A prova do tangível: Experiências de investigação e o surgimento da prova (Parte 2), por Francis Chateauraynaud

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Por Francis Chateauraynaud
Tradução: Diogo Silva Corrêa

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Verificações cruzadas e aproximações: a dinâmica da investigação

Cinco momentos fortes emanam dos processos de investigação estudados: a emergência de um questionamento, de uma dúvida ou de uma incerteza; encaminhamento de indícios, de traços e de testemunhos; organização por cada instância da investigação de uma rede de aproximações e de verificações cruzadas pertinentes; o cruzamento de expectativas e argumentos investidos por uma pluralidade de atores; enfim, o ato de encerramento e de validação pública permitindo a confirmação ou a refundação das evidências compartilhadas. O monitoramento dos dossiês de longa duração faz assim aparecer os estados intermédios dos dispositivos de prova, as idas e vindas pelas quais se organiza o que William James chamava um “processo de validação”. Os marcadores linguísticos tornam visíveis esse processo de transformação: “não há a menor prova de que”, “simples presunção”, “os primeiros elementos da investigação nos encaminham na direção de”, “sob a reserva de verificações, pode-se afirmar que”, “parece dado que”, “na ausência de prova em contrário…” Ao tornar visíveis estados sucessivos, esses marcadores manifestam a elaboração dinâmica da prova a partir de pontos de partida mais frouxos (intuições, indícios frágeis, presunções, hipóteses). Pois a prova emerge na confrontação de representações e percepções cuja expressão varia ao longo das provas. Se não houvesse senão representações e dispositivos organizados em conformidade com essas representações, ou, ao contrário, se não houvesse senão experiências marcantes, choques perceptivos no contato com as coisas, a questão da prova quase não produziria intensas mobilizações. É porque uma série de dúvidas e de incertezas se aprofundam nos pontos de junção das representações e das experiências no mundo que os atores se engajam nas investigações e inventam procedimentos para resolvê-las. Nos dossiês estudados, a investigação é sustentada por coletivos de atores que consagram muito tempo, é verdade, para coordenar seus atos e julgamentos, para organizar seus procedimentos de concerto (comissões, comitês, reuniões, debates, decisões…) ou para endurecer suas tomadas de posição. Perder-se-ia o essencial, contudo, se reduzíssemos essa atividade coletiva aos aspectos organizacionais ou políticos: a maneira de entrar nos objetos, de provar a tangibilidade dos seres e dos fenômenos é igualmente crucial.

As noções de verificações cruzadas e de aproximação desempenham um papel importante na descrição das investigações. Elas permitem clarificar os “elos” ou as “relações” mencionadas na expressão ordinária da tangibilidade. Para Dewey, a palavra “relação” possui três sentidos diferentes. Uma primeira classe de relações concerne os símbolos colocados em relação uns com os outros. O segundo remete à maneira pela qual “os símbolos estão em relação com a existência por meio de operações existenciais”. Enfim, uma terceira classe convoca as “existências” que “estão em relação umas com as outras na função de prova em que o signo possui um sentido” (Dewey, 1993). Esses três modos de relação sendo muito diferentes, o uso de uma só e mesma palavra cria uma séria confusão:

“[…] eu reservaria a palavra relação para designar o gênero de “relação” que os símbolos-significações mantêm entre si enquanto símbolos-significações. Eu empregaria o termo referência para designar o gênero de relações que elas sustentam com a existência; e as palavras conexão (e implicação material) para designar o gênero de relação que sustentam as coisas entre si, e graças a qual a inferência é possível” (Dewey, 1993, p. 115).

