Natal. Uma Etnografia da Festa e de Papai Noel , por Martyne Perrot (CNRS, Paris)

papai noel

Merry Old Santa Claus,

Ilustração de Thomas Nast, Harper’s Weekly (01-01-1881)

Martyne Perrot (CNRS, França)

Tradução: André Magnelli

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Introdução.

“O Natal não é mais o que era outrora”

Com os traços que nós dele conhecemos, o Natal é uma festa essencialmente moderna; e isso a despeito da multiplicidade de seus traços arcaizantes  (Claude Lévi-Strauss. “O Papai Noel supliciado”. Les Temps modernes, mars 1952).

Esta primeira ideia recebida [a de que “O Natal não é mais o que era outrora”] é certamente a mais expandida, porque ela se coloca sobre a ilusão de uma tradição estável e intangível. Sabe-se que não é nada disso. A festa de Natal que nós conhecemos hoje é apenas o último avatar de uma longa série de metamorfoses. Ao relatar em 1951 um evento engraçado – o do sacrifício em holocausto do Papai Noel pelas autoridades eclesiásticas -, o antropólogo Claude Lévi-Strauss se surpreende e se felicita desta oportunidade, isso porque: “Não é sempre que o etnólogo encontra assim a ocasião de observar, em sua própria sociedade, o crescimento súbito de um rito e mesmo de um culto [o do Papai Noel]”.

Na mesma época, o folclorista Arnold Van Gennep constata, por sua vez, a modernidade do Papai Noel. Ele fala, a respeito disso, de “folclore nascente”. Quanto à festa familiar, tal como a conhecemos hoje, nós veremos que a época vitoriana fez muito por ela, transformando-a em um dos grandes ritos anuais da burguesia e projetando a criança ao primeiro lugar – o que não era o caso anteriormente. Após a Segunda Guerra mundial, a vocação consumista de Noel se afirma. Ao som da canção de Tino Rossi, Petit Papa Noël, os presentes se multiplicam em número e variedade para satisfazer inteiramente a jovem geração. Assim como entre os americanos, cujo modo de vida é admirado por muitos franceses, pinhos gigantescos são erguidos nos cruzamentos das avenidas e os Papais Noel se instalam nas grandes lojas para escutar os desejos dos pequenos.

No fim do século XX, acusados a partir de então de imperialismo cultural, os Estados Unidos não fascinam mais da mesma forma. São revalorizadas com ardor [na Europa] todas as espécies de costumes locais, inventando-os caso necessário. Os mercados de Natal são um exemplo manifesto disso. Hoje a tendência é para a “patrimonialização” e o Natal se presta facilmente à cultura das raízes e das tradições. A nostalgia está na origem de numerosas iniciativas que visam restaurar usos cuja origem é por vezes improvável. Tradições culinárias, pinheiros, decorações, “país do Papai Noel” – cuja eleição tem lugar em julho todo ano na Dinamarca – são tomados nesta retórica da autenticidade. A mundialização faz temer uma perda de diversidade folclórica. No entanto, se a maior parte das festas calendárias declinou, o Natal parece, ao contrário, se fortalecer à medida que outras culturas o adotam e ele faz prova de uma capacidade de adaptação excepcional, de um poder sincrético extraordinário.

O Natal é, na realidade, uma festa da abundância no inverno de nossas sociedades e de nossas mentalidades [europeias], e esta abundância é também aquela de seus empréstimos e de seus avatares. É lamentável que as ciências humanas deste lado do Mancha e do Atlântico se dediquem pouco a ele. Em compensação, os pesquisadores anglo-saxônicos estão dedicados há muito tempo a este objeto complexo, o que confirma aliás, de modo indireto, que uma grande parte da história social e cultural recente da festa se construiu sobre suas terras.

O Natal é, com efeito, uma cena excepcional para observar a família, a infância, a caridade e o dom e o contra-dom sob uma forma de troca de presentes. Momento de expressão coletiva intensa, a festa põe em evidência e de modo cíclico comportamentos e práticas que revelam um grau de participação excepcional. Parêntese muito regular que propõe um modelo familiar conformista, a maior parte dentre nós hoje se submete ao preço de concessões mais ou menos evidentes. Festa preferida dos franceses desde que as sondagens existem (isto é, desde o fim da última guerra), o Natal não sofre sempre de desafecção, apesar das críticas recorrentes que são suscitadas por sua reapropriação comercial. Estão aí alguns dos numerosos paradoxos que fundam o interesse de nosso estudo.

