Micropolítica dos problemas (Parte 1), por Robert Emerson e Sheldon Messinger

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Por Robert Emerson e Sheldon Messinger
Tradução: Diogo Silva Corrêa e Lucas Faial Soneghet

Pdf disponível na segunda parte

 

Este artigo propõe o uso de um enquadramento de história natural para analisar processos interacionais através dos quais as dificuldades ou problemas pessoais são identificados, reagidos, elaborados e, talvez, transformados em um tipo específico de desvio. Estes processos centram-se em torno de esforços para fazer algo ou remediar o problema, e são criticamente moldados pela natureza e pela direção da intervenção de alguma parte externa, geralmente oficial. A forma que um problema assume em última instância é, em grande parte, um produto das lutas micropolíticas pelo apoio e legitimação de tais agentes oficiais.

Em sua avaliação crítica inicial, Gibbs (1966) argumentou que os proponentes da abordagem de rotulação do desvio “poderiam razoavelmente esperar que desenvolvessem uma teoria do processo de reação”. Uma série de declarações recentes de dentro dessa perspectiva ecoaram esta proposição (Kitsuse, 1972; Orcutt, 1973). Duas questões exigem atenção especial. Em primeiro lugar, como enfatizou Kitsuse (1972: 241), os defensores da rotulação forneceram poucos estudos a respeito da reação informal. No entanto, processos informais podem estabelecer status desviante de forma independente, embora continuem afetando a “rotulação oficial”. Em segundo lugar, a tradição de rotulação negligenciou as relações entre os sistemas informais e oficiais de reações. Poucas pesquisas existentes exploram as condições sob as quais os sistemas informais de controle mostram-se inadequados (ver Goffman, 1969), ou os efeitos recíprocos das medidas de controle informais e formais. Neste artigo, queremos fazer uma descrição programática de uma sociologia do problema, para fornecer uma abordagem teórica a esses dois tipos de reação social.

Nosso argumento assume que qualquer cenário social gera um número de dificuldades ambíguas e evanescentes que podem ser, em última instância – mas não imediatamente – identificadas como “desviantes”. Em muitos casos, o que primeiro é reconhecido é uma sensação vaga de “algo errado” – algum “problema”. A consideração da história natural de tais problemas pode fornecer uma abordagem frutífera dos processos de reação informal e da sua relação com as reações dos órgãos oficiais de controle social. Especificamente, este documento explorará os processos pelos quais os problemas são identificados, definidos, respondidos e, às vezes, transformados em uma forma reconhecida de desvio.[1] Dois pontos nesse processo têm um significado especial para o movimento em direção ao desvio, e receberão atenção maior. O primeiro surge quando as partes fora do problema são mobilizadas em torno dele, o segundo quando o envolvimento desses outsiders depende da autoridade formal e não da autoridade pessoal.

Considerações preliminares sobre problemas e remediações

Os problemas se originam com o reconhecimento de que algo está errado e precisa ser remediado. O problema, nesses termos, envolve componentes de definição e de remediação. Alguns estados de coisas são experimentados como difíceis, desagradáveis, irritantes ou insuportáveis. A percepção de “algo errado” é muitas vezes vaga e incipiente: uma mulher percebe que está ganhando peso ou que está frequentemente deprimida; um marido se dá conta de que sua esposa está bebendo mais do que o normal ou está começando a ficar fora até tarde depois do trabalho; os pais veem a filha interessando-se excessivamente por meninos, ou seu filho começando a sair com uma gangue sinistra de amigos. Claramente, a pessoa pode vir a reconhecer a existência destes ou outros problemas e, no entanto, não fazer nada em resposta. Pode ser que, depois de ponderar acerca do verdadeiro problema com a pessoa, chegue-se a conclusão de que não havia realmente problema (todo mundo se sente mal em certos momentos, alguns quilos a mais podem não ser tão importantes, ou os costumes sexuais mudaram no mundo de hoje); ou que, embora de fato haja algo de errado, não há nada que possa ser feito ou que a tentativa de que fazer algo esteja condenada ao fracasso desde o início. Um problema ignorado pode infeccionar ou pode desaparecer. Mas frequentemente o reconhecimento de que algo está errado coincide com uma ponderação das remediações, resultando talvez numa tentativa de implementar uma que seja apropriada.