É a uma clarificação do mesmo gênero que contribui a distinção entre aproximações e verificações cruzadas. Os usos linguísticos marcam uma assimetria: dizendo “isso bate[1]” (“ça recoupe”), exprime-se a ideia de que uma tangibilidade emerge das coisas mesmas. No entanto, dizendo “isso se parece” (“ça se rapproche”), nos distanciamos da significação habitual da palavra “aproximação”. As duas operações testemunham uma divisão cognitiva que apela para uma síntese sob a forma de preensões inéditas: as verificações cruzadas visam operações perceptivas no contato com as coisas; as aproximações concernem as operações intelectivas que associam, sob a base de conceitos, taxinomias ou protótipos, objetos fisicamente separados. O trabalho de investigação desenvolve uma economia cognitiva que consiste em maximizar as chances de obter verificações cruzadas e em reduzir a lista de aproximações necessárias[2]. Mas essa economia é submetida a ciclos ou crises: há períodos de intensa atividade nas quais os protagonistas reúnem traços e indícios abertos sobre uma multiplicidade de experiências e espaços de cálculo; mas há também períodos mudos, marcados por uma rarefação de signos, no curso dos quais é preciso esperar que as potencialidades se manifestem, que novos elementos sejam encaminhados aos laboratórios de investigação, o que explica a referência frequente, nas narrativas, de um lado à sorte e, de outro, à tenacidade. As operações cognitivas são distribuídas não apenas entre múltiplos agentes ou suportes de investigação, mas também no tempo. Um lento processo de acumulação pode ser necessário para que as peças do dossiê informem umas às outras. Eis porque não se pode identificar o relançamento da investigação com atores dotados de uma propensão patológica ao desvelamento (Boltanski e Thévenot, 1991). O tratamento dos signos e da busca por tangibilidade se efetua na duração: a preocupação não é uma marca da paranoia, mas constitui o recurso maior de toda investigação.

Qual lugar conceder ao grau de convicção ou de crença nessa linguagem de descrição? Não há dúvidas de que o termo mais correntemente oposto à prova é o da crença. A crença surge nos affaires por intermédio de marcadores epistêmicos ou proposições contendo seu enunciador (“segundo X”, “X acredita que P”). Enquanto a prova, em sua acepção moderna, religa o estado de coisas definidos por categorias claras e distintas com os protocolos de verificação que permitem a repetição da experiência, a ideia de crença marca o estado no qual se encontra aquele que qualifica seres ou fenômenos (Bazin, 1991). Não se fala em “crença tangível”. Não é a crença sempre maculada de fraqueza ou insuficiência? Mas como distinguir a crença da prova na medida em que a elaboração de provas supõe enunciadores, porta-vozes ou testemunhas cuja convicção é necessária? Pode-se acreditar que tal ou tal coisa é verdadeira, demonstrada, verificada e renunciar a toda prova de tangibilidade. Mas não há crença que não possa ser colocada em dúvida, dado que toda crença pode se revelar falsa[3]. Segundo Peirce, se é inevitável confiar em crenças, deve-se substituir, sempre que possível, as proposições vagas por proposições gerais, menos para refutá-las do que para controlá-las logicamente (Tiercelin, 1993). Nas investigações, a maneira como se produz o encontro entre as aproximações e as verificações cruzadas não é uma simples questão de crença, nem mesmo de crença primordial. Essa inadequação da noção de crença para descrever a experiência da prova se deduz facilmente da própria lógica das verificações cruzadas. Para que uma verificação cruzada seja válida, se supõe uma independência dos estados das coisas e dos estados das pessoas: se as pessoas criam as condições materiais de cada verificação cruzada, elas não as produzem. “Eu faço as coisas baterem” significa, em realidade, “eu aproximo”, quer dizer, “eu tive a ideia de uma relação entre coisas”; inversamente, “pode-se fazer a aproximação” quer dizer “as coisas mesmas dão vazão a uma conexão inteligível”. Se é verdade que uma aproximação é validada pelo acordo dos atores sobre a interpretação de signos, esse acordo é tanto mais sólido quanto, por meio de vias diferentes, chega-se às mesmas interpretações, tudo isso fazendo variar ao máximo as teorias e as hipóteses. Se se confunde as aproximações e as verificações cruzadas, dificilmente se torna possível diferenciar uma prova de verdade e uma fabricação, no sentido de Goffman, que permite a produção de falsas provas. Assim, o que garante a tangibilidade não é a fixidez ou o caráter inacessível de uma coisa não manipulável, mas a possibilidade de reiterar, se necessário, a prova de verdade. O que é tangível persevera malgrado ou sobretudo graças às variações contínuas. Nossos protagonistas parecem adotar um ponto de vista espinozista segundo o qual nada do que é o é, sem insistir em seu modo de ser. A força probatória depende assim dos meios pelos quais os atores mobilizados puderam experimentar a persistência de verificações cruzadas e a consistência de aproximações.

