Antonio Candido: do legado em diante, por Rosano Freire

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Rosano Freire (UFRN)

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Desnecessário reforçar aqui, de antemão, a importância da obra de Antonio Candido para o Brasil – suas concepções sobre ciência, política, literatura e sociedade alcançaram grande e merecido destaque. Pela influência que exerce até hoje no campo intelectual brasileiro, ele é, sem dúvidas, um dos pensadores mais investigados e analisados no país. É o inverso do clichê “grande pensador a quem não é dada a necessária importância”. Em uma palavra: Antonio Candido tem o devido reconhecimento e já teve sua obra razoavelmente aquilatada, chegando a ser difícil produzir coisas originais sobre o pensador, a depender da temática que se tenha em vista.

Grande parte dessa fortuna crítica, contudo, e com raras exceções, é excessivamente laudatória. Com a morte de Antônio Candido, é possível que uma nova leva de trabalhos possa surgir. Espera-se que, dessa vez, mais críticos. Com isso não estamos advogando qualquer tipo de comentário que tenha como objetivo precípuo a demarcação de posições. Referimo-nos ao um movimento necessário e salutar de, a partir das próprias contribuições do mestre, dar um passo à frente e iniciar uma caminhada desassistida.

Semelhante oportunidade teve o próprio Antonio Candido com relação ao seu mestre predecessor na tradição da crítica literária de orientação social, Sílvio Romero. Na sua tese de doutoramento, defendida em 1945, e intitulada O método crítico de Sílvio Romero, Candido estudou o modelo analítico de Sílvio Romero e nele não encontrou nenhum tipo de construção literária que atentasse para as peculiaridades do objeto artístico. A partir disso, Candido lançou as bases de seu pensamento, que passa pelo reconhecimento de uma série de mediações existentes entre literatura e sociedade, e, portanto, pelo respeito à dimensão da estética obra.

Houve, portanto, um duplo movimento, de ruptura e continuidade em relação a Sílvio Romero, pois ao mesmo tempo em que se colocou na tradição de orientação social da crítica literária, Candido reformulou o debate e redirecionou ao texto todo esforço analítico e interpretativo do crítico. Candido acertou as contas com Sílvio Romero, e reposicionou a crítica literária de cunho social, com notável salto qualitativo (MELO, 2014, p. 406-407).

O mesmo não se deu na relação de Antonio Candido com Roberto Schwarz. Este último não realizou deslocamento equivalente em relação ao seu predecessor. Na verdade, há imensa reverência em relação a Candido. Isso denota dinâmicas específicas dos ambientes intelectuais em que estavam inseridos Candido e Schwarz. O vigor intelectual com que Candido se lançou na sua crítica a Sílvio Romero pode, em larga medida, ser compreendido por ter sido realizado apenas no plano teórico. Schwarz, pelo contrário, não apenas conheceu Candido como também manteve com ele fortes laços profissionais e intelectuais (MELO, 2014, p. 407).

A presença de Candido entre nós reforçava o peso simbólico de sua obra. Ao mesmo tempo em que nos deixa para entrar de vez na história da intelectualidade brasileira, um refluxo crítico salutar pode surgir e ajudar a ponderar o seu legado de modo mais incisivo nas mais diversas frentes.

Sem a ambição de esgotar as possibilidades que são abertas pela obra de Antonio Candido, localizamos três dimensões que podem ser aprofundadas e esgarçadas para além dos limites propostos pelo pensador. São elas: o perfil do intelectual e a postura do crítico na periferia do pensamento, o modelo analítico para as relações entre literatura e sociedade e a característica específica da sociologia da cultura no Brasil.

Para adentrar o primeiro tópico é importante ter em mente a característica básica da fração mais privilegiada da intelectualidade brasileira e a posição ocupada por Antonio Candido dentro desse campo intelectual. Ao retomar o prefácio escrito por Candido para o livro Raízes do Brasil,  de Sérgio Buarque de Holanda, Maria Arminda do Nascimento Arruda nota que a definição dada por Candido à chamada “geração de 30” está assentada num tipo especial de postura: a de construir um pensamento orientado por teorias do centro, mas sempre debruçado sobre os problemas da nação (ARRUDA, 2004, p. 108).

A “geração de 30” representa um momento de maturidade (ou modernidade) do pensamento no Brasil porque alia refinamento intelectual ao interesse pelos problemas do país – faz-se o uso de uma nova linguagem para investigar o passado e enfrentar a questão das particularidades culturais nacionais. A intelectualidade brasileira, na esteira das considerações de Candido, só se consolidou quando realizou sua face engajada. Os autores dessa geração receberam, por isso, a alcunha de “intérpretes do Brasil” (ARRUDA, 2004, p. 111).

