Resenha. JAEGGI, Rahel. “Alienação” (Suhrkamp, 2005/2016), por Bárbara Buril

Blog do Sociofilo

Seção Cartografias da Crítica

Constelação Teoria Crítica Alemã: Origens, Frankfurt e Além

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Cena do filme “Persona” (“Quando duas mulheres pecam”), de Ingmar Bergman, 1966.

Bárbara Buril (UFPE)

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JAEGGI, Rahel. Entfremdung. Zur Aktualität eines sozialphilosophischen Problems. Berlin: Suhrkamp, 2016 (1a edição 2005). Tradução inglesa: Alienation. New York: Columbia University Press, 2014.

Uma relação de uma relação deficiente. Ou uma relação de falta-relacional, como André Magnelli e Alberto Luis Cordeiro de Farias escolheram traduzir a expressão em alemão Beziehung der Beziehungslosigkeit no verbete “Alienação”, publicado aqui no Sociofilo em meados de setembro (confira a tradução). Não se trata de um preciosismo. A filósofa Rahel Jaeggi, autora do livro cuja tradução para o português seria simplesmente “Alienação”, define o fenômeno literalmente como uma relação (Beziehung) de uma falta de relação (der Beziehungslosigkeit). De modo menos literal, o que ela quer dizer é que a alienação é caracterizada justamente por uma relação marcada por uma relação problemática, indevida ou inadequada. Apesar de a tradução relação de falta-relacional ser realmente muito mais sonora e adequada do que relação de uma relação deficiente, como já cheguei a utilizar em outro trabalho (veja aqui), o que ela não dá conta é de que a alienação é a falta de uma relação adequada, e não a falta de qualquer relação. Para Jaeggi, como ela deixa claro nos quatro casos de alienação desenvolvidos na parte 2 do livro que foi publicado originalmente em 2005 na Alemanha, com o título “Entfremdung: Zur Aktualität eines sozialphilosophischen Problems”[1], a alienação é caracterizada por uma relação na qual existe a falta de uma relação adequada. Na alienação, há um distúrbio na relação entre self e mundo, mas a relação ainda existe. É possível dizer, no entanto, que sequer a expressão Beziehung der Beziehungslosigkeit, utilizada pela autora, expressa claramente a ideia por ela defendida de que a alienação é uma relação da falta de uma relação apropriada, e não uma relação que expressa a falta de uma relação.

Apesar disso, a obra em questão, publicada em 2014 em inglês, se trata de uma atualização muito consistente de um conceito que tem origem na obra de Hegel, passa por Karl Marx e pela herança existencialista de Kierkergaard e Martin Heidegger, chegando à Escola de Frankfurt, principalmente aos trabalhos de Theodor Adorno e Max Horkheimer. No prefácio do livro, a autora defende a necessidade de reabilitar o conceito de alienação no contexto contemporâneo, a fim de que formas sutis de descontentamento social possam ser compreendidas mais claramente. Como escreve na introdução à “Alienação”: “diante de recentes desenvolvimentos econômicos e sociais, vê-se sinais de um descontentamento crescente que, se não em nome, mas em substância, tem a ver com o fenômeno da alienação” (2014, p. 26). Um pouco depois, a filósofa enfatiza novamente a importância de retomar as reflexões sobre a alienação: “diante de uma tensão constantemente renovada entre aspiração e realidade, entre promessa social de autodeterminação e autorrealização e as falhas para realizar esta promessa, o assunto da alienação (…) permanece relevante e importante” (2014, p. 27). Para a autora, a alienação é um conceito produtivo e rico, capaz de abrir domínios de fenômenos que poderiam ser simplesmente ignorados devido ao empobrecimento de possibilidades interpretativas e teóricas.