Entre invenção e administração: os tópicos da prova

Ao fazer da prova o produto de um trabalho perceptivo coletivo, nos afastamos de um modelo de racionalidade fundado sobre indivíduos que elaboram separadamente seu espaço de cálculo (Boudon, 1990). Mas falar de uma “comunidade de investigadores” pressupõe um caráter já coletivo da investigação e de seu objeto. Para ver como se fazem e se desfazem os coletivos em torno de processos de busca pela verdade, nos é necessário um continuum que vai da investigação lançada por uma entidade isolada sem o recurso de outras, até mesmo no mais grande segredo, até a investigação cujos objetos e procedimentos conhecem um máximo de publicidade, produzindo uma verdadeira expertise coletiva (Callon, Lascoumes et Barthe, 2001). No centro, se desenvolve a figura da investigação levada pelas instâncias especializadas cujos trabalhos podem ser tornados públicos e debatidos.

No coração desses processos, os protagonistas recorrem a diferentes tópicos da prova: a atestação direta pelo sentido; a prova obtida por verificações cruzadas de indícios ou testemunhos; a correlação estatística; a experiência reprodutível em laboratório; e, enfim, a demonstração fundada sob argumentos julgados irrefutáveis. A primeira figura convoca uma fenomenologia espontânea da experiência sensível: está implicado na prova aquele que duvida ou que não têm preensão sobre o fenômeno; a segunda figura faz funcionar uma lógica da redundância em um feixe de traços e indícios. Uma vez reunidos, os dados disponíveis fazem emergir pontos de verificações cruzadas que permitem eliminar as versões incoerentes ou pouco verossímeis. As ferramentas estatísticas redefinem essa forma empírica de verificação cruzada em um espaço de cálculo desvinculável das pessoas. O terceiro tópico é, com efeito, a da correlação estatística, a qual rompe com o funcionamento cognitivo ordinário com o objetivo de produzir resultados contra-intuitivos capazes de remodelar representações (Desrosières, 1993). A quarta figura é a da ciência experimental que se organizou sob um modelo de confinamento e exatidão, deixando de lado as simples correlações para atingir as causas (Licoppe, 1995). A tensão é máxima entre os estudos estatísticos realizados em mundo aberto, submetidos às variações das condições da investigação, e as experiências em laboratório, acusadas de reduzir em um micro-mundo configurações complexas e heterogêneas. Enfim, a quinta figura se refere mais a uma lógica do plausível: ao fazer apelo ao raciocínio argumentativo, os protagonistas criam espaços de variação capazes de colocar em discussão as provas instituídas pelas ciências.

O que vem a ser a divisão entre pessoas e coisas em tais processos? Renaud Dulong interrogou duas formas de atestação das quais necessitam os protagonistas para encerrar seus affaires: o testemunho e a confissão (Dulong, 1998, 2001). Ele mostra que a questão da verdade não pode se reduzir às provas materiais estabelecidas por protocolos desvinculados das pessoas. Essas formas de atestação não são reservadas apenas aos procedimentos penais e há poucos dossiês nos quais os investigadores afastam desde o início a escuta de testemunhos e a possibilidade de atos reivindicados pelas pessoas. As provas de coerência infligidas por essa modalidade de atestação não são mais “frouxas” ou mais “instáveis” que aquelas concernentes aos objetos do mundo físico. Elas repousam, ao contrário, sob constrangimentos muito fortes, dado que as verificações cruzadas passam pela consideração das narrativas que devem fornecer indícios de plausibilidade ou de verossimilhança. Mas uma mudança de regime epistêmico se opera na medida em que se considera o produtor do testemunho ou da confissão ou aquele que o coloca em relação com a coleção de peças de um dossiê. O que interessa Dulong são as condições sociais de atestação pessoal. Fórmulas como “eu estava lá” ou “fui eu que” instituem um enunciador de maneira durável, atestando a permanência da pessoa através de múltiplas situações de fala. O que nos interessa é sobretudo a maneira como cada ator, surgindo na arena, produz ou não uma série de inflexões no encaminhamento da investigação. Há dois casos nessa ramificação:  seja a confissão ou o testemunho que vem confirmar o que já sabiam os investigadores, acrescentando suas próprias nuances, micro-variações que, manifestando a presença de uma subjetividade reflexiva, dão garantias contra o falso ou a mentira; seja uma ruptura ou uma bifurcação que obriga a repensar o conjunto do dispositivo da investigação e, daí, o grau de segurança da factualidade estabelecida anteriormente. Eis porque o momento em que intervém um testemunho ou uma confissão é decisivo dado que confronta dossiês marcados por graus de objetivação diferentes.

