Debate – As três principais (e dezenas de pequenas) questões endereçadas aos defensores dos afetos, por Helena Flam

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Três principais e dezenas de pequenas questões endereçadas aos defensores dos afetos

Helena Flam (Universidade de Leipzig, Alemanha)

Tradução Alberto Cordeiro Luis de Farias

Este texto tem como ponto de partida os discursos sobre o afeto propostos pelos seus defensores atuais, tal como vim a conhecê-los nos últimos anos quando li uma série de artigos e propostas de pesquisa que avançam no discurso do afeto. Esses partiram de pressupostos específicos baseados nos trabalhos de Latour e outros pensadores franceses que achei pouco convincentes. Aqui estão os principais motivos – tanto sobre teorizar quanto sobre fazer pesquisas empíricas:

(I) Se o afeto – como “isso” – é inconsciente ou subconsciente, como sabemos se ele existe?

Talvez seja evidente que a existência do “afeto” é apenas uma hipótese de trabalho, uma suposição epistemológica, e que tudo o que podemos estudar são seus sintomas ou indicadores.

Talvez seja impossível fazer pesquisas empíricas sobre “afeto” como “it” e devemos tornar isso explícito – admitir que é uma suposição sobre o mundo, uma espécie de grande hipótese de trabalho e, portanto, abrir caminho para formas mais proveitosas em matéria de investigação sobre os afetos.

Posicionar “afeto” como “isso” analogamente a, por exemplo, Freud postulando o “id”, “ego” e “superego”, seria útil na medida em que poderíamos ficar livres para propor métodos para estudar os “afetos” como Freud o fez para estudar a psique. Ele propôs a psicanálise. O que podemos propor?

Qual(is) método(s) podemos propor para alcançar e explorar os “afetos” que são inconscientes ou subconscientes?

Jack Katz em How Emotions Work fiou-se muito nas observações e no registro visual de interações individuais. Seria esse o único método adequado para registrar “afetos” inconscientes e subconscientes? Como, então, analisar esse material? Como isso diferiria das categorias de pesquisa que Jack Katz desenvolveu para as emoções?

Barbara Czarniawska, partindo de Silver & Silver, também depende muito das observações, mas depois questiona-se sobre as crenças e as experiências das pessoas, sobre emoções relacionais específicas, suas origens e efeitos organizacionais (ver Methods of Exploring Emotions, 2015). Será que ela vai além de simples observações aceitáveis para estudos sobre “afetos”? Se sim, por quê? Czarniawska analisou crenças generalizadas sobre emoções relacionais (vergonha!) e examinou as narrativas de indivíduos sobre suas próprias experiências (testemunhadas, experimentadas) de tais emoções. Isso seria material empírico admissível/válido pressupondo que “afetos” são inconscientes ou subconscientes?

(O ponto de partida de Freud eram “sintomas” específicos. Quais são os “sintomas” que nos interessam? Estamos, como Freud, interessados em doenças específicas ou em desvios da norma? Em caso afirmativo, quais e por que? Ou queremos distanciar-nos de qualquer associação entre “afeto” e “doença”, “desvio”, etc.?)

Uma possibilidade metodológica é procurar “sintomas” de “afetos” teoricamente postulados. Quais são as outras possibilidades?

Se buscarmos “sintomas”: quais “sintomas” estamos ou deveríamos procurar? Como queremos explorá-los de forma sistemática? Para que finalidades?

Como o “afeto” difere da “emoção” e da pesquisa sobre as emoções que sendo feita desde a década de 1970? Alguns dos pressupostos básicos (os seres humanos não são apenas razão e lógica, mas também emoção/afeto) são os mesmos. Algumas referências históricas também são as mesmas (veja o clássico de Jack Barbalet sobre as emoções).

Então, a questão que os proponentes dos “afetos” devem responder é: o que não foi satisfatório sobre a pesquisa das emoções – estudos históricos, teóricos e empíricos – para que haja necessidade de abordar “afetos”?

Por que e de que forma postular “afetos” ajuda a) a deixar a pesquisa sobre as “emoções” para trás como insatisfatórias ou b) preencher lacunas e melhorar o corpo de pesquisas sobre as emoções?

Alguns pesquisadores/volumes recolhidos misturam livremente os conceitos de emoção e afeto, incorporando nos “afetos” exemplos de discursos e idéias da pesquisa sobre emoções. É essa uma boa ou má ciência e por quê?