Às vezes, uma remediação inicial funcionará; outras vezes, não. Esse último caso poderá levar a uma busca por outras remediações e enquanto a busca continua, problemas podem assumir um padrão cíclico (por exemplo, Goffman, 1969: 361-69). Uma dificuldade surge, uma remediação é buscada e aplicada, ela funciona temporariamente ou de nada adianta, então, uma nova remediação é procurada. O resultado tende a se tornar um ciclo recorrente de problemas, remediação, fracasso, mais problemas, nova remediação, até que o problema pare ou a pessoa abandone tentativas e esforços adicionais. Como consequência desses processos, o problema é progressivamente elaborado, analisado e especificado como um tipo e uma causa – “organizada”, para usar o termo que Balint (1957) empregou a respeito dos estágios iniciais da doença.

Mais uma vez, na primeira apreensão os problemas muitas vezes envolvem um pouco mais do que um vago desconforto. Esse sentimento pode derivar inteiramente da pessoa afetada ou externamente, a partir do apontamento de um observador hábil. Uma compreensão das dimensões do problema apenas pode surgir à medida que a pessoa problemática pensa sobre elas e começa a discutir a implementação de estratégias corretivas. O esforço para encontrar e implementar uma remediação é crucial para o processo de organização, identificação e consolidação do problema.

Considere o tipo de ciclo de remediações que pode evoluir com certas doenças físicas. Assim como problemas corporais vem a ser reconhecidos e algumas “tentativas de autodiagnostico” (Freidson, 1961) feitas, algumas medidas remediais – talvez absolutamente mínimas – podem ser tomadas. No caso de um resfriado por exemplo, isso pode envolver relaxar e esperar para ver se o problema desaparece. Se isso não acontece, “medidas mais ativas como ficar na cama por um dia ou mais e tomar aspirina” (Freidson, 1961: 143) podem ser tentadas. Tais remediações podem terminar com o problema. Se isso não acontece, ou se o “mesmo problema” retorna algum tempo mais tarde, o diagnóstico primeiro do “resfriado” pode ser questionado. Uma interpretação inicialmente aceita do problema pode ser então revista, por vezes de modo muito radical. Por exemplo:

“Quando o marido estava nas forças armadas, ele teve um “resfriado” que permaneceu várias semanas. Depois de observar os sintomas por alguns dias, a esposa do rapaz insistiu que a doença poderia não ser mero resfriado – poderia ser uma alergia e ele deveria ir ao médico. O marido achou que sua esposa estava errada e recusou-se a consultar um médico para tratar de um mero resfriado. Os sintomas persistiram por seis ou sete semanas e depois desapareceram. O marido foi dispensado das forças armadas e no ano seguinte voltou ao trabalho civil. Durante esse segundo ano, ele novamente teve um “resfriado” que durou várias semanas. A sua mulher novamente insistiu que ele deveria ter febre-de-feno. Ela o lembrou que em uma conversa que ela havia tido sobre o assunto, seu tio – um médico – também dissera que ele deveria estar com uma alergia, e ela finalmente persuadiu o marido a consultar um médico amigo da família. O médico-amigo diagnosticou a doença como resfriado e brincou com as qualificações dadas pelo diagnóstico da mulher. Finalmente, o “resfriado” desapareceu. Durante o terceiro ano o marido começou a espirrar novamente e sua mulher insistiu que ele fosse consultar outro médico. Dessa vez a febre-de-feno foi diagnosticada e os sintomas foram dali em diante controlados.” (Freidson, 1961: 142-3)

Essas ilustrações sugerem porque o “problema” não deveria ser conceituado como um simples estabelecimento de uma definição particular de uma situação problemática[2]. Tal visão implicaria que ao definir ou diagnosticar um problema de um certo modo, o remédio apropriado seria mais ou menos especificado: se o excesso de peso é o problema, então a dieta é a resposta apropriada; se o problema é uma doença, então ir ao médico e seguir os tratamentos apropriados parece ser o requerido. De fato, o processo de remediação de problemas é muito mais aberto e emergente do que a formulação diagnose-então-resposta permite. Como o incidente supracitado encena, qualquer formulação inicial do que o problema “realmente é” é condicionada pelos efeitos subsequentes da remediação testada. O uso da remediação, enquanto segue uma definição particular de problema, serve simultaneamente como um teste para a definição proposta. Essa remediação funciona como a primeira tentativa e é tomada como uma confirmação do diagnóstico inicial e da causa do problema.[3] Mas esse diagnóstico apenas se sustenta “até nova ordem” (Garfinkel, 1967), até que, por exemplo, a piora de um problema reabra toda a matéria do que está errado e do que pode ser feito a respeito.