Existe uma relação fundamental entre a tangibilidade e a convergência de múltiplos sistemas de prova. Pois há ao menos um constrangimento comum aos diferentes tópicos da prova: elas devem oferecer um retorno tangível. Um fenômeno é tanto mais tangível quanto ele é capaz de resistir às variações introduzidas por outros pesquisadores. São bem frequentemente os desníveis de temporalidade que criam incompletudes duráveis: é preciso tempo para que experiências sensíveis encontrem sua formulação, para que traços sejam descobertos, para que testemunhos possam falar e para que verificações cruzadas possam operar; um longo período de tempo é necessário para que as estatísticas sejam interpretáveis ou para que elementos sejam isolados e testados em laboratório. A lista de recursos dos quais se dotam os protagonistas para fazer convergir os signos é longuíssima: dos arquivos às audiências, das coletas de amostras ou das provas documentais aos interrogatórios, grandes precedentes às medições em laboratório, uma pluralidade de caminhos se abrem e com isso, quando a investigação opera em mundo aberto, aumentam os riscos de um possível encerramento e de um relançamento permanente. Novos acontecimentos, novas conjunções de atores e de interesses vêm complicar a organização coletiva das provas. A história de nossos dossiês pode assim se descrever como uma alternância de provas de força e de elaborações coletivas de espaços de raciocínio comuns (Dodier, 2003).

A prova enquanto inscrição material e formalização deve dar a todas as partes interessadas a possibilidade de uma preensão reprodutível sobre o objeto e seu meio associado. A participação do conjunto de protagonistas no processo de investigação não é apenas um ideal regulador de nossas democracias. Pois o tema da acessibilidade é central no acordo sobre as provas: não apenas aquele que apresenta a prova, bem como outros, devem poder produzi-la de novo sem serem prisioneiros do dispositivo ao qual eles podem submeter à crítica. Administrar a prova é assim fornecer um procedimento de acessibilidade a todos os protagonistas. Não é para satisfazer as normas culturais ou aos interesses de uma comunidade de atores que é preciso produzir preensões, mas para garantir que o que é provado não o é sob o constrangimento de uma representação ou interesse. Do mesmo modo, é muito menos pertinente opor o formalismo (a prova formal), o empirismo (a prova concreta) e o sociologismo (a representação coletiva) do que olhar os esforços que produzem os protagonistas para superar as tensões inerentes a toda busca por provas.

Afetos, perceptos e conceitos

Wittgenstein examinou longamente as relações que a prova mantém com a lógica, de um lado, e com a experiência, de outro (Sallantin e Szczeciniarz, 1999). Se a prova revela regras de aplicação de conceitos, ela faz também intervir a visão (Shelley, 1992). A noção de tangibilidade não faz outra coisa além de alargar a todas as formas de atestação sensorial o que exprime a noção de visibilidade quando ela designa a presença de uma “imagem marcante”. Etimologicamente, a intuição reenvia em primeiro lugar à visão, ao fato de olhar atentamente alguma coisa. Quando as pessoas fazem apelo à intuição, elas designam a relevância de uma experiência marcante, que deve ser o signo de alguma coisa. Recorrendo à linguagem da intuição, os atores designam a experiência própria à investigação, segundo a qual os signos se organizam sem que esteja ainda disponível o espaço de representação que permite fornecê-los um plano de construção convincente. Também, definiremos a intuição não como um conhecimento não explicitado ou não formalizado (Dreyfus & Dreyfus, 1986), mas como uma percepção que dura além de seu contexto de aparição e que ainda não encontrou validação em um espaço de cálculo. A intuição anuncia a prova de tangibilidade.

