Homenagem ao Museu Nacional: Urutau, por Olivia von der Weid

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Em 1913 voltava eu da então Vila de Augusto Severo para a Fazenda Logradouro. Noite de luar. A estrada era margeada pelos capões de mato ralo onde subiam as oitecidas esgalhadas e os juazeiros ornamentais. Súbito, do sussurro dos grilos, saiu um lamento estranho, ululado, plangente, interminável. Um uivo quase humano de dor desesperada, de agonia terrível, sufocado, impressionante, inesquecível, rasgou a solidão enluarada. Ao meu olhar assombrado, o companheiro respondeu, num incontido tremor: – É a mãe-da-lua! A mãe-da-lua; anda-a-lua em Minas Gerais; chora­a-lua na Bahia; o urutau das superstições sul­ame­ricanas; o cacuí ou turaí na Argentina; o iudutau dos amerabas tupis, é um caprimúlgida alvacento ou cinzento, com a imensa boca típica, hábitos noturnos que o fazem misterioso e aterrador. Fica imóvel num galho e passa a noite soltando aquela gargalhada fantástica que espalha o pavor. Não existe tradição local sobre a mãe­da-lua senão o medo instintivo que seu canto determina. A lenda única que pude recolher, variante da lenda geral sul-americana que Lehmann-Nitsche estudou, é que fora mulher extremamente amiga de festas. Deixou o marido, a quem adorava, doente e dançou toda a noite. Voltando, encontrou Paulo, o esposo, morto. Desesperada de remorsos e convulsa de arrependimento, soltou um grito feroz e transformou-se na mãe-da-lua. Até hoje chama – Paulo! Paulo! – e soluça uma risada de martírio. Canta sempre à noite, seja ou não de luar. Nessas últimas, seu canto parece mais longo e mais profundo, de intenção trágica, partindo da mata escura”.

Trecho de Luís da Câmara Cascudo: “Coisas que o povo diz”

Fotografia tirada na sessão de aves do Museu Nacional

 

Urutau

Transformado em crematório, as chamas do museu nacional consomem os restos mortais da mulher mais antiga das Américas.

Luzia, a que dá à luz, finalmente se libertou.

 

Kherima, a misteriosa princesa de 2000 anos,

que recebeu as flores fúnebres de Carmen Miranda,

e a muitos embalou em transe,  

também completa, nas flamas, sua passagem.

 

Naquele fogo também arde o encantamento do menino,

que seria levado pelas mãos do pai a contemplar Maxakalisaurus topai,

o primeiro dinossauro que seus olhos sonhariam em ver em tamanho real. 

 

Das cinzas se eleva o grito triste da mãe-da-lua

e o silêncio eloquente

dos interrompidos cantos de povos ameríndios.

 

Há 5 dias do marco histórico de uma pseudo independência

em um país que se prepara para tentar recuperar nas urnas a sua democracia roubada,

a catatonia congela os mais sensíveis.

Entre os clamores de angústia e revolta 

já se ouve o jogo de verbo,

a manipulação dos discursos girando na máquina da guerra…

mas os visionários também conseguem entrever,

no movimento das vermelhas labaredas,

a poderosa dança de Xangô, faiscando em harmonia com Zeus e Tupã.

Dizem que as palavras esvaziadas se calarão,

sob a influência desses retumbantes passos,

executados com tamanha intensidade na fogueira da justiça.

 

Culturas ancestrais já ensinavam que o fato brutal da morte física não é suficiente para consuma-la na consciência dos vivos.

É preciso certo tempo para que a coletividade, sacudida pelo choque, comece a recuperar, aos poucos, o seu equilíbrio.

 

A ciência Ocidental relaciona a origem da sociedade humana ao domínio do fogo.

Ontem assistimos, impotentes, à sua propagação.

O que queimamos no ritual catártico de cremação do museu nacional?

Há ressureição possível desse luto?

 

A madeira arde e seu estalo evoca um chamado,

uma mudança de estado.

No interior da pedra de Bendengó

habitam nossas quimeras.

Precisamos nos lançar com urgência à tarefa árdua de sua recomposição.