No entanto, apesar de defender a necessidade de reabilitar a alienação em todo o seu potencial crítico, Jaeggi afirma a importância de não utilizá-la a partir das bases teóricas que lhe deram origem. Intencionalmente, a filósofa abandona a leitura marxista do conceito. Para ela, há uma série de problemas na interpretação de Marx sobre a alienação, sendo os principais deles uma fundação filosófica fora de moda na época da pós-modernidade, as implicações políticas que se mostram questionáveis no período do liberalismo político e um tipo de crítica ao capitalismo que parece completamente inadequada em um contexto de vitória decisiva do capitalismo. Assim, o que a autora sinaliza já no início da obra é que a alienação será retomada a partir de outras bases teóricas, a fim de que a análise do fenômeno não fique refém de uma herança filosófica facilmente desmontada no debate contemporâneo.

Trata-se de uma estratégia bastante interessante e pode-se dizer que bem-sucedida, visto que a retomada contemporânea da alienação por Rahel Jaeggi passa ao largo do tradicional ataque marxista ao capitalismo. No entanto, a escolha da filósofa de não analisar a alienação a partir de um determinado tipo de crítica social já consolidada na tradição marxista não a levou, por outro lado, a pensar a alienação segundo algum outro tipo de crítica social mais contundente. A dificuldade de entender a alienação como uma forma de descontentamento não apenas individual, mas também social levou inclusive o filósofo norte-americano Frederick Neuhouser, tradutor da obra para o inglês, a retirar o subtítulo original do livro – Um problema contemporâneo da filosofia social – da versão publicada pela Columbia University Press, com a justificativa de que o subtítulo levaria os leitores a esperarem um trabalho que iria investigar as causas sociais da alienação, o que Jaeggi não realiza neste trabalho, na opinião dele. Como escreve Neuhouser (2014, p. 22).

Logo no início do livro, Jaeggi sugere uma conexão entre o seu projeto e uma teoria social crítica: uma vez que o fenômeno da alienação tenha sido adequadamente clarificado, um caminho se abre para criticar instituições na medida em que elas falham em fornecer as condições sociais que os indivíduos precisam para levarem uma vida livre da alienação. Este pensamento permanece, na maioria das vezes, pouco desenvolvido aqui. Seria insensato, no entanto, criticar Jaeggi por ela não ter dito mais sobre este projeto teórico-social; sua falha para fazer isto vem, sem dúvidas, da noção de que completar esta tarefa requereria (pelo menos) um tratamento em um livro separado do tamanho deste.

Assim, o que se encontra na obra em questão não é uma reflexão sobre como a alienação parece estar ligada a desenvolvimentos econômicos ou sociais problemáticos ou distorcidos, por exemplo, mas uma interpretação sobre como a alienação é um fenômeno ético que é interpretado segundo uma determinada teoria do sujeito. Trata-se, a meu ver, de um problema para um trabalho cuja pretensão (como se vê no prefácio da autora e em alguns momentos específicos da obra) foi a de trazer a alienação como gancho para refletir sobre caminhos e descaminhos sociais ou econômicos sem, no entanto, recair na supostamente “cansada” crítica de Marx ao capitalismo. Existe um mérito na obra de Rahel Jaeggi que precisa ser reconhecido, no entanto, e ele reside no modo pelo qual a autora interpreta a alienação: como ela se dá em nível psíquico, que tipos de sentimentos suscita, como seria possível reverter a alienação, o que é o seu contrário. Neste sentido, trata-se de uma abordagem nova sobre a alienação em uma tradição filosófica que comumente associa o fenômeno ou a problemas estruturais do capitalismo, no caso dos trabalhos mais diretamente afinados com a tradição marxista, ou a problemas de desenvolvimento do projeto moderno, como se vê nos trabalhos mais afinados com uma herança hegeliana e durkheimiana.

A partir destas considerações mais iniciais sobre a obra em questão, que podem levar o leitor a esperar menos uma crítica à sociedade do que uma teoria do sujeito na teoria da alienação de Rahel Jaeggi, pode-se seguir um percurso pela estrutura do livro. Na parte 1, Jaeggi realiza uma breve reconstrução do conceito de alienação na história da filosofia, passando de modo conciso pelas discussões de Rousseau, Hegel, Marx, Kierkegaard e Heidegger. Nesta parte inicial, a autora já aponta, de modo embrionário, alguns dos significados possíveis da alienação: um estado caracterizado não pela ausência de uma relação entre o mundo e o self, mas pela existência de uma relação deficiente. A falta de uma conexão apropriada. “A relação de uma relação deficiente”, como talvez fosse mais apropriado se referir à alienação como ela é apresentada pela autora.

