M. Horkheimer (I) – Crise, Crítica e Formação: As Ambivalências da Interioridade Burguesa (1895-1923), por Alberto de Farias e André Magnelli

Blog do Sociofilo

Seção Cartografias da Crítica

Constelação Teoria Crítica Alemã: Origens, Frankfurt e Além

Jovem Horkheimer

Horkheimer com trabalhadores na fábrica do pai em 1915

(Fonte: ABROMEIT (2011), p. 38)

Alberto Luis Cordeiro de Farias (IESP-UERJ) & André Magnelli (UERJ)

Clique aqui para pdf

Falar da obra de Max Horkheimer (1895-1973) é tratar da história do Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt [Institut für Sozialforschung], pois as trajetórias estão estreitamente ligadas. Horkheimer foi não apenas diretor do Instituto desde seus primórdios – assumindo o comando em 1930 até a sua aposentadoria em 1964 -, como também editor da sua Revista, a hoje célebre finada Zeitschrift für Sozialforschung (1933-1941). No comando do Instituto, com nos relata Habermas (1990, p.85), ele teve em mãos o pleno comando da instituição e foi “incontestavelmente reconhecido como o spiritus rector do conjunto dos programas de pesquisa”. Dada a sua (muitas vezes subestimada) centralidade intelectual para a redefinição da crítica marxista no século XX, ou, para situá-lo mais amplamente, para o estabelecimento do projeto de uma “teoria social crítica”, o Cartografias da Crítica dá início, no Blog do Sociofilo, a uma série sobre Horkheimer com o objetivo de apresentar a sua obra e o seu pensamento ao grande público. Esse será o primeiro texto de uma série que abordará aspectos biográficos e intelectuais da obra de Max Horkheimer, desde suas primeiras experiências na juventude – com a literatura, a filosofia e a política – até sua obra tardia, passando em especial pelos seus anos de maturidade à frente do Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt. Além disso, buscar-se-á refletir sobre os possíveis desdobramentos e contribuições sistemáticas de sua atividade intelectual para o tratamento de questões teóricas e empíricas de nosso tempo. Com tal série, o Cartografias dá início então às suas atividades em torno dos autores da 1a geração da chamada “Escola de Frankfurt”.

Ambivalências da interioridade judaico-burguesa[1]

Nascido em Zuffenhausen, cidade próxima a Stuttgart, em 14 de fevereiro de 1895, Max Horkheimer pertence à geração de intelectuais judeus-alemães da Europa Central, tendo sido educado em uma tradição judaica conservadora, muito embora não ortodoxa. Cresceu no seio de uma família relativamente próspera. Aparentemente extremamente protetora e voltada à família e à religião, sua mãe, Babette Horkheimer, cumpriu com o estreito papel que lhe cabia dentro da tradição, tendo encarnado um “calor do amor altruísta” responsável pelo desenvolvimento de uma extrema sensibilidade no pequeno Max (ABROMEIT, 2011: p. 21). Doutro lado, sendo muito embora um leitor e admirador da literatura clássica alemã (Goethe, Schiller e Hölderlin), seu pai, Moritz Horkheimer, foi um bem sucedido industrial do ramo têxtil que, como acontece frequentemente nesses casos, encarnou certa persona do “cálculo frio e utilitário”, tendo preparado o filho único para substituí-lo algum dia nos negócios da família. Horkheimer recebeu para tanto uma educação secundária fora da tradição humanista própria das elites alemães, que ocorria nos Gymnasium, tendo integrado o sistema mais voltado à vida prática, o Realgymnasium[2].

Foi em 1911, por ocasião de uma festividade escolar, que Horkheimer travou conhecimento com aquele que viria a ser seu amigo por toda a vida e seu braço direito na administração do futuro Instituto: Friedrich Pollock (1894-1970).[3] Pollock obteve uma formação humanista clássica em um Gymnasium, mas era um homem mais prático que Horkheimer. Eles serão ao longo de suas vidas personalidades fortemente complementares (ABROMEIT, 2011: p. 23), compondo algo que podemos denominar como uma unidade entre teoria e prática: do lado do jovem Horkheimer, temos a teoria como desenvolvimento da interioridade e, do lado de Pollock, temos a prática como controle racional das atividades rotineiras da vida. A importância de Pollock no desenvolvimento intelectual de Horkheimer não pode ser subestimada. Como afirma Abromeit, “Pollock facilitou o desenvolvimento de Horkheimer não apenas ao protegê-lo da aspereza do mundo externo, mas também ao ajudá-lo a se emancipar da autoridade patriarcal de seu pai” (ABROMEIT, 2011: p. 23). Além disso, apresentou-lhe autores clássicos que conheceu no Gymnasium, fundamentalmente literatura e música. Com dois anos de amizade, entre 1913 e 1914, Horkheimer realizou viagens pela Europa, por sugestão e em companhia de Pollock, a fim de obter instrução em línguas e de aprender métodos industriais, com estadia na França, Bélgica e Inglaterra, sendo interrompida em Londres pelos sinais da guerra. Para isso, havia convencido seu pai da importância do périplo como parte da iniciação para os negócios da família.

Em um contexto familiar da classe média alta alemã da primeira década do século, Horkheimer gravitava entre a segurança do lar e seu destino imposto pela localização produtiva do pai. Revoltou-se contra ambos. Tendo passado um período como  aprendiz na fábrica paterna, estando em contato com as condições de vida da classe operária alemã, foi duradouramente marcado por um sentimento de profunda indignação ante a injustiça e o sofrimento humano. Tipicamente, foi portador do que podemos chamar, com Herbert Marcuse (1898-1979), Theodor Adorno (1903-1969) e com o próprio Horkheimer a partir dos anos 1930, de “legado ambivalente da interioridade burguesa” (ABROMEIT, 2011: p. 60-61).[4] Diante da ambivalência própria de seu modo de vida diante de uma sociedade que aparece, a um só tempo, como liberadora e repressiva, como autonomizadora e autoritária, como ideologicamente orientada pela justiça e efetivamente proliferadora de injustiça, vemo-lo transladando tais experiências subjetivas em um “interesse precoce em exprimir conflitos emocionais internos na forma de dramas e novelas” (ABROMEIT, 2011:, p. 21), assim como em um impulso juvenil por formas de pensamento, tais como as de Nietzsche e Schopenhauer, que eram críticas em relação à sociedade e sensíveis às dores do mundo tal como ele existe, e não propriamente como deve ser.

