Sociofellows indicam para 2019, por Lucas Faial

Indicações de Lucas Faial

G00088.jpgFOUCAULT, Michel. Histoire de la sexualité (Tome 4) – Les aveux de la chair. Editions Gallimard, 2018.

O quarto volume da História da Sexualidade foi lançado, incompleto, esse ano. Nele, Foucault continua sua longa genealogia da sexualidade enquanto arranjo de técnicas, saberes e discursos que engendram certas formas de subjetividade. Começando com A Vontade de Saber, lançado em 1976, a quadrilogia da sexualidade viria a ocupar a última década da vida de Foucault, marcando alguns deslizamentos em relação às suas obras anteriores. A princípio, o panorama parecia ser aquele já feito conhecido em Vigiar e Punir(1975): saberes e poderes se articulam de modo a produzir um sujeito que é objeto de tais saberes e poderes, encontrando-se a todo tempo atravessado, moldado e constituído pelas técnicas, tecnologias e práticas de saber-poder que o tomam como ponto de apoio. O sexo aparece com nódulo discursivo que é a um só tempo suscitado e ocultado, feito aparecer enquanto aquilo a respeito do qual não se deve falar. Tal registro ambíguo é ele mesmo fonte da potência discursiva da sexualidade, instituída pelo próprio discurso que a pretende controlar. Sendo assim, interdições das mais variadas são instadas pela multiplicidade de discursos emergentes no nódulo discursivo da sexualidade, estabelecendo-se com esta uma relação de criação-repressão que se desdobra indefinidamente. O princípio dessa reprodução é a mesma potência discursiva da sexualidade enquanto centro da subjetividade moderna que, por ser tão inescrutável e fundamental, deve ser sempre insatisfatoriamente gerido e controlado por discursos diversos. Porém, como chegamos até aí? Para entender a emergência do dispositivo da sexualidade como peça central na formação e conformação da subjetividade moderna, é necessário um ou alguns passos atrás. Para tal, Foucault volta-se para a filosofia grega e greco-romana, especialmente aquela produzida entre os séculos V e III a.C., no segundo volume intitulado O uso dos prazeres (1984), e aquela produzida nos séculos I e II d.C, no terceiro volume intitulado O Cuidado de Si (1984).

 Nessa volta a Antiguidade, encontramos alguns fios a serem puxados na emergência da sexualidade enquanto objeto de saber e poder, e junto a isso, enquanto cerne do sujeito moderno. Longe de retomar as minúcias dos três volumes, cabe explicitar aqui como estes enquadram Les Aveux de la Chairno conjunto da História da Sexualidade. O encadeamento entre a filosofia grega e greco-romana, e a filosofia patrística, aquela dos “pais da Igreja” entre os séculos III e V d.C. não é sem suas descontinuidades ou repetições. Entretanto, acredito ser possível destacar alguns movimentos relevantes: n’O uso dos prazerestrata-se de entender a sexualidade, ou antes a aphrodisia, pelos atos externos e pela homeostase natural do corpo, visto que o sujeito era concebido em termos de seu lugar na ordem natural-social calcada no Logos, este princípio de razão transcendente, que calca a natureza biológica do ser humano. Posteriormente, n’O Cuidado de Si, encontramos princípios de um deslizamento para dentro, visto que o foco dos pensadores da sexualidade passa dos atos externos para os efeitos infinitesimais desses atos no corpo. A sexualidade se infiltra, por assim dizer, nos recantos da intimidade e da interioridade do sujeito. Esta interioridade, diga-se de passagem, ainda não é aquele ambiente rico e complexo que será característica do sujeito moderno que conhecemos, mas já está impregnada de perigos, ocultações e autoenganos. É no quarto volume que encontramos traços dessa subjetividade, especialmente na leitura de Foucault da filosofia de Agostinho. Grosso modo, trata-se de um sujeito que é oculto para si mesmo e, portanto, deve ser objeto de constante cuidado, análise e modelação. Dedicar-se a si mesmo é o dever do sujeito pós-queda, aquele que se encontra afastado de Deus pela sua natureza pecaminosa, ela mesma uma herança inscrita na carne de seu ato voluntarioso contra a vontade divina. Agir pela vontade contra a vontade, é isso que institui a subjetividade ambígua e fraturada do sujeito moderno, sempre em busca de decifrar a si mesmo, e sempre vítima de sua própria falibilidade. Nesse jogo constante de decifração sem fim, a verdade do sujeito é inscrita em sua carne, sendo esta definida pela sua sexualidade (pecaminosa) perigosa. Para auxiliar nesse jogo, o papel dos diretores espirituais e conselheiros parece apontar para um princípio sociológico importante quanto ao sujeito moderno: não é possível encontrar a si mesmo sem passar pelos outros. É claro que isso não é nenhum consolo, haja visto que as relações que nos levam para nós mesmos também podem estar atravessadas pelas assimetrias de poder, pelas violências e pelos abusos que também podem vir a nos fraturar.

