lado. Mas também de todos aqueles que, sem ignorar o problema, não nos forcem cair no desespero de achar que só há denúncias ou “fins de mundo” a contar.

Notas:

[1] A verdade é que não sei se falar em termos de “etnografias multiespécies” faz justiça ao livro, apesar do posicionamento do autor em geral. Em Flight Ways, se faz presente uma miscelânea de práticas como método. E talvez isso já sinalize o que será necessário para dar corpo e visibilidade ao que nos circunda, mas que é sempre difícil estudar. Recorre-se a documentos, artigos científicos contemporâneos sobre cada uma das espécies acompanhadas, encontros e entrevistas com cientistas que as acompanham de perto, que estudam sua extinção ou o comprometimento de suas maneiras de viver.