Para os filósofos, a intuição designa o acesso às evidências primeiras, categorias originárias necessárias a toda forma de conhecimento (o fato, por exemplo, de saber que não se pode estar em dois lugares ao mesmo momento). Na sociologia clássica, a intuição existe essencialmente sob a forma do “senso prático” (Bourdieu, 1980). Quase não há lugar para a dinâmica das intuições que guiam as pessoas ao longo de suas investigações: seja a intuição tratada como mera ativação inconsciente de rotinas sempre já presentes (rotinas incorporadas das quais esquece-se ou reprime-se a gênese), seja como a expressão de uma pura subjetividade (os sujeitos deixam chegar até eles as coisas do mundo ao abrirem-se às suas potencialidades, e o que quer que lhes aconteça, eles terão sempre tido uma intuição), seja, ainda, a intuição tratada como a apreensão das propriedades contextuais, sendo a intuição sinônimo de “ação situada” sem ordem nem plano concebido de antemão. Na perspectiva que nos interessa, que é o modo de condução das investigações e do encaminhamento das provas, a intuição é a expressão de uma preocupação cujos meios se afirmam e se formalizam um pouco mais em cada prova. A intuição é, assim, um modo de trabalhar os detalhes que não tem ou ainda não possuem um lugar em um espaço de cálculo. A intuição a que se referem as pessoas reenvia ao início de uma nova série de provas feita de verificações cruzadas e de aproximações inéditas. Alguma coisa lhes faz suspeitar da emergência de um fenômeno em vias de se organizar sem que elas possam tratá-lo em um quadro interpretativo adequado. De onde vem essas inumeráveis solicitações da experiência sensível segundo as quais há alguma coisa para experimentar? Os primeiros apicultores que se interrogaram sobre a morte das abelhas dizem ter agido por intuição: eles “perceberam” alguma coisa de anormal. Seria equivocado ligar esse trabalho perceptivo, fracamente codificado, somente às primeiras experimentações: ao longo da investigação processos análogos ganham corpo. A experiência inicial dos pesquisadores de Jussieu que, no início dos anos 1970, realizaram a investigação sobre uma poeira estranha que perturbava suas manipulações de laboratório, torna-se anedótica uma vez que o dossiê do amianto é lançado. Uma vez que os dispositivos são organizados para enquadrar as situações e os objetos, o trabalho perceptivo não aparece mais senão em modo menor: na experiência dos atores, os pontos de referência calculáveis se substituem às dobras descobertas no corpo a corpo com a matéria. Contudo, cada dúvida manifestada a respeito de uma fibra têxtil ou de um lugar com amianto renova, ao menos virtualmente, as experiências primeiras.

Esses problemas remetem naturalmente às discussões já antigas que marcaram múltiplas tradições filosóficas. Em Le pensée et le mouvement [O pensamento e o movente], Bergson escreve que a intuição “não é um ato único, mas uma série indefinida de atos, todos decerto do mesmo gênero, mas cada um de espécie bem particular, e essa diversidade de atos corresponde a todos os níveis do ser” (Bergson, 1996, p. 207). Examinando o estatuto da intuição em Bergson, André Clair aponta que as metáforas bergsonianas são tomadas de empréstimo do vocabulário sensorial: visão, contato, simpatia (Clair, 1996, p. 203). A intuição aparece como um ato de compreensão que não supõe coincidência imediata entre o sujeito e o objeto, mas uma constituição progressiva do sentido, que se exprime por uma tensão, um esforço particular. Essa concepção da intuição é próxima da lógica da investigação, que faz trabalhar, por séries sucessivas, surpresas e expectativas:

“o ato de intuição é esse movimento sem fim que se efetua entre o esforço e a coincidência, um ato que é ele mesmo duração”. Melhor, “enquanto ruptura com o ‘já dado’ ou o ‘já conhecido’, a intuição se confunde com a atividade, a tomada de conhecimento ‘em vias de realização’, se identificando ‘com o movimento vital’, como ‘ato de se colocar no devir perpétuo da realidade” (Ibid., p. 206).

Essa fenomenologia convida a considerar em seu movimento a compreensão das verificações cruzadas que se oferecem no curso da experiência e da formulação das aproximações que dão sentido à investigação. Mas é possível apoiar-se sob uma fenomenologia quando se trata da prova? Qualquer que seja a prova, a solução que preconizava Husserl aparece agora excessivamente estática:

“um conhecimento não é livre de pressuposições senão quando seus enunciados não se afastam minimamente do dado intuitivo de coisas às quais eles se referem. […] é preciso começar por considerar conhecimentos exemplares, nos quais a adequação em questão é sem dúvida nenhuma realizada (Bernet, 1991, p. 80).

As ciências quebraram esse acordo imediato aprofundando constantemente a separação de dois planos. Granger (1995, p. 231) explica que se as ciências visam o real, elas não o atingem senão de modo indireto pela construção de objetos virtuais. O virtual da démarche científica é “uma figura – uma representação – de coisas ou de fatos desvinculada das condições de uma experiência completa” à qual falta sempre o contato direto com o que atualiza o real. Com efeito, quando elas empreendem uma explicação da percepção e das propriedades que atribuímos aos objetos do mundo percebido, as ciências reduzem a experiência atual ao estado de ilusão ou de simples aparência. Reconciliar a percepção ordinária com a objetivação cientifica parece, assim, fora do alcance.