Ao fim e ao cabo, muito se passa entre o sujeito cristão de Agostinho e o sujeito moderno que vemos acometido pelos saberes “psi”, pelo dispositivo familiar, pela escola, e pelos demais dispositivos que constituem o investimento de poder biopolítico no sujeito. Entretanto, o que a volta às confissões da carne parece nos legar é algo diferente da imagem dantesca de um sujeito atravessado, assujeitado, fraturado e sobrepujado em virtude da sexualidade. Por outro lado, também não é algo semelhante a um sujeito autônomo, reflexivo, que cuida de si e dos outros pela potência de sua subjetividade. Encontramos novamente esse sujeito que, emergindo historicamente enquanto forma, contém em si multidões, ambiguidades e instabilidades. Um sujeito que tenta (e falha) na busca de si mesmo, mas que nem por isso deixa de atentar-se para si, que usa técnicas e tecnologias atravessadas de poder, mas que nem por isso resume-se a estas ou a este, que se faz e que nunca se faz sozinho. 

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STREECK, Wolfgang. How will capitalism end?: Essays on a failing system. Verso Books, 2016.

Para quem procura uma leitura marxista que procura prever os rumos do capitalismo contemporâneo e ainda está naquele clima de crise apropriado para 2018, recomendo esse livro. Wolfgang Streeck propõe uma teoria do fim do capitalismo. A princípio, este é definido como formação social improvável desde sua gênese, mantendo-se instável e em fluxo até o presente. Quanto a este presente, Streeck o define como um momento de indeterminação, um período de exacerbação dos efeitos de contingências e da percepção de uma maior incerteza quanto à possíveis relações causais de longo prazo. Tal momento de indeterminação não se deve a um fator, mas a uma multiplicidade de pequenas crises que se compõe num diagnóstico de “multi-morbidez”. Dado que o capitalismo é uma formação social desde sempre frágil, a sobreposição de muitas fragilidades o torna insustentável. Quanto às possíveis alternativas e forças remediadoras, é possível que estas não existam ou não sejam mais suficientes para contrabalançar o declínio iminente. Por isso, uma vez finda a ordem capitalista, entraríamos num período de “interregno”, em que nenhum novo sistema mundial estruturaria a vida social, mas as ruínas do capital ainda permaneceriam para serem dividas como espólios do velho mundo.

O caminho até o interregno começa numa trajetória de crise desde a década de 1970, marcada pelo ponto de virada em que o acordo pós-guerra do bem-estar é abandonado em resposta ao aperto nas possibilidades de lucro no sistema de mercado global. Três crises marcaram as três décadas antes da virada para o século XXI: a inflação global na década de 1970, a explosão da dívida pública na década de 1980 e o endividamento crescente na década subsequente, resultando no colapso de mercados financeiros em 2008. Streeck afirma que a trajetória de crise segue mais ou menos a mesma lógica em todos os grandes países, com respostas político-econômicas similares: inflação, dívida pública e desregulação da dívida privada começam como soluções para conflitos de distribuição entre capital e trabalho (resultantes do esgotamento do estado de bem-estar social pós-guerra), até que se tornam problemas por si mesmos. Assim, inflação traz desemprego, uma vez que o investimento de recursos monetários, seja como consumo ou como investimento em capital produtivo, torna-se pouco atraente. Junto a isso, a dívida pública resultante da tentativa de conciliar compromissos de bem-estar e a manutenção do sistema capitalista provoca instabilidade na relação de credores, produzindo a pressão para “consolidação de dívidas” na década de 1990. Ao mesmo tempo em que os governos são pressionados para equilibrar sua balança orçamentária através de medidas de austeridade fiscal e contenção de gastos, o mercado financeiro se mobiliza para preencher o espaço deixado na demanda agregada, estendendo excessivamente o crédito. De maneira geral, Streeck descreve um conflito em torno das práticas político-econômicas de governos pressionados tanto pela sociedade, buscando manter a estabilidade social e política conquistada no pós-guerra, quanto pela nova frente do capitalismo, a indústria global financeira, que se tornara peça intrínseca do processo produtivo no cenário internacional.

