Relato etnográfico – O dia em que conheci o Padre Severino, por Luana Martins

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[30 de agosto de 2016]

 Luana Martins

            Hoje entrei pela primeira vez no Centro de Socioeducação Dom Bosco, mais conhecido por seu antigo nome, o Padre Severino. Estava aguardando a autorização para o início da pesquisa de campo e sabendo que ainda teria de esperar por pelo menos mais um mês, solicitei uma permissão para realizar uma visita. Já tinha visitado outra unidade do Departamento Geral de Assistência Socioeducativa – DEGASE –, a Escola João Luiz Alves (EJLA), na ocasião em que entreguei a documentação necessária para dar entrada no pedido de autorização de pesquisa, mas não conhecia ainda o Padre Severino, onde faria meu campo.

            A visita foi marcada para as 14h.

            Após uma pesquisa do trajeto que deveria fazer pela internet, peguei um ônibus até o centro da cidade e de lá outro até a Ilha do Governador, o que durou cerca de 1h30. Estava ansiosa porque finalmente conheceria o famoso Padre Severino. Em um dos primeiros pontos da Ilha, desci do ônibus, atravessei uma passarela e comecei a caminhar na direção que eu acreditava ser a da Escola de Gestão Socioeducativa Paulo Freire – ESGSE, onde eu tinha de passar para pegar a carta de autorização de visita a ser apresentada no Padre. A rua pela qual segui contornava um longo muro de uma área militar. Não havia muito movimento porque não havia comércio, somente alguns poucos carros e pedestres.

            Enquanto caminhava por aquela rua, encontrei uma mulher a quem pedi informações, porque não tinha certeza de estar indo para o lugar correto. Ela me respondeu dizendo que também estava indo a uma das unidades do DEGASE, a EJLA, onde se encontrava também a ESGSE. Estávamos, então, indo ao mesmo lugar. Sorri pela coincidência e fomos seguindo juntas até o grande portão que se encontrava à frente. Suspeitei que ela fosse mãe de um dos adolescentes internos. Naquele momento, vi uma oportunidade de dialogar com alguém que conhecia melhor o que eu buscava, e que não dependia de uma autorização da Justiça para conversar. O percurso do ponto de ônibus até a entrada da unidade era de aproximadamente 10 minutos, e durante toda essa caminhada seguimos conversando.

            Ela me contou que estava indo buscar seu filho de 16 anos, já na “terceira cadeia”. Ele teria uma audiência às 13h na própria unidade, ocasião em que ela esperava que a juíza o liberasse e por isso estava ali. Por outro lado, e me revelando um receio, ela me disse que seria melhor ele estar lá dentro do que fora, porque fora ele já estaria morto. “Prefiro que ele fique lá, é mais seguro, fora ele ia morrer”.

            Após esse diálogo, me apresentei como pesquisadora e expliquei que gostaria de conversar com os adolescentes apreendidos para tentar entender a vida deles melhor. Ela, em resposta, acrescentou: “é muito difícil entender tudo. O que eles falam nem sempre é o que acontece.”

 

            Ela, então, começou a me contar espontaneamente um pouco sobre as confusões ocorridas dentro da EJLA. Há aproximadamente um mês, tinha havido um incêndio, que de acordo com ela, parecia ter sido provocado pelos internos e não descartava a hipótese de que seu “anjinho”, com as aspas que ela me sinalizou com os dedos, pudesse ter participado.

            Ela acrescentou que seu filho saíra de sua última internação com duas costelas quebradas por um agente, e de acordo com o que ela narrou, “alguma coisa ele deve ter feito para merecer isso”. Sem aprovar a conduta dos agentes, ela não acreditava que as ações de violência praticadas por eles eram sem razão, porque se eles o fazem, é porque há motivo para isso.

            Nós caminhávamos juntas e os grandes muros brancos marcavam praticamente todo o trajeto que percorríamos e por isso foi um pouco difícil encontrar a entrada da unidade. A entrada da ESGSE era anterior à da EJLA, mas ao conversar distraída com a mãe, acabei passando direto e quando vi já estava na entrada onde ela ficaria. Não sabia se eu poderia entrar por outra porta, e resolvi aguardar para me orientar com o agente que estava na portaria com uma prancheta na mão e com um papel que indicava os horários das audiências do dia.