(ii) A segunda afirmação no discurso sobre “afetos” é que as pessoas são afetivamente vinculadas de modo distinto. O afeto é sua propriedade ou, melhor, eles têm uma configuração afetiva específica. Mais uma vez, a questão é como provar ou fazer pesquisas sobre isso.

Poderíamos confiar em métodos “psicanalíticos”, como foram desenvolvidos para fins sociológicos por Yiannis Gabriel e seus associados (ver Gabriel et.al. e Ishan Jalan em Methods of Exploring Emotions, Routledge, 2015). Eles entrevistam pessoas com metáforas ou anedotas e pedem suas interpretações pessoais. Mas o objetivo de Yiannis Gabriel era suscitar emoções, não afetar. O que precisa ser feito para esclarecer a diferença entre “afeto” e “emoção”, e como os métodos de pesquisa devem ser alterados em conformidade?

(iii) Se o afeto – o mais importante – é relacional, conectando os indivíduos uns com os outros, como ele difere das emoções? (Veja aqui Georg Simmel como um clássico, também em H. Flam The Emotional Man, International Sociology, 1990). O que queremos descobrir e como?

Os proponentes do discurso do “afeto” postulam “afetos” como “afetando” e, em tal capacidade, como algo sentido e com conseqüências. “Afetar” em tais casos é sentido tanto pela pessoa afetante (sentido o afeto, afetando outras) quanto pela pessoa afetada (sendo afetado por) do “afeto”.

“Afetar” e “ser afetado”, penso, são sentimentos mais ou menos conscientes ou, pelo menos, capazes de se tornarem conscientes. Aqui, encontraríamos uma base bastante sólida para a exploração do afeto.

Ainda uma outra questão: é possível que a pessoa ou grupo afetada(o) não esteja ciente e também não sinta o que o outro lado no fim da relação “afetando-afetar” está realmente pensando ou sentindo? Há muitas pesquisas sobre privilégio/discriminação, por exemplo, que mostram que aquele que afeta – o “afetando”- muitas vezes não está ciente dos efeitos (cumulativos) de suas ações e sentimentos. Também há pesquisas sobre exploração/opressão que identificam que os explorados/oprimidos muitas vezes não estão cientes da exploração/opressão que o observador atribui à relação. Podemos ver os benefícios desta pesquisa aplicada à teorização sobre o “afetando” e o “afetado”?

Tanto quanto o que diz respeito ao “afeto”, encontramos em “afetar como um meio de conexão” mais de um programa de pesquisa distinguível. Os promotores do discurso do afeto falam sobre o afeto “circulante” entre as pessoas e seus efeitos, como, por exemplo, o “contágio” (lembra a Le Bon, Durkheim, pesquisas sobre as pessoas facilmente abaladas, em pânico ou assassinas, multidões e massas , etc. – com todos os seus perigos e associações negativas, mas este é um nicho de pesquisa a ser extraído!). Se esses conceitos devem ser levados a sério, em vez de apenas algumas palavras de efeito lançadas, pesquisas sistemáticas são necessária sobre “circulação”, “contágio”, etc., a partir da nova perspectiva do “afeto”.

Pessoalmente, estou mais interessada em pesquisas que tentam demonstrar a conexão entre a distribuição do poder na sociedade, os discursos, a cultura, o afeto ou a distribuição emocional entre os grupos, e as consequentes atribuições e interações de traços do grupo. Nesta área, tivemos algumas pesquisas muito boas, tanto teóricas como empíricas, sobre elites, gênero, migrantes/minorias, apenas sob o título de emoções (veja, por exemplo, os textos pioneiros de Arlie Hochschild, Theodore Kemper ou Randal Collins, que apareceu no final da década de 80 e no início dos anos 80, e um novo clássico, a Cultural Politics of Emotion de Sara Ahmed, de 2004, ou os recentes trabalhos/reflexões de Beverly Skeggs, que resumem a sua pesquisa). Então, eu me surpreendo com o que eu vejo como a tentativa de “sequestro” pelos proponentes do discurso do afeto.

Especialmente nesta área de pesquisa, é hora de descobrir com o que os defensores do discurso do afeto podem contribuir e de que maneiras o conceito de afeto ajuda a superar dificuldades ou deficiências de pesquisas anteriores.

Para terminar abruptamente: responder às perguntas que eu plantei no texto nos levaria, além de apresentar ou afirmar o discurso do“afeto”, a ver o que ele pode e não pode fazer – também em termos de pesquisa empírica real.