Por uma sociologia relativamente exata (Parte 1), de Michel Callon e Bruno Latour

Relatividade1Buraco Negro (sem autoria)

Michel Callon e Bruno Latour (Écoles des Mines, França)

Tradução: Diogo Corrêa

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Enquanto a sociologia, fiel às suas origens, se absteve de estudar as ciências e as tecnologias, seu desenvolvimento, mesmo se foi frequentemente fragmentado e por vezes caótico, não foi verdadeiramente interrompido. Negociando as fronteiras reconhecidas com a economia, a psicologia, a etnologia, o direito e a biologia, foi-lhe possível manter um território próprio, apesar das inúmeras incursões bárbaras, de algumas excursões temerárias e algumas tentativas de anexação. Essa política territorial modesta, mas segura, começou a mudar quando a sociologia quis ser também sociologia ‘das’ ciências e das tecnologias.

No início, para dizer a verdade, ninguém percebeu a mudança. O programa de Merton parecia uma extensão fácil e legítima, um pouco como acrescentar pôlderes ao Golfo Zuiderzee. Por que, com efeito, não fazer uma sociologia de todas as “logias”, disciplinas rivais cujas competências transbordavam aquelas da sociologia? Contudo, essa extensão, no início fácil, tornou-se rapidamente perigosa. A explicação em termos de grupos sociais, de interesses, de classe, de campo, de poder ou de dominação começou a se enfraquecer à medida que se queria analisar cada vez mais de perto os detalhes das disciplinas científicas. A sociologia não parecia ainda impotente, mas já era mais fraca do que os conteúdos dos quais ela pretendia dar conta. Os trabalhos do que se chama de Escola de Edimburgo marcam essa etapa de incerteza; a uma análise fina, mas internalista dos conteúdos científicos estão justapostos, no início e no fim, explicações sociológicas sem real relação com os conteúdos técnicos tratados no corpo das análises. Esses estudos são semelhantes a colagens: o social é acrescentado aos conteúdos técnicos que ele não explica. A amostragem dos recursos da sociologia parece, pouco a pouco, esvaziá-la da sua própria substância e da sua força explicativa. De todas as partes, novos estudos nos chegam, sempre mais detalhados e mais desprovidos de interpretações sociológicas pertinentes. Decididamente, essa tentativa de extensão da análise sociológica às ciências e às tecnologias virou uma catástrofe para a ciência metrópole. Nós chegamos ao ponto em que não há mais do que duas soluções. Ou bem abandonar as ciências e as tecnologias, declarando-as sempre rebeldes a toda explicação sociológica, e assim ficar aquém de nossas fronteiras e cultivar nosso jardim reduzido, mas limpo; ou bem fazer a sociologia passar por transformações suficientemente radicais para que ela se torne capaz de explicar com pertinência esses objetos que ela tinha primeiro abandonado para, em seguida, engoli-lo de uma vez só.

Nós queremos, nesse artigo, explorar a segunda solução. Pois ainda que essa solução seja temerária, mais até do que a primeira, nós não desejamos, de modo algum, depois de todos os nossos investimentos em terra estrangeira, nos tornar repatriados. A solução que propomos tem o mérito da simplicidade: à sociologia que a partir de agora chamaremos de “prérrelativista”, nós queremos opor uma sociologia relativista. Essa, como a física do mesmo nome, visa não a negar, mas a reforçar a possibilidade de uma ciência objetiva, mudando o ponto de vista do observador, a definição da medida, a natureza da explicação e do quadro espaço-temporal. Longe de “cair no relativismo”, como se costuma dizer, nós queremos flutuar sobre ele. A solidez do quadro de referência que permite a explicação não consiste mais na busca pela terra firme ou por um saber sociológico clarividente, mas nas diferenças de solidez entre o casco e a água, no desenho do barco, no traçado das viagens por fazer, quer dizer, nas entre-definições dos atores. A sociologia prérrelativista repousa sobre quatro postulados fortemente ligados uns aos outros, de modo lógico e coerente:

  1. Existe, em princípio, propriedades estáveis e intrínsecas à vida em sociedade, ou da evolução das sociedades, mesmo se, na prática, essas propriedades são difíceis de estabelecer.
  2. Os atores não tem poder sobre as determinações, o sentido ou as consequências de suas condutas, as quais devem ser compreendidas indiretamente pelo estudo das sociedades ou de grupamentos nos quais eles estão inseridos ou que então produzem por meio de suas ações; alguma atividade que lhes é acordada (o estado de dopado cultural, como diz Garfinkel sobre o estado dos indivíduos), sua dimensão é portanto sempre menor que a da sociedade que os inclui ou que eles compõem.
  3. A consequência desses dois primeiros princípios é fazer dos atores sociais informantes que transmitem informações sobre a vida em sociedade; como eles estão tomados pela sociedade, eles são informantes indispensáveis para superar as dificuldades práticas na busca pela descoberta dos princípios da sociedade; como eles estão incluídos na sociedade que os ultrapassa, são os informantes que convém escutar com desconfiança. Essa mistura de confiança e desconfiança na interpretação dos informantes define o savoir-faire do sociólogo.
  4. Graças a esse savoir-faire, é possível ao sociólogo discernir as propriedades estáveis e intrínsecas à vida social em que os atores se situam. A explicação que ele propõe é da ordem da metalinguagem. O sociólogo compreende então porque o informante possui uma visão relativa, incompleta, enviesada, inconsciente da vida social.