Quando eles se põem a experimentar alguma coisa, nossos atores se encontram presos por uma dupla restrição: de um lado, eles produzem uma forma de prova lógica e, de outro, eles afrontam a irredutibilidade de suas experiências no contato com as coisas. A prova surge como um encontro possível entre a demonstração lógica e a evidência de uma certeza irrefutável que encontra sua fonte na experiência. Sabe-se que para o último Wittgenstein a certeza enceta um senso comum primordial e não encadeamentos lógicos baseados sob o cálculo de proposições que não pode fundar a certeza de fundo em que se sustentam as dúvidas dotadas de sentido (Wittgenstein, 1962). Ele produz uma insistente crítica sobre o uso da fórmula “eu sei que”. O emprego da expressão indica que a possibilidade de ter adquirido a convicção de que alguma coisa é verdadeira: “‘Eu sei’ possui uma significação primitiva, que é semelhante a ‘Eu vejo’, que dela é parente” (ibid, p. 47). A questão da certeza conduz assim a uma proposição decisiva para a análise das relações entre os procedimentos de investigação e as formas de evidência:

“Mas se alguém viesse nos dizer: ‘a lógica é, portanto, ela também, uma ciência empírica’, ele estaria errado. O correto é o seguinte: a mesma proposição pode ser tratada em um dado momento como o que está para ser verificado pela experiência e, em um outro momento, como uma regra de verificação”. (Ibid, p. 50).

Essa formulação testemunha uma dupla irredutibilidade: se não se trata de reduzir a lógica ao estado de experiência empírica sem fundamento, ela não pode ser, contudo o ponto de apoio último e transcendental. Em certos casos as proposições são colocadas à prova do mundo real e vê-se que há casos em que esse pôr à prova está fundamentado e outros em que ele não é razoável, até mesmo absurdo; em outros casos, elas servem de pontos de apoio para guiar um ato de verificação, a fim de assegurar sua conformidade a uma representação, uma expectativa. Uma vez clarificados esses dois usos de proposições, escreve Wittgenstein (ibid., p. 51):

“Toda verificação do que é admitido como verdade, toda confirmação ou invalidação já possuem um lugar em um sistema. E esse sistema seguramente não é um ponto de partida mais ou menos arbitrário ou duvidoso para todos os nossos argumentos; ao contrário, ele pertence a essência do que nós chamamos um argumento. O sistema não é tanto o ponto de partida dos argumentos, mas sobretudo seu meio vital.”

As provas elaboradas pelos protagonistas não são facilmente acessíveis independentemente do dispositivo que lhes dá sentido e que os tornam descritíveis. Com efeito, como poderíamos considerar que tal elemento é comprovado para tal ou tal protagonista se não pudéssemos ligá-lo a um dispositivo inteligível? Os atos de verificação não são compreensíveis senão a partir do dispositivo que comanda o processo de experimentação. Colocar a questão da certeza, ou da prova, supõe a existência de um conjunto de pontos fixos que tornam a dúvida ou o questionamento realista: “O que é fixado o é não por sua qualidade intrínseca de clareza ou de evidência, mais porque está solidamente mantido por tudo o que há no entorno” (ibid. p. 58).  A prova jamais é o produto de um fato isolado: ela ganha forma em uma rede de elementos que tendem a se reforçar uns nos outros. E o trabalho do verificador é particularmente probatório quando ele deve verificar tudo: é-lhe preciso percorrer o conjunto de relações. Mas, o que não diz Wittgenstein, é que, em alguns casos, um único elemento basta para desfazer o conjunto enquanto, em outros, várias conexões podem se afrouxar sem desfazer a coerência do sistema. Dar conta das diferentes sensibilidades dos dispositivos à crítica é, portanto, uma tarefa importante que nos afasta do questionamento filosófico.

Quando os atores falam de prova, eles colocam em relação um espaço de cálculo – um conjunto de entidades e de relações ligadas por convenções – com uma ou várias experiências. É aqui que intervém a maneira como Wittgenstein (1983, p. 143), nas Remarques sur les fondements des mathématiques [Observações sobre os fundamentos da matemática], associa ao poder de demonstração da prova lógica a necessidade de uma visão sinóptica da prova: “E se uma demonstração fosse extraordinariamente longa a ponto de tornar impossível toda visão sinóptica?”. Uma formulação é particularmente crucial: “a prova não me serve de experiência, ela me serve sobretudo de imagem de uma experiência.” A prova não substitui a experiência, em si irredutível. Ela fornece uma imagem dela. Uma imagem marcante que permite estruturar as experiências ou, sobretudo, torná-las visíveis. É porque ela possui uma virtude sintética que a prova pode servir de ponto final e pode tornar os julgamentos possíveis.