Nietzsche, Schopenhauer e as dores do mundo

Como vemos, na proximidade da I Guerra Mundial, Horkheimer se via em uma luta contra as normas da sociedade burguesa. Nisso, estava influenciado fortemente por suas leituras de Friedrich Nietzsche (1844-1900), que foi um dos primeiros filósofos por ele lido, manifestando então um desdém em relação ao conformismo acrítico das maiorias e um desprezo estetizante pela política – tudo isso matizado por uma certa Weltanschauung [visão de mundo] trágica. É dessa época, e por intermédio de Pollock, que ele teve contato com a obra Aforismos sobre a Sabedoria da vida [Aphorismen zur Lebensweisheit] (1851), de Arthur Schopenhauer (1788-1860), autor que se tornará, segundo o próprio Horkheimer, seu “exaltado pai espiritual” (ABROMEIT, 2011: p. 25). Ambos, Nietzsche e Schopenhauer, foram-lhe uma forte influência na juventude. Com a I Guerra Mundial, contudo, Horkheimer é capturado crescentemente pelo pessimismo schopenhauriano, aproximação que lhe permitiu, segundo Abromeit (ABROMEIT, 2011:, p. 47), que se afastasse da ácida crítica nietzschiana em direção a uma atitude ética de amor e compaixão por todo ser sofrente.

A influência intelectual de Schopenhauer sobre Horkheimer é difícil de ser mensurada, dada a sua natureza ao mesmo tempo moral e teórica. O fato é que ela parece possuir significativa importância sobre o tipo de marxismo por ele elaborado – juntamente com aquelas efetuadas, em menor grau, por Immanuel Kant (1724-1804) e pelos autores da chamada “Lebensphilosophie” [filosofia da vida], não apenas Nietzsche, mas também, em menor grau, Wilhelm Dilthey (1833-1911) e Henri Bergson (1859-1941). Por ora, cabe-nos tão somente sublinhar a afinidade de Horkheimer por Schopenhauer, que não deixa de dever às próprias semelhanças entre as suas juventudes, ao mesmo tempo burguesas e judaicas. É o que se pode ver quando observamos que até mesmo quando, por volta de 1921, ele já havia iniciado estudos sobre marxismo e socialismo, são encontrados nos seus arquivos anotações sistemáticas de leituras sobre Mundo como vontade e representação (1819) (ABROMEIT, 2011: p.60). No fim da vida, isto é, na última etapa de seu pensamento, o velho Horkheimer voltaria a encontrar-se com o jovem schopenhauriano dos anos 20, uma prova contundente de que o filósofo novecentista nunca o abandonara. Reservemos, porém, tais pontos a um texto específico, bastando-nos sinalizar no momento como a dupla influência de Nietzsche e Schopenhauer se fará presente na escrita literária do jovem Max.

Um jovem literato: escrita literária como expressão e crítica

Desse período da sua vida constam uma série de investidas sobre o mundo literário que coincidem com o pré e imediato pós-guerra.[5] A escrita literária, com forte teor filosófico-moral, deu a tônica da produção romanesca do jovem Horkheimer. Os contos, as novelas e os romances parecem  girar sempre em torno do eixo moral-existencial. Na curta novela intitulada Sehnsucht [Saudade][6], por exemplo, o eco das experiências pessoais de Horkheimer se faz sentir fortemente. Nela, um jovem que não consegue encontrar-se no seu mundo social vê-se permanentemente insatisfeito e, à semelhança do que ocorrera consigo no casual encontro fraterno com Pollock, tem sua rota existencial alterada pelo encontro com um novo amigo que lhe sugere uma ética da compaixão schopenhauriana.

Sendo ao mesmo tempo um meio de expressão de sua percepção do entorno social e político e um exercício juvenil de autocompreensão, as novelas apresentam já alguns dilemas que ainda o perseguirão no período da teoria crítica. Dentre as vanguardas estéticas do início do século XX – futurismo, cubo-futurismo, construtivismo, dadaísmo, etc. – Horkheimer teve mais afinidades com o movimento expressionista, que havia ganhado força, com muito vigor na Alemanha, na literatura, no cinema e na pintura na virada do século. Sob o fluxo da psicanálise freudiana, da filosofia do tempo de Bergson, e na esteira das renovações artísticas do modernismo, mas também no trato da herança do primeiro romantismo alemão, o expressionismo teve seus momentos altos no cinema da juventude de Horkheimer com Das Gabinet der Doctor Caligari [O Gabinete do doutor Caligari] (1920), na literatura com uma profusão de revistas engajadas esteticamente – principalmente Der Sturm [A Tempestade] e Die Aktion [A Ação] – e na poesia, com a nova lírica introduzida por nomes como Gottfried Benn (1886-1956). A sensibilidade expressionista, marcadamente seu aspecto de crítica genérica às injustiças sociais e aos dramas humanos – retratados sempre com cores fortes que seriam resultantes de um movimento de dentro para fora não raro deformador da realidade de que se ocupa – se coadunam no jovem Horkheimer com uma visão senão niilista ao menos pessimista do homem e da história. Aqui há um encontro entre o aspecto mais político do expressionismo e as inquietações de Horkheimer, que era um leitor do hebdomadário Die Aktion, dirigido por Franz Pfemfert (1879-1954), sendo não apenas um protagonista do expressionismo alemão, como também um órgão de ação política, que, após a I Guerra, esteve crescentemente vinculado à militância socialista e marxista, mais propriamente na linha espartaquista de Rosa Luxemburgo (1871-1919).