            O filho dela estava na lista.

            Ela se identificou na porta e o agente pediu que aguardasse, fechando a porta em seguida. Era possível reconhecer outros pais e mães ali presentes, sentados em cadeiras improvisadas aguardando a autorização para entrar. Eram uns cinco ou seis ali naquele momento. Quando o agente voltou a abrir a porta, eu me identifiquei, e ele perguntou: “ah, você é pesquisadora? Pode entrar”. Eu disse que estava procurando a Escola de Gestão, então, ele me apontou outra entrada. Me despedi daquela mulher, que com gestos e expressões faciais, me deu a entender que o tratamento dado ao pesquisador era diferente daquele oferecido aos familiares dos adolescentes. Caminhei em retorno à entrada que eu havia passado direto por estar distraída com a conversa.       

            Olhei para o muro de novo. Para mim, ele não era um constrangedor de liberdade, mas representava as dificuldades que eu estava tendo para conseguir a autorização, que parecia ser uma coisa muito distante. Eu tinha chegado bem antes do horário agendado. Pensei no muro que eu não conseguia atravessar, e pensei que do lado de cá, fora do muro, estava aquela mãe, aguardando para encontrar seu filho, um daqueles adolescentes que pareciam pertencer a outro mundo, inacessível para mim. Antes de chegar ao portão que me levaria à Escola de Gestão, voltei. Queria conversar um pouco mais com ela, aquela mulher que era mãe de “um deles”.

            Quando voltei, ela acendia um cigarro. As mãos trêmulas. Ela me cumprimentou com a cabeça. Estava numa pequena vendinha ao lado da entrada onde havíamos nos despedido anteriormente. Comprava uma água, disse que queria se acalmar. Talvez só naquele momento eu tenha percebido a ansiedade naquela mulher que eu tinha acabado de conhecer. A mesma mulher que dizia firmemente que preferia que seu filho permanecesse ali, agora estava tremendo. Perguntei a ela se não poderíamos conversar um pouco mais. Ela consentiu.

            Em seguida, me explicou que sabia de tudo que o filho fazia, porque saía nas ruas atrás dele. Ia buscar o filho na “boca de fumo” e não gostava que nenhum dos outros meninos da “boca” a chamassem de “tia”. Um dia, chegou a acorrentar o filho em casa, porque sabia que ele estava jurado de morte, e que se saísse, ele iria acabar morrendo. Disse que não falava isso para as pessoas: “é capaz que eu seja até presa”. As pessoas não entenderiam minha situação. Ninguém sabe o que eu passo!”

            A última prisão de seu filho tinha sido por tráfico, como as outras anteriores, além de uma “passagem” por porte de arma. Quando foi preso, seu filho estava devendo ao tráfico, o que fez com que ela fosse atrás da pessoa a quem ele devia para pagar a dívida – contraída em virtude de uma arma perdida. O valor, segundo ela, era de R$ 1.200,00 e a pessoa a quem seu filho devia não queria receber o dinheiro da mãe, alegando que não era correto. Ela se manteve firme em dizer que isso não tinha sentido e que se não fosse assim seu filho teria de roubar de novo para pagar pela arma, acabando por convencer que o valor fosse aceito.

            Ela disse que sabia o que eles faziam se a dívida não fosse quitada. “Nunca fui mulher de bandido, mas já tive dois irmãos que eram, e eu sei a lei deles”. Fiquei aproximadamente 10 minutos ouvindo aquela mãe, enquanto ela acabava seu cigarro. Depois, preferindo deixar que ela ficasse um pouco sozinha antes de encontrar o filho, me despedi e retornei em direção à Escola de Gestão.

            Voltei, então, ao portão que já tinha entrado para entregar meus documentos, no meio daquele imenso muro branco. Era a segunda vez que passava por aquele portão, que dava acesso à entrada de fundos da EJLA. Cheguei no horário de almoço dos funcionários e tive de ficar aguardando num banco em frente ao setor.