Nada permite criticar esses quatro postulados: se há, em princípio, propriedades estáveis que são inerentes à vida em sociedade, então passa-se do micro-ator (por exemplo, o indivíduo) aos macro-atores (por exemplo, a instituição) por relações de inclusão; por conseguinte, o ator é um informante útil, mas do qual é preciso desconfiar; o tratamento de seus pontos cegos permite então criar uma “ciência”, no sentido prérrelativista da palavra, que torna consciente a “simples prática” dos informantes.

Nada viria colocar em dúvida essas evidências do ofício do sociólogo se não fosse preciso lidar com as máquinas e os fatos científicos. Quando se aplica esse modelo clássico de sociologia a essas temáticas, o número de deformações e de paradoxos absurdos é tal que ele se torna rapidamente inutilizável. O mais conhecido desses paradoxos é o da “reflexividade sociológica”. No quadro prérrelativista, essa reflexividade assegura às ciências e às tecnologias um estatuto de extraterritorialidade que torna a análise impossível. Fazendo da sociologia uma metalinguagem capaz de elucidar o que escapa aos atores, a ela é acordada o mesmo privilégio exorbitante que às outras ciências, o de não poder ser submetida à análise sociológica. É ao preço dessa bizarrice que a sociologia pode se arrogar o direito de ter a última palavra. Do mesmo modo, a sociologia dos conteúdos científicos torna-se sem sentido pois ela é, para a sociologia clássica, autodestrutiva. Para evitar esse e muitos outros paradoxos, parece-nos útil propor quatro outros postulados tão coerentes quanto os precedentes, a fim de por um fim a essas deformações e adaptar, desse modo, a sociologia ao estudo das ciências e das tecnologias.

  1. Não há em princípio propriedades estáveis que sejam próprias à sociedade ou à sua evolução, mas na prática os atores podem definir propriedades localmente e estabilizá-las por um tempo.
  2. Os atores definem a sociedade uns para os outros, o que ela é, o que ela faz, como ela evolui e seu tamanho; eles definem também as relações de inclusão e qual ator é maior que o outro.
  3. Não falta nada aos atores – sobretudo, não lhes falta consciência; eles são tão completamente lúcidos, explícitos, informados quanto for necessário para que componham, cada um, a totalidade da sociedade.
  4. Os sociólogos não se colocam questões diferentes das que, segundo as circunstâncias, se colocam para os atores. Eles são atores como os outros, definindo a sociedade e lutando por vezes para expandir as suas definições. Os sociólogos não se distinguem dos outros como a infralinguagem da metalinguagem, mas como uma profissão se distingue da outra – digamos, como um padeiro de um doceiro ou um programador de um engenheiro de sistema.

Vê-se que os dois conjuntos de postulados se opõem a respeito de quatro pontos fundamentais: sobre a relação entre o que se pode conhecer na prática e por princípio; sobre a definição do ator; sobre a natureza do conhecimento e, daí, da sociologia. Passar de um conjunto ao outro supõe uma mudança de ontologia que nós não abordaremos aqui. Nós nos contentaremos, nesse artigo, em demarcar as diferenças de explicação sociológica obtidas a partir da escolha de um quadro relativista ou prérrelativista.

I: Inversão de práticas e de princípios

Exemplo 1: No curso de uma pesquisa sobre a Rhône-Poulenc, eu entrevistei o seu CEO. Às questões colocadas, ele responde sem hesitar. Ele desenha na frente dos meus olhos o estado da sociedade francesa e da economia mundial. Pela sua boca, Rhône-Poulenc abarca alguns departamentos e setores, um punhado de executivos, uma estratégia de longo prazo e recursos financeiros limitados. O grupo se engaja em uma reestruturação industrial difícil e em uma concentração de investimentos em química fina. O presidente prevê que os sindicatos vão protestar, sobretudo a CGT (Confederação Geral do Trabalho), mas o governo, ele acrescenta, deu garantias: ele está pronto para sustentar a reestruturação que é, ele reconhece, de um interesse vital para a indústria francesa; na realidade, ele diz, é sobretudo o Ministério da Fazenda que assumiu esse compromisso, pois na Indústria, as opiniões são compartilhadas. Quanto ao Presidente da República, ele deixa entender – segundo o CEO, foi o que um colaborador próximo lhe contou –, que ele saberá mostrar firmeza. É verossímil, diz o CEO, uma vez que essa postura se inscreve bem na linha política do Presidente da República, ele não hesitará em confrontar, em nome do realismo econômico, um sindicato próximo ao PC (Partido Comunista). Nessa entrevista, o Presidente diz que ele poderia detalhar certos aspectos e insistir sobre o papel desempenhado pelo preço do petróleo, pelas relações Norte-Sul e pelas moléculas complexas que será preciso rapidamente saber sintetizar por um preço barato. Na entrevista, contudo, nada diz que se trata de um ponto de vista particular sobre uma realidade: é o estado de forças.