Origens da Festa

“O Natal é festejado desde sempre no dia 25 de dezembro, dia do nascimento de Jesus”

25 de dezembro, dia de nascimento de todas as divindades orientais (Mircea Eliade. O Sagrado e o Profano, 1965).

Está aí uma ideia bem enraizada, mas a etimologia, pela qual é usual começar, não é decisiva. O mais conveniente é natalis dies, que faz referência ao nascimento do Cristo e poderia também concernir àquele do sol: com efeito, o solstício de inverno [no Norte do globo] marca, nesta data, o retorno do ciclo ascendente. Certos autores especializados em celtas reivindicam a seguinte etimologia: noïo (novo) hel (sol), significando “novo sol”, que faz claramente referência ao renascimento deste. O solstício de inverno do latim sol (sol) e stare (se deter) é uma transição astronômica importante. Os temores e as angústias que ele engendrou desde o neolítico tem encadeado, sem dúvida, a aparição de rituais a fim de dominá-los. De fato, as duas concepções deste acontecimento permanecem sempre ecoando mutuamente: uma, do ciclo e do sazonal, simbolizando o eterno retorno da luz, a outra, do linear e do histórico, marcando o início da era cristã.

É preciso saber que a data do nascimento do Cristo permaneceu por muito tempo indeterminada. No curso dos três primeiros séculos, os cristãos a ignoraram completamente. Esta data que vai se tornar central para a Igreja cristã não preocupava todos os primeiros fieis, declara o teólogo Oscar Cullmann, “pela simples razão de que o nascimento do Cristo não era mencionado. Muito mais do que a encarnação, o que interessava estas primeiras comunidades era sua morte e sua ressurreição” (La Nativité et l’arbre de Noël, les origines historiques, 1993). Orígenes, um dos Pais da Igreja, criticará, aliás, de modo violento, aqueles que ousarão celebrar o nascimento biológico como o faziam os  ímpios Pharaon e Herodes.

Dois evangelistas, São Lucas e São Mateus, descreveram, no entanto, a Natividade, mas não deram qualquer indicação precisa no calendário. A presença dos pastores no Evangelho de São Lucas pode fazer supor que o nascimento teria tido lugar na primavera, mas nenhuma menção suplementar permite afirmá-lo: “Havia nos arredores uns pastores, que vigiavam e guardavam seu rebanho nos campos durante as vigílias da noite.” (Lucas II, 8).

Porque se imagina mal, com efeito, as tropas de carneiros pastando em plena noite de inverno em Belém, a data foi fixada, antes de tudo, na primavera. Assim, no ano 243, o dia de 28 de março foi mencionado em um acerto de cálculo pascal (cálculo que serve para fixar o calendário das festas móveis). Esta data corresponde de fato ao equinócio da primavera.

É apenas no curso do século IV que se começou a celebrar o nascimento do Cristo, mas em duas datas diferentes, no Oriente em 6 de janeiro, dia da Epifania, e no Ocidente no dia 25 de dezembro, dia de Natal. Estas duas datas recobrem, na realidade, aquelas das festas pagãs de início do ano e de mudança de estação.

Desde o século III, com efeito, no solstício de inverno (que corresponde ao dia 6 de janeiro do calendário juliano), os cristãos do Oriente festejam o nascimento do tempo novo e o crescimento da luz. Esta festa já é chamada “epifania” e retoma a data de um ritual solar egípcio muito antigo em homenagem a Osíris. Os gnósticos, discípulos de Basílides no Egito, e os cristãos da Síria, são os primeiros a reter esta data.

Uma confirmação nos é fornecida por um papiro do século IV, descoberto no Egito. Ele contém a mais antiga liturgia conhecida por esta cerimônia do nascimento de Cristo. Ela se desenrola nas noites dos dias 5 e 6 de janeiro. Descobre-se aí o texto da narrativa de Natal segundo São Lucas, do batizado, mas também das Bodas de Caná [presente no Evangelho de São João], ocasião do milagre onde a água é transformada em vinho. Este milagre é conhecido como a primeira “manifestação” (do grego “epiphania”) da divindade. Chegou a nós também uma outra descrição, devida a Éfrem, um pai da Igreja que viveu igualmente no século IV na Síria. O autor faz menção, neste extraordinário documento, a “casas ornadas de coroas”; ele descreve a alegria das crianças e dos adultos. A noite é evocada com insistência: “Eis aí a noite, a noite que dá paz ao universo (…) Quem poderia dormir nesta noite em que vela o universo inteiro?”. Aprende-se que o dia era consagrado à adoração dos magos e ao batismo do Cristo por João Batista nas águas do Jordão.