A Weltanschauung ao mesmo tempo trágica e expressionista de Horkheimer não se converte, contudo, em uma rejeição filosófica do mundo dos homens, mas sim em uma oposição estética aliada a um compromisso moral com a crítica do realmente existente. Tais características encontram-se tanto no conjunto de contos Irene. Nachtstück [Irene. Peça Noturna] quanto no romance Der Empörer [Os Insurrecionistas], onde estão retratos negativos de personagens que acreditam ser Über-menschen, ou seja, “além-homens” no sentido nietzschiano, que seriam por isso incapazes de terem compaixão pelos outros. Desta forma, Horkheimer “transformou a rejeição filosoficamente fundada do mundo, que ele descobriu nos escritos de Schopenhauer, em uma crítica do mundo tal como é”, sem jamais se desesperar completamente a respeito da possibilidade de mudança social (ABROMEIT, 2011: p.47). Recusando-se ao mesmo tempo a fugir do mundo e a vê-lo como tão somente desprezível, ele assume uma ética da compaixão e do amor como forma de resistência ao Weltlauf [marcha do mundo] tal como filosofado por Schopenhauer, sendo tanto a compaixão como o amor vistos como meios de “resistir ao cinismo e ao desprezo num mundo trágico” (ABROMEIT, 2011: p.48).[7]

A oposição estética ao mundo pequeno-burguês está expressa por exemplo em três dos tipos literários que fazem a cabeça do jovem espirituoso (ABROMEIT, 2011: p. 49): Madame Bovary (1857), de Gustave Flaubert, que lida como exemplar da tragédia humana caracterizada nos termos de uma escolha entre envelhecer ou ser martirizada[8]; Dom Quixote (1605-1615), de Miguel de Cervantes, em que o personagem se retira em um mundo de ilusão diante de uma realidade miserável; e, enfim, Candido (1759), de Voltaire, onde o protagonista expressa ironicamente, de forma máxima, a oposição do autor ao falso otimismo burguês expresso filosoficamente por Leibniz. Dentre os contemporâneos, Horkheimer externou exultante sua admiração por Alfred Döblin (1878-1957), o cronista de Berlin Alexanderplatz (1929), a quem considerou ser o melhor romancista contemporâneo pelo romance Die Drei Sprünge des Wang-lun [Os Três Saltos de Wang-Lun] (1916).

Diante de tal processo de formação, podemos identificar como fio condutor da formação de Horkheimer a edificação de uma “estrutura de sentimento” no jovem Max, que o fez estabelecer uma relação crítica com um mundo visto como em crise, a saber, o da sociedade burguesa e capitalista do início do século XX. Tal fato é bem comum aos demais membros da intelligentsia da qual fez parte: trata-se do que podemos denominar de “eticismo”, manifestado tanto como sendo uma forma de pensamento, uma Weltanschauung, quanto também como uma forma de relação com a práxis e, mesmo, como um estilo de vida (Lebensweise). É o caso, por exemplo, do jovem Georg Lukács (1885-1971) em A Alma e as Formas (1911), quando pôs o ético como condição sine qua non para uma vida autêntica. Tal eticismo, tão caracteristicamente alemão, é fortemente tributário da tradição idealista – ainda que ele varie entre os estilos kantiano, expressivista e hegeliano, podendo ser encontrados em formas puras ou então em composições com distintas tonalidades de uns com os outros.

Eis o leitmotiv que nos dá uma coerência e uma unidade aos fatos da vida de Horkheimer no período de juventude. Muito embora somente venhamos a respondê-la em um texto ulterior, é importante pormos, a este respeito, uma questão central para o esclarecimento da peculiaridade da teoria crítica alemã: como tal eticismo filosófico, tão próprio à intelligentsia alemã – herdeira que o é, direta ou indiretamente, do expressivismo e do idealismo filosófico – se transformou, por meio de uma reaproximação entre a filosofia e o marxismo em meados dos anos 1930, em um compromisso cognitivo, metodológico e normativo com uma teoria social crítica? No presente texto, importa sinalizar como tal transformação se realiza interiormente à biografia intelectual do Jovem Horkheimer, com uma passagem, primeiramente, da literatura e do expressionismo para os estudos marxistas e a ação política radical; e, após, de forma muito mais decisiva, da reflexão filosófico-literária para uma formação e uma investigação teóricas voltadas à conexão entre a filosofia e a pesquisa social.

Nas suas obras literárias, Horkheimer objetivava, a um só tempo, um meio de expressão de sua interioridade e um modo de diagnóstico crítico de seu tempo. Contudo, como diz Abromeit, ele não possuía ainda as “ferramentas conceituais necessárias para analisar os complexos sociais, históricos e psicológicos determinantes” dos eventos de seu tempo, o que o fez aderir, em algumas peças literárias, a uma “defesa abstrata da individualidade” (ABROMEIT, 2011: p.29). Muito embora assuma, neste tempo, uma posição estética bem própria a intelectuais de sua geração – chegando mesmo a um desdém estetizante da política -, ele recusa, contudo, uma saída boêmia como forma de rejeição do filisteísmo cotidiano da vida burguesa. Isso o conduziu da estética à política radical e, em seguida, à formação teórica e científica.

Decepção com Weber e malogro da fenomenologia: a busca de uma visão da crise entre a Filosofia e a Psicologia

Horkheimer atuou como soldado na I Guerra mundial, mas foi liberado dos encargos militares por razões de saúde. Ingressou então na Universidade de Munique em 1918, onde permaneceu até 1919. Lá realizou estudos universitários e atuou na política radical. Na Universidade, teve contato com Max Weber (1864-1920), a quem assistiu às suas últimas lições. Weber lecionou Política como Vocação em Munique em 28 de janeiro de 1919, tendo assumido em seguida, em junho do mesmo ano, a cátedra de ciência social, história econômica e economia política. Weber havia se tornado o diretor do primeiro instituto universitário de sociologia da Alemanha. Infelizmente o biógrafo de Horkheimer não nos oferece informações se ele assistiu à seminal palestra de Weber sobre política e a quais lições ele assistiu, nem tampouco fala sobre quando e de que forma o sociólogo foi lido pelo futuro teórico crítico. De todo modo, caso recorramos a uma das mais recentes biografias de Weber, escrita por Joachim Radkau (2009), ficamos sabendo que Horkheimer assistiu a uma lição do sociólogo sobre o sistema soviético; o que nos permite postular que ele assistiu às lições de Weber, feitas em 1919 sobre o socialismo. Contudo, Horkheimer não parece ter tido grande empatia pelo locutor e pelo seu método científico e professoral, como diz Radkau: “Max Horkheimer lembrou mais tarde uma lição dada por Weber sobre o sistema soviético: ‘O auditório estava lotado saindo pelo ladrão, e eis que me veio um completo desapontamento’. Nenhuma mensagem,  nenhuma indicação política, somente ideal-tipos e definições – ‘de modo que nós fomos para casa nos sentindo bastante soturnos”.[9]

De todo modo, como se sabe e se verá, Horkheimer e seus companheiros do Instituto farão, mais tarde, uma forma de apropriação crítica da tese weberiana da racionalização e do desencantamento do mundo – debitários, neste caso, diga-se claramente, da forma pela qual Georg Lukács a elaborou em sua teoria da reificação nos anos 1920.