O que se convencionou chamar “pensamento social brasileiro” é, desse modo, a constituição de uma intelectualidade de caráter modernista, que, partindo da temática da formação, se empenha em modernizar a sociedade brasileira. Com a publicação de Formação da Literatura Brasileira, Antonio Candido inseriu-se de vez nesta tradição (a mesma que ele analisa). Neste livro, partindo da premissa de que a literatura brasileira é uma ramificação da europeia, Candido discute o lento processo de constituição de um “sistema literário” brasileiro, que se deu através da gradual “rotinização” de obras e autores nacionais.

No entanto, Antonio Candido foi um pouco mais fundo. Além de se inserir de vez na fração mais renomada da intelectualidade brasileira, através da temática da “formação”, Candido ajudou a definir o tipo postura do “intelectual” ou do “crítico” na periferia do sistema

O problema da formação como questão decisiva de ordem intelectual fundamenta o florescimento de uma cultura enraizada, na medida em que confere organicidade à sociedade brasileira, estabelecendo o lastro para a expressão da intelectualidade nativa (ARRUDA, 2004, p. 109).

Em outas palavras: a partir de Antonio Candido o “empenho” e o “interesse” do intelectual com as questões nacionais, sob a égide da ideia de formação, passaram a se constituir como dimensão normativa. Ou seja, para se tornar de fato um “intelectual” o pensador radicado na periferia do sistema capitalista deve se debruçar pelas questões nacionais: os entraves e especificidades desse processo formativo através da relação com a metrópole.

Tamanha é a força deste postulado que mesmo representantes das correntes sociológicas que se dedicaram a uma revisão crítica do modernismo, como é o caso da sociologia dos intelectuais de Sérgio Miceli, acabam por redundar no tipo de postura “adequada” do crítico na periferia (aceitação da cultura local e reconhecimento da necessidade de amalgamá-la) e retomar as questões propostas pelos intelectuais que elegeram a formação como tema privilegiado (ARRUDA, 2004, p. 114-116).

Esse debate também ajuda a compreender os rumos da sociologia da cultura no Brasil. É importante frisar que nos países do centro do capitalismo, a constituição da cultura como objeto individualizado de pesquisa se deu concomitantemente à autonomização da cultura erudita que, no mesmo passo, se tornou critério de avaliação e legitimação de toda expressão cultural no século XX (ROCHA, 2011, p. 453)

No caso do Brasil, a autonomização da cultura erudita provocou o advento do que se pode chamar de “pensamento social brasileiro”, isto é, um punhado de autores e obras que buscavam pensar o Brasil em suas singularidades. Desse modo, a delimitação desse espaço não resultou, de início, na delimitação da cultura como objeto específico de análise, mas produziu um campo dentro do qual esse próprio “pensamento” podia se processar, abraçando-se ao influxo modernista (ROCHA, 2011, p. 454).

No mesmo processo em que solidificou a temática da formação como central na produção intelectual do país e lançou as bases para a atividade crítica na periferia do capitalismo, Antonio Candido ajudou a cultura a ganhar contornos de objeto sociológico de análise, admitido basicamente como produção intelectual e literária. Em vista disso, o ímpeto do cânone modernista na cultura, que influenciou gerações posteriores de pensadores, se faz perceber no tipo de produção cultural tomada como objeto: a literatura. (ROCHA, 2011, p. 454).

Se a sociologia da cultura é um espaço que muito custou a se formar nas Ciências Sociais, reunindo trabalhos sobre artes, intelectuais e comunicação (idem, p. 453), pode-se dizer que o foco dado à literatura obliterou o desenvolvimento de outras subáreas dentro do próprio campo, como foi o caso da sociologia da cultura de massa, que só tardiamente se formou (p. 454). Atualmente, essa grande atenção dada à literatura ainda contribui para a dificuldade que se tem de enxergar as relações estruturais entre as diversas formas de produção cultural (p. 466).

Na área de investigação das interfaces entre sociedade e literatura – seja a crítica e a história com orientação social, seja a própria sociologia da literatura – a influência da obra de Antonio Candido se percebe com mais força ainda. Inserido num contexto de polarização do debate sobre a análise literária, Candido logrou construir um referencial teórico-metodológico que foi além tanto da crítica puramente estética e auto referenciada quanto da sociologia reducionista, que tomava as obras literárias como um “documento” de época.