Mas a reunião dos dois acontecimentos, nascimento e batismo, sob um tema comum, torna-se pouco a pouco difícil de conceber de um ponto de vista teológico e a necessidade de escolher uma data se impõe. A fixação oficial da data do dia 25 de dezembro foi feita, sem dúvidas, em Roma, por volta de 336, no fim do reino de Constantino. Esta escolha parece ter sido altamente tática.

Nesta época, com efeito, existe já um culto muito popular, aquele do sol invictus [Sol Invicto], que o imperador [Lucio Domicio G.] Aureliano tinha declarado religião oficial em todo o Império romano em 274. Apresentando a si mesmo como a encarnação viva do deus sol, Aureliano chega assim a sacralizar o poder político. Um outro culto, aquele do deus persa Mitra, importando da Ásia Menor pelos legionários romanos, joga então um papel maior nas forças armadas e na aristocracia. Ora, Mitra, herói primordial, é também um deus portador de luz (genitor luminis) nascido em 24 de dezembro de uma pedra e para certos de uma caverna. O mitraísmo faz uma séria concorrência às primeiras comunidades cristãs.

Aparentemente, é por um cuidado político que Constantino reúne o culto do sol invictus, o culto de Mitra e o cristianismo, que representa para ele o futuro. Ele se torna assim o primeiro imperador cristão; e, ao reconhecer a dominação de um deus único sobre o mundo, Constantino legitima aquela por ele exercida sobre o mundo romano. Ele institui igualmente um dia desocupado obrigatório – o dies solis -, o dia mesmo em que os cristãos celebram seu Deus. Este dia desocupado se torna o domingo, dominica dies.

Nesta Roma do século IV, as imagens pagãs e cristãs coabitam ainda de modo pacífico. Esta simbiose corresponde a um ideal de tolerância. Em 354, o papa Liberus substitui oficialmente a festa de Saturnália (solstício de inverno) por aquela do nascimento de Cristo, mas as celebrações começam mais tarde, sob o pontificado de Honório [I]. Todavia, os motivos solares estão sempre muito presentes e a Igreja de Roma vai se reapropriar deste simbolismo da luz. É o que ocorre com a Profecia de Malaquias, que designa ‘o Salvador como o sol de justiça” que “brilhará com a salvação de seus raios”, e com a imagem de Zacarias do “verbo Salvador como sol erguendo”. Os símbolos solares e cristológicos não vão cessar de se cruzar. Uma descoberta arqueológica, aquela do túmulo dos Julii sob a basílica de São-Pedro no Vaticano, faz aparecer assim o Cristo sobre um fundo de ouro sob os traços do sol que conduz seu quadriga. Enfim, o nascimento de uma criança de luz que está no coração do simbolismo das festas pagãs do solstício de inverno é reencontrado na profecia de Isaias concernente à Epifania do Messias, onde “o povo que marchava nas trevas viu uma grande luz, sobre os habitantes do sombrio país, uma luz resplandeceu” (Isaías, IX, 1-2). A luz brilha, a alegria irradia, porque “uma criança nos nasceu, um filho nos é dado” (Isaías, IX, 5).

A partir de 379, Roma impôs a festa da natividade a todo o Império. O sacerdote Gregório de Nazianzo a introduziu em Constantinopla e João Crisóstomo, em um sermão que ficou célebre, pronunciado em 20 de dezembro de 386 em Antióquia, exorta os fiéis a festejar cinco dias mais tarde o nascimento do Cristo. Todavia, as comunidades cristãs do Oriente conservarão a data de 6 de janeiro. Do ponto de vista do calendário, é em 525 que o canonista Denis, o Exíguo, decide, de modo completamente arbitrário, que o nascimento de Jesus constitui o ano 1 dos calendários e o fiz no ano 754 da fundação de Roma. As descobertas astronômicas recentes não lhe atribuem senão seis anos de atraso. Data sincrética por excelência. Mircea Eliade a define como o “dia de nascimento de todas as divindades orientais”.