Horkheimer cursou também em Freiburg as lições de Edmund Husserl (1859-1938) e, por meio da recomendação desse, as de Martin Heidegger (1889-1976). Horkheimer não deixou de respeitar as estaturas filosóficas de Husserl e Heidegger. Contudo, ele assumiu desde o início uma distância à tentativa da fenomenologia de se autonomizar em relação à pesquisa científica – ou mesmo de desprezá-la, tal como Heidegger. Horkheimer travou contato pessoal com Husserl – seu pai, Moritz, chegou mesmo a conversar com o pai da fenomenologia sobre o futuro acadêmico de seu filho, havendo indícios de que recebeu dele, em resposta, um diagnóstico de potencial filosófico. Por sua vez, Horkheimer manifestou uma afinidade com o antiacademicismo de Heidegger, mas se manteve ressabiado em face ao procedimento heideggeriano de exposição – ao qual se refere depreciativamente em carta a Pollock – e às implicações políticas, na República de Weimar, da fome heideggeriana por totalidade (ABROMEIT, 2011, p. 58). Em busca de uma educação teórica que lhe ofertasse “explicações mais substantivas das crises sociais do tempo” e não a encontrando nas duas principais figuras filosóficas da época – o que o conduzirá, nos seus escritos dos anos 1930, a formular agudas críticas não apenas à fenomenologia como também à filosofia contemporânea (o que analisaremos em textos ulteriores) -, ele chegará à Universidade de Frankfurt, sedento pelo que havia de conhecimento “mais avançado das tendências contemporâneas em filosofia, psicologia e sociologia” (ABROMEIT, 2011: p.49). Lá concluiria, nos próximos anos, seus estudos em filosofia, economia política e psicologia.

Embora Horkheimer nunca dê motivos explícitos para sua decisão de frequentar a Universidade em Frankfurt em oposição a outra universidade alemã, Abromeit credita a escolha não apenas à busca de formação, como também às experiências imediatamente anteriores, como a Guerra e a experiência socialista. Nesse caso, os acontecimentos traumáticos para a esquerda alemã entre 1918 e 1919 (fracasso da revolução alemã em 1918 e assassinato de Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht) na esteira do refluxo da vaga revolucionária nos anos 20, o levaram à conclusão de que a melhor maneira de “perseguir seus ideais políticos era obter uma compreensão rigorosa dos fatores sociais, psicológicos e econômicos que haviam tornado possível uma catástrofe como a Primeira Guerra Mundial” (p. 51). Outros fatores podem ainda ter contribuído para a decisão: “O caráter inovador da universidade, a tradição liberal da cidade e sua grande comunidade judaica também podem ter desempenhado um papel na decisão de Horkheimer” (ABROMEIT, p. 52).

Horkheimer organizou seu curso universitário de tal forma que tornou a psicologia sua principal disciplina, seguida secundariamente pela filosofia e pela economia. A psicologia era por essa época mal vista entre os mandarins alemães, mas em Frankfurt, onde se gozava de certa autonomia institucional e intelectual, ela prosperava marcada pela busca de uma alternativa teórico-metodológica ao mecanicismo dominante nas abordagens que corriam pelo resto da Europa. É a partir de Frankfurt que a psicologia Gestalt será desenvolvida com seu foco na consciência, na experiência e na percepção como sendo estruturadas por totalidades subjetivas e objetivas, e não por meras justaposições de partes. Em outros termos, como totalidades orgânicas em oposição às totalidades mecânicas da psicologia tradicional. Os saberes psicológicos terão um papel importante no seu pensamento posterior, como se pode depreender não apenas da recepção da psicanálise e da psicologia social pelo Instituto, mas também pelo desenvolvimento por Horkheimer de elementos para uma “teoria psicológica da história” (como veremos em postagem futura). Mas tais investigações serão empreendidas em paralelo com outras aparentemente bem contraditórias em torno do marxismo e do socialismo.

Na antessala do Instituto de Pesquisa Social: da experiência estética à política radical e ao marxismo (1919-23)

Ao longo dos anos da I Guerra, Horkheimer passou crescentemente ao campo da política radical, o que foi feito na interface com suas experiências estéticas. Ele manifestou, já na juventude, uma ambivalência em relação à política e aos movimentos populares. Desapontado com o Partido Social Democrata, teve uma experiência com a ação revolucionária na Alemanha do pós-guerra ao auxiliar na proteção dos revolucionários, feita em parceria com Pollock e com sua recente amiga Germaine Krull (1897-1985).[10] Com isso, ele desperta para a questão política, ao mesmo tempo que se torna cético em relação às possibilidades da luta revolucionária.

Um dos efeitos de tal processo de formação foi o encontro com leituras sobre Karl Marx e sobre marxismo nos anos 1920. O encontro com o marxismo o fez passar a rejeitar a imparcialidade e a neutralidade políticas, muito embora permanecesse sempre com desconfiança em relação aos partidos. Enquanto ele manifesta uma recusa da injustiça e uma compaixão pelo sofrimento dos explorados, ele se mostra cético em relação às possibilidades da luta política pelo poder, assim como possui um baixo apreço – e mesmo um profundo medo, enquanto judeu – em relação às tendências das classes trabalhadoras a se conformar às ideologias emergentes, com tudo o que havia de potencial irracional e de autoritarismo (ABROMEIT, 2011: p.35). O distanciamento em relação às forças políticas organizadas, assim como em relação à consciência dos trabalhadores, conjugado com uma recusa à neutralidade axiológica, será retraduzido conceitualmente, nos anos 1930, no projeto de teoria crítica.

Faltará ainda quase uma década, contudo, para que o projeto teórico-crítico venha a se materializar no discurso de posse na diretoria do Instituto feito por Horkheimer (1930). Mas são nestes anos de início da década de 1920 que encontramos os primeiros movimentos na antessala do Instituto de Pesquisa Social. Pois, quando de sua chegada a Frankfurt vindo de Munique, Horkheimer tem o decisivo encontro com Lucio Félix José Weil, que entrou para história como Félix Weil (1894-1975), conhecendo então aquele que será o financiador e viabilizador do futuro Instituto.