Na sociologia prérrelativista, a exposição do CEO aparece como uma visão particular de um estado de coisas muito mais complexo do que ele; o CEO não vê ou, pior ainda, dissimula. O sociólogo tem o dever de mostrar o que há de assustadoramente redutor e simplificador nessa visão. Para demonstrá-lo, é preciso multiplicar a lista de atores “esquecidos” pelo CEO: a concorrência internacional, a luta de classes, a alta dos custos salariais. É possível utilizar essa entrevista para reconstituir a ideologia, a representação, a visão deformada, a arrogância dos industriais, mas é preciso sobretudo não confiar nelas. O CEO se inscreve em uma hierarquia de fenômenos e só vê (ou confessa) apenas uma parte. O sociólogo vê mais alto e mais longe, ele quer incluir o CEO na sociedade e explicar seu comportamento e o discurso enviesado que ele profere sobre essa última.

Na sociologia relativista, os deveres e os direitos são inversos. Enquanto o CEO não indica que há outros pontos de vista possíveis, enquanto ninguém vem interromper a sua exposição, ele é o estado de coisas. Ele não representa de modo parcial a realidade; ele constrói de modo completo toda a realidade. Como as mônadas de Leibniz, ele é todo o mundo de que necessita, ele é, no sentido próprio, uma enteléquia ou, para adaptar a expressão de Braudel, um ator em que se faz todo um mundo. Esse ator-mundo define os outros atores (a CGT, a concorrência, o Presidente da República); esses outros atores são humanos ou não humanos (as moléculas, os planetas), coletivos ou individuais (a CGT, o setor da química fina); cada um dos atores definidos é dotado de um conjunto de propriedades, de motivações (a linha política do Presidente, a resistência provável da CGT); essas propriedades determinam um conjunto de resistências e de plasticidades que definem o espaço e o tempo desse ator mundo (as resistências da CGT vão retardar a restruturação, mas o apoio do Presidente e a síntese das moléculas vão acelerá-la). Essa capacidade do ator de criar a totalidade do mundo é importante, porque o analista que se pusesse a querer extrair o ator do espaço e do tempo que ele construiu, a fim de mergulhá-lo em um outro quadro de referência (classes sociais, campo simbólico), se tornaria culpado de uma verdadeira deformação. Mais que um crime, um erro: ele se condenaria a falar de outra coisa. O ator vai muito bem e obrigado, e você? Por que cortar os cabelos em quatro e fazer disso uma argúcia filosófica? Na escala de uma entrevista, nós admitimos alegremente que a escolha em favor de um ou outro quadro de referência não parece ter consequências. A diferença não se faz sentir senão na segunda entrevista.

Exemplo 2: no curso de uma pesquisa, eu entrevistei Marc P., operário em uma das fábricas de química industrial do grupo Rhône-Poulenc. Marc P. foi eleito pelos seus colegas como representante sindical para o conjunto da indústria química francesa. Enquanto delegado sindical, ele encontra regularmente o Estado-Maior de Rhône-Poulenc para negociar as convenções coletivas, mas também para dar seu ponto de vista ou aquele do sindicato sobre os projetos de investimento da firma. Ele me fala das relações Norte-Sul, da concorrência internacional, do desenvolvimento científico da química. Ele enfatiza, em particular, que a química é uma das raras indústrias nacionais a não receber sustento sistemático e regular do Estado. É, ele diz, um signo de boa saúde. Isso não deve ser posto em causa, pois essa ausência de sustento regular e sistemático é o resultado do esforço consentido por todos os trabalhadores do setor. É por essa razão, ele diz, que é preciso não tomar decisões que possam ir de encontro com o interesse desses últimos. A indústria química não é uma indústria envelhecida, é uma indústria que se deixa envelhecer, que se deixou sacrificar. Para rejuvenescê-la, para evitar que ela não vá se implantar no exterior, não há senão uma solução: incentivar as pesquisas. O Estado deveria assumir suas responsabilidades. A pesquisa em química não recebe praticamente nenhuma ajuda governamental. Com o objetivo de que as decisões sejam tomadas, diz Marc P., é preciso não deixar a iniciativa ao encargo de alguns dirigentes que se arrogaram o direito de definir o futuro de Rhône-Poulenc, em função dos critérios da economia capitalista. Convém mudar as relações de poder, trazer os trabalhadores à participação da elaboração da estratégia da firma, em poucas palavras, tornar fato a vontade expressa pelo povo francês no dia 10 de Maio de 1981.