Nós não negamos que essa definição do que o problema é afeta o que é feito em relação a ele. Mas esse efeito não é nem linear, nem direto como posto pelo modelo define-então-responde. Nomear algo como problema tem implicações, prefigurando algumas soluções e removendo outras. Identificar um problema como “sobrepeso”, por exemplo, é excluir a sua formulação em termos de discriminação e exclusão social baseada arbitrariamente na aparência física (a posição sustentada pelos advogados do Poder dos Gordos [Fat Power]; veja, Allon, 1973), uma formulação com diferentes implicações remediais. Mas mesmo a definição “sobrepeso” tende mais a delimitar um conjunto de possíveis remediações do que prescrever uma única e necessária resposta particular. Um homem, decidindo que ele está muito gordo, pode entrar em dieta ou decidir se exercitar. Ou ele pode olhar as causas em vez das consequências e entrar em uma psicoterapia.

Em suma, vários problemas, particularmente quando notados num primeiro momento, aparecem como vagos para aqueles que são por eles concernidos. Mas como os passos são tomados para remediar ou dar conta do problema, o próprio problema torna-se progressivamente claro e especificado. Nesse sentido, a história natural de um problema está intimamente ligada ao – e produz o – esforço para fazer algo com relação a ele. Portanto, ações remediais de vários tipos – viver com, ignorar, isolar, controlar, corrigir o problema – são eventos altamente significativos não apenas por determinarem o destino do problema, mas também por modelar como eles são logo percebidos. Conceitualmente, a definição do problema pode ser vista como um produto emergente, assim como o precipitante inicial, das ações remediadoras.

Problemas relacionais e remediações intrínsecas

Nós nos valemos amplamente de situações nas quais problemas começam e são remediados intrapessoalmente. No entanto, são de particular interesse os problemas que são questões inextricavelmente interpessoais. Variações importantes emergem dentro de tais problemas relacionais – isto é, aqueles nos quais esforços remediadores são endereçados para outro em um relacionamento reconhecido com a pessoa quproblema. Apesar dos esforços para remediar problemas pessoais, a tentativa de resolução de problemas relacionais levanta questões que concernem a distribuição de diretos e responsabilidades que existem nessa relação.

A diferença entre problemas relacionais e individuais e suas implicações variantes no que concerne ao modo de remediá-los é prontamente aparente nos conselhos e formulações problemáticos oferecidos a uma mulher entrevistada sobre como ela começou a fazer psicoterapia:

“Ela notou seus problemas ‘quando eu me encontrei chorando em meu trabalho, enquanto eu trabalhava. Derramando-se em lagrimas diante de um amigo, enquanto conversava. E finalmente soluçando tão continuamente que eu não podia sair de casa sem solução na cara da primeira pessoa que eu encontrasse e me cumprimentasse com as palavras, ‘Oi, como você está?’. Depois de vários meses assim um vizinho, que era um professor de escola, ‘disse-me para ir até uma clínica de higiene mental para obter ajuda.’ Esse conselho eu julguei como conveniente e prestativo. Outro conselho não solicitado me veio de dois médicos, um dos quais ‘me disse que eu não tinha problema de coração, mas uma irritação mental que seria a causadora das minhas dores em meu peito,’ e outro que ‘me disse para me afastar do meu marido porque ele não era bom para mim,’ e isso não foi muito útil. Ela solicitou conselhos de vários amigos e de seu marido. ‘Todos os amigos me aconselharam a deixar meu marido. Meu marido nunca me escutava quando eu falava sem me ridicularizar.’ (Kadusin, 1969: 172)”

Essa pessoa com problemas recebeu conselhos tanto para buscar ajuda para a sua condição mental, um remédio que assumia uma dimensão intrapsíquica para o seu problema, e a deixar seu marido, uma remediação que punha um caráter essencialmente relacional para o seu problema. Essa distinção não deve nos levar a entender que certos problemas são necessariamente ou principalmente individuais, enquanto outros são inerentemente relacionais. A diferença deriva menos dos próprios problemas do que da perspectiva ou enquadramento a partir do qual eles são vistos e tratados. O que começa como um problema pessoal pode ser redefinido e tratado como um problema relacional, e vice-versa. Com doenças corporais, por exemplo, um diagnóstico psicossomático pode transformar qualquer sintoma físico, como dores no peito no caso acima, em um produto de alguma tensão relacional. Inversamente, as dimensões relacionais de várias formas de doença mental podem desaparecer sob a aplicação do modelo médico ou sob a descoberta de uma causa orgânica para o comportamento problemático.[4]