            Em alguns minutos, vi que alguns adolescentes chegavam da EJLA para esse corredor em que estava sentada aguardando. Eram aproximadamente 25 adolescentes que estavam com as blusas por dentro das bermudas. Chegaram enfileirados. Do outro lado, vinham os familiares. A mãe que eu deixei no lado de fora também estava ali. Eu não sabia que a encontraria de novo. Sorrimos uma para a outra. Ela encontrou seu filho e os dois se sentaram à minha frente. Conversavam baixinho, assim como os demais adolescentes que encontraram seus pais. Um deles, inclusive, sentou juntamente com seus pais no banco em que eu estava, quando me levantei para dar-lhes mais privacidade. Alguns riam com os pais, outros choravam.

            Entendi que aqueles eram os adolescentes que aguardavam as audiências, porque não era um dia de visita. Passaram por mim alguns advogados e defensores com suas roupas sociais e processos em mãos. Os agentes socioeducativos ficavam por perto, mas davam liberdade e privacidade às famílias. Os personagens daquela cena, pouco a pouco, se tornavam claros para mim.

            Em uma sala ao lado, outros adolescentes aguardavam. Eram os internos do ESE, o Educandário Santo Expedito, outra unidade de internação, que fica em Bangu. Eles eram um pouco mais velhos, e de acordo com alguns defensores com os quais eu havia conversado meses atrás, os que tinham cometido “crimes mais graves”, de maior porte físico, ou que já eram reincidentes diversas vezes – os “mais perigosos”. A mãe de um dos adolescentes passou por mim e comentava com a filha sobre o tamanho dos adolescentes do ESE “eles são todos grandões, né?”. Para ela, eles eram muito diferentes dos “meninos” como o seu filho, internos da EJLA, que recebia os internos mais novos, e de menor porte físico.

            Era possível ver algumas meninas novas com filhos aguardando para encontrar os adolescentes. Fiquei ali por aproximadamente 30 minutos, tentando compreender os papéis que todos desempenhavam ali. Me chamou a atenção o fato de que o encontro acontecesse com relativa liberdade – ao menos aos meus olhos.

            Quando os funcionários chegaram do horário de almoço, peguei a minha autorização de visita e me encaminhei ao Padre Severino, há aproximadamente 5 minutos a pé dali.

            Finalmente, entrei pela primeira vez no Padre, após um longo período de expectativa. Assim como na EJLA, os muros que cercavam a unidade eram brancos e altos. Aguardei em frente ao portão cinza e um agente o abriu. Caminhei em direção à recepção, me apresentei e fiquei aguardando um dos diretores da unidade, que faria uma espécie de visita guiada comigo. Fiquei conversando com um agente que trabalhava na portaria. Ele me falava que tinha sido professor há anos atrás do Estado, mas que tinha feito o concurso para ser agente pelo salário que era maior do que o de professor. Nesse momento, um dos diretores chegou e me chamou. Passei por um detector de metais que não funcionava e entrei com minha bolsa e tudo mais que havia ali, sem passar por qualquer revista de segurança.

            Demos poucos passos à esquerda e estávamos no corredor em que os servidores da administração trabalham. Ali, em pé, ele se apresentou como um dos diretores da unidade e me explicou que, além dele, havia outros diretores: um geral e mais dois que coordenavam e dirigiam as atividades da unidade. Ele se desculpou pela demora em me receber, explicou que a demanda de trabalho era muito grande, e que eles nunca paravam enquanto estavam ali. Ficamos naquele corredor aproximadamente 20 minutos. Ele me explicava questões básicas, como a quantidade de adolescentes apreendidos, os setores, a quantidade de trabalho, as equipes, o processo pelo qual os adolescentes passam até chegar ali, dentre outras coisas. Durante este tempo, ele me apresentou a outros colegas de trabalho que passavam continuamente por nós. Pedagogos, psicólogos, dentistas, diretores, técnicos que cuidam da infraestrutura do espaço, e funcionários de limpeza.