Para Candido, a análise estética precede considerações de qualquer outra ordem (sociológicas, históricas, biográficas, etc), o que significa dizer que a obra tem prioridade no processo de investigação crítica. Longe de dispensar o conhecimento de orientação social e histórica, Candido propõe a conciliação dos dois níveis de análise, para que se possa fundir “texto e contexto numa interpretação dialeticamente íntegra” (CANDIDO, 2006, p. 13).

O modo de harmonizar os dois tipos de análise também é definido por Candido, utilizando-se, para tanto, das noções de “interno” e “externo”. Interno refere-se aos elementos formais e estilísticos de uma obra – sua dimensão estética, por assim dizer –;  e o externo se relaciona a todos fatores sociais e históricos que delimitam e localizam uma obra. Como, então, fazer uma leitura de orientação sociológica de uma obra sem descuidar da sua especificidade formal¿ De acordo com o pensador, o elemento externo que importa é aquele que atua na organização interna de uma obra, isto é, que tem influencia sobre suas características formais, e que se transforma, desse modo, em fator interno (CANDIDO, 2006, p. 14).

Pelo seu vezo interdisciplinar – uma crítica que é “impura” por lançar mão de um tipo específico de consideração sobre elementos sociais – fica claro porque esta concepção não pôde se solidificar academicamente dentro das Ciências Sociais: tais características não atendiam à necessidade de especialização e diferenciação do campo científico-sociológico naquele momento. Se dentro da disputa interna das ciências sociais Antonio Candido teve seu projeto preterido, do ponto de vista da influência no campo da cultura no Brasil, por outro lado, ele se tornou predominante.

A migração para o campo acadêmico das Letras (primeiro, com a ida para a Faculdade de Assis, e, posteriormente, no retorno à USP para o recém-criado Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada) deu a Antonio Candido a identidade profissional e o apoio institucional de que precisava – financiamento, discípulos, cursos, etc – para dar maior alcance a sua obra. O projeto teórico-metodológico é expandido e se cristalizou, na década de 1970, em dois dos ensaios mais importantes para a crítica de cultura no Brasil: “Dialética da Malandragem” e “De cortiço a cortiço”.

Nos dois textos supracitados, Antonio Candido demonstra a viabilidade do seu método crítico, orientando-se pela ideia de “estruturação”: o modo pelo qual os elementos sociais são filtrados pela obra e passam a fazer parte de sua constituição interna. Não cabe questionar a maestria de Candido para levar a cabo o seu projeto teórico, ademais já reiterada por seus discípulos (aqui, penso em Roberto Schwarz e em seus artigos “Pressupostos, salvo engano, da Dialética da Malandragem” e “Originalidade da Crítica”).

Uma reflexão inicial, por exemplo, pode sugerir que a influência dessa – se assim podemos chamar – sociologia da obra literária operada por Antonio Candido fez com que a sociologia da literatura em larga medida orbitasse em torno desses postulados, deixando  tímidas outras subáreas para a onde esse campo poderia refluir (sociologia da recepção, da produção, da mediação).

Mas mesmo dentro da sociologia da obra encampada por Antonio Candido cabem inflexões. O critério de subordinação impetrado pelo pensador uspiano (o fator externo importa apenas se atuar na organização interna) deixa uma série de elementos de fora da análise: os condicionantes sociais (os chamados “fatores externos”) que têm “apenas” influência externa sobre a obra são excluídos do horizonte analítico. Por outro lado, esse mesmo critério submete a investigação de como e qual elemento social deve ser selecionado e analisado a um postulado arbitrário: o “ato crítico” – grosso modo, o “faro” do analista para identificar os fatores pertinentes – porque é ele que vai direcionar o trabalho analista.

O primeiro movimento necessário seria, então, fugir do peso normativo desses achados teóricos e procurar novas formas de tratamento para os elementos sociais numa análise literária. Isso não significa retornar a uma falta de discriminação[1], mas procurar novos critérios judicativos para a compreensão e interpretação dos fatores externos (sociais e históricos) que agem sobre os objetos artísticos.

Não considero que o âmbito institucional ao qual Antonio Candido se vinculou exclua-o do contexto intelectual em que estava inserido (JACKSON, 2007, p. 128), de modo que muito do que Candido desenvolveu no campo das Letras pode ser entendido como sociologia. Contudo, a reflexão sobre a “atividade crítica” desenvolvida por Candido pode permitir maior refinamento da própria sociologia da literatura – o lugar dessa área, seu objeto de estudo e técnicas de pesquisa, etc, elementos que também têm implicações acadêmicas.