“‘Deve-se poder ter uma visão de conjunto da prova’ – significa: nós devemos estar prontos para empregá-la como princípio de nossos julgamentos. Quando eu digo ‘a prova é uma imagem’ – pode-se vê-la como uma imagem cinematográfica. Faz-se a prova de uma vez por todas. Naturalmente a prova deve ser exemplar. A prova (a figura demonstrativa) nos mostra o resultado de um processo (de construção); e nós somos persuadidos que um processo regrado desse modo conduz sempre a essa imagem. (A prova nos mostra um fato sintético).” (Ibid. p. 150)

Uma prova que não conduziria a uma imagem marcante e estável permitindo a síntese não seria realizável. Seria vão procurar produzi-la, ou melhor, dever-se-ia produzi-la constantemente. Se, para Wittgenstein, os jogos de linguagem não podem se reduzir à experiência, ainda que sua pertinência dela dependa, a prova possui por virtude modificar a organização da experiência. É um novo ponto de referência, um guia, um ponto de inflexão:

“Não olhe a prova como um processo coercivo, mas como um guia. E ela guia a sua concepção de certos estados de coisas. […] Nosso modo de ver muda no curso da prova – e o fato de que isso depende da experiência não lhe tira a razão. Nossa intuição é remodelada. […] Por assim dizer, a prova canaliza nossas experiências de certo modo. Aquele que tentou constantemente tal e tal coisa renuncia a suas tentativas depois da prova”.

É o próprio princípio de um mundo comum que está em jogo na possibilidade de um acordo sobre as provas. Os procedimentos pelos quais certezas são preservadas, reinstaladas, requalificadas, revelam o tipo de inquietude afrontada pelos atores. Face à inquietude, a prova introduz uma forma de apaziguamento. Pode-se fazer aqui um paralelo com a maneira como Wittgenstein, saindo da crítica interna da lógica, esboça uma variante do “plano de imanência”, caro a um filósofo tão antitético como Gilles Deleuze:

“Poder-se-ia dizer isso: ‘Eu sei’ exprime a certeza apaziguada, não aquela que ainda está em estado de luta. Desde então eu adoraria ver nessa certeza não algo familiar a uma conclusão prematura ou superficial, mas uma forma de vida. […] Isso quer dizer, contudo, que eu concebo a certeza como alguma coisa que se situa para além da oposição justificado/não justificado; portanto, por assim dizer, como alguma coisa de animal” (Wittgenstein, 1963, p. 93).

As oposições que estruturam essas proposições (apaziguamento versus estado de luta, inferência versus forma de vida, justificação versus animalidade) colocam a irredutibilidade do plano de transcendência e de um plano de imanência (Deleuze e Guattari, 1991). Eis porque a noção de preensão, entendida como ponto de junção sempre reinventado entre conceitos e perceptos, não é estrangeira à dupla wittgensteiniana dos jogos de linguagem e formas de vida (Bessy e Chateauraynaud, 1995).

Dos signos que não enganam

A partir de dossiês exemplares, distinguimos três formas de produção do tangível: o trabalho perceptivo no contato com as coisas que fornece novas preensões; o surgimento de um acontecimento marcante que torna obsoleta uma representação ou um espaço de cálculo anterior; a formação de um acordo coletivo sobre as aproximações entre signos. Quando as três formas convergem, os atores não possuem mais razão para seguir a investigação. O senso comum dispõe então de um novo ponto de apoio, que torna inútil ou desarrazoadas as tentativas de relançar a prova e reinstaurar a dúvida. A própria preocupação de verificação torna-se suspeita. Não há mais lugar para interpretar signos tornados transparentes. Na verdade, é um pouco mais complicado. Pois o que importa é poder verificar em caso de urgência, de dúvida ou de desacordo. Segundo William James, a “verificabilidade” é mais importante que a própria verificação, pois ela aponta para uma verificação potencial ou virtual. A verificabilidade se confunde com um sentimento de confiança: ela nos permite experimentar o acordo entre nossas ideias e a realidade, com uma só olhada, por um exame intuitivo do contexto que fornece signos suficientes para provocar nossa adesão. Os signos agem como condensados de verificação, atalhos, resumos. O senso comum pode então ser descrito como o uso público desse princípio de verificabilidade, permitindo ao mesmo tempo uma confiança primordial e um acordo sobre o que merece discussão e verificação.