            O Padre, naquele momento, era a única unidade de internação provisória de adolescentes do sexo masculino na capital do Rio de Janeiro. Portanto, todos que são encaminhados pela Justiça para aguardar o resultado do processo são enviados a esta unidade. Antes, existiam mais unidades que recebiam estes adolescentes na capital. Inclusive, na ocasião em que visitei a EJLA, no dia que entreguei meus documentos, ela possuía um prédio anexo dentro da unidade que acolhia os adolescentes que cumpriam internação provisória. Havia poucos dias que a unificação havia sido determinada pelo sistema.

            Aliás, me chamou a atenção a referência constante ao sistema, que após ter sido mencionado algumas vezes pelo diretor, lhe perguntei “quem seria o sistema?”. Ele me explicou que era o próprio DEGASE, mas não pude compreender muito bem quem seriam os responsáveis por ele. De todo modo, achei curiosa a maneira pela qual ele acionava, em muitos momentos, as restrições e imposições do sistema, que eles tinham de acatar.

            Ele me explicou que a rotatividade era grande e que os adolescentes ficavam no máximo 45 dias internados, por previsão legal, mas que em média permaneciam menos tempo do que isso na unidade. Disse que realizava muito esforço para que os adolescentes não passassem desse prazo e que a todo momento era importante que eles estivessem atentos, porque às vezes alguns adolescentes eram esquecidos ali pela Justiça e os seus processos ficavam parados. Naquele dia, eram 330 internos provisoriamente, sendo 110 aprendidos na Capital e 220 da Comarca, que abrange todas as demais regiões da cidade, conforme pude ler em um quadro branco no corredor em que a administração funcionava.

            O corredor inicial que conheci, juntamente com outro que ficava em seguida, compreendia a parte administrativa da unidade. Eram muitas salas, uma após outra, onde os pedagogos, psicólogos, diretores, equipe médica, dentre outros, se reuniam. Perguntei se os adolescentes também transitavam por aquele espaço, e o diretor me disse que sim, tendo em vista que a enfermaria, o consultório odontológico, as entrevistas técnicas, dentre outras atividades, ocorriam ali.

            Os primeiros adolescentes internos que vi estavam realizando entrevistas técnicas na sala separada para este tipo de atividade. Esta sala ficava no segundo corredor reservado à administração, em frente ao portão que dava acesso aos prédios de internação. Com aquelas entrevistas, eles podiam colocar suas principais demandas, que eram sempre analisadas por equipes interdisciplinares, apesar das entrevistas ocorrerem de forma individualizada. Além disso, as técnicas responsáveis por estas entrevistas, geralmente psicólogas, pedagogas ou terapeutas ocupacionais, escreviam um documento que servia à Justiça para auxiliar no julgamento dos adolescentes, o relatório. Esses documentos abordavam fatores como “estrutura familiar” do adolescente, escolaridade, interesse em estudar ou sair do crime, dentre outros.

            Passando por estes dois corredores reservados à administração geral da unidade, havia um portão de ferro que estava trancado. Depois dele, à minha direita, e separada por outro portão, havia uma quadra poliesportiva; à esquerda, um corredor que dava ao refeitório. Em frente, mais um portão que dava acesso ao pátio onde a maioria dos agentes ficavam sentados ao redor de uma mesa. Atrás deles, uma quadra de grama, que parecia estar um pouco descuidada. Em frente, o prédio que antes funcionava o antigo Padre Severino. Ainda que a unidade não tivesse mais esse nome, o prédio era o mesmo e ainda funcionava para receber os adolescentes, apesar de previsão – já antiga – de sua desativação. Havia, ainda, dois prédios mais recentes de internação, o “Dom Bosco”, que deu o novo nome à unidade, e a “Protetiva”, que ficava atrás da quadra de grama. O “Dom Bosco” também era conhecido por “Capital”, e o “Padre Severino” por “Comarca”, apesar de nada ter a ver com a divisão antes mencionada sobre o local de apreensão dos adolescentes.