Além disso, o movimento de um enquadramento individual para um relacional – e vice-versa – é frequentemente propalado pelo ciclo remediador discutido previamente. Portanto, se um problema persiste a despeito das remediações intrapessoais a ele dirigidos, a pessoa com problema tende a tornar-se progressivamente incerta a respeito do que o problema é e do que deve ser feito a respeito dele. Aqui, como antes, a pessoa com problema pode receber uma variedade de interpretações frequentemente conflitantes sobre o que está errado, tipicamente transmitidas nos conselhos para administrar o problema. Como resultado, as versões intrapessoais e relacionais do problema podem ser animadas sequencialmente ou mesmo simultaneamente.

Quando problemas são dirigidos em termos relacionais, primeiro, ações remediais tipicamente envolvem uma parte que diretamente responde ao comportamento do outro e tenta influenciar tal comportamento. Tais ações corretivas podem ser chamadas de remediações intrínsecas, uma vez que podem se basear nos recursos interpessoais inerentes ao próprio relacionamento. As remediações intrínsecas podem primeiro assumir formas indiretas e implícitas. Uma mulher incomodada por algum comportamento de seu marido pode oferecer uma variedade de pistas sutis de que algo está errado: um estranho silêncio, uma sobrancelha levantada, caretas (e.g., veja Goffman sobre ‘intercâmbios remediais’, 1971: 95-187). Portanto, o processo de negociação interacional é possível entre participantes que se propõem a resolver o problema sem o explícito reconhecimento de que ele surgiu; a sanção sutil que a pessoa ofendida oferece pode funcionar, mudando o comportamento ofensor, por vezes apenas “interrompendo-o”, por vezes “interrompendo e recebendo um pedido de desculpas”. De modo alternativo, o ofensor pode ignorar a tentativa de sanção e o sancionador pode deixar isso passar.

Mas a questão pode continuar, inicialmente quase muda, mesmo de modos encobertos. Referências jocosas pode ser feitas sobre ela: humor aqui tanto quanto em outras situações permite às partes envolvidas evitar um reconhecimento explícito do problema entre elas, ao mesmo tempo que comunicam a sua acentuada seriedade (J.P. Emerson, 1969). Ou o problema pode se tornar uma questão aberta na relação. Estratégias de gerenciamento podem variar desde o “precisamos conversar sobre isso” até acusações de que o comportamento do outro está errado e precisa mudar.

Uma reclamação direta feita aos outros altera a dinâmica básica do problema. Esse movimento torna público, explica e muda radicalmente um problema puramente individual. Com a reclamação direta, diferenças ocultadas na percepção da natureza ou na fonte do problema podem ser trazidas à tona. Expectativas implícitas sobre direitos e responsabilidades relacionais podem ser explicitamente declaradas e talvez contestadas. O problema pode se tornar o foco direto da relação, gerando um contínuo diálogo no qual o que está erado e o que deveria ser feito a respeito disso são explorados, possibilidades são elaboradas e opções especificadas. Desse modo, uma reivindicação não apenas organiza e consolida o problema, mas também constitui o problema como uma questão integralmente interpessoal.

As reivindicações iniciais podem apenas marcar o começo de um amplo ciclo remediador. Remediações interpessoais iniciais devem ter efeito diminuto ou temporário, e estratégias posteriores devem ser empregadas para influenciar o comportamento do outro, com graus de sucesso variados. Jackson (1954: 572) descreveu uma série típica de remediações fracassadas invocadas pelas esposas tentando controlar o problema do marido com a bebida:

“Ameaças de abandono, sumiço da garrafa de licor, esvaziamento da garrafa no ralo, redução do dinheiro do marido são tentadas em rápida sucessão, mas nenhuma é efetiva. Método menos punitivos, como discutir a situação quando ele está sóbrio, coloca-lo para dormir durante ressacas e tentar beber com ele para mantê-lo em casa são tentadas e falham.”