Segundo a interpretação de Jaeggi, a alienação não se trata de uma ausência ou da inexistência de uma relação, mas de uma relação deficiente e de uma conexão imprópria entre ser e mundo – por isso a alienação é “uma relação de uma relação deficiente”. Assim, trata-se de uma relação que denuncia a ausência de uma relação apropriada e que se manifesta em sintomas como falta de significado, estranhamento, perda de poder em relação ao eu e ao mundo e subjugação aos produtos da própria atividade. Ainda que exista uma relação de fato entre sujeito e mundo ou do sujeito consigo mesmo, ela se mostra essencialmente inadequada. A fim de compreender os comportamentos alienados e alienantes, assim, a filósofa desenvolve o que seria uma forma de vida adequada: aquela em que é possível estabelecer relações de apropriação com o mundo. “Estas relações de apropriação precisam ser compreendidas como relações produtivas, como processos abertos em que a apropriação sempre significa integração e transformação do que é dado” (2014, p. 36).

Em suma, o que se vê é que a apropriação é o único critério normativo de uma teoria da subjetividade com implicações éticas. Não há, na sua crítica, uma concepção de natureza ou essência humanas, em contraposição aos comportamentos alienados. Ao contrário de teorias essencialistas ou metafísicas, a crítica da alienação de Rahel Jaeggi não busca estruturar os modos “corretos” de uma forma de vida não-alienada, como se existisse uma essência ou uma ontologia do ser humano completo e feliz. Para Jaeggi (2014, p. 83), o potencial do conceito residiria muito mais na possibilidade de criticar o conteúdo das formas de vida do que na de apelar para uma teoria ética robusta e substancial. De maneira negativista, a crítica da alienação deveria residir no que já se mostra como problemático nas formas de vida atuais. Como crítica imanente, a crítica da alienação deveria apontar contradições internas de uma forma de vida com o objetivo de ir além da forma de vida em questão. Não há, nesta crítica da alienação, um ideal de reconciliação, livre de tensões, entre sujeito e mundo. O que há, na realidade, é a defesa de que há tensões do sujeito consigo mesmo e do sujeito com o mundo e que as contradições internas e externas podem ser superadas através de uma apropriação do que é estranho e alienado, daquilo que parece ser “inapropriável”. A incapacidade de apropriação se mostra, então, como um sintoma de alienação.  

Os casos de alienação

Este percurso mais formal e reconstrutivo de análise torna-se mais concreto na parte 2 da obra, quando a autora narra quatro casos de alienação através dos quais se veem quatro modos diferentes de o self se apropriar de modo inadequado de si mesmo ou do mundo. No primeiro caso, um jovem acadêmico experiencia uma espécie de perda de controle sobre a própria vida; no segundo, um profissional falha em se apropriar de modo adequado do papel social que exerce; no terceiro, uma feminista possui desejos e impulsos que contradizem as próprias convicções; e, por último, o protagonista da obra “O silêncio de Perlmann”, de Pascal Mercier, exibe indiferença diante do mundo e de outros indivíduos, embora tenha sido um homem que se engajava intensamente nos próprios projetos. A estratégia de Jaeggi de elaborar quatro exemplos práticos de alienação mostra-se bastante interessante e, de certo modo, inesperada. Como escreveu Neuhouser no prefácio, “em suas descrições imaginativas e cheias de nuances de casos específicos de alienação, a autora atribui uma importância filosófica maior a exemplos concretos e narrativas do que filósofos normalmente o fazem” (p. 19, 2014). Com esses exemplos, Jaeggi parte do fenômeno negativo (a alienação) para reconstruir a visão positiva de uma subjetividade realizada com sucesso.