As dificuldades começam a se acumular na sociologia prérrelativista. Onde efetivamente situar esse operário Marc. P.? Em um sentido, ele está abaixo do CEO que o inclui, dado que o pesquisador não chegou até ele senão descendo a hierarquia e indo de níveis gerais a níveis de mais a mais “baixos” e “pequenos”; em um outro sentido, contudo, nós retornamos a uma “visão global das coisas”, e mais global porque ela inclui Rhône-Poulenc e seu CEO no desenvolvimento do capitalismo monopolístico de Estado, e naquele da química. Por outro lado, sua visão é grosseiramente simplificada; ele diz ‘a Direção’ justamente onde o CEO pode detalhar durante horas as lutas entre serviços que são essenciais à sua análise. A situação se complica ainda mais se eu tenho não apenas um nem dois, mas trinta entrevistas, nas quais todos falam com segurança de verdadeiros atores, de suas verdadeiras motivações, de verdadeiros obstáculos e de verdadeiros detalhes importantes. No quadro prérrelativista, não há outras soluções senão escolher um quadro de referência único e de nele marcar, por projeção, a posição de cada um dos informantes. Evidentemente, as deformações se multiplicam à medida que se coloca em duas ou três dimensões as ‘n’ dimensões da pesquisa. Dir-se-á do CEO, por exemplo, que ele tem uma visão interessada do conjunto, e o sindicalista dá conta disso porque, representando sua classe, ele vê mais longe e de modo mais amplo; inversamente, pode-se dizer que a visão do sindicalista é particularista, corporativista e que ela está incluída, como um detalhe, na do CEO que, aliás, a engloba na elaboração de sua estratégia. Mais a explicação se amplifica, mais os informantes são desqualificados e mais o sociólogo torna-se comparativamente inteligente; os informantes não sabem o que dizem, não sabem o que veem; perdoem-lhes, meu pai, eles não sabem o que fazem; mesmo se eles negam ferozmente o que se passa, nós somos suficientemente fortes, nós, os sociólogos, para determiná-lo. No final de contas, os que veem mais longe e de modo mais amplo são sempre os sociólogos.

Em sociologia relativista, ao contrário, o sociólogo não vê, literalmente, além da ponta do seu nariz. Não há nenhum quadro de referência sobre o qual projetar ou localizar as posições de seus informantes. A razão dessa impotência é que os atores não estão de acordo sobre o quadro de referência, sobre o alto e sobre o baixo, sobre o pormenor e sobre o global, e que o sociólogo deseja é, como se diz, “nada acrescentar”. Essa ausência de quadro de referência tem uma vantagem enorme: os atores possuem todo lugar e tempo que desejam para desenvolver seus desacordos. A um só quadro de referência presente em princípio, mas que produz na prática deformações grandiosas, substitui-se um quadro de referência ausente em princípio, mas constituído, pouco a pouco, pela prática. O Presidente da República, o sindicalista, a CGT, o CEO, seu Estado-Maior, o benzeno não estão no “mesmo” quadro de referência, mas isso não ocorre por falta de tentativa! Eles se põem a construir “o mesmo” e é nisso que eles concentram-se todos os seus recursos. Enquanto a definição do quadro de referência estava fora do campo da sociologia prérrelativista, ele ocupa, na sociologia relativista, o centro das atenções. O preço a pagar é uma redistribuição de competências. Aos atores é garantida sua inteligência enquanto o sociólogo pode provar a sua (ver parte 4). Os atores ‘hierarquicamente’ inferiores se encontram capazes de proezas ontológicas, definindo o espaço e o tempo, recriando novas forças, até mesmo novas cosmologias e sobretudo, como Menocchio, o moleiro, definindo uma metalinguagem sobre o verdadeiro e o falso, sobre a falsa consciência, sobre os testemunhos, etc. Mais os atores se emancipam e se tornam capazes de lutar pela definição do quadro de referência, menos o sociólogo os apreende de fora e se crê capaz de discernir a verdade da mentira.

