Verbete: Raymond Boudon (1934-2013)

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Cynthia Hamlin (UFPE)

Originalmente publicado em: RITZER, G. (org.) The Blackwell Encyclopedia of Sociology.  

O sociólogo e epistemólogo francês Raymond Boudon é conhecido sobretudo por sua defesa do liberalismo e do individualismo metodológico, assim como por sua noção não utilitarista de “racionalidade” na explicação dos fenômenos sociais. Boudon foi autor de um vasto corpo de trabalhos sobre diversos assuntos, incluindo educação, estratificação social, mobilidade social, sociologia do conhecimento, valores e crenças. Seus principais livros são A desigualdade das oportunidades (1981 [1973]), Efeitos perversos e ordem social (1979 [1977]) e A arte de se persuadir (1990). Juntamente com Michel Crozier, Alain Touraine e Pierre Bourdieu, Boudon foi parte da segunda geração de intelectuais franceses que ajudaram a solidificar a sociologia como uma disciplina acadêmica na França. Ele foi membro do Institut de France; da Academia Europaea; da British Academy; da American Academy of Arts and Sciences; da Royal Society of Canada; da Central European Academy of Arts, Sciences and Humanities; da International Academy of Human Sciences of St Petersburg; e da Academia de Ciencias Sociales de la Argentina.

Nascido em Paris em 27 de janeiro de 1934, Boudon entrou na prestigiosa École Normale Supérieure, em 1954, para estudar filosofia. Passou o ano acadêmico de 1956–1957 na Universidade de Friburgo em Breisgau, Alemanha. Durante esse período, se viu particularmente atraído pelos trabalhos de Montaigne, Descartes, Pascal, Rousseau, Kant, Popper e Rawls. Após receber seu diploma de agrégation em 1958, Boudon se deparou com o livro de Lazarsfeld A linguagem da pesquisa social, o qual imediatamente o seduziu por seu rigor, clareza e ênfase nos processos de decisão individual.

Após seu serviço militar, Boudon recebeu uma bolsa de estudo da Fundação Ford para passar o ano acadêmico de 1961–1962 trabalhando com Lazarsfeld na Universidade de Columbia. O grupo de sociólogos de Columbia, que incluía Robert K. Merton e Seymour Martin Lipset, combinava preocupações teóricas e metodológicas na análise de problemas empíricos circunscritos. Tal abordagem contrastava com a orientação grandiosa, especulativa e verbosa que, segundo Boudon, marcava muito da sociologia francesa dos anos 1950; a abordagem e a linguagem da sociologia francesa de então não eram, afirma ele, nem científicas nem literárias. De volta à França, tornou-se pesquisador do Centre National de la Recherche Scientifique entre 1961 e 1963, analisando os dados estatísticos de uma pesquisa de Touraine sobre trabalhadores de origem rural.

A influência de Lazarsfeld sobre Boudon provou ser duradoura. A preocupação com uma linguagem precisa para as ciências sociais e o método conhecido como explication de texte – a identificação dos usos correntes de um termo em diferentes tradições e a especificação de seu significado com base em suas dimensões comuns – ajudaram a moldar a sua sociologia. A primeira tese de Boudon, A análise matemática de fatos sociais (1967), orientada por Jean Stoetzel na Sorbonne, mostra uma clara preocupação metodológica com o desenvolvimento de uma linguagem científica rigorosa. Sua segunda tese, Para que serve a noção de estrutura? (1974 [1968]), foi orientada por Raymond Aron e publicada no ano seguinte. Ela aplica a explication de texte às várias tradições estruturalistas que dominavam o mundo acadêmico francês nos anos 1960, concluindo que o estruturalismo resulta na explicação de fenômenos macroscópicos em termos de forças ocultas e deterministas que operam “pelas costas” dos atores.

Três temas intimamente relacionados circunscrevem a sociologia de Boudon: antideterminismo, antiutilitarismo e antirrelativismo. O primeiro tema é o leitmotif do seu trabalho e constitui sua resposta particular à tentativa de sua geração em trazer o agente de volta à explicação de fenômenos sociais. O individualismo metodológico, juntamente com o princípio de racionalidade que o acompanha, constitui o pilar do seu paradigma da ação. Boudon considera o individualismo metodológico um antídoto para todas as formas de determinismo, particularmente para o que ele chama (tomando de empréstimo um termo de Piaget) de “realismo totalitário” – uma abordagem essencialista que confunde construtos intelectuais (conceitos, modelos e teorias) com a própria realidade. Ao negar que sistemas, estruturas, totalidades e afins sejam entidades reais capazes de produzir efeitos reais, ele adere ao nominalismo social de Lazarsfeld e Popper, de acordo com o qual conceitos coletivos consistem em construtos descritivos ou analíticos que são explicáveis, ao menos em princípio, em termos de ações individuais. O antideterminismo de Boudon repousa em sua negação de que a ação humana seja uma resposta mecânica a influências sociais, tais como “a mídia”, o “meio familiar” e assim por diante. Como argumentou Max Weber, a ação humana deve ser tratada, em vez disso, como o resultado do sentido que ela tem para atores individuais.