No primeiro caso, por exemplo, a autora analisa a alienação como impotência e perda de controle sobre a própria vida através da história de um jovem matemático brilhante, acostumado com a vida noturna das cidades e imerso obsessivamente no trabalho. Repentinamente, o jovem se vê levando uma vida suburbana com a esposa e os filhos devido a acontecimentos circunstanciais, como um casamento para driblar o aumento de impostos, a gravidez da esposa e o custo alto dos apartamentos nos centros urbanos, que o levaram a morar no subúrbio com a esposa e os filhos. O problema surge, no entanto, quando o jovem é tomado por um sentimento de falta de realidade. Ele se pergunta: “o que aconteceu, nesse meio-tempo, que me transformei de alguém que comia em fast foods e fazia compras de acordo com as minhas necessidades em uma pessoa que precisa acordar aos sábados pela manhã e ir ao supermercado para comprar comida e abastecer o freezer para a semana seguinte?”.

O que parece é que a vida que o matemático leva não parece ser a sua própria vida. Para ele, parece que “a vida não vive”, como escreve Adorno parafraseando Kurnberger. Nessa situação, o jovem matemático sente que “caiu de paraquedas” em um estilo de vida que ele não queria ter, embora tenha sido ele quem, de todo modo, entrou nele, o desenvolveu e criou. O jovem se sente um objeto, não um sujeito da própria vida, em uma espécie de distorção, impedimento ou não-realização da liberdade positiva, que poderia levá-lo a ver a si próprio como um autor, alguém que faz e realiza, não como um ser simplesmente sujeito às “intempéries” da vida.  Para a autora (2014, p. 117), o que há de alienação nesse caso é que a pessoa experiencia um processo que ela pode influenciar como algo além de sua influência – ou que algo que pode, na verdade, ser decidido aparece a ela como se não pudesse. Mas por que isso acontece exatamente? Qual é o motivo pelo qual um sujeito se sente alienado da própria vida? O problema não está no fato de que ele foi forçado a decidir de um modo ou de outro, nem que o desejo dele foi manipulado. Ele apenas não vê, ou é impedido de ver, que o que ele faz poderia ser objeto de uma decisão.

É possível criticar os pressupostos desenvolvidos por Rahel Jaeggi com o argumento de que é preciso existir algum tipo de subjugação aos acontecimentos da vida, como é o caso de se sentir apaixonado, e que existem eventos incontroláveis que também fazem parte da vida. No entanto, ter uma relação apropriada com os acontecimentos incontroláveis da própria vida significaria, para a filósofa, que a pessoa deveria ver a si mesma como alguém capaz de estabelecer uma relação afirmativa com o que é estranho ou incontrolável. Não que seja imperativo controlar eventos circunstanciais ou tê-los sob comando. Como define Jaeggi, a “apropriação é um processo de aprendizado e experiência em que a relação entre liberdade e incontrolabilidade é negociada. Reciprocamente, a alienação é uma interrupção deste processo” (2014, p. 131).

Ainda na parte 2 da obra, vê-se como a alienação também se relaciona com um sentimento de indiferença diante do mundo, a partir do caso do professor de linguística Perlmann, personagem do romance O silêncio de Permann, de Pascal Mercier. Perlmann, um professor ambicioso e respeitado, deixa de se engajar no próprio trabalho e passa a vê-lo como se não pertencesse a ele. A sua identificação com os posicionamentos que já chegou a defender se dissolve, não porque ele passa a se interessar por outros assuntos, mas simplesmente porque parece que tudo segue para uma região distante que não mais lhe move e o seu interesse no mundo se dissolve. O problema não é exatamente uma descontinuidade de interesses, mas um completo distanciamento do mundo capaz de revelar uma estrutura de falta de significado da própria vida.  A indiferença surge como uma perda de identificação com o mundo e resulta em alienação. Como se vê na interpretação de Jaeggi, a alienação surge como uma interrupção, um déficit no processo de constituição de um sujeito livre e autorrealizado, uma vez que a autorrealização dependeria de um certo tipo de relação, engajamento e envolvimento com o mundo.  “O eu é uma soma total do que o homem pode chamar de seu, não apenas o seu corpo e os seus poderes psíquicos, mas as suas roupas, sua casa, sua esposa e seus filhos, seus ancestrais e amigos, sua reputação e trabalhos, suas terras e cavalos e iates e conta de banco” (2014, p. 248). Para se realizar, o sujeito precisaria se identificar com o mundo que o rodeia, a fim de que a autorrealização se torne possível. A perda de identificação com o mundo, através da experiência de indiferença, portanto, causaria uma interrupção no processo de autorrealização e resultaria em alienação.