            Quando passamos por este portão, saindo da área administrativa e adentrando outro espaço da unidade, vi adolescentes sentados, enfileirados, e de cabeças baixas e mãos voltadas para trás. Não sei o que eles faziam ali. Em frente ao prédio principal – Padre Severino ou Comarca – um adolescente raspava a cabeça de outro. Perguntei se todos raspavam a cabeça, ao que o diretor me respondeu que sim, que era por hábito de que as coisas funcionassem dessa maneira. Acredito que nesse momento tenha havido certo desconcerto, porque ele me apresentou a unidade de forma positiva, e essa pergunta pareceu não caber na descrição que ele me fazia. Havia coisas que ele gostaria que ocorressem de maneira diferente, como o desejo de que o prédio antigo, que ainda recebia maior número de adolescentes, fosse desativado.

            Atrás deste prédio – Comarca –, havia uma piscina grande, que não estava em uso, por conta de “problemas técnicos”. Ao lado do novo prédio, conhecido por Capital, havia uma escola pública, que funcionava ali mesmo. Havia salas de aulas e uma sala anexa em que filmes eram exibidos, uma horta que estava em funcionamento e bem cuidada, além de uma área reservada a pequenos animais, como patos e galinhas. Segundo o diretor, esta foi ideia de outro diretor e era importante para que os adolescentes se desenvolvessem – “para humanizar os adolescentes”.

            No prédio principal havia 210 adolescentes. Esse prédio, segundo o diretor, era a pior coisa que havia ali. Não havia boa infraestrutura e estava “caindo aos pedaços”. Apesar disso, era o prédio em que a maior parte dos adolescentes se encontrava. Os outros dois, a Capital e a Protetiva, eram mais novos e limpos. A Protetiva, segundo ele, era o prédio mais novo de todos e em melhores condições.

            Seguindo a visita, passamos por fora do prédio da Comarca, e vi diversos adolescentes que curiosos olhavam para fora. A presença do diretor causava certo alvoroço. Muitos demandavam a ele informações sobre os processos de cada um deles. Ele respondia com paciência e, ao mesmo tempo, firmeza. Todos que demandaram informações falavam com ele como injustiçados. “Você pode ver para mim meu processo, já tô aqui há mais tempo do que deveria.” “Era para eu ter saído já”. “Eu rodei no tráfico, mas já tinha pagado tudo, não devo mais nada”. Ele anotava todas as demandas para depois conferir no sistema o processo de cada um, me alertando que “às vezes eles mentem, dizendo que já estão há mais de 45 dias e não é o que consta no sistema.”

            A unidade me chamou a atenção pela boa aparência, ao menos das áreas externas, porque não entrei nas galerias em que os adolescentes ficavam. O diretor me falou das hortas e do engajamento dos adolescentes nela, nos filmes, nas aulas, e em outras atividades. Disse que eles eram adolescentes como quaisquer outros, e que a maioria tinha “famílias desestruturadas”.

            Todos os dias, eles recebiam 20 novos adolescentes. Um acordo estabelecido entre a direção do Padre e a unidade de triagem na qual os adolescentes passavam antes de chegar ali, depois da delegacia. O acordo se deu por conta da introdução de um sistema de “acolhimento” para recepção dos adolescentes, todos os dias, às 9h da manhã. Este momento era reservado para que a equipe interdisciplinar ouvisse e anotasse as demandas e expectativas dos adolescentes em relação à medida que podiam cumprir. Também eram explicadas as regras que deveriam ser seguidas e a importância de que os adolescentes aproveitassem aquele momento para “refletir sobre suas vidas”, e que pudessem aferir os ganhos com aquela passagem.

            Após aproximadamente uma hora dentro da unidade, minha cabeça já fervilhava com tantas informações novas, desde o meu encontro com a mãe de um daqueles adolescentes do lado de fora. Saí pelo corredor e reparei em algumas fotografias que estavam penduradas nas paredes. Nenhuma delas mostrava o rosto dos adolescentes, seguindo a lei que proíbe a exposição de suas imagens. Uma delas mostrava adolescentes jogando polo aquático numa piscina azul – a mesma que não estava em funcionamento naquele dia. Em outra fotografia, um adolescente mostrava um desenho de sua autoria. A terceira retratava uma oficina de música que eles participaram. Contudo, para mim, os adolescentes enfileirados, com as cabeças raspadas e baixas, e com as mãos para trás eram o que estruturava a fotografia que eu registrei em minha memória naquele dia.