Assim foi forjado o Natal, festa cristã da Encarnação, fixada no dia 24 de dezembro à meia-noite, cujo símbolo de esperança substitui aquele da luz renovada. Cada povo convertido contribui para enriquecer sua “tradição”. A Pérsia lhe dá seus reis magos, o Egito, seus pastores e o mito da deusa mãe (Ísis), Roma, seus herói luminoso e redentor (sol invictus). Com efeito, em sua versão profana e recente, ela deve ao Norte da Europa e aos Saxões a sua neve, seu pinheiro e suas figuras distribuidoras invernais que precederam o Papai Noel.

O Papai Noel

“O Papai Noel é americano”

As crianças da França deverão tão logo considerar que o Papai Noel é um sujeito americano! (Le Figaro du 21 décembre 1946)

As origens americanas do Papai Noel são hoje admitidas e largamente comentadas pela imprensa no momento das festas de fim de ano, como se se tratasse de uma descoberta recente. Na sua versão atual, este personagem deve muito à América e, mais ainda, à história de seu povoamento. Falar das origens americanas de Papai Noel é, com efeito, como escreveu já Arnold Van Gennep nos anos 1950,

evitar  a dificuldade do problema das origens desta personificação. Seriam origens holando-franco-anglo-germano-ítalo-escandinavo-polono-russo-americanas, que foram fortemente abraçadas hoje na Nova Iorque de nossos dias, mas que guardaram suas características essenciais na zona rural e, até mesmo, em algumas cidades? […] Qual é aquela dentre estas nações ou nacionalidades que importou, e quando, o nosso personagem?

Van Gennep argumenta a respeito dos alemães. Porque a parte preponderante que eles têm rapidamente adquirido no comércio e na vida social poderia explicar que este “Father Christmas americanizado seja o Weihnachtsmann (o Bonhomme Noël) ligeiramente transformado que, desde a Reforma no século XVI, teria deposto São Nicolau”. Mas esta hipótese não era, para este folclorista minucioso, senão uma “pedra de espera” [pierre d’attente] que seu desaparecimento, em 1957, não lhe permite erguer. Contudo, a questão da ascendência estava posta. Para Van Gennep, os “fatos franceses eram muito pouco numerosos para ver no bispo de Myra [São Nicolau de Bari] o protótipo de Papai Noel. Similitudes morfológicas e funcionais não provam necessariamente os empréstimos” – a conclusão era sem possibilidade de recurso.

Este autor ignorava, sem dúvida, o papel essencial jogado por uma certa elite nova-iorquina na construção de Santa Claus, o São Nicolau americano. É por meio de uma lenda que tudo começa; e isso diz respeito à fundação de Nova Iorque. No século XVII, os marinheiros holandeses navegavam rumo ao Novo Mundo. A figura de proa de seu navio não será outro senão São Nicolau (Sinter Klaas em holandês), encarregado de protegê-los das tempestades: é uma de suas atribuições. Infelizmente, os marinheiros não evitaram o naufrágio, que quebrou seu barco na borda das costas norte-americanas. Durante a noite que segue, Sinter Klaas aparece em sonho para um dois marinheiros Oloffe Van Kortlandt, e manifesta seu desejo de fundar uma cidade, sobre a ilha de Mana-hatta (Manhattan). Em troca, ele promete fazer uma visita todos os anos a seus habitantes, a bordo de sua carruagem celeste, e descer as chaminés da nova cidade para levar presentes às crianças.

No entanto, nenhum traço concreto da “importação” de São Nicolau foi verdadeiramente encontrado. Esta foi exumada como “velha tradição holandesa” para, aparentemente, romper com o Natal colonizador da Igreja da Inglaterra. Assim, recolocado ao gosto do dia por razões essencialmente políticas, ele tem um boom tão excepcional quanto inesperado e se expande “como uma epidemia em toda a América”, escreve Charles Jones.