Não se trata da visão estoica de que a indiferença seria o ápice da liberdade, como se defende, no estoicismo, que depender de nada e de ninguém conduziria à real liberdade. A liberdade positiva hegeliana, adotada por Jaeggi, pressupõe justamente que o indivíduo se compreenda e se realize em relações com o mundo. “A liberdade positiva no sentido de Hegel se refere, então, a uma transformação apropriativa (ou uma apropriação transformativa) das condições sob as quais ela se realiza (2014, p. 261). A negação do mundo dos estoicos não propiciaria, segundo Hegel, uma realização verdadeira da liberdade. Em suma, a indiferença de Perlmann é considerada por Jaeggi como um fenômeno de alienação porque há nela uma ausência de apropriação do mundo e um mundo não-apropriado é, essencialmente, um mundo alienado. Ainda na indiferença, no entanto, existe uma relação com o mundo, mas uma relação deficiente.  “Uma relação de uma relação deficiente”, então. 

O caso de Perlmann é realmente curioso, no sentido de que não fica exatamente claro, pelo menos na descrição da filósofa, o que levou um profissional ambicioso a não ver mais sentido no que já chegou a realizar de maneira altamente engajada. Entende-se que a indiferença se mostra como uma perda de identificação com o mundo e que esta perda, por sua vez, impossibilita a autorrealização e revela a relação de alienação vivida pelo sujeito em questão. No entanto, um aspecto fundamental fica em aberto: o que levou Perlmann a deixar de estabelecer relações de significado entre seus projetos profissionais? A estrutura de indiferença permearia outros aspectos de sua vida, além do profissional? Seria possível especular sobre a ligação entre o extremo da ambição e o outro extremo da indiferença? A estrutura da falta de significado já não estaria presente, ainda que de maneira latente, na sua busca, talvez excessivamente individualista e autocentrada, por reconhecimento profissional?

São questões instigantes que, se fossem respondidas pela filósofa, certamente a obra seguiria os caminhos de uma crítica social mais contundente. No entanto, o que se vê nesse trabalho é uma análise sobre o que a alienação revela sobre a subjetividade em geral. Nos casos de alienação criados pela autora, ela parte das distorções no processo de apropriação para mostrar como se dá uma apropriação adequada. Nos casos de Perlmann e do jovem matemático, por exemplo, entra em questão o papel da liberdade positiva no processo de apropriação do sujeito de si mesmo e do mundo, e não uma análise sobre o que levou os sujeitos a realmente não se apropriarem adequadamente de si mesmos e de mundo.

Após apresentar estes quatro casos, Jaeggi retorna, na parte 3 do livro, para reflexões filosóficas mais abstratas, quando ela recorre aos recursos conceituais desenvolvidos em sua análise empírica para refinar a sua concepção de alienação brevemente desenvolvida na parte 1. É nesta seção que a autora defende mais claramente o seu “modelo da apropriação” do self e põe a alienação em diálogo com outros objetos da ética, como liberdade, autorrealização e agência. O que é interessante nesta parte da obra é que ela se põe em diálogo com a tradição anglo-americana, representada por Harry Frankfurt, Thomas Nagel, MacIntyre, Williams e Charles Taylor, e não apenas com os autores continentais. Assim, Jaeggi traz o conceito de articulação pensado por Charles Taylor para reforçar o seu modelo de apropriação. Assim como a apropriação, a articulação também é um processo contínuo pelo qual o self precisa passar para se tornar si mesmo. “Taylor compreende tornar-se si mesmo como um processo contínuo de articulação em que nós esclarecemos para nós mesmos o que nós desejamos e valorizamos e desenvolvemos um autoentendimento correspondente a isso” (2014, p. 281). De modo semelhante, Harry Frankfurt, em sua teoria da pessoa, defende que a característica definidora da pessoa reside nos seus desejos. A partir de um modo hierárquico, Frankfurt defende que a pessoa se relaciona com as suas “volições de primeira ordem” a partir de suas “volições de segunda ordem”. Uma volição de segunda ordem seria, para Frankfurt, um desejo de ter ou não ter uma volição de primeira ordem. O que tornaria alguém uma pessoa não seria meramente ter desejos, mas ser capaz de tomar uma posição com respeito a eles, ser capaz de apropriá-los.

