Sociofellows indicam para 2019, por Frédéric Vandenberghe

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Indicação de Frédéric Vandenberghe

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Heinich, Nathalie. Des valeurs. Une approche sociologique. Paris, Gallimard, 2018.

Nathalie Heinich não precisa ser apresentada – não, ao menos, na França. Com quase 40 livros publicados nas mais prestigiosas coleções – das igualmente mais prestigiosas editoras –, e inúmeros artigos escritos ao longo de um período de trinta anos, seu nome é referência estabelecida na sociologia francesa. Na sociologia da arte, ela é o grande nome. Como ex-aluna de Pierre Bourdieu e ex-colaboradora de Luc Boltanski e Laurent Thévenot, Heinich também é uma das principais representantes da segunda geração da sociologia pragmática. Seu trabalho se divide, basicamente, em três categorias: a teoria sociológica, a sociologia da arte e a sociologia da identidade. O livro aqui tratado é um trabalho de teoria sociológica, baseado em trinta anos de pesquisas empíricas intensivas sobre os mais variados temas do mundo da arte, da literatura, da ciência, do patrimônio, etc.

Des valeurs. Une approche sociologique é o quarto volume escrito por Heinich que aparece na renomada ‘Bibliothèque des sciences humaines’ da editora Gallimard, a mesma coleção com a famosa capa branca que publicou, para ficar apenas em alguns nomes notórios, Raymond Aron, Michel Foucault, Louis Dumont e Marcel Gauchet. O livro tem todos os elementos que tornam o trabalho de Nathalie Heinich sempre tão atraente. Ele é escrito com elegância e é baseado em pesquisa bibliográfica impecável, abrangendo tanto textos clássicos da sociologia quanto extensas notas de pesquisa reunidas de vários estudos empíricos, principalmente – embora não só – da sociologia da arte. Como Goffman, Bourdieu e Boltanski, Heinich organiza suas ideias por meio de tipologias ampliadas – os conceitos são enumerados e a sua utilidade é ilustrada com exemplos concretos (os quais perpassam controvérsias estéticas, estudos sobre patrimônio, touradas, etc.). A combinação de uma capacidade rara de sistematizar uma série de conceitos em modelos – “modelizar”, como dizem os pragmatistas franceses – e ilustrá-los e preenchê-los até a sua saturação com materiais empíricos reunidos a partir de suas muitas investigações sociológicas, é de fato uma marca distintiva de seu trabalho. Como o é a sua assinatura, trata-se aí também de uma marca de distinção.

De um ponto de vista temático, o livro é unificado em torno de seu foco nos valores; de um ponto de vista teórico,  por sua abordagem pragmatista da sociologia; de um ponto de vista filosófico, por sua análise consistente de conceitos; empircamente, ele unifica-se por sua referência à própria pesquisa empírica de Nathalie Heinich. Com e contra a filosofia dos valores (ética), a sociologia crítica (Bourdieu) e a análise quantitativa de valores (surveys e sondagens), o livro propõe um ambicioso programa de pesquisa para uma abordagem pragmática dos valores, o qual se propõe a ser, ao mesmo tempo, descritivo, empírico e valorativamente neutro. Em vez de simplesmente focar nos valores, Heinich propõe que se investigue os atos de valoração, de avaliação e de julgamento por meio dos quais os sujeitos atribuem valor aos objetos em contextos de julgamento. Com essa especificação da abordagem, o cenário é preparado para a investigação da relação entre atores e valores em práticas concretas de avaliação em diferentes contextos.

O livro como um todo explora todas as possíveis idas e vindas dos processos de avaliação. Ele é dividido em três partes, que apresentam respectivamente a pragmática, a análise e a gramática do julgamento. Enquanto a primeira parte examina a pragmática do julgamento (quem julga o quê e como, em qual contexto?), a segunda parte distingue três significados cardinais de valor: o valor da coisa (o seu valor ou a sua grandeza), as coisas que são valoradas (os bens) e os princípios axiológicos (os valores-princípios) que tornam a avaliação possível. Os princípios axiológicos, que se tornam visíveis em controvérsias e conflitos, são o tema da terceira parte. O modelo é chamado de “gramática” e contém os elementos (affordances, critérios, registros de valor) e os regimes (do comum e da singularidade) que permitem entender como os atores emitem juízos de valor, como surgem controvérsias em torno de valores e como elas podem ser encerradas. O livro termina com um longo anexo em que Heinich apresenta uma visão geral das teorias sociológicas e antropológicas dos valores.

Este é um livro importante de uma formidável autora que trabalha na tradição do pragmatismo francês. Escrito por uma autora que fez seu nome no campo da sociologia da arte, ele oferece uma contribuição importante e original para o campo da sociologia moral (que é, pelo menos em sua versão americana, não muito animadora). Mais uma vez, ao trabalhar com seu material empírico, Heinich eleva o debate a um nível mais alto de abstração e mostra um talento notável para a inovação conceitual e para a ilustração empírica de modelos artesanalmente bem trabalhados. Sua defesa da neutralidade axiológica e suas críticas contra a teoria social também dão ao livro um pouco de polêmica. Repleto de insights teóricos e exemplos empíricos, o livro é agradável de ler, mas difícil de resumir. A esse respeito, o livro de Heinich, cujo título poderia ter sido De l’évaluation, é comparável ao livro De la justification de Boltanski e Thévenot. É um livro que sai direto da oficina teórica para nela retornar logo em seguida, e tornar-se uma nova e extremamente útil e fértil ferramenta de trabalho. Por isso, recomendo vivamente a leitura desse livro.