Debate – Sobre afetos e a virada afetiva, por Diogo Silva Corrêa

emotions

Diogo Silva Corrêa (IESP-UERJ)

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É inegável que o conceito de afeto tem sido um tema constante ao longo da história da filosofia. A noção foi submetida a abordagens amplamente variadas ao longo do tempo, e foi enfatizada mais fortemente em alguns períodos do que em outros. De qualquer forma, embora possamos encontrar algumas abordagens filosóficas que sublinhem suas características positivas e afirmativas (como nas obras de Spinoza e Nietzsche), a ênfase sobre os aspectos negativos e potencialmente perigosos do afeto é certamente a posição padrão da filosofia ocidental. Lembremos, por exemplo, de como Descartes referia as paixões aos animais e como Kant esforçou-se para nos persuadir da importância de subordinar os afetos ao império da razão. Portanto, não é injusto afirmar que a sujeição dos afetos ao entendimento é um leitmotiv central dos pensadores da filosofia ocidental.

Descartes e Kant foram os ideólogos metafísicos da revolução científica que ocorreu com o surgimento da ciência moderna no século XVI. Neste momento, como Whitehead descreveu, ocorreu uma “bifurcação da natureza”. A ciência dos modernos, para falar nos termos de Bruno Latour (1991), separou o mundo em duas províncias ontológicas distintas: de um lado, uma dimensão inerte, desencantada e objetiva, composta de coisas; do outro lado, uma dimensão dinâmica, intencional e subjetiva, composta de seres humanos. Em suma, de um lado o mundo natural e, de outro, o mundo cultural. Precisamente no momento em que essa “ontologia naturalista”, como Philippe Descola (2005) definiu em sua obra magna Par-dèla nature et culture, adquiriu consistência, herdamos não apenas a passagem do mundo aristotélico fechado para o universo infinito (para evocar o livro clássico de Koyré), mas também uma terra feita exclusivamente de uma matéria única e homogênea.

Não seria exagerado afirmar que a “virada afetiva” (ver Clough, 2007; Seigworth e Gregg, 2010) é, antes de tudo, uma reação a essa visão um tanto redutora de um mundo composto basicamente de matéria morta. Mas, mais do que uma reação, eu gostaria de defender que a virada afetiva é também uma inversão da bifurcação da natureza, uma vez que ela traz ao primeiro plano as ditas qualidades secundárias, como cor, cheiro, toque, textura, envelhecimento e morte. Em um sentido mais amplo, a virada afetiva pode ser vista como a tomada de consciência de que a realidade e o mundo não simplesmente se movem por relações mecânicas e impessoais, mas se “comovem”, isto é, possuem um comportamento, uma interioridade. Para recordar a imagem um tanto divertida proposta por Latour em Face a Gaia, uma vez que colocamos as qualidades secundárias no primeiro plano e reeducamos a nossa atenção experimentamos algo “como … uma versão da Disney da Bela Adormecida, [quando logo após um toque de varinha mágica], todo agente passivo inerte de seu Palácio começa a bocejar, a despertar do sono e torna-se impetuosamente ocupado, dos anões ao relógio, das maçanetas das portas às chaminés”. A virada afetiva, portanto, não é a proposição de uma (nova) visão de mundo que nos leva a perceber a dimensão afetiva da realidade; em vez disso, trata-se do reconhecimento de que a realidade é afetiva e intensiva na sua dimensão mais básica e elementar.

Faz-se preciso enfatizar que, dentro desse cenário mais amplo, existem diferentes abordagens nas ciências humanas a respeito dos afetos. Para ser sintético, vou distinguir três abordagens principais: uma substantiva, uma adjetiva e uma adverbial. No primeiro sentido, encontramos o afeto como a própria substância do real. O afeto, aqui, não é tido como uma propriedade da realidade, mas é a realidade em si mesma, isto é, a realidade para além da correlação entre um sujeito ou um ser senciente e um objeto. Como um filósofo francês diria, o afeito está relacionado simplesmente a um il y a.

Mas também encontramos uma abordagem adjetiva do afeto. E aqui é fundamental a correlação entre um sujeito ou um ser senciente e o mundo. Neste segundo sentido, o afeto não é uma substância, mas invariavelmente uma propriedade de uma coisa ou de uma pessoa. É uma qualidade que está sempre relacionada a um sujeito- no sentido gramatical da palavra (um “substantivo”). Quando dizemos que alguém ou algo é afetuoso, amoroso, caloroso, etc., é essa dimensão adjetiva do afeto que está sendo expressa. Todas as abordagens cujos enquadramentos se concentram no aspecto adjetivo do afeto geralmente concebem os afetos como “emoções” ou “sentimentos”. Se tentarmos entender esse segundo sentido nos termos da primeira definição, os afetos devem ser tratados como a forma como a substância é revelada como uma qualidade ou propriedade de um ente particular.