Uma concepção de sujeito

Para concluir, enfatizo que o ponto central da crítica da alienação de Rahel Jaeggi não é, como se esperaria, uma crítica social ou econômica, como se vê na maior parte das abordagens empreendidas por obras da filosofia social, mas a elaboração de uma concepção mais profunda sobre como a alienação se dá na vida interna dos sujeitos. Trata-se do aspecto mais consistente de sua obra, por isso se torna tão fundamental entender também o reverso da alienação, que seria a apropriação. Para explicar como o self pode se alienar de si mesmo ou do mundo, a autora parte de uma concepção de sujeito bastante específica, a saber:

1. O ser é concebido como um processo. O ser do eu está dissolvido em um fazer, na performance de uma ação. Não é algo que existe no interior de um sujeito, guardado em uma caixa, pronto para ser revelado. “Isto significa – em sintonia com temas existencialistas – que o eu é concebido como uma (…) ‘relação com a própria existência’ que é sempre e já uma existência mundana” (2014, p. 286);

2. O self é aquilo com o que se identifica. O self verdadeiro não é uma entidade ontologicamente independente, mas um conjunto de características com o qual ele verdadeiramente de identifica;

3. O self é uma relação. Não surge de maneira independente e autossuficiente a partir de si mesmo, mas se constitui a partir das relações que estabelece. Além disso, “não há um ser fora dessas relações. Ainda que o eu se individue, ele faz isso dentro dessas relações” (2014, p. 286).

4. O self, em vez de ser rígido e bem-definido, é um processo fluido que constantemente se transforma e re-transforma. Como define Jaeggi (2014, p. 287), “identidades (…) são fluidas e sempre ‘selfs em processo’”.

5. O self é sempre mundano, sempre se encontra atuando no mundo e não pode ser separado do mundo. Só pode ser compreendido dentro do mundo e em relação com ele.

6. O self só pode ser compreendido quando estiver articulado e exteriorizado. “Nossa autorrelação, então, sempre depende e é inseparável de nossa exteriorização ou articulação de nós mesmos. Isto significa que nós não podemos nos separar de como nos expressamos no mundo” (2014, p. 287).

O problema desta abordagem é que a alienação parece ser um fenômeno descolado de um pano de fundo social. As pessoas simplesmente se alienaram de si mesmas e do mundo, mas o motivo pelo qual a alienação aconteceu não fica claro. Trata-se, a meu ver, da principal fraqueza da obra, mas é claro que, para dar conta também de uma crítica social, e não só de uma reflexão sobre o significado da alienação do self, seria necessário outro empreendimento filosófico diferente deste. Apesar de ser um pouco frustrante ter que lidar com uma retomada contemporânea da alienação que se afasta de uma crítica social mais provocativa, o trabalho em questão tem o ganho inegável de pensar, de modo inovador, sobre o que a alienação revela sobre a subjetividade em geral. No entanto, o déficit social em questão parece ter sido identificada pela autora, cujos trabalhos posteriores passaram a articular, de modo mais explícito, as relações entre sofrimento social, economia e ideologia, como se vê na sua última obra, Kritik von Lebensform[2], ainda sem tradução para o inglês e para o português.

Notas

[1] Em tradução livre para o português: “Alienação: sobre a atualidade de um problema da filosofia social”.

[2] Em tradução livre para o português, “Crítica das formas de vida”.