Se a análise dos processos de investigação permite ver como a realidade é apreendida e coletivizada, ela supõe colocar à distância noções como “construções sociais”, “imaginárias” ou “crenças” sob as quais se fundam ainda múltiplos paradigmas das ciências sociais. Saindo do jogo entre percepções, representações e julgamentos, pode-se compreender o trabalho perceptivo cujas preensões não são nem produtos de uma percepção direta que repousa sobre uma harmonia preestabelecida, nem projeções automáticas de estruturas mentais que revelam um arbitrário cultural. O sentido da realidade provém da confrontação continua de afetos, perceptos e conceitos. Na evidência do mundo sensível, a percepção e a prova são duas vezes a mesma coisa: o corpo atesta a realidade do estado de coisas – salvo nos casos de perturbações perceptivas, de alucinação ou de possessão. Perceber em demasia, tocar em excesso, é se colocar em uma relação em que se é dominado. Daquele que está dominado diz-se geralmente que ele “não está mais na realidade”. Se o próprio corpo é armado para engendrar as boas preensões e produzir as mediações práticas entre a consciência e o mundo, anexando todos os instrumentos dos quais ele necessita (Merleau-Ponty, 1945), é no agenciamento de percepções individuais e representações coletivas que se produz o reconhecimento de fatos tangíveis. Isso não quer dizer que tudo o que fazem e pensam nossos atores manifesta um autêntico senso de realidade: mais de uma vez acontece de eles se enganarem, o que ocorre também com aqueles que os estudam. O erro é sempre possível. Mas não se trata mais do erro denunciado pelas sociologias da ruptura: para esses sociólogos, nada é pior do que o senso comum! Ora, o senso comum da realidade não é um simples estoque de crenças: ele forma o traço contínuo de um trabalho coletivo que visa reduzir as tensões entre várias formas de produzir a factualidade e visa fazer face às transformações que afetam com maior ou menor profundidade as certezas de fundo[4].

A sociologia pragmática se interessa pelos procedimentos por meio dos quais as pessoas e os grupos estabelecem a realidade das entidades e das relações engajadas em suas experiências, para representá-las em quadros ou objetos comuns, e para revisar, em caso de necessidade, suas disposições e seus dispositivos. As disposições coletivas não são apenas fruto de representações já-aí ou de alinhamentos regidos pelo interesse: elas resultam de uma série de provas de tangibilidade através das quais os atores forjam novas preensões. Ao fazer da organização coletiva dessas provas um objeto central da sociologia, evitam-se as duas armadilhas que formam o refúgio convencionalista – o sentido social da realidade consistiria em fazer como se as preensões fossem comuns -, e o relativismo das factualidades – marcado pela separação definitiva das pessoas ou dos grupos em culturas ou comunidades que veem o mundo de modo diferente.

Bibliografia:

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Notas

[1] Nota do Tradutor: A expressão “isso bate” faz referência tanto a ideia de que “isso faz sentido” quanto a ideia de que “isso faz sentido em razão do próprio arranjo entre as coisas”.

[2] Em Sangue na lua: uma aventura do Sargento Crazy “Lloyd” Hopkins, James Ellroy fornece um exemplo estilizado do processo em operação no inquérito judicial e que não se reduz a uma pura “colheita” de indícios no sentido de Ginzburg. Depois de múltiplas investigações, seu investigador chega a extrair dois traços do “serial killer” que ele procura: de um lado, o suspeito dispõe de um micro-gravador de alta definição, fornecido em quantidades bem pequenas no território. De outro lado, ele era um aluno de um estabelecimento em uma época bem determinada. O investigador exuma as listas de alunos a partir de uma estimação de idade do criminoso e abre os registros de fornecedores de micro-gravadores: ele efetua portanto uma aproximação entre duas séries de indícios independentes e espera efetivar uma verificação cruzada. Um mesmo nome emerge na interseção das duas listas. O elo é fraco dado que o matador pode ter comprado o gravador sob um nome falso, mais uma pista está agora aberta. 

[3] “Uma crença que não poderia ser falsa, escreve Peirce, seria uma crença infalível e a infalibilidade é um atributo da Divindade” (Peirce, 1978, p. 42)

[4] Em seu Traité des preuves judiciaires [Tratado das provas judiciais] (1840), Bentham religava a teoria das provas à transformação continua do senso comum. Ele examina o tratamento judiciário das mudanças que afetam as evidências comuns como, por exemplo, o tempo necessário para ir de um lugar a outro (elemento decisivo na investigação de um crime).