Finalmente, há também um terceiro sentido de afeto. Quando tomado em seu sentido adverbial, o afeto aparece em seus aspectos fluentes e relacionais. Trata-se, aqui, da qualificação de um conjunto de relações. De modo distinto àquele do segundo sentido, o afeto aqui não está relacionado a um substantivo, mas a um verbo, um corte móvel de uma ação particular. Visto sob o prisma do primeiro sentido, o afeto não é uma coisa em si mesma, mas sim a substância em ação, uma maneira singular de fluir. O afeto, portanto, é uma qualidade expressa em uma situação, portanto um tipo de evento que compreende, pelo menos, três devires ou processos diferentes: o corpo afetado, o corpo afetante e a situação em que esse encontro ocorre.

Essas três maneiras de lidar com os afetos abrem duas grandes agendas de pesquisa. No domínio do real antes da correlação entre sujeito e mundo, o afeto é geralmente chamado ou descrito como intensidade, força, energia. Neste plano, ele refere-se a uma espécie de tensão original constituída por múltiplas virtualidades e potencialidades. Conceitos como “plano de imanência” (Deleuze), o “pré-individual” (Simondon) e a “experiência pura” (James) tentam compreender essa dimensão originária dos afetos, antes do contato com um ser senciente. No domínio do organismo ou corpo, o afeto é descrito como impressão ou sensação. Fenomenologias e antropologias da cognição e dos sentidos (ver Howes, 2004, Ingold e Howes, 2011), bem como abordagens do nível sensório-motor (ver Lakoff & Johnson, 1999; Thompson, 2007; Protevi, 2010) tentam capturar essa dimensão sensória e visceral do corpo vivido do ponto de vista do lado afetado, isto é, da perspectiva do organismo.

Para concluir, gostaria de situar o afeto em um esquema vertical:

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Este esquema vertical situa afeto em um “entre”: de um lado, tem-se as intensidades, as potências e as forças; do outro lado, o plano orgânico, visceral ou sensório-motor. O afeto é o que os vincula. Ele é o primeiro modo de manifestação da correlação entre organismo e ambiente ou meio (milieu). Este raciocínio e sua exibição gráfica devem nos ajudar a entender o porquê, seja nas abordagens substantivas, adverbiais ou adjetivas, o afeto sempre é visto como algo infra ou extra-simbólico (ou infra ou extra-representacional) (ver Massumi, 1995; Thrift, 2008). Não é por acaso que a etologia é uma chave de referência fundamental para aqueles que de algum modo se comprometem com a virada afetiva (ver Leys, 2011). Ao contrário dos autores que consideram o plano simbólico e cognitivo da representação como exclusividade dos humanos, os defensores das abordagens afetivas procuram estabelecer um plano comum para os seres humanos e todos os outros seres sencientes: o que todos estes possuem em comum é o fato de que são todos afetados por algo, isto é, todos eles são dotados do poder de afetar e de ser afetado. Além disso, o plano afetivo não é apenas o que liga todos os seres sencientes, mas também é um meio de olhar o plano simbólico e representacional de uma maneira diferente. Para adaptar o título do famoso livro de Durkheim sobre religião, o afeto pode ser visto como a forma elementar de todo e qualquer o símbolo e representação (ver Collins, 2004). Em outras palavras, o afeto – como aquilo que se situa sempre “entre” a intensidade, a potência, a força e a impressão e a sensação – é o solo primordial em que todos outros planos no esquema acima se baseiam.

Referências bibliográficas

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CLOUGH, Patricia (2007): “Introduction”.pp. 1-33 in Clough Patricia e Halley Jean (eds.): The Affective Turn: Theorizing the Social. Durham: Duke University Press.

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DESCOLA, Philippe. Par-delà nature et culture. Paris, Gallimard, 2005.

HOWES, David. ed., (2004) Empire of the Senses: The Sensual Culture Reader. Oxford and New York: Berg, 2004.

INGOLD, Tim & HOWES, David. (2011) “Worlds of sense and sensing the world”, Social Anthropology 19(3): 313-31.

LATOUR, Bruno. Nous n’avons jamais été modernes. Paris, Lé découverte, 1991.

_________. Facing Gaia. Paris, La découverte, 2015.

LAKOFF, George & JOHNSON, Mark. Philosophy in the flesh. Basic Books, 1999.

LEYS, Ruth (2011): “The Turn to Affect: A Critique”, Critical Inquiry, 37/3, 434–72

MASSUMI, Brian. The Autonomy of Affect. Cultural Critique (31), 1995, p. 83-109.

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SEIGWORTH, Gregory; GREGG, Melissa eds. (2010): The Affect Theory Reader. Durham: Duke University Press.

THOMPSON, Evan. (2007). Mind in Life: Biology, Phenomenology, and the Sciences of Mind.Cambridge: Harvard University Press.

THRIFT, Nigel (2008): “Spatialities of Feeling”, 171-197 in Non-Representational Theory: Space, Politics, Affect. Londres: Routledge.