Filho de um rico distribuidor de cereal judeu-alemão estabelecido na América do Sul, mais especificamente na Argentina, Weil é uma figura singular na história do mecenato universal.[11] Nascido na Argentina, fez seus estudos secundários na Alemanha e era, pela época em que conheceu Horkheimer, um estudante engajado nas fileiras do grupo político liderado por Clara Zetkin (1857-1933). O contato com Pollock e Horkheimer fora intermediado por Konstantin Zetkin, filho de Clara e amigo próximo de Weil. O dado é indicativo, diga-se de passagem, da hegemonia que exerciam as ideias do socialismo marxista no início do século, suficientemente atraente para parcela significativa dos jovens intelectuais promissores na República de Weimer. Weil, segundo consta, viu nos novos amigos a possibilidade de incrementar a sua formação socialista, demanda impossível de ser atendida nos quadros da Universidade alemã (ABROMEIT, 2011: p. 56).

Munido já de uma experiência com o socialismo, embora não tão profunda quanto a do mais novo amigo, Horkheimer aprofundou em Frankfurt seu conhecimento da teoria socialista. Em entrevistas posteriores, ele afirmaria que ele e Pollock começaram a ler literatura explicitamente marxista nesse momento, incluindo o jornal oficial do Partido Comunista Alemão, o Die rote Fahne. Se nos fiarmos em suas anotações desses anos, vemos que ele estava estudando seriamente a teoria marxista: data da sua permanência em Freiburg vários cadernos da primavera de 1921, que são preservados no Arquivo Horkheimer: não somente sobre Karl Marx (Contribuição à Crítica da Economia Política e O Capital), mas também Gustav Landauer, Karl Kautsky, Karl Vorländer, dentre outros (ABROMEIT, 2011: p. 59). Foi a partir desse interesse em comum que Horkheimer se envolveu em inúmeras longas discussões com Pollock e Weil sobre a melhor forma de institucionalizar uma discussão teórica mais geral sobre o socialismo na Alemanha, algo que fugisse tanto dos termos do marxismo social democrata quanto da vulgata marxista soviética. Essas discussões levariam à fundação do Instituto de Pesquisa Social em 1923, feito sob generoso financiamento do pai de Félix Weil e como fruto da capacidade de sua influência sobre o secretariado de Educação de Frankfurt.

Do neokantismo do tempo a Kant como objeto

Ainda que estivesse envolvido com estudos de psicologia e de socialismo, a filosofia continuou a ocupar-lhe em Frankfurt. Por isso, matriculou-se numa lecture sobre Immanuel Kant ofertada por Hans Cornelius (1863-1947)[12], que era o principal adversário intelectual de Husserl e que, a partir de então, teve um papel determinante na formação intelectual, ao mesmo tempo filosófica e artística, de Horkheimer.

Embora Horkheimer tenha elaborado, primeiramente, uma dissertação, orientada por Friedrich Schumann, em psicologia gestaltista sobre “Modificações de forma na zona insensível às cores da íris do olho”, não lhe foi possível defendê-la porque outra similar havia sido concluída em Copenhagen. Por convite e sugestão de Cornelius, decidiu então empreender uma dissertação em filosofia sobre Kant.

Desde meados do século XIX até o início do século XX, o hegelianismo havia se tornado, em grande parte, marginal, sendo um momento, tanto na Alemanha quanto na França, de estabelecimento do neokantismo nos seus distintos e antagônicos desdobramentos, seja na forma de fundamentação positivista das ciências naturais (Escola de Baden), seja naquela de estabelecimento da especificidade das chamadas ciências da cultura (Kulturwissenschaften) (Escola de Marburg), seja, enfim, naquela de uma fundamentação filosófica da moralidade e do direito (tal como no moralismo e espiritualismo francês). Por isso, a imersão nesse universo foi fundamental para Horkheimer. Ao tomar por objeto a terceira crítica de Kant – Kritik der Urteilskraft [Crítica da faculdade do juízo] (1790) -, foi-lhe proporcionado “acesso direto às questões fundamentais subjacentes aos debates acadêmicos contemporâneos na filosofia, dominados pelo neokantismo desde as últimas décadas do século XIX”. Além disso, ela constituiu, para Horkheimer, “um excelente ponto de vista a partir do qual reavaliar um debate que era de particular importância para Horkheimer, a saber, a controvérsia entre seu mentor Cornelius e Edmund Husserl – o filósofo mais influente na Alemanha na época – sobre a relação entre epistemologia e psicologia” (ABROMEIT, 2011: p. 72).

Escreveu então uma dissertação sobre a Crítica da faculdade de julgar, mais especificamente sobre o juízo teleológico, em 1922: Zur Antinomie der teleo­logischen Urteilskraft [Sobre a antinomia do juízo teleológico]. As possibilidades daí advindas são conhecidas: através de Cornelius, Horkheimer teria abertas para si as portas do trabalho universitário, tendo convidado-o para ser seu assistente por volta de 1923. Em seguida, ele ampliou as investigações com uma Habilitationsschrift (tese feita para adquirir habilitação para lecionar na universidade): Über Kants Kritik der Urteilskraft als Bindeglied zwischen theoretischer und praktischer Philosophie [Sobre a crítica da faculdade de julgar como articulador entre filosofia teórica e prática], defendida em 1925.

Se os estudos em torno da filosofia kantiana dominaram as preocupações do autor entre 1923 e 1925, fica a questão de como eles se articulam com suas experiências estéticas e suas pretensões políticas de cunho socialista, ou melhor, qual seria a sua motivação no estudo kantiano no tocante às suas preocupações quanto à crise do seu tempo. Ora, como diz Abromeit, no melhor dos casos, os seus estudos [sobre Kant] somente se relacionaram aos interesses políticos “de uma forma altamente mediada” (ABROMEIT, 2011: p. 61). Contudo, ao lado de Schopenhauer, eles marcaram sua formação filosófica. Se Schopenhauer o permitiu afastar-se de Nietzsche, Kant o manteve em tensionamento constante com a dialética de Hegel, bem como com o marxismo filosófico a ela associado, tal como o de Georg Lukács. Ao torná-lo sensível às individualidades históricas e à relativa autonomia moral do indivíduo, Kant o impediu de aderir ao fechamento totalizador do sujeito absoluto. Contudo, a forma pela qual o futuro diretor da Escola de Frankfurt interpretou Kant e o modo como ele o tensionou com seus estudos sobre Hegel e Marx, ficarão para o próximo post, dedicado então às suas atividades empreendidas a partir de 1923, ano de fundação do Instituto de Pesquisa Social e de ingresso na atividade de professor na Universidade de Frankfurt.