O leitor poderá, talvez, fazer uma objeção, dizendo que a diferença entre os dois conjuntos de postulados permanece, no final das contas, pequeno: “a França” é um ator “maior” que “Rhône-Poulenc”, a qual é maior que o “CEO”, o qual é maior que o operário Marc P., que ele pode demitir. Mesmo se o tamanho é objeto de disputa, uma vez a disputa regulamentada, o tamanho não varia mais e tem-se o direito de falar em “níveis” de generalidade ou de inclusão. Nós admitimos esse ponto, como na física relativista admite-se facilmente que é inútil calcular as transformações de Lorentz para passar de um observador se deslocando numa mobilete para um observador se deslocando em uma bicicleta. Tudo muda se o interesse se volta para grandes diferenças de velocidade ou, no caso da sociologia, para as grandes controvérsias sobre a natureza do tamanho dos atores. Nesse caso, os dois modelos chegam a conclusões completamente diferentes. Dito de outro modo, as hierarquias de inclusão não são transitivas senão em período calmo e depois de estabilizadas. Se A > B e se B > C então A > C. Mas em período quente, é precisamente essa transitividade que falta. Quem inclui o outro, Walesa, ex-presidente do ex-Solidariedade, agora simples cidadão, ou Jaruzelski, simples atendente pessoal dos soviéticos que não representa senão uma elite governante? Diante de uma controvérsia, é preciso ou escolher seu campo e esmagar o outro ator dizendo que ele “se engana” ou que ele “mente” ou, pior ainda, traçar uma média no meio dessa nuvem de pontos, apoiando-se nas estatísticas para pensar. Há, contudo, uma outra solução, que é a de tomar o quadro relativista e admitir que os atores estão em luta para definir os fundamentos da sociologia, a natureza da sociedade, a direção da flecha do tempo. Nós reencontramos sempre essas estranhas relações: o ator se emancipa se ele torna-se capaz, na prática, de definir seu quadro de referência; o sociólogo, por sua vez, é então privado de toda perspectiva externalista e de toda metalinguagem, mas o resultado final é que ele sabe mais e pode observar os conflitos invisíveis até aqui, sem reduzi-los e sem povoar o universo de informantes semi-idiotizados ou, inversamente, completamente maquiavélicos.

II: Sociologia procura ator a geometria variável

Exemplo 3: o CEO me falou de Rhône-Poulenc e do apoio do Estado, mas ao ir ao Ministério da Indústria ele me confiou que, no próximo conselho de administração, um outro CEO será designado pelo ministro. Na reunião do 3 de Janeiro, onde o CEO propôs seu plano de restruturação, um violento discurso de Marc P., delegado sindical da indústria química, acusou Rhône-Poulenc de querer sacrificar a química industrial, de minar os interesses conjuntos da França e dos trabalhadores. Sobre permanência da CGT no ramo químico, X explicou-me que o camarada Marc P. tinha falado sobretudo em seu próprio nome; um outro relatório confidencial, redigido em grande parte por R., engenheiro químico, parece indicar o futuro da química fina e em particular do desenvolvimento rápido das pesquisas sobre uma certa molécula HXR12.

No centro de pesquisa de Aubervilliers, o engenheiro encarregado da nova molécula HXR12 estima ter resolvido todos os problemas fundamentais, graças à ajuda eficaz do laboratório do CNRS de Strasbourg; por outro lado, ele está cético quanto às possibilidades de industrialização, pois os únicos catalizadores que não se envenenam demasiadamente rápido são excessivamente caros.

Em sociologia prérrelativista, essas brutais variações na identidade dos aliados e da natureza das alianças não possuem qualquer consequência significativa. Basta, com efeito, eliminar dos dados as variações excessivamente bruscas, de modo a remeter as controvérsias quentes aos estados frios onde um só quadro de referência é dado (ver acima); em seguida, é possível comparar essas variações ao que o sociólogo sabe que deve existir, como se compara uma trajetória pontilhada à curva ideal de sua função (o CEO “caiu em sã consciência”; o sindicalista “enfim se deu conta dos seus limites”; os interesses do engenheiro são “excessivamente limitados”; o progresso técnico “não pode ser acelerado”, etc.). Conhecendo o espaço e o tempo e a composição do mundo social, ao sociólogo torna-se possível julgar essas variações. Ele pode também eliminar friamente todos os aliados que não são humanos ou sociais (as moléculas, os leitos fluidizados, o benzeno não têm nada a fazer na história). Dado que o sociólogo sabe, em princípio, que há propriedades determinadas da sociedade, ele sabe que não deve seguir de muito perto as ilusões de seus informantes.

Em sociologia relativista, ao contrário, a variação dos aliados é o essencial. De fato, posto que não há em princípio qualquer quadro de referência, os esforços práticos dos atores para constituí-lo e estendê-los aos outros atores-mundos é a única coisa que o sociólogo tem à sua disposição. Os atores não possuem pontos de vista deformados sobre uma única realidade, eles lutam para formar localmente, e por um tempo, a unidade da realidade. De um ator a outro, a passagem não se faz, portanto, por um desvio via “a realidade”, depois por um retorno na direção de “um ponto de vista sobre a realidade”, mas, literalmente, por tudo o que cai sobre a mão dos atores. Os atores relativistas são à geometria variável.