Tais tentativas de remediação revelam e sublinham a natureza e severidade do problema. O esforço de compreender essas questões é complicado pelo caráter retrospectivo e parcial dos problemas e dos relatos de seu desenvolvimento. Versões particulares do que o problema é, como ele emergiu e o que foi feito em resposta tendem a ser altamente enviesados e dificilmente contestados. Os envolvidos no problema nunca precisam chegar a um acordo sobre o que o problema é ou mesmo se ele existe. Um marido pode reclamar com sua mulher sobre ela ficar fora durante as noites, por exemplo, mas a mulher pode muito bem não reconhecer o seu comportamento como um problema. Quando confrontado pela repreensão ou ameaça de sua esposa, ela deve identificar seu comportamento como um problema – uma insistência desarrazoada que ela permaneça em casa. Reivindicações sobre a existência ou natureza de um problema estão incorporados à e são produtos da própria situação problemática.

Segundo, vários problemas podem ser formulados retrospectivamente, frequentemente com o apoio de tais interesses enviesados. Incidentes relacionais iniciais devem ser interpretados à luz dos diagnósticos futuros do problema. Portanto, uma parte lesada pode chegar a se dar conta: agora eu vejo o que é que estava me incomodando na forma como você me trata; ou: agora eu aprecio como eu sempre odiei quando você fazia isso. Além disso, é frequentemente apenas mais tarde que as partes de um problema explicitamente formulam os estágios distintos e os componentes do processo remedial. O início do problema, por exemplo, pode apenas ser descoberto em retrospecto; o dedo que aponta para a causa permanece como parte da contínua luta interpessoal para determinar o que o problema é e o que pode ser feito. De modo similar, esses direitos e responsabilidades relacionais, ou cada um, estão em questão e podem ser articulados apenas mais tarde. Enfim, o significado das ações como reivindicações ou tentativas de remediações podem frequentemente ser compreendidas apenas retrospectivamente: em algum momento mais tarde, em um ponto intolerável, por exemplo, o reclamante pode apontar para seu passado de tolerância do problema como uma evidência das tentativas persistentes de superar o problema de modo justo e justificado.

Assim como com problemas intrapessoais incipientes, problemas relacionais podem não se tornar mais difíceis. A reivindicação e a remediação esperada podem funcionar suficientemente para satisfazer a parte incomodada. O problema pode simplesmente continuar de modo que nenhuma das partes aceitem a versão do outro do que está errado. A reivindicação pode ser feita e em seguida descartada ou ignorada, assim como o indivíduo inicialmente ofendido pode aprender a viver com o problema. Ou, como Goffman (1969: 364-5) nota, a parte prejudicada pode aceder à demanda do outro, definindo como comportamento legítimo o que havia sido definido como problema, e realocando direitos e responsabilidades relacionais de acordo com essa redefinição. Nessas circunstâncias, a disposição para aceitar (ou ao mesmo manter) o comportamento do outro como problemático – e alternativamente, a inclinação para continuar pressionando o problema olhando para futuras remediações ou respostas – promove contingências críticas no desenvolvimento do problema. Mas há uma condição limitante: a de que nenhuma parte do problema termina a relação que o envolve. Enquanto em contatos públicos provisórios com os outros, a negação ou a retirada são respostas prontamente disponíveis (Goffman, 1963), esse estratagema não é tão disponível ou aceitável no que diz respeito aos problemas que emergem em relações duradouras (Goffman, 1969: 365). Onde a saída é impedida, problemas e estratégias de remediação aumentam enormemente em complexidade. Sob tais circunstâncias, pressões para encontrar remediações de fora frequentemente se aceleram.

Notas

[1] Nossa abordagem está em paralelo, no nível interacional, com aquela proposta recentemente por Spector e Kitsuse (1973) para analisar a definição e cristalização de problemas sociais num nível coletivo. Eles propões um modelo de história natural para examinar “atividades de reivindicação e resposta” (146) que levam a identificação de um problema social emergente.

[2] Hewitt e Hall (1973), por exemplo, adotam essa perspectiva: olhando como “quase-teorias” podem avançar a imputação de desvio em situações problemáticas, eles conceituam o processo como um em que, essencialmente, eventos desordenados são explicados (definidos) e tornados significantes.

[3] Note-se que na ilustração de Freidson, é somente porque os remédios baseados em diagnóstico de rinite pararam o problema que todos os envolvidos – incluindo o sociólogo-analista – aceitaram a validade do diagnóstico para definir o problema.

[4] Nessas situações, problemas passam e voltam entre quadros “sociais” e “naturais” (Goffman, 1974: 21ff). Uma atração do modelo médico é que ele “de-relaciona” problemas, então, no caso de disfunções psiquiátricas, ele alivia aqueles próximos da pessoa com distúrbio de qualquer responsabilidade pelo estado desordenado das coisas.

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