De acordo com Boudon, o termo “individualismo metodológico” pode ser legitimamente substituído por “sociologia analítica” ou mesmo erklärende Soziologie, não devendo ser identificado ao atomismo social. As ações individuais não ocorrem em um vácuo social; e, ainda que não determinadas, são sempre condicionadas por instituições, feixes de papéis, socializações, estruturas cognitivas e assim por diante. Essa abordagem caracteriza o que Boudon chama de “paradigmas interacionistas”, podendo ser encontrada em momentos dos trabalhos de Marx, Tocqueville, Merton e Weber, assim como de Montesquieu, Simmel, Durkheim e Pareto. Para Boudon, o individualismo metodológico não é incompatível com a ideia de que o social é mais do que a soma de suas partes, se por isso se entende que a sociedade é frequentemente o resultado de “efeitos perversos” ou consequências não intencionais da ação intencional. Na visão de Boudon, portanto, o individualismo metodológico não deve ser visto como uma posição ontológica nem proíbe o uso de conceitos coletivos – desde que utilizados como parte de uma análise situacional. O que sua abordagem nega é qualquer associação mecânica entre estruturas sociais e ações individuais. 

O modelo de racionalidade desenvolvido por Boudon oferece a base para a explicação social de acordo com os princípios do individualismo metodológico. Ele busca integrar – e ir além de – duas abordagens distintas: uma representada pelo homo sociologicus definido em termos da internalização de normas e valores; a outra representada pelo homo economicus utilitário. O modelo do ator social proposto por ele enfatizou crescentemente a constituição social das razões, com base em uma concepção de racionalidade que considera a situação social tanto como restritiva quanto como habilitadora, estabelecendo assim os limites e as possibilidades objetivas da ação. Boudon denominou esse modelo, em diferentes momentos, de “racionalidade subjetiva”, “racionalidade cognitiva” e “racionalidade ordinária”. Grosso modo, sua principal tese é a de que o significado das ações e crenças pode ser compreendido quando elas se baseiam em boas razões. Tais razões podem ser objetivamente ou subjetivamente boas, o que significa que elas não podem sempre assumir o status de variáveis independentes. Compreendê-las requer levar o contexto social em conta, e a ênfase metodológica sobre a causação precisa ser complementada por uma abordagem interpretativa.

Diferentemente da noção estreita de racionalidade favorecida pelos teóricos da escolha racional, a racionalidade subjetiva, cognitiva ou ordinária dá conta de todos os casos em que é possível explicar o comportamento de acordo com a fórmula “X teve boa razão para fazer Y, já que ele ou ela acreditava em Z”, com o caráter de Z mostrado como significativo no sentido de ser verdadeiro, plausível, razoável ou adequado em dada situação. Desse modo, a definição estreita de racionalidade favorecida pela teoria da escolha racional torna-se um caso particular de racionalidade subjetiva, nomeadamente, o caso em que a crença em questão é verdadeira. Tal circunstância significa, por sua vez, que as pessoas podem ter boas razões para acreditar em crenças falsas ou frágeis (no caso de crenças positivas ou descritivas) e em crenças injustas ou ilegítimas (no caso de crenças normativas).  

De acordo com Boudon, crenças e valores não podem ser explicados por um quadro de referência utilitarista, mas isto não significa que eles deveriam ser deixados inexplicados nem que sejam o resultado de forças cegas e irracionais. Ao ancorar firmemente a compreensão e a explicação de crenças e valores em uma sociologia do conhecimento, Boudon defende que as ideias são frequentemente o resultado da habilidade das pessoas em pensarem racionalmente; portanto, o produto (intencional ou não intencional) de ações de atores socialmente situados cuja iniciativa, vontade e poder não podem ser ignorados. A habilidade de pensamento racional das pessoas é limitada por diversas restrições e recursos, o que responde pelo fato de que as crenças e valores dos atores, inclusive dos cientistas, não possam sempre ser claramente julgados à luz da realidade (de modo que a verdade nem sempre pode ser conhecida).