A sociologia prérrelativista julga necessário para o seu exercício a definição a priori do tamanho respectivo dos atores. É por isso que ela separa com cuidado a microssociologia da macrossociologia, as interações do sistema maior (que das primeiras estabelece os limites), os efeitos inesperados produzidos pela agregação dos indivíduos nesses mesmos indivíduos, a infraestrutura da superestrutura. É esta divisão a priori que lhe permite julgar a qualidade das explicações; “essa daí comete o erro de esquecer o sistema”; “esse aí ignora as interações simbólicas”, “essa outra dá demasiada importância à infraestrutura”, “aquela outra é excessivamente local”, e assim por diante. Às vezes tomado pela paixão da classificação, o sociólogo pode, como Habermas e Touraine, multiplicar as tabelas e as hierarquias, ou até mesmo escolher um dos lados e anexar o seu nome a um tipo de ator (Bourdieu ao campo, Parsons ao sistema, Crozier à burocracia, Boudon ao indivíduo extrapolado pelas consequências não intencionais de seus atos).

Na sociologia relativista, se há uma coisa que não se sabe a priori, é o tamanho do ator. O CEO diz “Rhône-Poulenc quer reestruturar a química fina”. Qual é o tamanho da Rhône-Poulenc? Quando ele diz isso, o CEO associa todos os seus serviços, todo seu Estado-Maior, suas fábricas, seus centros de pesquisa, suas moléculas, suas leis da física, sua França … tudo isso forma uma vontade única. Rhône-Poulenc age como um único homem, o CEO. Mas se ele vai embora no dia seguinte, o CEO torna-se apenas um homem que não age, mas sonhava a respeito do que ele poderia ter feito se Rhône-Poulenc o tivesse seguido. Então, qual é o tamanho da Rhône-Poulenc? Quem a representa? Quem fala por ela? Em sociologia prérrelativista, este problema é solúvel em princípio, mesmo se, na prática, uma longa pesquisa para determiná-la se mostra necessária. Na sociologia relativista, esse problema não tem solução em princípio. Na prática, no entanto, ela se resolve a todo momento e de maneira muito simples. A solução tem sempre a mesma forma: aquele que fala em nome de outros foi interrompido por outras pessoas? Não? Logo, ele está certo. Sim? Logo, ele está errado.

Antes que o leitor se escandalize com essa permissividade, é necessário compreender o argumento relativista. Conferir ao ator a totalidade de seu mundo não é, de modo algum, falar do “indivíduo” ou opor uma sociologia do ator a uma sociologia do sistema, ou exaltar a “experiência intersubjetiva” ou o “mundo interior” em oposição às frias determinações sociais.

  • simplesmente dizer que a natureza, o tamanho, a função do ator são indeterminadas. O ator está sempre, portanto, em princípio, senão na prática, em busca de sua identidade, e para isso fala em nome de outras coisas. Ele é sempre um porta-voz, como o Leviatã de Hobbes. Mas um porta-voz pode ter a confiança dos outros e ser seguido ou ser contestado e reduzido a sua própria vontade. A sua “fidelidade” para “representar” aquilo do que ele fala pode ser Mas, para além da disputa e da discussão, não é possível duvidar das palavras do ator. Se o CEO me diz “Rhône-Poulenc quer”; se o engenheiro me diz “estas moléculas não podem sofrer as forças de Van der Vaalis em temperatura ambiente”, assim é, ao menos até que os outros a recusem, a redefinam e façam falar de outro modo aquilo do que eles eram porta-vozes.

Apenas a interrupção explícita por outro ator, em sociologia relativista, permite por em dúvida. Portanto, a dúvida não advém, como na sociologia prérrelativista, da comparação feita pelo sociólogo entre o discurso de seu informante e pontos de referência fixos. A controvérsia

  • o que permite passar de um ator a outro. É a nossa transformação de Lorentz. Enquanto o ator diz a Natureza, a França, a Indústria, a Ciência sem ser interrompido, tais são os atores a serem levados em conta; se os outros dizem “uma concepção da Natureza”, o “Partido Socialista”, “Rhône-Poulenc”, “o laboratório da química fina”, outros atores irrompem e precisam ser levados em conta, sem que o sociólogo os privilegie e deles duvide antes que outros venham atacá-los.

Nesta controvérsia para definir o ator, o seu tamanho, o seu direito e a sua vontade, a vitória não é garantida em princípio, embora, na prática, haja vencedores e perdedores. Esta é a principal diferença com relação à sociologia prérrelativista. Esta gostaria que houvesse combinações vencedoras, associações legítimas, ligações lógicas e, basicamente, que o melhor ganhasse. Esta concepção faz jus ao seu sentido moral, mas ela é absolutamente absurda em sociologia relativista. O que não podemos prever são precisamente as associações vencedoras, as combinações legítimas e as ligações lógicas. Devemos insistir nesse ponto, porque os leitores, pessoas honestas e sérias, muitas vezes possuem a verdade, o que lhes dá certo prestígio, mas precisamente por isso, eles não veem frequentemente o que conta para a verdade. Eles gostariam que a lista de atores fosse fechada, bem como a lista das associações. E é assim, para eles, que a sociologia se tornaria uma ciência digna desse nome. Para nós, a sociologia só pode tornar-se uma ciência ao deixar totalmente aberta a lista de associações, pois é desta abertura, e dela apenas, de onde pode vir a força extra que garantirá a vitória dos atores.