Referências bibliográficas

Textos de Horkheimer do período 1914-1925

HORKHEIMER, Max. (1914-1918) Gesammelte Schriften 1, Aus der Pubertät. Novellen und Tagebuchblätter 1914–18. Frankfurt: Fischer, 1988.

_______. (1922) Zur Antinomie der teleologischen Urteilskraft. In: GS II: Philosophische Frühschriften. 1922-1932. Frankfurt: Fischer, 1988.

_______. (1925) Über Kants Kritik der Urteilskraft als Bindeglied zwischen theoretischer und praktischer Philosophie. Habilitation. Frankfurt am Main 1925. In: GS II: Philosophische Frühschriften. 1922-1932. Frankfurt: Fischer, 1988.

_______. GS XV: Briefwechsel 1913 – 1936. Frankfurt: Fischer, 1995.

Bibliografia geral

ALBISETTI, J. C. Secondary school reform in imperial Germany. Princeton University Press, 2014.

MARCUSE, Herbert. Studies in Critical Philosophy, Boston: Beacon Press, 1973.

RAPOPORT, Mario. Bolchevique de salón. Vida de Félix J. Weil, el fundador argentino de la Escuela de Frankfurt. Editora Debate, 2014.

RADKAU, Joachim. Max Weber A Biography. Cambridge: Polity Press, 2009.

RINGER, Fritz K. O declínio dos mandarins alemães. São Paulo: USP, 2000 [1968].

STOLTING, Erhard. Akademische Soziologie in der Weimarer Republik. Berlin, Duncker & Humblot, 1986.

Textos sobre a vida, a obra e o pensamento de Horkheimer

ABROMEIT, John. Max Horkheimer and the Foundations of the Frankfurt School. Cambridge (UK).  Cambridge University Press, 2011.

BENHABIB, S., BONß, W., and McCOLE, J. (eds.). On Max Horkheimer: New Perspectives. Cambridge, MA: MIT Press, 1993.

GUMNIOR, Helmut; RINGGUTH, Rudolf. Max Horkheimer: mit Selbstzeugnissen und Bilddokumenten. Hamburgo: rowohlt, 1983 [1973]

JAY, Martin. A imaginação dialética: história da Escola de Frankfurt e do Instituto de Pesquisa Sociais 1923-1950. Rio de Janeiro: Contraponto, 2008.

HABERMAS, Jürgen. Max Horkheimer: para a história do desenvolvimento da sua obra. In: HABERMAS, J. Textos e contextos. Lisboa: Instituto Piaget, 1991. p.85-102 (publicado originalmente em SCHMIDT, Alfred; ALTWICKER, Norbert. (orgs). Max Horkheimer heute: Werk und Wirkung. Frankfurt am Main: Fischer Taschenbuch Verlag,1986).

_______. Sociologia da República de Weimar. In: HABERMAS, J. Textos e contextos. Lisboa: Instituto Piaget, 1991. p. p.173-192.

_______. Sobre a evolução das sociologias e as ciências do espírito na República Federal da Alemanha. In: HABERMAS, J. Textos e contextos. Lisboa: Instituto Piaget, 1991. p. 193-203.

HONNETH, Axel. [1985] The Critique of Power: Reflective stages in a critical social theory. Cambridge: MIT Press, 1991.

_______. (1987) Teoria Crítica. In : GIDDENS, A.; TURNER, Jonathan. Teoria Social Hoje. São Paulo : Editora Unesp, 1996 [1987].

NOBRE, Marcos. Max Horkheimer: a teoria crítica entre o Nazismo e o capitalismo tardio. In.: Curso livre de Teoria Crítica. Campinas, SP: Papirus, 2013. Págs. 35-52.

SCHMIDT, Alfred; ALTWICKER, Norbert. (orgs). Max Horkheimer heute: Werk und Wirkung. Frankfurt am Main: Fischer Taschenbuch Verlag,1986.

STIRK, P., 1992, Max Horkheimer: A New Interpretation, Hertfordshire: Harvester Wheatsheaf.

VANDENBERGHE, Frédéric. História filosófica da filosofia alemã. São Paulo: Annablume, 2013.

WIGGERSHAUS, Rolf. The Frankfurt School: Its History, Theories, and Political Significance. Boston: MIT Press, 1995.

Notas

[1] A presente reconstrução da trajetória intelectual do autor é feita tendo por base principalmente a recente biografia feita por John Abromeit sobre o Horkheimer dos anos de 1895 a 1941, que tratou das linhas principais do seu desenvolvimento intelectual desde a juventude ao exílio americano (ABROMEIT, John. Max Horkheimer and the Foundations of the Frankfurt School. Cambridge: Cambridge University Press, 2011). Além dessa fonte, tomamos como suporte, além de uma bibliografia geral e histórica, o seminal estudo de Martin Jay sobre a história do Instituto de Pesquisa Social (JAY, Martin. A imaginação dialética: história da Escola de Frankfurt e do Instituto de Pesquisa Sociais 1923-1950. Rio de Janeiro: Contraponto, 2008), a investigação de Rolf Wiggershaus sobre a Escola de Frankfurt (WIGGERSHAUS, Rolf. The Frankfurt School: Its History, Theories, and Political Significance. Boston: MIT Press, 1995, em especial cap.1), os artigos de Jürgen Habermas sobre a sociologia na Alemanha de Weimar, sobre a condição do intelectual judeu e sobre o papel de Horkheimer na construção da teoria social crítica alemã e a seminal história filosófica da sociologia alemã de F. Vandenberghe: VANDENBERGHE, Frédéric. História filosófica da filosofia alemã, vol.2. São Paulo: Annablume (no prelo).