Essa forma de “relativismo” epistemológico leve não confunde o contexto do conhecimento com o seu conteúdo, como fazem as formas radicais de construtivismo. Em outras palavras, ela não considera o conteúdo e o discurso mental como completamente moldados pela sociedade. Afinal, nota Boudon, é possível rebelar-se contra ideias aceitas e distinguir conceitos, teorias e outros construtos mentais da própria realidade.

No seu trabalho tardio, Boudon buscou mostrar que seu antirrelativismo também se aplicava a valores humanos, já que a adesão a eles se baseia nos mesmos processos cognitivos que caracterizam outros tipos de crença. De acordo com ele, valores morais não são simplesmente uma questão de convenção social, mas consistem em ideias cognitivas que se referem a outras pessoas e às coisas. Dado que têm essa propriedade, podem ser verdadeiros ou falsos, ainda que o conhecimento sobre eles possa, algumas vezes, situar-se para além de nossas teorias. Os relativistas dizem que “tudo vale”, mas, na visão de Boudon, assim como algumas teorias são melhores do que outras, alguns valores são mais justificáveis do que outros.

Boudon morreu em Paris em 10 de Abril de 2013. Raymond Boudon: A Life in Sociology (2009), uma coleção de ensaios em quatro volumes organizada em sua homenagem por Mohamed Cherkaoui e Peter Hamilton, chega a quase 2000 páginas. A coleção contém contribuições de quase uma centena de pesquisadores de todo o mundo, dando testemunho da enorme influência do homem e da sua obra.

Referências bibliográficas

Boudon, R. (1967) L’analyse mathématique des faits sociaux. Dissertação doutoral. Plon, Paris.

Boudon, R. (1974 [1968]). Para que serve a noção de estrutura? Rio de Janeiro, Eldorado.

Boudon, R. (1979 [1977]). Efeitos perversos e ordem social. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1979.

Boudon, R. (1981 [1973]). A desigualdade das oportunidades. Brasília, UnB, 1981.

Boudon, R. (1994) The Art of Self-Persuasion: The Social Explanation of False Beliefs, Polity, Oxford.

Cherkaoui, M. and Hamilton, P. (eds) (2009) Raymond Boudon: A Life in Sociology: Essays in Honour of Raymond Boudon, 4 vols, Bardwell Press, Oxford.

Outras leituras:

Assogba Y. (1999) La sociologie de Raymond Boudon, Presses Universitaires de Frances/L’Harmattan, Paris.

Baechler, J., Chazel, F., and Kamrane, R. (eds) (2000) L’acteur et ses raisons: mélanges en l’honneur de Raymond Boudon, Presses Universitaires de Frances, Paris.

Borlandi, M. (1995) Should one still read Durkheim’s Rules after one hundred years? Raymond Boudon interviewed by Massimo Borlandi. Revue Suisse de Sociologie, 21 (3), 559–573.

Boudon, R. (2001) The Origin of Values: Essays in the Sociology and Philosophy of Values, Transaction, New Brunswick, NJ.

Boudon, R. (2003) Beyond rational choice theory. Annual Review of Sociology, 29, 1–21.

Boudon, R. (2004) The Poverty of Relativism, Bardwell Press, Oxford.

Boudon, R. (2004) Pourquoi les intellectuels n’aiment pas le libéralisme, Odile Jacob, Paris.

Boudon, R. (2009) Towards a General Theory of Rationality, Bardwell Press, Oxford.

Boudon, R. (2010) La sociologie comme science, La Découverte, Paris.

Boudon, R. and Bourricaud, F. (1989) A Critical Dictionary of Sociology, University of Chicago Press, Chicago, IL.

Boudon, R. and Leroux, R. (2003) Y-a-t-il encore une sociologie? Odile Jacob, Paris.

Hamlin, C. (2002) Beyond Relativism: Raymond Boudon, Cognitive Rationality and Critical Realism, Routledge, London.

Hedström, P. (2013) Raymond Boudon (1934–2013). Revue Française de Sociologie, 52 (2), 1–3.

Morin, J.M (2006) Boudon: un sociologue classique, L’Harmattan, Paris.

Nuoscio, E. di (1996) Le ragioni degli individui: l’individualismo metodologico di Raymond Boudon, Rubbertino, Messine.

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