Exemplo 5: a linha transcontinentais de Bell descrita no artigo de Hoddeson. A companhia Bell + projeto de linha transcontinental + Física de Millikan + elétrons sem inércia + repetidor eletrônico = vitória, quer dizer, expansão de Bell, da Física de Millikan, de Millikan, dos estudantes de Millikan, dos elétrons, dos repetidores e de todos os comércios de São Francisco e da costa Leste. Esta combinação era imprevisível. Podemos dizer, de antemão, que era realizável ou irrealizável? Na sociologia prérrelativista, sim, uma vez que um quadro de referência fixado sempre permite que o sociólogo o compare com a realidade e corrija o comportamento de seus informantes, segundo uma gradação sutil: sonhos, projetos, utopias, ideologias, abordagens razoáveis, embriões de verdade, ideias revolucionárias, etc., segundo uma gama tão sutil quanto o ranking das escolas de engenharia. Na sociologia relativista, o grau de realismo é indeterminável em princípio, dado que é segundo o número de aliados fiéis que se conformam à vontade do porta-voz que faz com que ela se torne realizável ou se torne irrealizável. A realidade está em questão, na sociologia relativista, enquanto ela está fora de questão ou é supostamente sempre conhecida na sociologia prérrelativista. O sindicalista P., que nega ao CEO o direito de falar em nome da Rhône-Poulenc, torna esse último irrealista; o engenheiro, que alia o projeto grandioso de Bell aos elétrons sem inércia de Millikan, o torna realizável; inversamente, o CEO, que opõe as restrições do mercado às utopias socialistas de P., torna o sindicato irrealista, assim como o elétron que só transmite o sinal em estado de vácuo torna irrealista o projeto de um repetidor eletrônico. Para vencer a pressão de outros atores que querem te tornar irrealizável, convém encontrar mais aliados ainda.

Em sociologia prérrelativista, com seu quadro fixo de referência, sua composição conhecida, pelo menos em princípio, e a realidade fixada, a causa de um fenômeno pode sempre ser buscada em um ponto particular. Na sociologia relativista, com o seu quadro de referência em discussão, os seus atores à geometria variável, a sua realidade flutuante em função de alianças, a causa de um fenômeno deve ser buscada não em um ponto particular, mas em circunstâncias, em ocasiões. Às causas “sérias” e que reproduzem os mesmos efeitos da sociologia prérrelativista, devemos opor as causas que servem apenas uma vez, as causas “descartáveis” da sociologia relativista. Nada prova, por exemplo, que Bell resistirá aos seus concorrentes ao aliar-se aos elétrons de Millikan. Como a lista de aliados confiáveis não está fechada, as mesmas causas não reproduzem os mesmos efeitos. Então, o que pode o ator fazer? Transmitir a pressão aos outros. Enredado em seus sonhos de causalidade, os sociólogos esquecem este princípio banal: a aliança faz a força. Na sociologia prérrelativista, a solidez vem de um elemento rígido entre outros, o Sistema, a Luta de classes, a Infraestrutura, os Habitus. Ou este elemento rígido está presente, o que é suficiente para explicar a resistência do conjunto; ou está ausente, e toda a variedade de elementos, tão longa e tão completa quanto seja, nunca é suficiente, na opinião de sociólogos, para garantir qualquer solidez do conjunto. Na sociologia relativista, a situação é exatamente inversa. Se houvesse um único elemento sólido que fosse a causa da resistência do conjunto, ele iria se partir em pedaços. É a resistência dos materiais, do elementar. A solidez só pode ser obtida mediante a distribuição, a transmissão, a difração, a dispersão de pressões. A solidez, portanto, não pode nunca vir de um elemento, mesmo poderoso, mas de uma série de associações tão heterogêneas quanto possível para transmitir o mais longe possível as pressões. O modelo mítico da sociologia prérrelativista é o Atlas carregando o mundo sob seus ombros. Na sociologia relativista, se Atlas carregasse realmente o mundo, ele quebraria; mas se ele não o carrega e sim transmite as pressões por todos os lugares em rede, então a terra, sob os seus ombros, não pesa quase nada, e seu papel só é crucial se ele consiste em transmitir força aos outros.