A indústria global financeira, crescida rapidamente em países em processo de desindustrialização, passou a interferir mais enfaticamente na formulação de políticas econômicas estatais, visto que estados nacionais eram seus principais clientes no mercado internacional. A habilidade dos estados de cancelar unilateralmente suas dívidas, bem como a noção de que sua solvência era sempre certa, levam a uma pressão do sistema financeiro para que o estado democrático se torne um estado de consolidação, ou seja, um estado que seja de fato capaz de pagar suas dívidas. Em decorrência dos cortes de gastos sob regimes neoliberais, o descontentamento e a demanda por parte dos cidadãos vem a encontrar na indústria financeira alguém para cobrir o espaço descoberto pelo encolhimento do estado de bem-estar. Sendo assim, o esgotamento das possibilidades de lucro em escala global levou a pressão da indústria financeira pela desregulação de suas práticas por um lado, e pela consolidação das dívidas públicas por outro, de maneira que a ordem social e política alcançada pelo estado de bem-estar democrático do pós-guerra encontra-se ameaçada pela crescente desigualdade, resultante tanto da fragilização do estado de bem-estar, quanto do crescimento econômico baixo em termos globais.

Uma vez explicitadas as bases do momento atual do capitalismo, Streeck se pergunta porque as narrativas neoliberais que modelam formas de vida no capitalismo contemporâneo são bem-sucedidas atualmente, ou seja, porque o capitalismo e sua forma de vida correspondente ainda gozam de tanto apoio. A hipótese é que diante da progressiva desconstrução das instituições que serviriam para normalizar e estabilizar a vida social, o fardo de organizar a vida cotidiana passa para o indivíduo. Assim, o investimento no ethos neoliberal é parte crucial da manutenção do capitalismo contemporâneo, visto que esse não possui as garantias que poderiam sustenta-lo em outras eras. Na fenomenologia do “caráter social” do capitalismo contemporâneo, Streeck destaca dois termos chave: disrupção e resiliência. Disrupção, termo outrora associado a destruição e instabilidade, ganha o sentido de “inovação” ou de “destruição criativa” tão caro às novas formas de acumulação capitalista, especialmente no âmbito tecnológico. O termo diz respeito, de maneira mais profunda, aos processos de constante destruição e refazimento das rotinas práticas num contexto de desinstitucionalização e desestruturação, em que arranjos sociais duradouros perdem valor e vigência. Por outro lado, a resiliência diz respeito a postura exigida do indivíduo diante do processo recalcitrante de disrupção, notando-se sua diferença com o termo “resistência”, que implica oposição ativa, ao passo que resiliência indica um suportar resignado das condições de vida dadas.

Concomitante à desregulação e ao crescimento de uma indústria global financeira, à fragilização das formas de ação coletiva em torno das relações de trabalho e identidades profissionais, e ao desacoplamento entre democracia e capitalismo, desenhou-se um capitalismo “de-socializado”, cujos mecanismos sistêmicos responsáveis por mantê-lo e mantê-lo em cheque, deixaram de existir ou de serem suficientes. Sendo assim, parece ser apropriado o diagnóstico de uma sociedade progressivamente individualizada, caracterizada por um ethos neoliberal de competividade hedonista e valorização da performance pessoal.

Se a predição de Streeck se sustenta ou não, só o tempo dirá. Entretanto, a recomendação se sustenta como exercício de imaginação sociológica a respeito do capitalismo contemporâneo, seu passado, seu presente, suas tendências e as formas de vida que parece recompensar.