[2] Gymnasium (ou Gymnasien) e Realgymnasium dizem respeito a dois diferentes tipos de formação secundária na Alemanha de fins do século XIX e início do século XX. O primeiro, o Gymnasium (Altsprachliches Gymnasium), idealizado por Wilhelm von Humboldt, é onde se oferecia uma formação no sentido clássico da Bildung alemã. O seu currículo era composto por disciplinas sobre línguas antigas (latim e grego) e uma língua viva. Esse estudo de idiomas era acompanhado sempre pela leitura de obras clássicas, meio e fim do aprendizado da língua. Ao fim do curso, estava-se pronto para o Abitur, que dava acesso ao ensino superior. A maior parte dos estudantes universitários na Alemanha provinha desse curso. Na segunda metade do século XIX o Gymnasium viu-se forçado a transformações diante do sucesso do Realschule, a escola técnica que tinha como objetivo fornecer treinamento técnico e comercial para uma população de jovens que visava à entrada no mercado de trabalho, um dos muitos condicionamentos das mudanças sociais advindas dos processos de modernização no século XIX. Foi então que, a partir de 1882, ela originou uma instituição híbrida, que refletia a entrada nos meios acadêmicos de uma nova classe social, emergente do avanço da indústria, e que pretendia equilibrar o treinamento técnico com o estudo do Latim: o Realgymnasium. Sobre o assunto, cf. ALBISETTI, J. C. Secondary school reform in imperial Germany. Princeton University Press, 2014. 384 p.

[3] Sobre Friedrich Pollock (1894-1970), o Cartografias da Crítica irá disponibilizar uma postagem própria para sua apresentação.

[4] Dado que nosso perfil sobre o Jovem Horkheimer toma como articuladora a questão da ambivalência da interioridade burguesa, é útil fazer uma breve nota sobre como devemos compreendê-la, com o risco de antecipar questões que serão abordadas em postagens posteriores no Projeto Cartografias. A questão da ambivalência do indivíduo burguês, resultante do processo de autonomização e interiorização da experiência dos indivíduos ocorridas no mesmo passo em que se forma uma objetividade social articulada pelo avanço da racionalidade instrumental (saberes técnicos-científicos, mercado e Estado burocrático) é uma das grandes questões da Escola de Frankfurt. Podemos sintetizá-la rapidamente recorrendo a Marcuse. Na sua Introdução ao estudo Autoridade e Família, dirigido por Horkheimer e publicado em 1936, ele assinala com precisão a ambivalência própria à experiência burguesa do mundo. Acompanhando o processo histórico de constituição da individualidade do homem burguês na sua relação com a autoridade, desde a Reforma (Lutero e Calvino), passando pelo idealismo alemão (Kant e Hegel) e pelo século XIX (Contra-revolução e Marx) até chegar ao Estado totalitário, Marcuse reafirma a tese marxista típica da primeira geração frankfurtiana, que é defendida pelo próprio Horkheimer neste tempo, de que a emancipação do indivíduo em relação à tradição, operada pelo processo de racionalização social, se articula na sociedade capitalista à emergência de um todo irracional fora do controle e alienante. Assim, o mesmo processo social que abre um horizonte infinito de individualização, tanto em termos de interiorização da experiência vivida quanto no tocante à autonomização em relação ao controle social – possível, diga-se de passagem, com a interiorização da autoridade via superego -, é aquele que faz emergir uma sociedade exterior a cada um dos indivíduos e que se impõe a todos coercitivamente. Eis o triplo processo de alienação, reificação e fetichização, que, pouco perceptível pela ideologia burguesa quando sustentada sobre as bases sociais do capitalismo liberal do século XVIII, chega a revelar sua natureza no Estado totalitário advindo com a era monopolista. No capitalismo liberal, sobretudo, tal processo é gerador de uma ambivalência dos indivíduos em relação aos processos sociais e às regras e modos de vida da sociedade burguesa. Isso é dito claramente por Marcuse: “[…] o processo material de produção da sociedade foi em muitas instâncias racionalizado inteiramente ao mínimo detalhe – mas, enquanto um todo, ele permanece ‘irracional’. Estes antagonismos aparecem em muitas formas variadas na ambivalência das relações burguesas de autoridade: elas são racionais, mas fortuitas, objetivas, mas anárquicas, necessárias, mas más” (MARCUSE, Herbert. (1936) A Study on Authority. In: MARCUSE, Herbert. Studies in Critical Philosophy, Boston: Beacon Press, 1973, p. 55). Tais ambivalências são expressas, por excelência, na literatura e nas formas de arte burguesa. Em um estudo da maturidade, encontramos no próprio Marcuse outra passagem que brilha pela clareza como ele põe a tese, tão cara à primeira geração, que subjaz desde os anos 1940 ao diagnóstico da “dialética da razão”: “[…] as condições prevalecentes [nas sociedades capitalistas] são objetivamente ambivalentes: elas oferecem a possibilidade de liberação, e aquela de servidão sem limites, isto é, a vasta Gehäuse der Hörigkeit (casa de cativos) que Max Weber vislumbrou. Esta é a ambivalência do progresso: quantitativo e/ou qualitativo; progresso técnico e/ou a emergência da auto-determinação como um estilo de vida, intelectual e material, de uma nova racionalidade e sensibilidade” (p.214)  (MARCUSE, Herbert. (1969). Freedom and the Historical Imperative. In: MARCUSE, Herbert. Studies in Critical Philosophy, Boston: Beacon Press, 1973, p.214.

[5] Os escritos literários do jovem Horkheimer, que não foram publicados em vida, foram reunidos, juntamente com seus diários, no primeiro volume de suas obras completas, organizada por Alfred Schmidt: HORKHEIMER, Max. Gesammelte Schriften 1, Aus der Pubertät. Novellen und Tagebuchblätter 1914–18. Frankfurt: Fischer, 1988. São ao todo quase vinte peças literárias escritas entre 1914 e 1918: “Krieg. Ein Briefwechsel”,Eva. Eine Novelle”,Sehnsucht. Novellen”, a compilação “Wille zur Erkenntnis. Zehn Novellen” – composta por “Herbst”, “Der Zaun”, “Ouverture”, “Liebe”, “Leonhard Steiner”, “Der Empörer”, “Frühling”, “Freiheit”, “Der Dämon” e “Arbeit” -, assim como “Friedensfest”, “Jochai”, “Bekenntnis meiner Politik. Ein Brief”, “Gregor”, “Friede. Ein Zwischenak” e “Geburt”. Infelizmente tais escritos não foram traduzidos do alemão para outras línguas. Aqui nós tomamos por suporte a reconstrução dos escritos literários de Horkheimer feita pelo biógrafo Abromeit, para que, posteriormente, façamos uma análise própria tendo por base os originais.