Um escritor célebre, Washington Irving, tira São Nicolau do esquecimento ao retomar a lenda evocada mais acima em sua História de Nova Iorque contada por Diedrich Knickerbocker, que apareceu em 1809. Este romance conhecerá um imenso sucesso e contribuirá fortemente para “renovar” a festa de Natal. Washington Irving pertencia a um clube de amadores de história antiga que se designavam pelo sobrenome knickerbockers. Achava-se aí, entre outros eruditos, um certo Clement Clarke Moore, pastor episcopal e professor de hebreu, que será, por seu lado, um dos principais responsáveis pela metamorfose final de São Nicolau. Para seus filhos, este pastor austero, rico e conservador escreve The Night before Christmas (A Noite de Natal), publicada em 1823 no Troy Sentinel, jornal local de uma cidade do Estado de Nova Iorque. Se, para Irving, São Nicolau parecia com um pioneiro holandês, Moore, ao descrevê-lo como um “right jolly old elf” (um velho duende bem jovial), reintegra-o na família dos ogros e outros duendes das lendas germânicas. Ele o nomeia, com intimidade, de São Nico [Saint Nick], veste-o inteiramente de pele, e faz desaparecer o Bicho Papão! São Nico se desloca doravante em um céu estrelado a bordo de seu trenó puxado por renas e chega à Terra na véspera do dia 25 de dezembro e não mais no dia 6 de dezembro. Sua popularidade é imediata, e este conto se torna um clássico quando o New York Book of Poetry o acolhe em suas páginas em 1837. Hoje ainda, não é raro que as crianças americanas o recitem no dia de Natal. A partir desta época, os melhores desenhistas norte-americanos se empenharão para lhe dar uma nova fisionomia.

Mas aquele que vai verdadeiramente fazer conhecer ao público Santa Claus, trinta anos mais tarde, se chama Thomas Nast. Com este artista, ele se tornou um pequeno gnomo coberto de pele, barrigudo e brincalhão. Bem certamente, São Nico, como um elfo em seu semblante de camelot, não está ainda com a imagem daquele que se tornará a marca Coca-Cola em 1930; em compensação, ele é aquele que pode seduzir as crianças de todos os meios, dos mais modestos aos mais abastados. Sua popularidade não cessa, aliás, de crescer nas famílias do Norte [dos EUA], beneficiando-se Santa Claus da ideologia da realização social bem sucedida, em pleno boom naquele tempo. As convenções estéticas serão fixadas no fim do século XIX: chapéu vermelho, casaca, botas pretas e cinturão de mesma cor serão doravante atributos vestimentários padronizados.

Na Liberação, Santa Claus atravessa o Atlântico nas malas do plano Marshall para vir alegrar as crianças francesas, aquelas do baby boom. São-lhe abertas as portas das grandes lojas parisienses sem hesitação, as quais, por seu lado, tinham bem compreendido que este Papai Noel versão americana podia ser “um produto de apelo [publicitário]” sem precedentes. Sobre o ar de Petit Papa Noël entonada por Tino Rossi em 1946, ele relega, em definitivo, para os colecionadores de cartas postais o velho Bonhomme Noël, que tinha seu semblante de vendedor ambulante e de pobre miserável e que subia as chaminés dos campos franceses do início do século XX. O Papai Noel toma de empréstimo ainda hoje muito mais de Santa Claus do que daquele que a [revista] Intermédiaire des Chercheurs et des Curieux fazia aparecer na primeira metade de 1897.

Conclusão

“É preciso realizar de modo bem sucedido o Natal”

Sabe-se, não há Natal bem sucedido sem pequenas perturbações e grandes cóleras, sem esgotamento e sem enervamento, sem negociações e sem tratativas, que, uma vez superadas, geram inesquecíveis lembranças, mas este ano, não me deixarei tomar, prometo, juro! (Magazine Avantages, dezembro, 1997).

Se cremos nas revistas que clamam em uníssono esta “palavra de ordem” desde o mês de novembro, parece que a festa não sofre fracasso. Quando a data fatídica se aproxima, a tensão ascende na cidade. As butiques e as grandes revistas são os lugares de uma intensa atividade e os domingos abertos, assim como os plantões noturnos, têm lugar desde o início do mês de dezembro. As barracas se afogam, literalmente, sob as cestas de ostras, as aves engordadas para a ocasião, o jogo ocasional, os doces finos. O luxo propaga nos mostruários e os manequins de Papai Noel partem para o assalto nas paredes dos imóveis, abrangendo às vezes alguma varanda. Uma verdadeira febre se estabelece na população urbana e constatamos a que ponto a história da festa moderna está sempre estreitamente ligada àquela da cidade e de seus comércios.

A realização bem sucedida do Natal se tornou hoje uma aventura coletiva contemporânea e as mulheres são as primeiras a estar por ela interessadas. […] Comprar os presentes, dissimulá-los, embalá-los no maior segredo, acalmar as crianças superexcitadas, tranquilizar os avós ansiosos, organizar o cardápio da ceia, fazer um plano de mesa que não ofenda ninguém, decorar a casa e a árvore de Natal, escolher uma roupa de circunstância, ao mesmo tempo que permanecendo amável e disponível – eis aí, segundo a imprensa feminina, qual é o desafio que as mães devem encarar a cada fim do ano. Em relação à origem da festa religiosa e contemplativa, o Natal se transformou em uma performance cujo objetivo último e confessado é o de “agradar a todos” sem exceção e, prioritariamente, às crianças. E, no entanto, boa parte diz temer este momento e deprimir face a tanta felicidade na ordem do dia.