Do mesmo modo que as disciplinas artísticas, e também literárias, utilizaram a sociologia como ferramenta para seu próprio desenvolvimento durante muito tempo, como um tipo de “modernização a baixo custo” (HEINICH, 2008, p. 147), também é válido que a sociologia da literatura se valha do arcabouço teórico construído sob o lugar institucional das “humanidades” para fazer avançar seus métodos, objetos e resultados científicos.

No que tange à definição do tipo de postura adequada do crítico da na periferia do sistema, ainda vale salientar a tarefa parece ser mais complexa porque mais abrangente: aqui, não há um diálogo apenas com Antonio Candido mas também com o cânone modernista, principal critério de legitimação da atividade intelectual e artística no Brasil.

Esse debate também é importante porque pode refletir o lugar da cultura local na relação com a metrópole. Sabe-se que Antonio Candido concebe a cultura brasileira como uma ramificação da cultura europeia[2] e que esta condição deve ser aceita como fato natural da vida espiritual na periferia[3]. Isso é, em outros termos, uma naturalização da dependência cultural, que foi alimentada durante muito tempo pelo sonho de “modernização” – o anseio de que através da apropriação das formas culturais europeais a própria dependência fosse superada. Com o nova ordem global (neoliberal) que transfigura e perpetua a dominação (inclusive cultural) dos países do terceiro mundo, urge pensar novas formas de diálogo com a cultura eurocêntrica (MOREIRAS, 2001, p. 203-209).

Por fim, no que toca ao fazer científico na área da cultura, a figura de Antonio Candido e o que ele representa para a produção científica no Brasil não aparecem de maneira direta, onde um debate teórico claro pode ser traçado, mas como um ponto gravitacional em torno do qual orbita a produção intelectual local. É importante, desse modo, ter ciência do tipo de limite que ela oferece para a sociologia da cultura brasileira, para que outras áreas possam ser exploradas.

Notas

[1] Referência a Roberto Schwarz: “Convencido do interesse desses relacionamentos [análise literária e análise social], bem como da sua dificuldade, o crítico procura torná-los judiciosos, evitando a falta de discriminação reinante na historiografia positivista e naturalista, continuada no marxismo vulgar, tradições para as quais a peculiaridade da esfera literária pouco existia” (2014, p. 33)

[2] “A nossa literatura é galho secundário da portuguesa, por sua vez arbusto de segunda ordem no jardim das Musas… Estamos fadados, pois, a depender da experiência de outras letras” (CANDIDO, 2013, p. 11).

[3] “[…] é conveniente focalizar […] o problema da dependência cultural. Este é um fato por assim dizer natural, dada a nossa situação de povos colonizados que, ou descendem do colonizador, ou sofreram a imposição de sua civilização” (CANDIDO, 2011, p. 178)

Referências Bibliográficas

ARRUDA, M. A. N. .Pensamento brasileiro e sociologia da cultura: questões de interpretação. Tempo Social, v.16 n.1 São Paulo jun, 2004.

CANDIDO, A. . Literatura e Sociedade. Rio de Janeiro: Ouro Sobre Azul, 2006.

________. A Educação Pela Noite e outros ensaios. Rio de Janeiro: Ouro Sobre Azul, 2011.

________. Formação da Literatura Brasileira – momentos decisivos. Rio de Janeiro: Ouro Sobre Azul, 2013.

JACKSON, L. C. . Tensões e disputa na sociologia paulista (1940-1970). RBCS Vol. 22 nº. 65 outubro/2007.

HEINICH, N. . Sociologia da arte. Bauru, SP: Edusc, 2008.

MELO, A. C. M. . Pressupostos, salvo engano, de uma divergência silenciosa: Antonio Candido, Roberto Schwarz e a modernidade brasileira. Alea, 2014, vol.16, n.2.

MOREIRAS, A. . A exaustão da diferença – A política dos estudos culturais latino-americanos. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2001.

ROCHA, M. E. M. . Em busca de um ponto cego: notas sobre a sociologia da cultura no Brasil e a diluição da mídia como objeto sociológico. Soc. estado. Vol.26 no.3 Brasília Sept./Dec. 2011

SCHWARZ, R. . Sequências Brasileiras. São Paulo: Cia. das Letras, 2014.