[6] O título tem um termo alemão de difícil tradução, dada sua complexidade semântica e carga histórica, mitológica e filosófica, sendo inclusive central no romantismo alemão. O biógrafo de Horkheimer o traduziu, sem maiores explicações, por “Longing”. Sehnsucht significa originalmente, no alto alemão, “dor”, mas ele ganha aos poucos significação mais ampla, confundindo-se com uma manifestação de “desejo”. Ele é composto pelo substantivo die Sucht, que significa “dependência”, “vício”, que, significativamente, é derivado do particípio passado do verbo suchen (pesquisar, buscar) – identificando-se, assim, o “dependente” como aquele que é “encontrado”, “achado – somado ao substantivo das Sehnen, que significa anseio (intenso, ardente) e que, na forma verbal (sehnen), denota ansiar, ter ânsia por (ele também possui uma forma reflexiva: sich sehnen). Sehnsucht significa assim, “estar dependente daquilo pelo qual se tem ânsia” ou “ter ânsia (ardente) por algo que se busca ou diante do qual se acha”; sendo este “algo” situado seja no passado (o que faz com que Sehnsucht se confunda com “nostalgia”), ou, então, em algum outro lugar ou em alguma outra temporalidade que aquele/a existente (o que faz com que o termo entre na constelação semântica de “desejo”, “ânsia”, “falta”, “inquietude”, etc.). Na maioria dos empregos, o termo possui um sentido sinônimo ao nosso “saudade”, muito embora, como gostamos de acreditar, nossa palavra portuguesa seja intraduzível em sua plenitude para outras línguas.

[7] A ideia schopenhauriana de uma marcha do mundo (Weltlauf), diante da qual devemos saber nos conduzir, está presente nos Aforismos para uma Sabedoria da Vida, mais especificamente na quarta seção de suas “Parêneses e Máximas”, intitulada “Sobre a nossa conduta em face à marcha do mundo e ao destino” [Unser Verhalten, gegen den Weltlauf und das Schicksal betreffend]. Schopenhauer estabelece, em sua eudemonologia (ou seja, no estudo sobre as regras que presidem uma vida feliz e ditosa), as formas como devemos nos conduzir diante de um Weltlauf que, para além das aparências das representações, é sempre e por todo o lado o mesmo, e contra o qual não há como lutar: “[47] De qualquer forma que se reveste a existência humana, seus elementos são sempre semelhantes; as condições essenciais seguem sempre identificadas, mesmo que se viva numa cabana, na corte, no convento, ou no exército. Apesar de sua variedade, os acontecimentos, as aventuras, os acidentes felizes ou as desgraças da vida recordam os artigos de confeitaria; as figuras são numerosas e variadas, no aspecto e no colorido. Tudo, porém, é feito da mesma massa; os incidentes ocorridos a um homem se parecem aos sobrevindos aos outros, mais do que este pensasse ao ouvi-los contar. Os acontecimentos de nossa vida assemelham-se, também, às imagens do caleidoscópio: em cada volta vemo-las distintamente, sendo que a realidade é sempre a mesma que temos diante dos olhos (citação tirada de: SCHOPENHAUER. A Sabedoria da Vida. São Paulo: Edipro, 2012, grifo nosso, mas o original em alemão foi consultado).

[8] “Madame Bovary não perde a juventude. E em sua juventude quase todos desejam algo melhor. Ela não perde essa saudade. E é por isso que ela é tão brutalmente martirizada… Os seres humanos sempre são forçados a fazer uma escolha entre envelhecer ou ser martirizado… Flaubert retrata essa tragédia.” (ABROMEIT, 2011 p. 49)

[9] Otto Stammer (ed.), Max Weber und die Soziologie heute. Tübingen, 1965, pp. 65f. Apud: RADKAU, Joachim. Max Weber A Biography. Cambridge: Polity Press, 2009. p.547.

[10] Germaine Krull (1897-1985) foi uma fotógrafa, escritora e ativista política, nascida na Prússia do Leste, atual Polônia. Ela é o exemplar perfilado do tipo cosmopolita do início do século, tendo cruzado a Europa e ido além (Brasil, Congo, Tailândia, Índia). No período em que ela e Horkheimer se conheceram, ela ainda não era a fotógrafa que anos mais tarde viria a borrar as fronteiras entre fotografia e arte. Seu trabalho mais conhecido, Métal (1928), praticamente estabeleceu o fotolivro como poesia. Tendo sido longeva, esteve no front como fotógrafa durante a II Grande Guerra, foi dona de hotel na Ásia e uma admiradora da cidade de Ouro Preto, MG, Brasil.

[11] Para maiores informações acerca da vida e da obra de Weil, ver a pesquisa recente do historiador argentino Mario Rapoport: RAPOPORT, Mario. Bolchevique de salón. Vida de Félix J. Weil, el fundador argentino de la Escuela de Frankfurt. Editora Debate, 2014.

[12] Johannes Wilhelm Cornelius (1863-1947) nasceu em Munique e morreu em Gräfelfing. Teve uma formação voltada para as ciências exatas, tendo estudado matemática, física e química somente após o que aproximou-se da filosofia. Ingressou na Universidade como Privatdozent no início de 1900 e tornou-se professor titular apenas em 1910 quando mudou-se para a Akademie für Sozialwissenschaften que posteriormente viria a tornar-se um departamento da Universidade de Frankfurt. Teoricamente, caracterizou-se por uma perspectiva filosófica idealista, e é frequentemente referido como um empiriocriticista, tendo tentado uma síntese de Mach, Avenarius e do pragmatismo de James em busca de uma filosofia imanente. Suas principais obras são: Psychologie als Erfahrungswissenschaft, 1897. (A psicologia, ciência da experiencia); Einleitung in die Philosophie, (1903), 3.a ed., 1921), (Introdução à filosofia), e Transzendentale Systematik, 1916, (Sistemática transcendental).