Aí reside uma outra ideia recebida: o Natal acentua, até mesmo desencadeia depressões. Desde o meio de dezembro, as demandas de novas consultas aumentam exponencialmente nos serviços psiquiátricos. Um terço dos franceses (QUO/BVA, 1997) teria declarado ter o “blues” no momento das festas de fim de ano. A alegria exibida e a pressão social são também percebidas por certos como uma verdadeira provocação. A solidão é mais sentida neste período de forte convivialidade e, particularmente, nas pessoas mais idosas; mas, pelas mesmas razões, a atenção ao outro é também mais desenvolvida. Vê-se que a “caridade atinge seu ápice” e as pessoas não hesitam em convidar um(a) solitário(a) a participar de sua ceia. Se a depressão ameaça, em compensação traz-se pouco atentado à própria vida. O momento mais rigoroso do inverno [no Norte do Globo] é o período em que se registra a mais fraca taxa destes atos desesperados, deixando isso à primavera.

As festas de fim de ano são igualmente, através da exibição às vezes arrogante de tantas mercadorias, uma tentação permanente; e sabe-se que o número de furtos e de atos de pequena delinquência aumenta notadamente no intervalo das duas festas.

Todavia, o Natal permanece a festa a mais reguladora que existe: uma trégua relativa se instaura nas famílias e mesmo entre os indivíduos que se acotovelam até a última hora nas lojas. Algumas manifestações intempestivas perturbam, por vezes, este consenso aparente, voltadas antes de tudo contra os símbolos de luxo. Nos anos sessenta, Fauchon havia sofrido o assalto dos “mãos” (militantes maoístas) que, em seguida, distribuíram seu saque aos desfavorecidos. No dia 20 de dezembro de 1987, trezentos desempregados, respondendo ao apelo das Juventudes Comunistas, invadiram novamente estas duas butiques gritando “Les fauchés chez Fauchon”, provocando um fechamento de algumas horas e um déficit de 400.000 francos, calculado por duas horas relativas à receita habitual.

A injunção de “realizar [o Natal] de forma bem sucedida” está, com efeito, ligada àquela da despesa excessiva, a fim de mostrar aos seus que eles são amados e considerados. É, de alguma forma, o “preço dos laços” que o Natal consagra uma vez por ano. O sucesso da festa é avaliado também segundo o critério do passado para o qual a nostalgia tem os olhos do coração e aqueles da infância. “O Natal não é mais o que ele era” é um leitmotiv que a cada ano é imperturbavelmente reconduzido. No fim do século XIX, um jornalista de L’illustration já se desesperava pelo fato de que os “franceses não sabem mais festejar o Natal, ao contrário dos alemães”, detentores dos verdadeiros costumes.

“Realizar com sucesso o Natal” parece ser, portanto, ao preço de numerosos paradoxos, uma das obrigações mais marcantes deste ritual familiar, um verdadeiro sacrifício para que a passagem do antigo ao novo ano se efetue sem excessivas sobrecargas. Sem dúvida, está aí o último avatar conhecido da festa.

Notas

* Martyne Perrot é socióloga no CNRS, membro do CETSAH (Centre d’Études transdisciplinaires en sociologie, anthropologie, histoire). Ela conduziu pesquisas a respeito da paisagem rural, o decoro doméstico, as residências secundárias e a escrita das ciências sociais. Há alguns anos, ela estuda Papai Noel enquanto “reinterpretação atual de uma tradição e de um rito antigo”. Publicou a respeito: Ethnologie de Noël, une fête paradoxale, Paris, Grasset, 2000. Sous les images, Noël, Le Seuil, 2002. Idées reçues Noël, Le Cavalier Bleu, 2002. Faire ses courses, Stock, 2009. Faut-il croire au Père Noël ?, Le Cavalier Bleu, 2010. Le cadeau de Noël : Histoire d’une invention, Autrement, 2013.

[1] O presente texto é um excerto do livro: PERROT, Martyne. Idées reçues Noël, Le Cavalier Bleu, 2002.