Ambos os modelos de sociologia são formados sob princípios completamente diferentes. É porque o quadro de referência é fixo que o sociólogo sério pode identificar as causa estáveis e buscá-las em fenômenos sólidos mais determinantes que os atores a serem explicados. Em tal cenário, a história do Bell não vai ser explicada, por exemplo, até que não tenhamos introduzido o “capitalismo” ou “as estratégias de grupos multinacionais e de seus grupos dirigentes”, bem como a história de uma molécula ou de uma bateria não será concluída, para os nossos colegas sociólogos, até que um grupo social bem definido não tenha dado as caras. O sociólogo prérrelativista sempre acha a explicação relativista decepcionante, porque parece-lhe ser uma lista de aliados imprevisíveis, que desta vez se uniram por um tempo e de forma localizada. É um agregado de causas circunstanciais. Isso não deve ser levado a sério, posto que sempre faltam os atores sociais canônicos, ou seja, precisamente o “quadro de referência” obrigatório da sociologia que permite “fecundas generalizações”. Por outro lado, vistos da sociologia relativista, as explicações prérrelativistas, mesmo se estão saturadas de atores canônicos aos quais não falta nem o mais pequeno pormenor, permanecem sempre decepcionantes. “Falta”-lhes todas as controvérsias sobre a única coisa que importa: o aliado n + 1 que permite levar a vitória nessas circunstâncias específicas. Em outras palavras, o sociólogo prérrelativista acredita ser importante ter uma lista estável de atores sociais, enquanto o sociólogo relativista julga crucial a imprecisão que existe na definição de atores, imprecisão essa que lhe permite associar em tempo oportuno todos os tipos atores não-sociais. Para dizer de modo mais simples, a sociologia prérrelativista acredita que o seu objeto é o social – objeto estável em princípio, embora, na prática, ele seja instável –, enquanto o sociólogo relativista acredita que seu objeto é a associação – objetos indeterminados em princípio, mas estabilizados pela prática. Querela de etimologia que permite guardar a mesma palavra para praticar dois ofícios bastante diferentes (ver IV).

Esta incerteza relativista sobre o quadro de referência, a natureza e o número de aliados que permitem manter a sua estabilidade na prática não nos torna indiferentes ao problema da verdade. Em vez disso, apenas o quadro relativista permite explicar, como consequência, porque alguns atores se tornam mais verdadeiros, mais reais, mais certos do que os outros, e por que eles constroem um mundo mais inconteste. É verdade aquilo que diz respeito a muitas coisas. Ao estudar o número de aliados e a força das associações, o sociólogo relativista pode explicar a verdade, ao passo que, na sociologia prérrelativista, a verdade é apenas uma correia de distribuição de prêmios oferecidos ao vencedor (veja abaixo). A razão pela qual muitas vezes confunde-se a palavra “relativismo” com a indiferença para com o problema da verdade consiste na confusão entre princípios e resultados. Sob o pretexto de que, em princípio, a sociedade não pode ser determinada – posição comum ao relativismo “erudito” e banal -, esquecemos que, na prática, ela se determina constantemente ao ganhar uma controvérsia por meio da mobilização de atores imprevisíveis – posição própria ao relativismo “erudito” e omitida pelo relativismo banal. Reivindicar, como os etnometodólogos ou os relativistas da Escola de Bath o fazem, que não há nada estável, nada certo, nada verdadeiro, nada real, que tudo é contextual, relativo, local, é tão pueril quanto confundir a relatividade de Einstein com o provérbio “gosto não se discute”. É porque “tudo é relativo” que combinações vencedoras são possíveis e tornam indiscutíveis e irreversíveis certos atores-mundos. Se o princípio relativista é bem compreendido é, ao contrário, a capacidade prática de realizar, de tornar irreversível, de criar a verdade, que se torna o centro das atenções, e não qualquer vã “indexicalidade” que se poderia acrescentar às combinações vencedoras, para lembrar que elas poderiam ter perdido. Uma vez que garfinkélizar se tornou um verbo, ao menos em inglês, digamos que não se pode garfinkelizar uma usina nuclear. E isso não porque, em princípio, a central nuclear escaparia às associações, mas porque, ao contrário, ela escapa das associações exatamente porque ela obteve sua solidez de um grande número de associações que tornaram-se irreversíveis. A sociologia relativista tem por objetivo tornar a desigualdade entre associações manifestas, e não opor a igualdade mítica das associações à dura realidade. A diferença essencial entre os dois quadros de referência reside na concepção do ator. Ao ator situável e integrado em níveis hierárquicos, convém substituir um ator à geometria variável: o ator agrega quantos aliados lhe for possível para se definir – ele é, portanto, multidão; só quando é interrompido por outros que ele aparece como um porta-voz em conflito mais ou menos aberto com os seus aliados – ele é então um ou muitos, dependendo da intensidade da controvérsia e da fidelidade de seus aliados. Enfim, atacado por todos os lados, um ator só se mantém como tal se ele transmite sempre mais longe e com mais precisão as pressões que se exercem sobre ele para negar seu direito à fala – nesse caso, ele é campo de forças que se transmitem. O ator obviamente não tem nada a ver com um indivíduo – ainda que ele possa sê-lo. Esse ator é precisamente tão ativo que ele não pode ser capturado como ser ou como relação. O comportamento desse ser estranho cria um espaço relativista bastante incomum, de modo que se torna importante para nós, agora, distinguir o quadro proposto pela sociologia prérrelativista.