Sociofellows indicam para 2019, por Ábia Marpin

1*YLlZ96J3p8GFkIh1USVMzg

Indicações de Ábia Marpin

um defeito de corGONÇALVES, Ana Maria. Um defeito de cor. Rio de Janeiro: Record, 2006.

O que faz um grande livro? “Tamanho não é documento”, talvez você pense. Mas, vai dizer que em tempos de Brasil pós-democrático, com livrarias de grande porte baixando as portas e gigantes da indústria editorial pedindo humildemente que nos presenteemos com livros no fim do ano, emplacar a 17ª edição de uma obra de peso, literalmente (com quase mil páginas), não é algo a se considerar?

Mas, este não é o único mérito de Um defeito de cor. A partir de um relato deixado por Kehinde, uma mulher africana escravizada e trazida para o Brasil ainda menina, Ana Maria Gonçalves faz uma espécie de transcrição/tradução/atualização para o português contemporâneo – algo que os historiadores chamam de metaficção historiográfica.

Além da coautoria anacrônica e inusitada, esse relato é singular e especial por alguns outros motivos. O primeiro deles é que esses manuscritos raríssimos, estavam a ponto de se perder para sempre, vítima dos ecos da colonização por aqui. Décadas, talvez séculos, mal acomodados nos fundos da pequena igreja de uma cidadezinha praieira do interior do Brasil, os documentos empoeirados foram descartados pelo pároco e resgatados pela cuidadora do prédio, zelosa mãe que achava um desperdício aquele papel todo ir pra o lixo e que os resgatou para que seu filho rabiscasse no verso deles. Numa cadeia de acasos imprevisível, esses arquivos chegam nas mãos de Ana Maria Gonçalves, que não à toa introduz o livro narrando como encontrou o material para o livro icônico: guiada pelas serendipidades – “aquela situação em que descobrimos ou encontramos alguma coisa enquanto estávamos procurando outra, mas para a qual já tínhamos que estar, digamos, preparados”. (2018: 9).

Outra coisa que vale a leitura, é o contato com sensibilidades e cosmovisões que desafiam nossos mapas mentais e afetivos mais convencionais (ou colonizados). O modo como a travessia transatlântica é descrita, por exemplo, é uma forma original e potente de falar da violência que um ser humano é capaz de impingir a outro, e de como a forja de uma alteridade radical é fundamental para legitimar essa violência. No entanto, ao evitar a rota fácil e desgastada do apelo imediato a nossa compaixão romantizada, o tom quase monótono com que a série de acontecimentos trágicos (quase épicos e, ao que tudo indica, autobiográficos) vão sendo narrados, apela antes para a simetria, devolvendo a humanidade e a profundidade existencial ao drama, e permitindo uma empatia sincera.

Os massacres da escravização racial e os do racismo à brasileira são feridas históricas que não conseguimos cicatrizar e para as quais tenho dedicado meus esforços acadêmicos nos últimos seis anos. Nesse percurso já li e reli obras das ciências sociais de autores e autoras de várias épocas e vários continentes, e apesar de reconhecer a importância do método, considero a (boa) escrita acadêmica, um exercício essencialmente de criatividade. Gosto de pensar que flanar, física e metafisicamente, é fundamental para estimulá-la. O encontro com o livro de Ana Maria Gonçalves foi resultado desse meu hábito de flanar. Além do prazer da leitura, Um defeito de cor me rendeu ótimos insights e afetações e por isso, no fim das contas, a indicação é mais pelo que não consigo do que pelo que tenho tentado dizer. Só concluo torcendo para que, no caso de você arriscar seguir minha dica, a leitura e o encontro seja tão potente como foi para mim.